3. Metode
3.8 Validitet og reliabilitet
Em resumo, então, a interpretação de EN II.4 segundo esses autores me parece ter dois problemas: por um lado, quando se trata da ‘negação do que fora assumido para as técnicas’, o contraexemplo aristotélico não considera um possível contra-ataque. Ele parece situar-se em uma esfera conceitual que não é a esfera conceitual da objeção. A objeção, lida da forma proposta, não consideraria o ato técnico realizado por acaso como um ato técnico efetivo. Isso seria interessante para minha tese de que Aristóteles não adota aqui um método dialético, pois, lendo o trecho dessa forma, seria lícito sustentar que ele não responde à objeção com justiça, que ele se furta ao diálogo. Mas isso seria chegar a um resultado que me interessa por vias erradas.
Por outro lado, a distinção entre ação prática e ação produtiva se faz às custas de uma caracterização equivocada da última. Haveria uma proposta melhor?
Vejo duas soluções possíveis.
21 The things that come about through the agency of skills contain in themselves the mark of
their being done well, so that it is enough if they turn out in certain way.
22 The products of technical skills determine in themselves whether their producer has done well;
Por um lado, o teor da objeção e o teor da resposta aristotélica podem ser apreendidos se notarmos o seguinte: de alguns atos técnicos, simples como escrever ‘casa’ com ‘s’ ou colocar por acaso a cravelha na posição justa de forma a afinar a corda respectiva, é correto dizer que eles podem ser obtidos por acaso. Mas certos resultados técnicos complexos, como escrever uma peça de teatro ou tocar um trecho de execução complexa em um instrumento, não podem ser obtidos a não ser por aquele que possui a técnica. Nesses casos, a obtenção do resultado testemunha a posse do artifício por parte do artesão. Vale aí a premissa da objeção: se alguém realiza um ato de gramática ou um ato de música, essa pessoa é um gramático ou um músico, mas não é para qualquer ato de gramática ou qualquer ato de música que isso vale. A primeira parte da refutação aristotélica se dá justamente no sentido de estabelecer essa diferença: há atos técnicos realizados por acaso, e desses não se pode dizer que seus autores são já técnicos.
E por que para os atos técnicos complexos a técnica do artesão se evidencia? Porque, quando se trata da técnica, os resultados têm seu bem em si mesmos. Basta, portanto, que eles sejam de um certo tipo (corretos) para que se evidencie neles a presença da técnica aplicada pelo artesão. Basta que os resultados sejam de um certo tipo (adjetivalmente corretos) para evidenciar que eles foram obtidos da maneira correta (adverbialmente corretos).
Por oposição a isso, a tese aristotélica quanto à ação prática é: a correção do resultado não evidencia a virtude do agente. A virtude é silenciosa.
Por outro lado, notemos que a orientação geral desse exame do capítulo se dá no sentido de encontrar uma distinção eficiente entre ação produtiva e ação prática. Algumas páginas atrás, eu afirmei que o contraste entre ambas se perdia quando, ao rejeitar uma leitura de pendor kantiano, atribuíamos à ação prática a seguinte caracterização: ‘não por ser justa (tomando como exemplo a justiça), ela foi realizada de maneira justa’, pois igualmente, da ação produtiva, poderíamos dizer: ‘não por ser correta, ela foi realizada da maneira correta’. Essa foi a constatação que me levou a, mantendo essa caracterização para a ação prática, procurar uma outro maneira de caracterizar a ação produtiva a fim de estabelecer o contraste entre ambas. A exigência de se procurar essa caracterização alternativa era evitar a leitura de pendor kantiano, que fazia das intenções do agente a salvaguarda do caráter virtuoso da ação.
Há, entretanto, outra maneira de estabelecer esse contraste. Podemos manter para a ação produtiva a caracterização que nos parecia trivial, ou seja, que via a caracterização da segunda parte do texto como uma teorização robusta do contraexemplo aristotélico da ação técnica realizada por acaso e procurar o contraste entre ação produtiva e ação prática sem atribuir a Aristóteles uma tese de pendor kantiano. A leitura é interessante porque coloca em cena considerações a respeito do bem. Aristóteles afirma que ‘aquilo que é realizado por meio da técnica tem o bem em si mesmo: basta, portanto, que tenha certas características ao ser produzido’. Minha busca se deu no sentido de encontrar alguma propriedade para a qual ‘ter certas características’ fosse condição suficiente. Para Irwin, Rowe e Taylor, ‘ter certas características’ era condição suficiente para chancelar o processo de produção. Na primeira solução de leitura apresentada, ‘ter certas características’ é condição suficiente para, em certos casos, testemunhar a posse da técnica por parte do agente.
Mas poderíamos entender de outra maneira: ao produto, produzido por acaso ou não, basta a ele ter certas características para ser bom. Um bom vaso se basta. Por contraste, não basta a ação ser justa para que ela seja um bem, ou ainda, se ela é apenas justa, ela pode ser um bem, mas não no mais alto grau. Ela será um bem no mais alto grau se for o resultado do exercício da virtude do agente. Quando Aristóteles afirma que ‘aquilo que se faz segundo as virtudes, não por ter certas características, foi realizado de maneira justa ou temperante’ ele está dizendo ‘aquilo que se faz segundo as virtudes, não por ter certas características, é um bem no mais alto grau’. Será um bem no mais alto grau se o agente o fizer sabendo, por meio de uma escolha deliberada em que se delibera a ação por ela mesma, e de maneira firme e inamovível. Ou seja, será uma ação eudaimônica. Dessa forma, entende-se porque o saber, no caso da ação prática, não é importante, mas os outros dois critérios ‘tudo podem’ (1105 b3-4). Eles podem tudo no sentido de serem causas próprias da felicidade do agente.
Em ambas a leituras a refutação aristotélica, assim me parece, ganha coerência. A primeira parte da refutação, a ‘negação do que fora assumido para as técnicas’, na verdade não refuta completamente a objeção, nem pretende fazê-lo, apenas coloca em termos apropriados o que estava indistintamente assumido e, dessa forma, prepara o contraponto correto entre técnica e virtude. É a segunda parte da refutação a mais fecunda. E o marcador textual por qual Aristóteles a introduz, ‘além disso’ ( - 1105 a26) deve ser lido não com caráter aditivo, mas enfático, algo como ‘além do mais,
propriamente falando, nem semelhança há entre técnica e virtude’. Da mesma forma, ganha coerência a maneira como Aristóteles introduz a primeira parte da refutação, exatamente nos moldes como havíamos suposto: 1. a objeção certamente não tem razão de ser em se tratando das virtudes; 2. talvez ela fosse cabível no caso das técnicas, mas 3. isso não se dá assim nem mesmo na esfera técnica.
De qualquer forma, Aristóteles não parece realmente preocupado com o fato de que alguém pudesse objetar que o ato técnico por acaso não é realmente um ato técnico. Em qualquer das duas leituras essa objeção poderia ser feita.
Devemos notar, enfim, que a caracterização da ação prática não nasce de alguma manobra dialética. Que a ação prática deva ser realizada com vistas a ela mesma (ou seja, que ela deva ser resultado de uma escolha deliberada em que se delibera a ação por ela mesma) não é uma prescrição que se fundamenta no recenseamento de qualquer opinião que seja. Esse é um resultado importante para a segunda parte da tese. O caráter prescritivo da Ética Nicomaqueia não se baseia em opinião alguma.
SEGUNDA PARTE - FELICIDADE CONTROVERSA: VOLIÇÃO,