Espaço e Tempo são conceitos fundamentais no campo da física, onde não existe apenas um conceito para defini-los. Os conceitos são construídos ao longo da história e da forma como as teorias os absorvem, ou seja, dependem essencialmente do contexto e do modo como nele se manifestam. Quando perguntamos: onde algo está? Ou onde algo aconteceu? Para onde algo/alguém vai? De onde algo/alguém veio? estamos evidentemente nos remetendo à idéia de espacialidade. A idéia de tempo, por sua vez, aplica-se a qualquer objeto que contenha informação sobre, ou esteja situado em relação a alguma localização temporal, algum evento, momento, data, etc. Neste caso perguntamos: Quando algo aconteceu? Com relação ao espaço o que pode parecer contraditório, é na verdade uma questão de posicionamento, de ponto de vista; o tempo, ao contrário, não dispõe de recursos para impedir uma contradição. A diferença basicamente reside no fato de que o espaço tem três dimensões e o tempo apenas uma. Enquanto espaços distintos acontecem simultaneamente e um dado objeto pode mover-se entre eles, o tempo não está em relação a alguma outra coisa, a uma ou outra pessoa, o tempo é único, os diversos tempos acontecem sucessivamente, segundo Reichenbach:
“Se não há mudança, não existe tempo; esta dimensão do tempo, não trata de mutação, mas de movimento, é uma questão de ordenação31”.
31
Hans Reichenbach, citado por Lacey, Hugh M. “A Linguagem do Espaço e do Tempo”, tradução a partir do original “Space and Time”, Editora Perspectiva – SP, 1972, pg. 24.
Frase que pode ser ilustrada com o pensamento: uma causa nunca é posterior ao seu efeito ou que um evento não pode ocorrer em dois instantes diferentes. Ainda do ponto de vista da física, temos a afirmação de que um objeto não ocupa dois espaços, pois mesmo que imaginemos um espaço contido dentro de outro e o tal objeto relacionando-se com ambos, o que teremos será um objeto em relação aos limites de um espaço que ocupa em determinado momento. Suprimir o espaço não parece possível por este olhar; imaginemos que estamos diante de um espaço repleto de coisas, como seria este espaço vazio? Somos capazes de visualizá-lo vazio, sem todas as coisas, talvez faltem alguns detalhes, mas ainda sim, será possível inclusive estimar sua dimensão – pé-direito (altura), profundidade, largura. Se depois disto, tentarmos excluir o espaço como um todo, conseguimos imaginá-lo? E com relação ao Tempo, como seria suprimi-lo? A percepção que temos do espaço provém de uma mesma natureza que a nossa percepção sobre o tempo?
O Espaço soa, para mim, como um elemento mutável, capaz de ser transformado, o Tempo, por outro lado, ao qual percebemos passar na vida real não se transforma, não podemos acelerá-lo ou suspendê-lo, a não ser através da imaginação. Enquanto a física nos limita a definir o conceito de espaço a partir de um evento concreto e não a eventos subjetivos como, por exemplo, percepções, lembranças, desejos, sensações, experiências, as Artes Cênicas nos conferem a possibilidade de manipular, de certa forma, esta ordem, para dizer e mostrar ao espectador, ainda que aparentemente, que um mesmo elemento possa ocupar dois lugares distintos, ou dimensões distintas simultaneamente, apresentar espaços e elementos que suscitem lembranças, sensações. Permite ainda situar um mesmo elemento em épocas – tempos – diferentes e mais, apresentar a conseqüência antes da sua causa, permite inclusive suspender o Tempo e suprimir o Espaço.
Espaço e Tempo no contexto teatral são somados à narrativa, ação e movimento, como componentes através dos quais podemos propor alguma transformação, ou seja, são elementos que permitem a transposição do argumento e da ação a uma outra localização temporal e espacial. Consente inclusive a justaposição dos tempos e espaços propostos pela obra inicial e pela sua interpretação, desde, é claro, que lhe sejam conferidos intenções e significados expressos na relação estabelecida para com o público. A Cenografia trata, portanto, de olhar através de diferentes janelas espaciais e temporais, para criar ou produzir sentido através dos componentes visuais que irá orquestrar, considerando possíveis transformações para os personagens/atores, como também para os espectadores.
O Tempo e o Espaço, no contexto teatral, não são restritos a quando e onde
aconteceu. Importa além da dimensão do espaço e o tempo de duração do evento, o
momento, a referência que se faz a um determinado espaço e tempo. O tempo assim se divide em: tempo real e tempo dramático. A proposição sobre o tratamento do espaço e do tempo pode ser construída pelo roteiro ou dramaturgia, pela direção, pelos elementos visuais da obra, pelo espaço em si. Isso pode ser exemplificado considerando uma dada situação: um espaço inusitado, uma rua, onde o acontecimento teatral terá lugar à luz do dia, situação na qual não há controle sobre esta iluminação. Neste caso será difícil propor a existência de tempo dramático, ou seja, levar o espectador a transcender a percepção de tempo, ficando assim ele, o espectador, retido na dimensão de tempo real, o que pode ser, em alguns casos, parte da intenção cênica. Mas ainda assim, o movimento que terá lugar neste espaço poderá colaborar para conduzir o espectador a distanciar-se por um momento da realidade.
“No espaço, unidades de tempo são expressas pela sucessão de formas, portanto pelo movimento. No tempo, espaço é expresso pela sucessão de palavras e sons, ou seja, por durações de tempo variados que prescrevem a extensão do movimento” . Deste modo, tempo é definido pelo movimento através do espaço, e o espaço é definido pelo movimento através do tempo” 32. Adolph Appia
O espaço teatral não se limita ao cenário ou ao edifício teatral. Ele é um conjunto vivo e orgânico que resulta do diálogo com a luz, o som, o movimento, a presença humana, que se modifica porque se modificam as relações e intenções através dos diferentes contextos culturais, temporais, históricos e políticos. O Tempo teatral por sua vez também não se limita a uma seqüência de unidades de tempo somadas que resultam em passado ou futuro. Ele é, da mesma forma que o espaço, um elemento vivo e orgânico, no qual as dimensões temporais se fundem, se sobrepõem e o ritmo é percebido através das imagens reveladas pelo espaço. São fundamentalmente Espaço e Tempo os aspectos que revelam à nossa percepção que estamos diante de uma fábula, ou ilusão.
32
Jay M. King, “Rets in Time and Space”, tese de mestrado, Universidade da Flórida, Escola de Teatro,