4 Global attributes
4.2 Dataset attributes
4.2.7 DATA_VARIABLES
Sintetizam-se, de seguida, as principais características de alguns géneros que coevoluem com as memórias, no campo autobiográfico literário. Seguindo como critério a importância que estes de que estes géneros se têm revestido enquanto objeto de teorização no âmbito dos estudos literários (nacionais e internacionais), destacar-se- ão os géneros autobiografia, diário, confissões e autoficção.
Autobiografia
Definida por Lejeune (1975b, 14) como “récit rétrospectif en prose qu’une personne réelle fait de sa propre existence, lorsqu’elle met l’accent sur sa vie individuelle, en particulier sur l’histoire de sa personnalité”, a autobiografia apresenta como características definitórias a tematização da vida individual/ história de uma personalidade, a enunciação marcada pela narração retrospetiva em prosa e a identidade
70 entre autor, narrador/enunciador e personagem principal.39 Na sequência deste ponto de vista, Reis & Lopes ([1987]1998b) consideram como características dominantes da autobiografia:
a centralidade do sujeito de enunciação colocado numa relação de identidade com o sujeito do enunciado e com o autor empírico do relato; o pacto referencial, que institui a representação de um percurso biográfico factualmente verificável; a acentuação da experiência vivencial detida por esse narrador, que, perfilhando uma situação expressa ou camufladamente autodiegética, projecta essa experiência da dinâmica da narrativa; o teor quase exemplar dos acontecimentos relatados, concebidos pelo autor como experiências merecedoras de atenção.
Reis & Lopes [1987]1998b, 36
Rocha (1992) reitera os mesmos aspetos, sublinhando que a autobiografia se centra na narração ulterior e contínua da vida de uma pessoa, narração essa condicionada por uma visão retrospetiva e englobante (o que leva a que a autobiografia seja escrita na maturidade ou na velhice) e discursivamente estruturada com base em desvios temporais, flashbacks, antecipações, associações entre episódios pertencentes a tempos diferentes40. Em relação ao contexto de produção, autora (ibidem) aponta como objetivos associados à produção desta classe de textos a catarse (associada à autocontemplação e à confissão cristã), a vontade de dar a conhecer a intimidade de uma figura pública e a retificação (relacionada com a necessidade de corrigir ou desmentir opiniões erradas).
Em confronto com outros (sub)géneros, a autobiografia literária resulta da interação entre três dimensões distintas: uma dimensão psicológico-filosófica (em que se articulam, segundo Gunzenhauser (2001, 75), o “active public self” e o “contemplative private one”), uma dimensão estética (que lhe confere o estatuto literário) e uma dimensão didática: “Every autobiographer wants to persuade others to learn from her or his life” (Conway 1998, apud Gunzenhauser 2001). Daqui se conclui
39
Amplamente citada no âmbito dos estudos literários, a citação de Lejeune não remete, todavia, exclusivamente para a noção de autobiografia enquanto género textual, facto que reflete a forma ambígua como a noção de autobiografia é encarada: ora como género textual, ora como modo de múltiplos géneros. O mesmo se passa relativamente ao que se entende por género memorialístico (cf. Mathias 1997, 41: “O género memorialístico inclui fundamentalmente as memórias, as autobiografias e os diários, porque em todas estas expressões a memória representa o elemento principal que lhes serve de traço comum.”). No âmbito deste trabalho, os conceitos de autobiografia e memórias são
usados com o sentido de género textual, reservando-se, a noção de campo genológico autobiográfico à
aceção de sistema de géneros autobiográficos em coevolução.
40
Mathias (1997, 41) define o conceito segundo de acordo com critérios semelhantes: “retrospectiva ordenada quase sempre em função de critérios cronológicos, apresenta-se como um todo e como um todo pretende ser considerado”.
71 que o ego se assume como elemento central na autobiografia (em detrimento, por exemplo, do enquadramento histórico-cultural); é, aliás, nesse sentido que, ao refletir sobre a universalização da personagem, Rocha (1977, 88) considera que na autobiografia a “vida toma a configuração alegórica da justificação e do exemplo”.
Diário
Ao contrário do que acontece com os géneros autobiografia, o diário não pressupõe uma narração retrospetiva – reportando-se, ao invés, a um presente e a um passado imediatos. Assim, em termos estruturais, como refere Rocha (1997, 100), “num diário encontramos geralmente uma sucessão de notas datadas41, que correspondem a uma narração dita intercalada, ou seja, em que o registo dos factos narrados alterna com a ocorrência desses mesmos factos.” Trata-se, pois, de um género pautado pela escrita fragmentária, não linear, marcada por um enunciar de tipo não exclusivamente narrativo, facto que se repercute (e é alvo de repercussão) ao nível temático: o diário, em comparação com outros géneros autobiográficos, admite a pluralidade e o hibridismo de conteúdos, podendo conter, para além do relato de experiências pessoais, historicamente situadas, e das impressões/estados de alma daí decorrentes, reflexões (ou pequenas notas) de carácter variado (social, político, estético, moral…), motivadas pela influência do contexto histórico-cultural em que o produtor se encontra imbuído. A diversidade temática (de tom tendencialmente confessional) dá origem a várias modalidades de diário – por exemplo, o diário político, o diário de viagem e o diário íntimo…
Condicionado por aspetos relativos ao contexto de produção característico deste género textual (nomeadamente a necessidade de afirmação pessoal e a situação de isolamento do sujeito produtor), o diário assume-se frequentemente como recetor, gerando uma situação de comunicação unilateral. Citando Rocha (1992, 28), “O diário funciona de facto, muitas vezes, como interlocutor” ou como “sucedâneo de um interlocutor real”42. O efeito de intimidade gerado neste género autobiográfico leva a que, segundo a autora, sejam recorrentes determinadas marcas linguísticas: estilo pouco elaborado (em comparação com o de outros géneros autobiográficos), uso de iniciais
41
A datação não é, no entanto, um parâmetro de ocorrência obrigatória neste género textual.
42
Reis & Lopes, por seu turno, sublinham o “peculiar posicionamento e configuração do destinatário, cujo estatuto pode ser modulado de formas diversas” ([1987]1998c, 105).
72 para designar nomes de locais ou pessoas, baixo grau de discursivismo, formulações elípticas. Ao estilo convencional de um estilo “informal”, podem ser acrescentados outros traços formais, como o sejam as localizações temporais (datação) e geográficas, que acentuam a impressão de linearidade descritiva e denunciam a proximidade entre o tempo da enunciação e o tempo narrado; marcas de enunciação subjetiva, com destaque para as formas de primeira pessoa e para os tempos do discurso (Demougin 1985).
Confissões
Oriundo da literatura espiritual, este género, também designado como autobiografia espiritual, tem a sua origem nas Confissões de Santo Agostinho (397/401), sendo que, ainda hoje e na perspetiva de Silvestre (1995, 460), “conserva, na cultura secularizada dos nossos dias, a dimensão ética e judicativa própria da contrição”. Associam-se, assim, neste género textual duas vertentes distintas: a autobiografia e a exegese bíblica (Citroni et al. 2006). Segundo Rocha (1992), o principal destinatário das confissões é Deus (entidade que assume em simultâneo o papel de autor da absolvição), estabelecendo-se um contrato de leitura de tipo judicativo; o objetivo das confissões textual é duplo, na medida em que a escrita deste género textual visa quer a contrição quer a exibição de quem escreve.
Autoficção
O conceito de autoficção43 é definido por Gratton (2001, 86) como “one of the forms taken by autobiographical writingat a time of severely diminished faith in the power of memory and language to access definitive truths about the past or the self”. Genette (1991) apresenta o seguinte pacto para esta classe de textos: Eu, autor, vou-vos contar uma história da qual sou o herói, mas que nunca me aconteceu. Ao contrário do que acontece nos restantes géneros autobiográficos, não se implica aqui um pacto de verificação da verdade. De facto, semelhante à autobiografia em termos temáticos e técnico-compositivos, o romance autobiográfico apresenta uma diferença crucial em relação a esta, que permite questionar a respetiva inclusão no campo autobiográfico: trata-se de um género que põe em causa o tipo de pacto que se estabelece entre autor e leitor, por prever e legitimar adoção de conteúdos temáticos quer de natureza
43
O conceito de autoficção foi criado por Serge Doubrovsky, com intuito genológico (foi usado para
73 autobiográfica, quer de natureza ficcional; trata-se, pois, de um género cujo pacto vincula a autobiografia a dois sistemas distintos – o referencial/real e o ficcional.
A inclusão deste género no campo autobiográfico não é, no entanto descabida, na medida em que é cada vez maior a indecisão da fronteira entre a autobiografia e o romance autobiográfico. Nesse sentido, Lejeune (1971) sustenta que os critérios da primeira pessoa gramatical, da sinceridade narrativa e do rigor dos dados paratextuais (em que se destacam os títulos e os subtítulos das obras) são falíveis: “Tous les procédés que l’autobiographie emploie pour nos convaincre de son authenticité, le roman peut les imiter, et les a souvent imités” (Lejeune 1971, 17). Por outro lado, tal como já foi referido, a autobiografia consiste na representação da reinvidicação da verdade – e não na verdade em si. Há, pois, que aceitar que as fronteiras entre ficção e verdade são ténues, mesmo nos géneros que se assumem como referenciais – desde a autobiografia à autoficção.
As principais características de cada um dos géneros que compõem o campo autobiográfico (de acordo com os estudos literários) poderão ser sintetizadas em termos de contexto de produção, de tematicidade e de características técnico-compositivas. Apresenta-se no Quadro 15 (página seguinte) uma síntese dessas características, com base nos estudos literários atrás referidos.
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Quadro 15 – Características dos géneros autobiográficos literários
Contexto de produção Tematicidade Opções técnico-compositivas
Memórias
Produtor textual (escritor)
• Idade: (tendencialmente) maturidade/velhice • Objetivos: vontade de dar a conhecer a experiência
e perspetiva pessoal sobre determinado contexto histórico
Contrato entre produtor e recetor textuais: pacto autobiográfico
Vida individual Contexto histórico- cultural
• Narração ulterior/retrospetiva
• Associações entre episódios pertencentes a tempos diferentes, movimentos anisocrónicos (analéticos e proléticos)
• Formas de primeira pessoa
Autobiografia
Produtor textual (escritor)
• Idade: maturidade/velhice
• Objetivos comunicativos: catarse; vontade de dar a conhecer a intimidade de uma figura pública, retificação
Contrato entre produtor e recetor textuais: Autor
= narrador = protagonista (pacto autobiográfico)
Vida individual (completa) / história da personalidade
• Narração ulterior/retrospetiva, continuada e englobante, em prosa • Desvios temporais, flashbacks, antecipações, associações entre episódios
pertencentes a tempos diferentes • Formas de primeira pessoa
Diário
Produtor textual (escritor)
• Objetivos comunicativos: necessidade de afirmação pessoal; situação de isolamento do sujeito produtor
Recetor textual: Diário (comunicação unilateral),
leitores
Contrato entre produtor e recetor textuais: Autor
= narrador = protagonista (pacto autobiográfico)
Experiência pessoal Contexto social, político, estético, moral…
• Narração de um presente e de um passado imediatos, descontínua/ intercalada/ fragmentária articulada com a reflexão
• Ordenação cronológica (não retrospetiva)
• Estilo pouco elaborado, uso de iniciais para designar nomes de locais ou pessoas, baixo grau de discursivismo, formulações elípticas; localizações temporais (datação) e geográficas
• Formas de primeira pessoa; tempos do discurso (no sentido benvenistiano)
Confissões
Produtor textual (escritor)
• Objetivos comunicativos: contrição; exibição
Recetor textual: Deus; leitores
Contrato entre produtor e recetor textuais: Autor
= narrador = protagonista (pacto autobiográfico)
Experiência pessoal (mística, religiosa) Exegese bíblica
• Narração ulterior/retrospetiva • Formas de primeira pessoa
Autoficção
Contrato entre produtor e recetor textuais: Autor
≠ Narrador = Protagonista (pacto autobiográfico / pacto ficcional)
Vida individual (completa) / história da personalidade
• Narração ulterior/retrospetiva, continuada e englobante, em prosa • Desvios temporais, flashbacks, antecipações, associações entre episódios
pertencentes a tempos diferentes • Formas de primeira pessoa
75
3. Texto
Nos finais da década de 1950, com a emergência de uma área que viria a ficar conhecida como Linguística Textual, a frase deixou de ser encarada como unidade máxima de análise, passando o texto a desempenhar essa função. Contrastando com as conceções tradicionais que viam no texto apenas uma sequência bem formada de frases ligadas progressivamente para um fim, ou seja, como o prolongamento da frase, vários foram os autores que, a partir dessa altura, passaram a encarar o texto como unidade semântica irredutível. De entre eles, podem ser destacados Coseriu (1955/1956), Weinrich ([1964]1973), Kristeva (1969), Halliday & Hasan (1976), van Dijk (1977), Rastier (1989) ou Bronckart (1997).