• No results found

No desenho sobre a família há quatro rostos (é o número de membros de sua família) um ao lado do outro. Embora próximos cada um, olha numa direção, parecendo não haver relação entre eles. Todos olham com olhares sérios, pensativos. Predominam as cabeças e parte dos bustos tenuemente riscados. Falta o contato com o chão. Segundo Campos,4

a cabeça é a parte do corpo onde se localiza o eu. Há, portanto, ênfase no desenho da cabeça. (...) A maior parte do auto conceito do indivíduo está localizado na cabeça. A cabeça é considerada como o centro do poder intelectual, social e do controle dos impulsos corporais.

Ainda segundo Corman5 a área da página usada tem um significado gráfico, por referência às noções clássicas sobre o simbolismo do espaço.

4 CAMPOS, Dinah M.S. O teste do desenho como instrumento de diagnóstico da personalidade.

Petrópolis: Vozes, 1987, pp. 77-78.

A área do alto da página refere-se à expansão imaginativa, a área dos idealistas! A parte baixa da página é a zona dos instintos primitivos da conservação da vida. A área à esquerda é a do passado, é própria dos sujeitos que regridem à sua infância, e a área à direita é a do futuro6.

No caso do desenho de Siro, os sujeitos ocupam a área central da folha na parte média superior e predominam as cabeças. Segundo Corman a área dos idealistas. Parece ser, no caso de Siro, seus ideais ainda estão em nível intelectual, sendo pouco enraizados no emocional (vivencial) o que poderia denotar um nível de convicção pouco profundo. Nesse sentido suas respostas predominantemente acadêmicas são reflexos dessa situação, o que condiz com a interpretação de Campos a respeito do predomínio do intelectual. Psicologicamente falando pode-se supor em Siro o uso frequente dos mecanismos de defesa: “racionalização” e “intelectualização” 7

Em relação ao desenho sobre Deus, Siro usa esquemas gráficos próprios dos usados em sala de aula. São dois gráficos que ocupam quase a totalidade da página sendo a parte não ocupada a inferior. Essa configuração parece enquadrar-se naquilo que foi dito na interpretação de Corman e de Campos, já apresentada no desenho da família. Olhando para o desenho, aparece imediatamente o caráter nitidamente escolar dos dois esquemas, o que dispensa maiores comentários.

Como se vê desta breve análise, há uma continuidade e coerência entre o discurso explicativo de Siro e as respostas que dá ao questionário sobre Deus e os desenhos que são símbolos de sua percepção e relação objetal. O predomínio é sempre o da teoria e do desejo. O tom vai quase sempre à direção do escolástico.

6 Tradução nossa.

7 Racionalização: “mecanismo de defesa mediante o qual se encontra uma justificativa racional para o

sentimento, emoção ou comportamento de outra forma inaceitável” (p. 244). “Intelectualização: mecanismo de defesa mediante o qual todo conflito e problema é transferido ao nível de problemas racionais com a finalidade de negar-lhes a existência em nível emotivo” (p. 237) cfr. RULLA, L.M.

Uma possível interpretação à luz da teoria de Rulla, poderia ser a de que Siro tem em sua psicodinâmica uma predominância da segunda dimensão8 que é aquela, em que elementos inconscientes distorcem a realidade ou levam o sujeito a ter expectativas irrealistas em relação a seus ideais. Outras observações estão na análise complexiva do parágrafo seguinte.

1.6. Análise complexiva

Siro, como se viu nas observações acima, se “traduz” (se deixa conhecer) pelas suas respostas acadêmicas e estereotipadas ao questionário sobre Deus. A mesma ênfase aparece na auto percepção que se revela nas respostas ao questionário sobre Família e no “Escrever um Evangelho”. As “palavras-chave” que emergem de suas respostas e também da entrevista e desenhos, parecem revelar um Siro que desconhece a si mesmo9. Em outras palavras, alguém que desconhece aspectos importantes de sua vida, de modo especial com sua maneira de lidar com a realidade. Pode-se inferir que ele ainda não elaborou sua experiência existencial de forma genuína, autônoma. Parece que sua identidade baseia-se muito naquela projetada sobre os outros (mito = criado para ser o melhor). Seu mito pessoal10 não dispõe ainda de uma feição pessoal própria. Suas respostas, na verdade, refletem um momento em que ele não tem bem definida para si uma elaboração pessoal de suas experiências (“vivemos noturnamente”). Sua auto- compreensão é pouco profunda, não consegue fazer uma síntese realística de sua experiência vital. Por isso também suas “palavras-chave” (e frases bíblicas) chegam apenas e ficam no nível das aspirações e provavelmente escondem aspectos que ele desconhece. Os significados simbólicos que aparecem em suas respostas revelam esses aspectos desconhecidos por ele. Dizem, portanto, mais do que ele tem consciência de si. Mostram mais seu estágio atual de auto compreensão. Suas palavras-chave: “busca,

9 Este auto desconhecimento pode ser compreendido através da Janela de Johari , um esquema criado para

indicar quatro aspectos do eu. Ela é assim representada: uma área pública que corresponde ao aspecto conhecido pelo sujeito e pelos outros; uma área secreta que se refere ao aspecto conhecido somente pelo sujeito mas desconhecido pelos outros; uma área cega, que é desconhecida pelo sujeito, mas conhecida pelos outros e uma área subconsconsciente que é desconhecida tanto pelo sujeito como pelos outros. Cfr. LUFT, Joseph e INGHAM, Harrington. The Johari window, a graphic Model for Interpersonal Relations. Los Angeles: University of California Press, 1995.

10 Segundo McAdams, op. cit., p. 266. O conceito de identidade que é o mito pessoal que alguém constrói

para definir quem ele é. Todos os seus comportamentos conectam-se de uma maneira ou de outra com sua personalidade como um produto de traços, motivos etc. na interação com seu meio ambiente. Porém somente aqueles comportamentos e episódios na vida que tem significância para a questão quem sou eu? Estão conectados com o mito pessoal (tradução nossa).

desejo e encontro” compreendem significados simbólicos que vão além das explicações que ele dá. Elas têm relações com o texto evangélico, em que se fala de “Nicodemos”11. Siro vê Nicodemos como aquele que busca Jesus à noite. Há aí uma identificação com esse personagem que apesar de “douto” em Israel, não entendia o que Jesus lhe dissera “necessário nascer de novo”. Em Siro, sua busca por “encontro”, parece refletir, antes de tudo, a necessidade de um encontro consigo mesmo, condição primeira para que seu encontro com os outros possa ser mais genuíno. Como ele próprio diz é preciso “sair da noite e andar à luz do dia”, pois, há um “labirinto escondido” (EP) dentro de cada pessoa. “Quantas vezes tenho vivido a experiência do renascimento dentro de várias situações que acompanho ou eu mesmo” (EP).

Pode-se concluir que estas palavras-chave sejam verdadeiros “paradigmas” para Siro. Veja-se, por exemplo, sua frase preferida do Evangelho (QE5) com a qual parece ter uma relação bastante evidente: “quem não renascer da água e do espírito não pode ver o reino dos céus”. É necessário, portanto, ser diferente do que é atualmente para que seu “desejo e encontro” se realizem no futuro QE8 que ele entrevê apenas no nível idealizado: “junto a vós felicidade sem limites, delicia eterna e alegria ao vosso lado” (Lema escolhido para sua ordenação).

Desta análise pode-se estabelecer uma relação com a contribuição de Rulla que afirma que um valor proclamado não significa necessariamente que ele esteja internalizado12. Como diz:

Os valores, as atitudes ideais são proclamadas, mas a sua função pode ser diferente no nível subconsciente: eu posso proclamar que quero dar aos outros, mas não percebo que, subconscientemente, dou para receber, como se viu falando do processo de simbolização. Uma coisa são os valores

11 Jo 3, 1-30.

autotranscendentes sentidos e proclamados e outra coisa são os mesmos valores vividos como motivação positiva ou negativa diante da autotranscendencia.

Nesse sentido, não basta que Siro diga que uma determinada frase do Evangelho seja a frase preferida para que ela realmente expresse sua realidade e sua convicção. A frase pode apontar para um ideal desejado, mas ainda não encarnado existencialmente.

Olhando o caso Siro pode-se dizer que sua representação de Deus, embora já presente, precisa evoluir para chegar ao nível por ele almejado com sinceridade, mas ainda fruto de representações não suficientemente amadurecidas. É como diz Rizzuto13:

Cada indivíduo produz, ao longo do desenvolvimento, uma representação idiossincrática e altamente personalizada de Deus, derivada de suas relações objetais, suas representações em evolução do self e seu sistema ambiental de crenças. Uma vez formada, é impossível fazer com que essa representação complexa desapareça; ela tão somente pode ser recalcada, transformada ou usada.

Nessa perspectiva as frases bíblicas, (palavras-chave) por ele elegidas, podem ser lidas no contexto de um processo de reelaboração das “representações de Deus” impregnadas pela religiosidade familiar e pelas figuras de seu pai, de sua mãe e de sua avó que lhe ensinavam que Deus estava presente nas várias situações da vida, que essa mensagem marcante estava resumidamente traduzida nas expressões repetidamente ouvidas por ele na infância “vai com Deus”, “fica com Deus”, “dorme com Deus”. Parece que essas “palavras chave” da religiosidade familiar alimentaram em Siro uma “representação” positiva de Deus. Por um lado, é uma imagem grandiosa (onipotente), objeto de admiração e encanto, mas por outro lado, é alguém a quem se deve ser submisso para merecer seus “cuidados”. Essa representação de Deus é para Siro atraente, mas distante de sua experiência existencial. No momento atual ele a vive

em forma de “desejo”, pois ainda luta para “sair da noite” para a luz, e sonha um “encontro” personalizado com Deus, o que está patente no seu lema de ordenação sacerdotal: “junto a vós felicidade sem limites, delicia eterna e alegria ao vosso lado”. Note-se que esta frase é a que ele afirma ser a que mais se aproxima da maneira como se vê. (QE8); é também a que deixaria para ser colocada em seu túmulo (QE11). Essa insistência que recai três vezes sobre a mesma frase parece indicar que ela reflete algo muito especial. O Deus assim “desenhado” e sonhado não corresponde às palavras-chave carregadas de ambigüidade e vacilação (“busca, desejo e encontro”), que em sua experiência existencial ainda não se concretizaram. Rizzuto14 lembra com propriedade a complexidade do processo que leva a uma representação adulta (talvez nunca alcançada) de Deus, quando escreve:

O processo desenvolvimental de formar uma representação de Deus é excessivamente complexo e é influenciado por uma diversidade de fenômenos culturais, sociais, familiares e individuais, que vão desde os níveis biológicos mais profundos da experiência humana até a mais sutil das realizações espirituais.

No caso de Siro a formação da representação de Deus, especialmente quando associada ao fato de Siro se auto perceber como alguém nascido para ser vencedor (“criado para ser o melhor”) (EP). É uma visão de si alimentada por uma grandiosidade inconsciente (aspecto narcísico) que se reflete em sua explicação das expectativas dos outros em relação a si “... fui criado pelos meus pais, também pela escola e de tudo o mais prá ser uma pessoa que ..., extremamente competidora e sempre fui criado para ser o melhor ... também dentro do ambiente acadêmico (...) até hoje na faculdade é uma coisa que não ligo, não faz nenhuma diferença para mim, mas eu sei que os olhares são pela eficiência das coisas que eu faço, pela qualidade das minhas ações, do que

produzo e tudo o mais, eu sei que eu sou olhado dessa forma e esperam de mim (...) eu acho isso um erro da pessoa, porque é essa perspectiva que nós temos que viver, mas de qualquer forma eu me sinto também no dever de cumprir bem e fazer bem aquilo que preciso fazer”(sic).

Nessa ótica pode-se concluir que suas palavras-chave e seus símbolos falam mais de si do que ele próprio consegue explicitar em seu discurso intelectualizado, mostrando que suas palavras-chave revelam mais dele do que ele próprio tem consciência.