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Prof. Ronald/ UFRJ: O texto, as traduções que temos, conduzem para uma pré-

imagem alegórica, tem rubricas, sugestões, pedi que fizessem uma leitura neutra tentando não incorporar esta alegoria.

Ana/ UNIRIO: Achei muito atual, muito contemporâneo, fala de coisas muitos atuais, foi uma surpresa para mim como acho que foi para todos, um texto muito interessante. Imagino os protagonistas sempre descobrindo algo.

Cora/ USP: Interessante resgatar um texto tão antigo e trazê-lo para nossa

realidade atual e ver o quanto ainda se encaixa, nossa cultura pensada a partir do ideal da cultura grega. Não é exatamente o que gostaria de dizer, o texto é mais político, gostaria de encontrar conotações de caráter mais social e filosófico para focar a minha encenação. Estou achando difícil pegar isto e transformar é a primeira vez que faço um trabalho assim, sinto a dificuldade em transpor.

Marina/ USP: Gostei de ler e principalmente porque é uma comédia, me divirto

com certas coisas que são atuais, aspectos muito filosóficos. Fala-se muito de utopia, utopia como algo não realizável, vejo mais como um cutucão na sociedade. Porque tudo não pode ser realizado? sem niilismo... mas todo mundo tem o poder de comunicar, você pode, faça, está em suas mãos, vocês são os pássaros.

Profª Lídia/UNIRIO: Trabalhamos com três textos, três traduções que pudemos

comparar e você vê direitinho as operações que cada tradutor faz em de acordo com os seus interesses.

Aluna 2 /UFRJ: Vejo como uma busca.

Prof. Ronald: Busca de que?

Julie/ UFRJ: De todo este mal que eles querem fugir, mas eles acabam entrando neste mundo do qual eles tentam sair e acaba que não saem, fazem o percurso e retornam para o mesmo ponto de partida.

João/ USP: A figura de Pisétero, vejo ele como qualquer outro homem que

deseja tomar o poder sobre os demais.

Alan/ UFRJ: Ele sofre uma mudança de comportamento... A principio ele queria uma cidade ideal longe da corrupção, mas acho que ele passa a ter uma postura de ditador e assumindo a cidade só para ele, que a cidade sirva a ele a suas vontades, chega até a expulsar outros. O idealismo dele muda.

Marina/ USP: A corrupção é um problema mundial, não é isolado, é intrínseco

ao ser humano, existe a corrupção em maior ou menor escala. Pisétero não quer abandonar a cidade, quer montar outra sem corrupção. Não entro no mérito de dizer se é possível ou não.

Paula/ UFRJ: O tempo inteiro o protagonista tem esta intenção de ser semi-

deus – de controlar, de convencer os demais, manipulá-los para se tornar um deus. Intuitivamente ele sabe quando pode forçar o caminho, é uma trajetória. Quando ele ganha asas passa a controlar tudo.

Nizia/ USP: A individualidade, ela não conta mais diante dos nossos problemas, eu sempre fui a favor da individualidade, mas quando você precisa acionar algo a partir do individual você não consegue, precisa partir do coletivo.

Melina/ UFRJ: Todos queremos um lugar melhor, não pensei em construir a cidade, a gente não a vê; penso no aspecto psicológico da peça, do que aconteceu com ele neste nível.

Ana Emilia/ USP: Eles vão contando aos poucos para as aves suas intenções, e você tem a impressão sempre de que não está tudo dito, tudo falado.

Janaína/ UNIRIO: Para mim neste texto eles não vão a nenhum lugar, é sempre o

mesmo, eles não voam, instaura-se um jogo de palavras. Estão criando uma cidade que tem uma ideologia, mas no fim não passa de uma reprodução do que já existe.

Lucas/ UFRJ: Eles querem um lugar ideal só para eles que só as aves podem alcançar.

Julie / UFRJ: Eu pensei na palavra como se fosse uma ascensão.

Marieta/ UNIRIO: O vôo... Comecei a verificar no texto, e tivemos também a visita do Paulo Maciel, teórico de teatro, esta questão da palavra no texto, a autora de uma das traduções, que é resultado de sua tese de doutorado, defende a palavra, ela diz que o vôo é através das palavras, não é um vôo explicitamente.

Viviane/ USP: “As Aves” está pautada no discurso, o convencimento pela

palavra.

Simone/ UNIRIO: Tudo acontece na imaginação deles, não existem asas, não existem aves, não existe nada, tudo é uma criação deles. Eles estão no mesmo lugar.

Janaína/ UNIRIO: A partir de um texto de Sócrates que traz a idéia filosófica de que

não havia cidade perfeita, que ela estava na cabeça dos homens e que esta era construída por palavras e ela estava no céu porque as palavras voavam, acho que quando Aristófanes propõe esta cidade no céu é baseado nas palavras de Sócrates, fazendo referência a ele ou para criticá-lo... eles tinham uma picuinha.

Prof. Marcelo/ USP: Onde está o texto? Não perder Aristófanes de vista, não perder o

foco. (os alunos de Artes Cênicas e Letras trazem mais a discussão sobre o texto, procuram outras adaptações, investigam, questionam se a cidade realmente aparece).

Prof. Ronald/ UFRJ: A primeira coisa que a gente percebe é que os dois personagens

começam imobilizados por uma insatisfação, eles não estão em uma cidade ou percurso – estão num ir ou retornar, como eles (os alunos) perceberam agora.

“Quando você começa estudar a história do teatro você chega a um ponto em que as pessoas se libertam do texto, daquilo que ele exige, você seleciona e faz o que o que te interessa. Qualquer peça pode ter uma leitura interessante para o nosso tempo se você fizer com que ela tenha, se a encenação trouxer o texto para o mundo que você está. Nas Aves a comédia é uma das formas mais lindas de se criticar – a construção de uma cidade e de como as pessoas depositam ali seus sonhos. A utopia está ali até o ponto que se torna real, independente se é bom ou ruim, ali morre o sonho e começa a realidade”.