4 Global attributes
4.1 Originator attributes
4.1.10 DS_AFFILIATION
Ainda que, até ao momento, se tenha associado o campo genológico autobiográfico à atividade literária, seria erróneo considerar que a expressão autobiográfica se confina à instituição literária. De facto, os géneros autobiográficos podem ser produzidos no âmbito de diversos lugares sociais, quer se trate da instituição literária, quer se trate de outras instituições sociais. O Quadro 10 (página seguinte) mostra isso mesmo, tendo em conta a época contemporânea.
A expressão autobiográfica é, pois, uma questão que se poderá caracterizar como transversal às formações sociocomunicativas – sendo, neste caso, assumida como ato que traduz discursivamente um mundo formal de conhecimento autobiográfico e que se expressa por meio de uma atitude narrativa em que o produtor textual se implica no
54 discurso.30 Em certos casos, porém, a expressão autobiográfica exerce uma influência tal na prática comunicativa que determina a seleção de um género textual específico, de carácter predominantemente autobiográfico. É o que acontece, por exemplo, com os géneros memórias, autobiografia, diário ou confissão.
Quadro 10 – Lugares sociais e práticas de expressão autobiográfica contemporânea
Lugares sociais Exemplos de práticas de expressão da experiência autobiográfica
Instituições político-estatais Relato oral de experiência pessoal em discurso ou em debate político
Instituição literária Produção de textos autobiográficos, com intuito estético (memórias, autobiografia, diário…) Instituição académico-
científica Relatório de atividades realizadas
Instituições de cuidado
Relato de experiência pessoal em consulta médica
Escrita de diário (como atividade terapêutica) Instituições de repressão
(justiça e política)
Relato de experiência pessoal (testemunhada ou vivenciada), em tribunal ou em inquérito policial
Instituição escolar
Produção de textos autobiográficos, com intuito formativo/de apropriação do género (memórias, autobiografia, diário…)
Instituição familiar/ Lugares de práticas de contacto quotidiano
Relato de experiência pessoal em conversa informal ou em carta/e-mail intimista
Produção de textos de carácter autobiográfico destinado a familiares e amigos (blogues pessoais)
Instituições mediáticas Relato oral de experiência pessoal em programa televisivo ou radiofónico
Lugares de práticas religiosas Confissão
Por seu turno, os géneros autobiográficos agrupam-se em campos genológicos que, como já se viu, são determinados pelas atividades em que se encontram inscritos. Os campos genológicos encontram-se associados a práticas sociais específicas (prática literária, familiar, académica/científica, religiosa, política, filosófica…), mas que coevolui com práticas sociais e com campos genológicos afins. Por esse motivo, os campos contaminam-se mutuamente, apesar de servirem atividades distintas.
Tendo em conta quer algumas das atividades em que se encontra estruturada a sociedade atual, quer os géneros textuais em que se constrói a autorrepresentação,
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Dado que esta questão será retomada posteriormente, avançarei apenas que esta atitude discursiva se poderá definir como simultaneamente narrativa e implicada.
55 poder-se-ão considerar (a título ilustrativo) como possíveis os seguintes campos genológicos autobiográficos (Quadro 11):
Quadro 11 – Campos genológicos e géneros autobiográficos
Atividade Campo genológico Géneros autobiográficos
Familiar/privada Campo autobiográfico familiar
Diário, memórias, relato de experiências pessoais… Literária Campo autobiográfico
literário
Autobiografia, diário, memórias, confissões, autoficção… Religiosa Campo autobiográfico
religioso Confissão, confissões…
… … …
Resta saber se os géneros autobiográficos mantêm a sua especificidade ao mudarem de campo genológico autobiográfico ou se, pelo contrário, se transformam em novos géneros quando isso acontece. Para dar resposta a esta questão, valerá a pena focar o caso específico do género autobiográfico que se encontra mais desenvolvido (em termos de formas/subgéneros) na Enciclopedia of Life Writing, a autobiografia (Quadro 12, página seguinte).
A classificação proposta nesta obra31 permite encarar a autobiografia como um género adotado em práticas sociais tão díspares como a música e o desporto, a literatura, a ciência, a criminalogia, a filosofia, a religião ou a atividade militar. Embora as designações com que os géneros textuais são rotulados não possam, por si só, ser entendidas como critério infalível de delimitação e classificação genológica, o certo é que elas constituem indícios nesse sentido. No caso da autobiografia, os vários modificadores utilizados para marcar os subgéneros da autobiografia (espiritual, religiosa, filosófica…) parecem remeter para dois aspetos complementares: o tema específico do subgénero e a atividade em que o subgénero é produzido.
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Relativamente à temática nela abordada (life writing), esta obra assume-se como “the first
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Quadro 12 – Subgéneros da autobiografia (Jolly (Ed.) 2001)
Forma/(sub)género Tema Produtor textual (papel social)
Autobiografia espiritual
(Darbour 2001)
Autorrepresentação
Experiência religiosa/relação com as normas da vida religiosa
Alguém com preocupações espirituais
Autobiografia religiosa
(Aikman 2001)
Autorrepresentação
Experiência religiosa/relação com entidades divinas
Alguém com preocupações religiosas
Autobiografia filosófica
(Schuster 2001)
Autorrepresentação, com enfoque na dimensão metafísica
Filósofo
Alguém com preocupações filosóficas
Autobiografia militar
(Vernon 2001)
Autorrepresentação
Experiência militar (e.g. guerra,
serviço profissional militar)
Militar
Autobiografia médica
(Cook 2001)
Autorrepresentação Confronto com o corpo (tratamento de doença)
Doente
Médico/ profissional de saúde
Autobiografia criminal (Haslam 2001) Autorrepresentação Experiência criminal Criminoso Autobiografia científica (Pitts 2001) Autorrepresentação Relação com a ciência
Especialista (dedicado à investigação científica, com credenciais académicas)
Autobiografia literária
(Gunzenhauser 2001)
Autorrepresentação
(privilegiando-se uma dimensão estética)
Escritor (que se define como tal ou publicamente reconhecido com valor literário)
Autobiografia desportiva
(Young & Stanley 2001)
Autorrepresentação Experiência desportiva
Desportista (publicamente reconhecido como tal)
Autobiografia musical
(Fondebrider 2001)
Autorrepresentação Experiência musical
Músico (publicamente reconhecido como tal) Alguém relacionado com a música
Síntese elaborada com base em Jolly (Ed.) 2001
A meu ver, a atutobiografia é um caso paradigmático dos géneros que, por serem sincronicamente adotados em atividades diversas, adquirem especificidades determinadas por essas mesmas atividades (sem, no entanto, perderem as suas características constitutivas), dando origem a subgéneros. Se os géneros autobiográficos coexistem sob a forma de nebulosa, neste caso agrupados em campos genológicos, o mesmo se passa com os subgéneros – sendo que as fronteiras entre estes últimos tendem a ser ainda mais difusas. Só assim se explica que a autobiografia espiritual e a autobiografia religiosa sejam entendidos como subgéneros distintos, ou que o texto “Confissões”, de Santo Agostinho, por exemplo, seja classificado quer como confissões (Manganiello 2001), quer como autobiografia espiritual (Darbour 2001), autobiografia religiosa (Aikman 2001) ou autobiografia filosófica (Schuster 2001).
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