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7 . VANNFORSYNING AVLØP OG RENOVASJON

7.1. Vannforsvnina, avlOrs oa renovasion

No início do século XIX, ainda havia diferentes concepções de mundo e de práticas sociais convivendo no mesmo espaço territorial do país, a dos que aqui habitavam e a dos que aqui chegavam. Os daqui ainda viviam em um tempo em que a vida social era baseada na comunidade, no trabalho em conjunto, na economia de subsistência, nos laços de parentesco. Já os estrangeiros estavam integrados num tempo onde esses vínculos não pertenciam tanto a sua dimensão cotidiana, e sim a atividades voltadas para o mundo do trabalho disciplinado com finalidade na produção de bens e comercialização.

Nessa convivência de espaço e tempo, ambos não compreendiam suas diferenças e lógicas de mundo. Muitos habitantes daqui, principalmente “homens livres”16, resistiram a integrar

a nova ordem, que era baseada na exploração econômica e social imposta pelo sistema. Essa resistência foi interpretada como indolência, preguiça, deformação na cultura. Essas distorções foram incorporadas no imaginário social do povo brasileiro, como também do estrangeiro.

Muitos pesquisadores e escritores desse período não compreendiam os fatores históricos que influenciaram de forma negativa a formação do povo brasileiro, do povo paulista. Os equívocos nas descrições de Saint-Hillaire permaneceram até meados do século XX, como se pode constatar no artigo de Monteiro Lobato intitulado “Velha Praga”, publicado no jornal O Estado de São Paulo e incluído na segunda edição de "Urupês” (1918) 17.

O artigo é uma crítica sobre a destruição do ecossistema e descaso das autoridades públicas em não fiscalizar e punir os responsáveis pelas queimadas que ocorriam nas matas da Serra da Mantiqueira. Monteiro Lobato aponta e acusa o caboclo por esse dano ambiental e o condena a uma condição de não pertencimento ao mundo “civilizado”. Ele escreve:

16 “Homens livres” se referem aos que não estavam nem na condição de senhor ou de escravo e/ou de populações indígenas.

17 Urupês sm. (tupi urupé) Bot. Espécie de cogumelo da família das Poliporáceas (Polyporus sanguineus); orelha-de-pau, pironga. U.-

“A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao

solo brasileiro como o Argas18 o é aos galinheiros ou o Sarcoptes mutans19 à perna das aves domésticas. Poderíamos, analogicamente, classificá-lo entre as variedades do Porrigo decalvans20, o parasita do couro cabeludo produtor da “pelada”, pois que onde ele assiste se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, nua e descalvada.” (Lobato, 2009:160). “Este funesto parasita da terra é o CABOCLO21, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau22 e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.”

“É de vê-lo surgir a um sítio novo para nele armar a sua arapuca de “agregado”; nômade por força de vagos atavismos, não se liga à terra, como o campônio europeu: “agrega-se”, tal qual o “sarcoptes”, pelo tempo necessário à completa sucção da seiva convizinha; feito o que, salta para diante com a mesma bagagem com que ali chegou ...”

“Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” fêmea, esta com um filhote no útero, outro ao peito, outro de 7 anos à ourela da saia – este já de pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento – Brinquinho, a foice, a enxada, a pica-pau, o pilãozinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinhas pevas e um galo índio. Com estes simples ingredientes, o fazedor de sapezeiros perpetua a espécie e a obra de esterilização iniciada com os remotíssimos avós.” (Lobato, 2009, 161)

18 Sm. (gr Argâs, np) Entom Gênero (Argas) de carrapatos, da família dos Argasídeos, que inclui o cosmopolita carrapato das galinhas

(Argas persicus), séria praga das aves domésticas nos países quentes, inclusive o Brasil, onde age também como vetor da espiroquetose das galinhas.

19 Sm. Zool. Gênero (Sarcoptes) de ácaros, tipo da família dos Sarcoptídeos, que inclui a espécie Sarcoptes scabiei, que produz a

escabiose no homem.

20 Sf. (lat. tinea) 1 Med. Micose dos pêlos, especialmente dos cabelos, na qual o parasito atinge o pêlo na sua raiz e invade o folículo, bem

como a epiderme da superfície; porrigem. 2 Zool. Lagarta de uma espécie de borboleta, que ataca as colmeias, devorando a cera. 3 Vício, mácula, defeito. T. favosa: dermatose parasitária, contagiosa, devida a um cogumelo denominado Tricophyton schoenleinii; favo. T. falsa: nome de diversas afecções do couro cabeludo, não contagiosas. T. tonsurante: existência, na cabeça, de placas em que os cabelos

Este artigo reflete o pensamento não só de Monteiro Lobato, mas de uma sociedade baseada no sistema patriarcal e escravocrata que ignorou os fatores históricos daqueles que não pertenciam à condição de senhor nem de escravo. Eram homens pobres e livres, não integrados à ordem social e econômica, caindo-lhes o estigma de vadios e imprestáveis para o exercício do trabalho disciplinar, baseado na exploração e violência.

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Em defesa do caipira, do caboclo, Lúcio Kowarick explica de forma brilhante que:

“Marginalizado desde os tempos coloniais, o homem livre e liberto tende a não

passar pela “escola do trabalho”, sendo frequentemente transformado num itinerante que vagueia pelos campos e cidades, visto pelos senhores como a encarnação de uma corja inútil que prefere o ócio, a vagabundagem, o vício ou mesmo o crime, à disciplina do trabalho nas fazendas... Na medida em que as relações de produção fossem marcadas pelos rigores e horrores imperantes no regime de trabalho escravo, nada mais natural que a população livre encarasse o trabalho, definido dessa forma como alternativa mais degradada da existência”. (Kowarick, 1987, 65, 66)

23Jeca Tatu – Criado pelo ilustrador Belmonte, que após o falecimento de Voltolino passou a desenhar para várias revistas e escritores,

inclusive para Cornélio Pires. Aqui o caipira foi ilustração a pedido de Monteiro Lobato para o livro Urupês e aparece de forma estilizada na aparência do caboclo ou bugre, mistura entre o indígena catequizado e o branco europeu.

Na contramão desses atributos negativos, Cornélio Pires, apesar de valorizar a cultura caipira, também não deixou de estilizá-lo na aparência e comportamento com as velhas descrições citadas por Saint-Hillaire, em relação ao caipira caboclo que também não era bem visto por ele, a notar pela classificação que fez dos tipos de caipira, mas não o compara a uma praga como fez Monteiro Lobato, e sim tenta explicar sua condição.

“Curiosamente, mesmo ao apresentar o caipira de modo mais abrangente, com uma observação que se declara isenta, Cornélio Pires não discrepa muito da caricatura traçada por Lobato. Quando se refere ao "caipira caboclo", reitera a imagem fixada pelo criador do Jeca, no físico: Cabelos grossos e espetados que não tiveram contato com o pente, a barba rala, "sameada" no queixo, fios espetados aqui e ali... (CPF, p.20) no comportamento: Inteligentes e preguiçosos, velhados e "mantosos", barganhadores como ciganos, desleixados, sujos e esmulambados ... são valentes, brigadores e ladrões de cavalos...” (Leite, 1996, 123)

Contudo, apesar da vertente satírica, Cornélio Pires não faz nenhum tom risível em relação ao caboclo; pelo contrário, seu estudo puramente empírico enfatiza a preocupação com seus patrícios e propõe alternativa, mesmo que ingênua, para melhorar sua condição de vida. Sylvia Helena Leite complementa.

“O objetivo do ensaísta é procurar causas e soluções, ainda que ingênuas, paternalistas, certamente motivadas pelo ideário do liberalismo, tão forte na década de 1910, com a campanha higienista, a defesa da alfabetização em massa, a apologia da educação e da saúde pública como soluções para os males sociais, a bandeira da moralização da política etc.:”

“Ainda não estão perdidos os caipiras caboclos. Para salvá-los bastam duas coisas tomadas a sério: a escola e a obrigatoriedade do ensino... mas de verdade!” (CPF, p.26). (Leite, 1996, 123)

Ao caboclo recaíram todos os sentidos e imaginários pejorativos, que em muitos estudos e na própria literatura desqualificaram-no, seja em virtude de sua herança cultural ou de seu modo de ser e agir, porém há os que identificaram seu legado importante para nossa sociedade. Pela ascendência indígena e sincretismo religioso - preceitos da religião católica e crendices e mitos - resultou nos personagens e estórias surreais que o próprio Monteiro Lobato tanto explorou em seus livros, como o Saci-Pererê, Boitatá, Caapora e as supertições que se fazem presentes até os dias de hoje. Alberto Rovai descreve a riqueza cultural do caboclo.

“A sua mais aparente do que real aculturação fazia com que os preceitos da igreja se misturassem com as crendices oriundas do sincretismo religioso luso- afro-indígena. Do rosário de contas de capim, que invariavelmente trazia no pescoço, pendiam o santinho, a fava-de-santo-inácio, o dente de jacaré ou de porco-do-mato, o patuá – talismãs poderosos contra “mal feito”, mordedura de cobras, tiros e facadas. No cabo do porrete de piúva, seu companheiro inseparável, desenhava a fogo (reminiscência totêmica) a figura de um bicho, o que muito o ajudava no ataque e na defesa. Às crendices juntavam-se as supertições: cuspir no fogo faz secar a boca; varrer a casa de noite é sinal de morte próxima de alguém da família; matar sapo traz seca brava; guardar a vassoura atrás da porta com o cabo pra baixo afugenta visitas – em resumo, uma infinidade de supertições alusivas ao nascimento, à vida, à morte, à saúde, à prosperidade, à desgraça, à amizade e à inimizade, ao bom e ao mau tempo, etc. Os mitos – o Saci-Pererê, o lobisomem, o boitatá, o caapora, a mula-sem- cabeça, a mãe d´água, etc. – não eram para o caipira caboclo entidades abstratas, mas seres vivos cuja origem ele conhecia e cuja atuação ele via ou sentia.” (Rovai, 1978, 67)

Excluídos pela sua condição cultural, econômica e racial, que ainda se fazia presente em função dos estudos baseados no racismo científico, estes conceitos foram aos poucos contestados, por diversos intelectuais, artistas, pesquisadores, defendendo a tese de que o

problema não estava na origem da raça e mestiçagem, e sim nas raízes históricas e sociais mencionadas no capítulo anterior.

A repercussão do artigo de Monteiro Lobato entre a nova classe intelectual paulista foi muito negativa, e, para suavizar essa tensão, Monteiro Lobato escreve uma carta a Godofredo Rangel dizendo que a intenção foi de provocar Cornélio Pires.

“Aquilo (o caboclismo) foi fabricação histórica para bulir com o Cornélio

Pires, que anda convencido de ter descoberto o caboclo. (...) O caboclo de Cornélio Pires é uma bela estilização sentimental, poética, ultra-romântica, fulgurante de piadas – e rendosa. O Cornélio vive, e passa bem, ganha dinheiro gordo, com as exibições que faz do “seu caboclo”. Dá caboclo em conferências a 5 mil-réis a cadeira e o público mija de tanto rir. E anda ele agora por aqui, Santos, a dar caboclo no Miramar e no Guarani. Ora, o meu Urupês veio estragar o caboclo do Cornélio – estragar o caboclismo.” (Saliba,

2002, 176)

Cornélio Pires rebate, criticando não só Monteiro Lobato, mas todos que sintetizaram no caipira os equívocos das constantes análises negativas desde os tempos de Auguste Saint- Hilaire. O tieteense inverte a crítica ao caipira e esclarece porque ele tornou-se um ator subalterno da própria história.

“Nascidos fora das cidades, criados em plena natureza, infelizmente tolhidos pelo analfabetismo, agem mais pelo coração do que pela cabeça. Tímidos e desconfiados ao entrar em contato com os habitantes da cidade, no seu meio são expansivos e alegres, folgazões e francos; mais francos e folgazões que nós outros, os da cidade. De rara inteligência – não vai nisso um exagero – são incontestavelmente mais argutos, mais finos que os camponeses estrangeiros. Compreendem e aprendem com maior facilidade; fato, aliás, observado por estrangeiros que com eles têm tido ocasião de privar. É fato: o caipira puxador de enxada, com a maior facilidade se transforma em

carpinteiro, ferreiro, adomador, tecedor de taquaras e guembê, ou construtor de pontes...

Os caipiras não são vadios: ótimos trabalhadores têm crises de desânimo quando não trabalham em suas terras e são forçados a trabalhar como camaradas, a jornal. Nesse caso o caipira é, quase sempre, uma vítima.

O trabalhador estrangeiro tem suas cadernetas, seus contratos de trabalho, a defesa do ‘Patronato Agrícola’ e seus cônsules… Trabalha e recebe dinheiro. Ao nacional, com raras exceções o patrão paga mal e em vales com valor em determinadas casas, onde os preços são absurdos e os pesos arrobalhados; nesse caso, o caipira não tem direito a reclamações nem pechinchices, está comprando fiado… com o seu dinheiro, o fruto do seu suor transformado em pedaço de caderneta velha rabiscada a lápis. E querem que o brasileiro tenha mais ânimo! Ânimo não lhe falta, quando trabalha em suas próprias terras. As suas algibeiras e o seu crédito nas lojas e vendas o confirmam...” (Pires, 1987,

5, 6,7)

Monteiro Lobato mais tarde revê sua posição e escreve uma carta a Cornélio Pires para elogiar a criação de seu personagem Joaquim Bentinho.

... Já comprei as "Aventuras" e li-as e venho dar-te um abraço e ao mesmo tempo confirmar-lhe minha imensa admiração pela tua obra, inda não bem compreendida pela crítica. Você, Cornélio, é um dos pouquíssimos que vão ficar. Há tanta verdade nos teus tipos, tanta vida, há tanto humanismo na tua obra, há tanta beleza, e tanta originalidade em teu estilo que estás garantido, estás à prova do tempo que varre impiedosamente o que é medíocre. Um sincero abraço! (Leite, 19,116)

Estes dois autores tinham formação e visão bem diferentes sobre o rural. Um descendia da elite, donos de fazenda, educação clássica, hábitos e costumes europeus, o outro era de origem simples, família de sitiantes e sem titulações acadêmicas, tão valorizadas na época, assumindo, desde cedo, sua condição e identidade caipira.

Mesmo com limitações no campo do conhecimento científico, Cornélio Pires captura o saber da cultura popular, da cultura caipira, das diferenças étnicas que compunham nossa sociedade, de forma efetiva, compartilhando o cotidiano construído no decorrer da história desses paulistas, suas estórias, vestimentas, alimentação, seu trabalho, seus contos e provérbios.

A estes apontamentos estereotipados do caipira, soma-se um longo período em que a sociedade privilegiou a cultura europeia, principalmente a francesa, para ditar padrões em relação aos hábitos, costumes, comportamento, numa perspectiva do que era “culto” e “civilizado”, além da supervalorização e consumo no campo cultural (música, dança, literatura, artes plásticas).

A mudança deste cenário dar-se-á a partir das primeiras décadas de 1900 com a iniciativa de um grupo de intelectuais e artistas nacionais como: Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Guilherme de Almeida, Villa-Lobos e tantos outros através de movimentos nas artes e na literatura como o Regionalismo, o Modernismo, a Semana de

Arte Moderna em 1922, o Movimento Antropofágico, Pau-Brasil24 e outros em prol da valorização da cultura nacional e popular. 25

A ausência que havia na comunicação entre as regiões colaborou no desconhecimento de artistas e intelectuais sobre as diferentes formas de manifestações culturais populares existentes no país, porém houve aqueles que declararam sua falta de interesse nesse segmento por não pertencer à ordem culta dominante, que tinha como referência a Europa. O interesse da “nova” intelectualidade por temas nacionais como o sertão, o rural, a busca de uma cultura brasileira, na explicação de Elias Thomé Saliba, ocorreu porque “... havia

24 O Movimento Pau-Brasil foi lançado em 1924 por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral e procurou resgatar a poesia ingênua, de

redescoberta do mundo e do Brasil, e foi inspirada nos movimentos de vanguarda europeus, devido às viagens que Oswald fazia a Europa. Esse movimento foi levado ao público com a publicação do livro Pau-Brasil, escrito por Oswald de Andrade e ilustrado por Tarsila do Amaral. O movimento exaltava o progresso e a era presente, ao mesmo tempo em que combatia a linguagem retórica e vazia. Convivem dialeticamente o primitivo e o moderno, o nacional e o cosmopolita.

cansaço da cultura francesa que há um século comandava o nosso pensamento, nosso processo artístico.” (Saliba, 2002)

O Regionalismo no Brasil ocorreu em duas fases. A primeira no final do século XIX com autores de maior expressão como José de Alencar, com os romances coloniais, e Gonçalves Dias com as poesias indianistas, cuja intenção estava em aspirações patrióticas, e a segunda no começo do século XX, quando o tema sobre o rural aparece de forma mais intensa, retratando o meio a partir dos aspectos físicos e sociais em forma de prosa. Essa segunda fase é marcada pela característica de alguns autores transporem para a linguagem escrita o modo de falar das populações regionais e do interior das grandes metrópoles. Nesse segmento os autores que se destacaram são Simões Lopes Neto, Valdomiro Silveira e Cornélio Pires.

Em se tratando da produção literária de Cornélio Pires, ela ocorre entre as décadas de 1910 e 1940, e durante esse período é possível notar três fases distintas. A primeira corresponde a 1910, com a publicação de “Musa Caipira”, até 1921, com “Cenas e Paisagens da Minha

Terra”. Nesta fase inaugural seus textos eram compostos de versos e sonetos e seu estilo já

tende para o Regionalismo, abordando a cultura rústica e inovando com a inclusão da linguagem falada do caipira em seus textos. É nesse período que adquiriu reconhecimento público e de alguns críticos.

A seguinte ocorre a partir de 1921, com “Conversas ao Pé do Fogo” e a publicação de “As

Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho”, em 1924. Esta fase é composta de estudos, contos, anedotas, críticas e sátiras aos que desconsideravam essa forma de cultura.

No final da década de 1920 e início de 1930, sua produção literária começa a entrar em decadência e seus contos e anedotas tornam-se repetitivos e sem a originalidade inicial. Suas publicações deixam de ser propriamente sobre o caipira, que passa a se misturar com temas urbanos. Porém, não abandona seu propósito de exaltar a cultura regional paulista seja na literatura, na música, em apresentações humorísticas e palestras.

Cornélio Pires se declarava um Regionalista, pois nesse campo encontrou o meio de dar vazão à fala de sua gente e de sua cultura até então desconhecida por outros segmentos sociais.

“Escrevendo para a “minha gente”, para os “meus caipiras”, quer sejam da cidade quer dos sítios, desde 1910 me dedico ao regionalismo, e não procuro “fazer literatura” para a alta crítica...

A pretexto de narrar casos e mentiras, registro o linguajar do roceiro, expondo considerações ligeiras sobre as necessidades dos nossos caipiras e procuro dar uma pálida ideia da nossa gente, da vida rústica e da nossa paisagem.

Talvez a obra não saia ao sabor de certos leitores... Paciência... Quem dá o que tem... (Pires, 1985, 81)

Muitos críticos literários não apreciavam a produção literária dos autores dessa vertente, com exceção a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Euclides da Cunha, e criticaram a intensa publicação de livros e autores que surgiram na época abordando essa temática predominantemente popular.

“... o regionalismo correspondia, inequivocamente, a um grande avanço no sentido da criação de uma literatura nacional. Os primeiros traços desta encontram-se, sem dúvida alguma, nos melhores regionalistas, naqueles que conseguiram superar as deficiências ligadas principalmente ao geografismo e ao linguajar. Eles nos deram, dentro do regional mais genuíno, o sentido universal que denuncia a presença da qualidade literária, quando esta é alguma coisa mais do que simples virtuosismo formal.” (Sodré, 1982, 408) A visão destes críticos e estudiosos da literatura como Lúcia Miguel Pereira, Nelson Werneck Sodré, Antonio Candido, Afrânio Coutinho, entre outros, sobre a produção do Regionalismo em seu segundo momento foi implacável em suas considerações negativas.

Suas justificativas se basearam por se tratar, em sua maior parte, de narrativas por demais ingênuas e pitorescas em relação ao cotidiano das populações regionais e composições em muitos casos simplórias e artificiais.

Para Afrânio Coutinho esse segmento literário pecava em “supervalorizar o pitoresco, a

cor local do tipo, ao mesmo tempo em que procura encobri-lo, atribuindo-lhe qualidades, sentimentos, valores que não lhe pertencem, mas à cultura que se lhe sobrepõe.” (Freitas,

autores, 1998, 321)

Mesmo Antonio Candido, buscando afastar-se de interferências em relação aos estereótipos dominantes ao caipira, não reconhece a maior parte da produção literária regional em sua segunda fase e a critica quanto ao gênero e conteúdo.

“O regionalismo, que desde o início do nosso romance constitui uma das principais vias de autodefinição da consciência local, com José de Alencar,