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Aceitando as leis do inconsciente e seu funcionamento não estamos afirmando que somos prisioneiros dele. Realçamos seu papel e sua importância para entendermos ao menos em parte o porquê de muitos comportamentos contraditórios e palavras-chave que revelam o modo como o sujeito se percebe e se relaciona com o ambiente que o cerca.

Contudo é preciso levar em conta também a capacidade de o ser humano desenvolver-se. Este é um processo que o acompanha ao longo da vida. Sempre mais se pode conhecer-se mais, descobrir-se mais, tornar-se mais.

Vale recordar aqui o comentário de Trevisol183 sobre essa questão

Desenvolver-se como ser humano é tornar-se aquilo para o qual temos sido feitos. Esta gama de potencialidades que perfaz todo o mistério do ser humano é dada, mas não revelada. O ser humano encontra-se nela, todavia precisa reconhecê-la, despertar para ela e identificar-se com ela: é preciso que ela se torne consciência. Desenvolver-se, conseqüentemente, é acordar o ser, torná-lo realidade concreta, em contínua relação com o Mistério mais Alto Original e Absoluto, para que seja alcançado o mais alto nível de humanidade possível no ser humano, de tal modo, que ele possa tocar a mais alta sabedoria mística. Por isso, o ser humano é também mistério. E do sucesso do percurso ninguém é seguro. A única certeza que cada um tem é o grau de consciência que já fora alcançado. E, ainda assim, permanece o

183TREVISOL, Jorge. (tese de doutorado) “Consciência ampliada e educação, correlações entre níveis

de consciência e modo de ensinar. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre), 2005, pp. 198-199”. (Área da Educação - Tese não publicada).

desejo de ir além. Assim que, nunca ninguém poderá dizer: “cheguei”; no máximo afirmaria, “hoje sou mais eu do que ontem, mas ainda me sinto pouco”. Pois, se de fato, o inconsciente todo se atualizasse e se revelasse na totalidade, se tudo se tornasse consciência, o ser humano se tornaria Absoluto, que seria o mesmo que ser Deus.

O inconsciente, embora não seja acessível espontaneamente, pode-se chegar a ele por diversos caminhos que a psicologia hoje conhece. Por exemplo, por meio de testes projetivos, como também por técnicas de entrevistas, hipnose etc. Justamente porque ele é dinâmico, ativo pode-se também decifrar sua linguagem simbólica e inferir significados subjacentes às suas manifestações conscientes. A figura iceberg, muitas vezes usada para ilustrar a topografia da mente, mostra que a parte emersa é a zona do consciente e a imersa aquela subconsciente que engloba tanto a parte pré-consciente como a inconsciente. Nessa figura fica evidente que o maior volume é o que fica submerso. Podemos chamá-lo de campo existencial dos conteúdos do inconsciente. Tais conteúdos se compõem do resultado daqueles originários de recalques (repressões) como dizia Freud, como também por aquelas transposições imediatas e sedimentações progressivas184, bem como por dons ainda inexplorados.

Nosso inconsciente é uma fonte de informação sobre o nosso mundo interior, é lá onde moram nossos mitos, é a “biblioteca” que guarda nossos arquivos que registraram e continuam a registrar aquilo que aconteceu conosco e continua a acontecer. É lugar “secreto” onde dormem nossos sonhos que o consciente nem sempre consegue despertar e torná-los realidade, porque estão envolvidos por mistérios que a mente humana guarda, mas nem sempre tem domínio sobre eles. Eles podem permanecer sem interpretação. Nossas palavras-chave são ecos destes arquivos que ali

residem e uma expressão simbólica que tenta comunicá-los ao nível consciente do sujeito e para os outros.

8.

INFERÊNCIAS PRELIMINARES

Do acima exposto podemos agora formular em breve síntese de algumas linhas de convergências entre os principais autores citados, como Rulla, Frielingsdorf, Rizzuto, Aletti, McAdams que parecem corroborar a hipótese de trabalho que pretendemos demonstrar pela pesquisa de campo realizada.

Como dissemos no início, nossa investigação pretende provar que podemos conhecer em maior profundidade um sujeito através de seus leitmotif ou palavras-chave que o revelam em suas duas faces, aquela conhecida (consciente) e aquela oculta (inconsciente). Na discussão que fizemos nos servindo dos estudos de Rulla, ficou evidente que o ser humano, ao longo de seu desenvolvimento, organiza para si um “modus vivendi” calcado numa ótica tridimensional. Cada uma delas responsável por manifestar um aspecto da complexa dinâmica do mundo das motivações intrapsíquicas que dão o colorido às vivências do sujeito. De modo particular, parece corroborar nossa tese, a assim chamada segunda dimensão, como já vimos, que revela ao mesmo tempo aspectos conscientes e inconscientes do sujeito e forma dinamismos internos de dois tipos. Uma das tendências de crescimento, o assim chamado pólo progressivo e outro de tendência regressiva, o pólo regressivo185; este último tende a formar círculos viciosos, deixando o sujeito enclausurado sob a força de sua dinâmica no seu passado, repetindo esquemas infantis, bloqueando assim seu crescimento para uma posição mais adulta e um relacionamento com a realidade de forma mais objetiva. É o caso dos sujeitos de

nossa pesquisa, classificados como aqueles das respostas predominantemente acadêmicas e estereotipadas186 Ainda mais os símbolos como elaboração que dizem respeito às relações entre sujeito e objeto. São núcleos que se formam, segundo Rulla, em torno de necessidades dissonantes, que se tornam inconsistências intrapsíquicas187. Em nosso modo de entender, tais inconsistências são os “núcleos” onde se situam as interpretações distorcidas que se manifestam nas palavras-chave no seu aspecto subjetivo inconsciente do sujeito.

Uma segunda inferência na linha de nossa hipótese podemos tirar da discussão de Frielingsdorf que constatou em seus estudos a existência de “posições chave” em relação a Deus. São vários os exemplos citados em sua obra188. Aquilo que lá ele aplica à questão de Deus pode-se dizer que vale também para outros “conceitos chave” que são usados no cotidiano da pessoa para indicar a compreensão de si mesmo e de sua visão da realidade com a qual se relaciona. Em outras palavras, manifestam não só a percepção que o sujeito tem de si e de suas experiências como também seu modo de relacionar-se com a vida e aquilo que lhe diz respeito.

Rizzuto, por sua vez, demonstrando a formação das representações de Deus (e dos objetos) ao longo da vida, num constante movimento de mutação, contribui para a compreensão do desenvolvimento e da escolha das palavras-chave bem como sua imersão no inconsciente e sua influência sobre o consciente. Em o Nascimento do Deus vivo ela deixa clara essa hipótese sobre o desenvolvimento dessa representação, afirmando que não se trata do Deus transcendente das religiões, mas de suas representações internalizadas. É com elas e através delas que o sujeito vivencia sua experiência de fé ou não fé.

186 Veja-se Capitulo II - critérios de classificação das respostas. 187 AVC-I, pp. 369s.

Podemos nos apoiar nela para afirmar que nesse processo de formação das representações de Deus “nascem” também suas manifestações através das palavras- chave com as quais o sujeito exprime sua relação com ele.

A preocupação de Aletti em demonstrar o sentido da “ilusão”, valendo-se de conceitos winnicottianos, como o do objeto transicional, permite entender o sentido escondido, simbólico das palavras-chave. É na transição objetal mal feita ou incompleta que se fixam os núcleos internos e podem se manifestar nas palavras-chave.

A discussão sobre a criação de nossos mitos e suas funções em nossa vida apresentados por McAdams nos ajudam a entender o porquê da necessidade de “palavras-chave”. Elas são as “portas vozes” de nossos mitos. Seus canais de comunicação de suas representações.

Podemos dizer, em síntese, que os autores acima, embora seus estudos tratem de diferentes aspectos, têm como objeto comum a psique humana. Seus enfoques são diferentes, mas acabam por apontar caminhos convergentes no sentido de nossa hipótese. Em Frielingsdorf, está explicita a função das palavras-chave como expressão dos diferentes significados atribuídos à imagem de Deus, nos demais (Rulla, Rizzutto, Aletti, McAdams) as diferentes formas de relacionamento.

Conclusão

Parece ficar claro que as palavras-chave cada sujeito humano escolhe (elabora) para falar de suas experiências e (convicções) é uma espécie de “marca registrada” que revela sua “identidade” na relação com seu mundo interno e em suas manifestações e relações com o mundo externo. Podemos dizer que o sujeito “se traduz” para os outros em sua complexidade através de seus símbolos que o identificam. Suas palavras-chave

são seus “porta-vozes”, que indicam seu mundo conhecido e desconhecido, suas perspectivas e suas distorções frente à realidade. Suas palavras-chave são a manifestação original de seu presente, resultado de um processo que foi ocorrendo ao longo de sua vida. Nesse processo, não linear, houve fixações e retomadas carregando consigo suas experiências e suas lutas, mostrando assim sua capacidade de evoluir mesmo carregando fardos inapropriados para expressar toda sua riqueza pessoal e revelar um ser ainda inacabado.

Cabe-nos agora demonstrar por meio da pesquisa, as conclusões acima referidas. É o que vamos fazer nos próximos capítulos

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO II