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Com o olhar voltado às questões ambientais surge uma preocupação em relação à realidade da maioria das cidades por causa dos graves problemas de infraestrutura e de ordem política, social e econômica, contribuindo de forma significativa para a degradação ambiental. Tal preocupação, apesar de ter se intensificado nas últimas décadas, não é recente.

Theodoro et al (2005) analisa que a consciência de que ações antrópicas podem interferir negativamente em ambientes distantes de onde ocorreram começou

a ser observada após o período de 1945 a 1962, ainda antes da Conferência de Estocolmo, quando houveram inúmeros testes nucleares, fatos que tiveram correlação com chuvas de granizo consideradas anormalmente radioativas, na Austrália, a mais de 2.800 km de distância do local de testes britânicos. A autora cita ainda uma chuva radioativa em Nova York, causada por testes em Nevada, que fica a centenas de quilômetros. Tais acontecimentos culminaram na proibição de testes nucleares atmosféricos, em 1962, pelos Estados Unidos, União Soviética e Grã- Bretanha.

Outras ações começaram a ser questionadas também, nesse mesmo período conforme esclarece Theodoro et al:

(...) Ainda no início da década de 1960, Raquel Carson (1907-1964), autora do livro Primavera Silenciosa, advertiu que os inseticidas (herbicidas, fungicidas, pesticidas etc.), criados para controlar determinadas pragas na lavouras, não raramente causavam o aumento de imunidade de determinadas espécies àqueles venenos. Já os pássaros, os peixes, as vacas e as pessoas, eram envenenadas pela penetração dos inseticidas nos ecossistemas. (p. 32, 2005)

Entretanto, apesar de reconhecidos os impactos antrópicos no ambiente, difundiu-se como necessária a degradação para dar suporte ao crescimento e desenvolvimento dos países, devido ao crescimento populacional mundial. Tal crença, de que a degradação do meio ambiente tem como causa o crescimento populacional, é uma falácia. É como dizer que há fome devido escassez de alimentos no mundo, quando em verdade o que existe é uma “má distribuição” de alimentos, um problema que em nada está relacionado com a logística de produção e circulação de alimentos. A crise ambiental que se vivencia hoje precisa ser avaliada e discutida com foco nas cidades, nos processos de industrialização e urbanização que moldam a vida da sociedade. Não faltam alimentos nem recursos naturais para propiciar qualidade de vida a todos, mas a realidade das cidades difere da potencialidade do meio. Nas palavras de Lefebvre:

(...) a natureza aparece no primeiro plano dos problemas. Associadas e concorrentes a industrialização e a urbanização devastam a natureza. A água, a terra, o ar, a luz, os ‘elementos’ estão ameaçados de destruição. (...) Os bens outrora raros tornam-se abundantes: o pão e os alimentos em geral (ainda raros numa grande parte mal desenvolvida do planeta, mas superabundantes na parte desenvolvida). Ao contrário, os bens outrora abundantes tornam-se raros: o espaço, o tempo, o desejo. E depois a água, a terra, a luz. (p.34, 1999)

Não estamos vivendo em um mundo cada vez mais degradado devido a quantidade de habitantes no planeta, mas sim porque o modo de vida da população está cada vez mais baseado no consumo exarcebado, fator esse que necessita de quantidade crescente de recursos naturais para ser sustentado. Ribeiro (2005) confirma este ponto quando analise que o crescimento populacional tem diminuído mesmo em países de baixa renda. E analisa:

Quem causa mais impactos ambientais: uma criança nascida em um país de renda alta ou uma nascida em um país de renda baixa? Em geral, a que nasceu em um país de renda mais elevada consome muito mais que a outra, o que resulta em resíduos e no uso da água e energia em maior escala. (RIBEIRO, 2005, p.66)

É preciso ressaltar que essa diminuição é apenas geral e isto não significa dizer que essa diminuição pode ser vista como fator de sustentabilidade ambiental futura. Pelo contrário, mesmo que todos os países tivessem sua taxa de natalidade baixa em relação à taxa de mortalidade, ainda assim os níveis de degradação ambiental seriam devastadores se todos tiverem o mesmo padrão de consumo dos países ditos desenvolvidos.

Para explicar essa questão é preciso voltar a atenção para o modo de vida que predomina na cidade para entender como a degradação ambiental ocorre de forma intensa. Como afirma Carlos (2007,p.28), a cidade “é um modo de viver, pensar e sentir” que retrata o processo de dominação ao qual se submete. A autora complementa que o “modo de vida urbano produz idéias, comportamentos e valores”, sendo que a cidade é a materialização das relações sociais normatizadas por ideologias.

Isso posto, temos que o modo de vida urbano é regido pela ideologia de reprodução do capital na cidade, que se expressa, dentre outras formas, no consumo exarcebado de bens e serviços difundidos como sendo “essenciais”. Esse modo de vida urbano é vivenciado nos países ricos e exportado para os outros países como ideal de felicidade. Sobre esse modo de vida dos países ricos, Baggio (2002) afirma que:

(...) os índices de consumo per capita são, invariavelmente, bem mais elevados do que os verificados nos países do Sul. Por ex., o consumo de petróleo nos Estados Unidos, que com apenas 4% da população mundial

consome um quarto da produção total. Ou ainda um bebê americano médio representa duas vezes o dano ambiental de uma criança sueca, três vezes o de uma italiana, 13 vezes o de uma brasileira, (...), porque o seu nível de consumo será durante toda a sua vida, muito maior. Não é uma estatística tranquilizadora para qualquer pessoa dotada de consciência. Portanto, a problemática ambiental, em suas múltiplas nuances, relaciona-se diretamente com os desequilíbrios de padrões de consumo entre países ricos e países pobres, onde nos primeiros a cultura consumista é praticamente generalizada e fortemente impulsionada pelos favoráveis padrões aquisitivos, contínua e cotidianamente difundida pelos veículos de comunicação. (2002, p.19)

Conforme observado, nas cidades o uso da noção de sustentabilidade urbana torna-se ainda mais complexo, pois os espaços urbanos são incapazes de satisfazer todas as necessidades humanas, sendo dependentes de outras espacialidades, próximas ou distantes, seja de petróleo, energia elétrica, aterros para disposição dos resíduos sólidos urbanos, alimentação, etc. A área de influência da metrópole expande-se cada vez mais, interferindo na dinâmica espacial e ambiental das áreas próximas como zona rural e cidades vizinhas, daí a complexidade da sustentabilidade urbana, pois possui características específicas como demonstrado anteriormente. Sobre isso, Santos analisa que:

Na aurora dos tempos, os grupos humanos retiravam do espaço que os circundavam, isto é, do pedaço de natureza que lhes cabia, os recursos essenciais à sua sobrevivência. Na medida em que a divisão do trabalho se acentua, uma parte cada vez maior das necessidades de cada grupo, de cada comunidade, tem de ser procurada na área geográfica de uma outra coletividade. (...) Chegamos à fase histórica em que a noção de espaço global se impõe com mais força porque as variáveis que ajudam a tecer seu contexto têm uma origem cada vez mais longínqua e um alcance mundial. ( 2002, p. 208)

Ante o exposto, temos que a reflexão sobre os processos de degradação socioambiental nas cidades torna possível compreender que o entendimento da questão ambiental, sobretudo nas metrópoles, necessita ser ampliado e reconstruído, a fim de minimizar os impactos negativos produzidos pelo modo de vida da sociedade, visando a sustentabilidade das cidades, englobando não apenas o espaço local, mas total, como explica Ross:

É preciso tratar e apreender esses diversos lugares, face suas diversidades naturais e sociais, no contexto de sua totalidade, ou seja, no âmbito do ‘espaço total’, envolvendo portanto [sic] sociedade e natureza. Neste contexto, trabalha-se com o presente e o futuro das relações sociedade- natureza, a partir da perspectiva histórica, ou seja, do passado, abrangendo aspectos das fragilidades dos ambientes naturais, e das potencialidades dos recursos naturais. Os objetivos desta concepção estão voltados para o

planejamento e gestão do território dentro da perspectiva ambiental, valorizando a conservação, a recuperação e preservação ambiental. Para isto, entretanto, é necessário envolver análises sobre a natureza e também sobre as questões sociais, culturais e econômicas. ( 2009, p. 132)