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4.1.10 DS_AFFILIATION

Ainda que, até ao momento, se tenha associado o campo genológico autobiográfico à atividade literária, seria erróneo considerar que a expressão autobiográfica se confina à instituição literária. De facto, os géneros autobiográficos podem ser produzidos no âmbito de diversos lugares sociais, quer se trate da instituição literária, quer se trate de outras instituições sociais. O Quadro 10 (página seguinte) mostra isso mesmo, tendo em conta a época contemporânea.

A expressão autobiográfica é, pois, uma questão que se poderá caracterizar como transversal às formações sociocomunicativas – sendo, neste caso, assumida como ato que traduz discursivamente um mundo formal de conhecimento autobiográfico e que se expressa por meio de uma atitude narrativa em que o produtor textual se implica no

54 discurso.30 Em certos casos, porém, a expressão autobiográfica exerce uma influência tal na prática comunicativa que determina a seleção de um género textual específico, de carácter predominantemente autobiográfico. É o que acontece, por exemplo, com os géneros memórias, autobiografia, diário ou confissão.

Quadro 10 – Lugares sociais e práticas de expressão autobiográfica contemporânea

Lugares sociais Exemplos de práticas de expressão da experiência autobiográfica

Instituições político-estatais Relato oral de experiência pessoal em discurso ou em debate político

Instituição literária Produção de textos autobiográficos, com intuito estético (memórias, autobiografia, diário…) Instituição académico-

científica Relatório de atividades realizadas

Instituições de cuidado

Relato de experiência pessoal em consulta médica

Escrita de diário (como atividade terapêutica) Instituições de repressão

(justiça e política)

Relato de experiência pessoal (testemunhada ou vivenciada), em tribunal ou em inquérito policial

Instituição escolar

Produção de textos autobiográficos, com intuito formativo/de apropriação do género (memórias, autobiografia, diário…)

Instituição familiar/ Lugares de práticas de contacto quotidiano

Relato de experiência pessoal em conversa informal ou em carta/e-mail intimista

Produção de textos de carácter autobiográfico destinado a familiares e amigos (blogues pessoais)

Instituições mediáticas Relato oral de experiência pessoal em programa televisivo ou radiofónico

Lugares de práticas religiosas Confissão

Por seu turno, os géneros autobiográficos agrupam-se em campos genológicos que, como já se viu, são determinados pelas atividades em que se encontram inscritos. Os campos genológicos encontram-se associados a práticas sociais específicas (prática literária, familiar, académica/científica, religiosa, política, filosófica…), mas que coevolui com práticas sociais e com campos genológicos afins. Por esse motivo, os campos contaminam-se mutuamente, apesar de servirem atividades distintas.

Tendo em conta quer algumas das atividades em que se encontra estruturada a sociedade atual, quer os géneros textuais em que se constrói a autorrepresentação,

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Dado que esta questão será retomada posteriormente, avançarei apenas que esta atitude discursiva se poderá definir como simultaneamente narrativa e implicada.

55 poder-se-ão considerar (a título ilustrativo) como possíveis os seguintes campos genológicos autobiográficos (Quadro 11):

Quadro 11 – Campos genológicos e géneros autobiográficos

Atividade Campo genológico Géneros autobiográficos

Familiar/privada Campo autobiográfico familiar

Diário, memórias, relato de experiências pessoais… Literária Campo autobiográfico

literário

Autobiografia, diário, memórias, confissões, autoficção… Religiosa Campo autobiográfico

religioso Confissão, confissões…

… … …

Resta saber se os géneros autobiográficos mantêm a sua especificidade ao mudarem de campo genológico autobiográfico ou se, pelo contrário, se transformam em novos géneros quando isso acontece. Para dar resposta a esta questão, valerá a pena focar o caso específico do género autobiográfico que se encontra mais desenvolvido (em termos de formas/subgéneros) na Enciclopedia of Life Writing, a autobiografia (Quadro 12, página seguinte).

A classificação proposta nesta obra31 permite encarar a autobiografia como um género adotado em práticas sociais tão díspares como a música e o desporto, a literatura, a ciência, a criminalogia, a filosofia, a religião ou a atividade militar. Embora as designações com que os géneros textuais são rotulados não possam, por si só, ser entendidas como critério infalível de delimitação e classificação genológica, o certo é que elas constituem indícios nesse sentido. No caso da autobiografia, os vários modificadores utilizados para marcar os subgéneros da autobiografia (espiritual, religiosa, filosófica…) parecem remeter para dois aspetos complementares: o tema específico do subgénero e a atividade em que o subgénero é produzido.

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Relativamente à temática nela abordada (life writing), esta obra assume-se como “the first

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Quadro 12 – Subgéneros da autobiografia (Jolly (Ed.) 2001)

Forma/(sub)género Tema Produtor textual (papel social)

Autobiografia espiritual

(Darbour 2001)

Autorrepresentação

Experiência religiosa/relação com as normas da vida religiosa

Alguém com preocupações espirituais

Autobiografia religiosa

(Aikman 2001)

Autorrepresentação

Experiência religiosa/relação com entidades divinas

Alguém com preocupações religiosas

Autobiografia filosófica

(Schuster 2001)

Autorrepresentação, com enfoque na dimensão metafísica

Filósofo

Alguém com preocupações filosóficas

Autobiografia militar

(Vernon 2001)

Autorrepresentação

Experiência militar (e.g. guerra,

serviço profissional militar)

Militar

Autobiografia médica

(Cook 2001)

Autorrepresentação Confronto com o corpo (tratamento de doença)

Doente

Médico/ profissional de saúde

Autobiografia criminal (Haslam 2001) Autorrepresentação Experiência criminal Criminoso Autobiografia científica (Pitts 2001) Autorrepresentação Relação com a ciência

Especialista (dedicado à investigação científica, com credenciais académicas)

Autobiografia literária

(Gunzenhauser 2001)

Autorrepresentação

(privilegiando-se uma dimensão estética)

Escritor (que se define como tal ou publicamente reconhecido com valor literário)

Autobiografia desportiva

(Young & Stanley 2001)

Autorrepresentação Experiência desportiva

Desportista (publicamente reconhecido como tal)

Autobiografia musical

(Fondebrider 2001)

Autorrepresentação Experiência musical

Músico (publicamente reconhecido como tal) Alguém relacionado com a música

Síntese elaborada com base em Jolly (Ed.) 2001

A meu ver, a atutobiografia é um caso paradigmático dos géneros que, por serem sincronicamente adotados em atividades diversas, adquirem especificidades determinadas por essas mesmas atividades (sem, no entanto, perderem as suas características constitutivas), dando origem a subgéneros. Se os géneros autobiográficos coexistem sob a forma de nebulosa, neste caso agrupados em campos genológicos, o mesmo se passa com os subgéneros – sendo que as fronteiras entre estes últimos tendem a ser ainda mais difusas. Só assim se explica que a autobiografia espiritual e a autobiografia religiosa sejam entendidos como subgéneros distintos, ou que o texto “Confissões”, de Santo Agostinho, por exemplo, seja classificado quer como confissões (Manganiello 2001), quer como autobiografia espiritual (Darbour 2001), autobiografia religiosa (Aikman 2001) ou autobiografia filosófica (Schuster 2001).

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