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Luftbehandlingssystemer

A princípio, abordar a temática dos resíduos sólidos urbanos pode parecer tarefa simples, porém, acreditamos que cabe à Geografia analisar essa temática com toda complexidade que possui, uma vez que outras ciências, como as engenharias, tendem a abordar a temática apenas do ponto de vista técnico do manejo. Dessa forma, podemos estabelecer conexões entre todos os aspectos envolvidos na problemática dos resíduos sólidos, desde os aspectos econômicos, sociais e ambientais, que iniciam com a extração de recursos naturais para a produção, passando pelo consumo, culminando na destinação dos resíduos.

Assim, discutir a questão dos resíduos sólidos na geografia envolve compreender a cadeia de eventos que se inicia antes mesmo de se gerar um resíduo, a começar pelo consumo consciente. Isso porque não há como se falar em sustentabilidade em uma gestão integrada de resíduos que não contemple a questão do consumo exarcebado, há que se envolver a sociedade que é a geradora de resíduos. Tal observação faz-se cada vez mais importante, principalmente com o aumento dos produtos industrializados no cotidiano, fato já observado por Pierre George há mais de 40 anos:

Mas, ao mesmo tempo, o consumo alimentar deixava de ocupar o primeiro lugar nos orçamentos familiares. Embora conservando um valor simbólico no vocabulário e na atitude das coletividades em relação aos preços dos produtos alimentares, perdeu a preponderância na hierarquia das despesas. Os produtos industriais foram conquistando um lugar sempre maior nos orçamentos individuais e coletivos. (1971, p. 46)

Outro ponto importante, por exemplo, ao se enfocar a questão dos impactos gerados pelos RSU’s, é a necessidade de se levar em consideração também os resíduos primários gerados desde a produção nas fábricas. Isso tudo sem falar nas relações de trabalho e nos catadores de materiais recicláveis, apenas para citar alguns pontos possíveis de investigação pela geografia no que concerne aos resíduos sólidos urbanos.

Sobre isso, os estudos na geografia que tratam da análise dos resíduos sólidos ainda são relativamente escassos comparados à outras linhas de estudo. Em geral, há estudos que abordam a temáticas, mas não como enfoque principal. Outros atentam para importância de se analisar a complexidade da temática dos resíduos sólidos principalmente com foco no contexto do espaço urbano e suas implicações com a questão dos impactos ambientais, da educação ambiental e dos catadores de materiais recicláveis. Além disso, outras linhas de estudo analisam a relação entre resíduos, consumo e capitalismo; percepção ambiental, reciclagem, coleta seletiva e políticas públicas, dentre outros. (GEORGE, 1971; AB’SABER, 1990,1995; BERRIOS, 1993; RODRIGUES, 1998; OLIVEIRA, 2006; LEAL et al, 2002; LEAL et al, 2006; SILVA, 2007; ANTONIO, GOMES, 2008; OLIVEIRA, 2009). Entretanto, não é objetivo desse capítulo esgotar o debate sobre tal, de modo que após essas considerações iniciais sobre os estudos na geografia concernentes aos RSU’s, teceremos algumas análises que julgamos serem fundamentais para compreensão do tema com relação, principalmente, a questão do consumo nas cidades.

Ademais, a proposta não se encerra aqui, buscamos durante os outros capítulos evidenciar a importância de se analisar a questão dos resíduos sólidos sob a perspectiva da complexidade geográfica, entendo a complexidade como uma tentativa de descompartimentar o saber, propondo a união da dimensão ambiental e social, territorial e interescalar da realidade, juntamente com as demais relações que estão envolvidas nesse processo, como a questão econômica, política, cultural, educacional, dentre outras.

Partindo do pressuposto de que a relação sociedade-natureza ocorre principalmente por meio da apropriação desta enquanto produto, bem a ser utilizado para sobrevivência humana, é por meio das técnicas, a sociedade passa a dominar a natureza e a produzir cada vez mais. Ressalta-se que atualmente essa produção é caracterizada como um ato não somente para sua subsistência, mas também para subsidiar “novas necessidades que não satisfazem necessidades humanas enriquecedoras, mas apenas correspondem a modos de vida da sociedade do descartável” (RODRIGUES, 1998, p.16), gerando danos que vão desde a escala local à global, uma vez que as relações e processos envolvidos na tríade produção- consumo-descarte extrapolam territórios.

A compreensão do espaço hoje e das degradações ambientais advindas da ação humana requer analisarmos o espaço como resultado da produção. Sobre isso, Santos (2009, p.202) explica que “o ato de produzir é igualmente o ato de produzir espaço” e afirma ainda que o espaço colabora para a reprodução das relações sociais, possuindo inegável papel ativo na evolução social.

É através da apropriação privada da natureza pelas técnicas que o homem passa a produzir para sobreviver, produzindo assim, o espaço. Com o passar do tempo, as relações sociais tornaram-se mais complexas, as sociedades tornaram-se de classes e estabeleceu-se a divisão do trabalho, possibilitando a geração de excedentes na produção (SPOSITO, 1988).

Dessa forma as cidades foram sendo criadas e atualmente, os centros urbanos concentram boa parte da sociedade, o que possibilita o cenário ideal para a disseminação da cultura do consumo, onde o excedente não é excesso e passar a ser necessário. Sobre isso, Harvey (1980, p.186) explica que “a consciência da necessidade é um produto social; ela é apenas parte da superestrutura ideológica que repousa sobre o funcionamento da base econômica”. Em linhas gerais, Carlos (1994, p.11) explica que o espaço urbano pode ser entendido como “expressão da divisão do trabalho” e afirma ainda que o espaço urbano nos permite apreender as desigualdades e se reproduz “a partir da luta de interesses entre o que é fundamental para a reprodução, de um lado, do capital, e de outro, da vida” (CARLOS 1994, p.12).

Ante o exposto, observamos que é no espaço urbano que repousa a atual necessidade se consumir cada vez mais, pois que isto é necessário para a reprodução do capital e é disseminado como necessário para a vida, resultando numa busca incessante em satisfazer materialmente anseios e desejos (imateriais) que logo são substituídos por outros de acordo com a moda, gerando uma crescente produção de resíduos sólidos urbanos.

Diante disso, não é suficiente uma gestão de RSU’s que contemple apenas o caráter técnico sobre o manejo dos resíduos, sem uma transformação dos padrões de consumo, dos padrões de relação sociedade e natureza, ações que somente são possível por meio de uma educação ambiental problematizadora, política, crítica. A educação ambiental no contexto dos resíduos sólidos deve ir muito além da política dos 3’Rs. Questionar o meio em que vive e as relações de poder, faz parte de uma

educação ambiental emancipadora, capaz de ampliar a percepção das pessoas quanto as questões inerentes aos RSU’s.

Afinal, o problema não se resume à destinação, vai muito além. Envolve a questão do consumo e do descarte, mas destinar os resíduos para reciclagem sem questionar quem os coletam, quem sobrevive deles significa, muitas vezes, alienação em vez de educação ambiental. A gestão dos resíduos deve contemplar ainda, como um de seus aspectos sociais, os catadores de materiais reciclados, vítimas de diversos processos de exclusão social que ocorrem nos centros urbanos.

Dessa forma, faz-se necessário elaborar uma gestão de RSU’s baseada não somente na sustentabilidade e na viabilidade técnica, mas pensada também sobre a ótica socioespacial. Rodrigues (1998) alerta que a sociedade não é homogênea e que, no mundo capitalista, está dividida em classes sociais que se apropriam da produção de riquezas com intensidade diferente. Por isso, a questão ambiental traz, de fato, como afirmou Rodrigues (1998) a complexidade espacial em toda sua dimensão. É preciso analisar não somente as relações entre a sociedade e a natureza, bem como as relações entre indivíduos e as relações de exploração econômica e ambiental que existem no espaço.