5. Konklusjon
5.4 Teoretiske implikasjoner og fremtidig forskning
quais (exatamente como os pintores: Polignoto figurou melhores; Pausânias, piores;
Dionísio, iguais), é evidente que cada uma das mímeses mencionadas terá essas
diferenças
70,71, e será diferente por, dessa maneira, mimetizar coisas diferentes.
66 A repetição existe também no original grego, só que de forma mais elegante, pelo uso do particípio presente
junto ao verbo conjugado. Em português, o trecho destoa, situação agravada pela opção de usar a perífrase ‘realizar a mímese’, que o sobrecarrega (ver nota 9 do capítulo 1).
67 ‘pessoas que agem’ é a perífrase em português do particípio presente grego práttontas. Preferiu-se a perífrase
ao substantivo ‘agentes’, ele próprio na sua raiz também um particípio presente latino, mas ao qual o uso agregou outros significados que acrescentariam à frase outros possíveis sentidos alheios a ela.
68 Aqui se diz que a mímese tem por objeto “pessoas que agem”, ao passo que, na definição de tragédia,
apresentada no início do capítulo 6 (1449 b 24-28), diz-se que ela, a tragédia, é a imitação de uma ação. A questão não é de pouca importância, uma vez que a ação, identificada ao mito, é a parte mais importante da tragédia, “seu princípio e como que sua alma” (1450 a 38). Acrescente-se a isso o fato de que o mito tem o primeiro lugar em detrimento mesmo do caráter dos personagens, como afirma expressamente Aristóteles em 1450 a 16: ‘A tragédia é mímese não de homens, mas de uma ação e da vida’. Cabe chamar a atenção para o que parece ser uma divergência entre o capítulo 2 (a mímese é uma mímese de pessoas que agem, e essas, as pessoas, são virtuosas ou viciosas) e o capítulo 6 (a tragédia é a mímese de uma ação virtuosa – ou, conforme propomos, ‘mímese de uma ação em que a virtude está implicada’ (cf. nota 5 do capítulo VI) – o que, para a tragédia, é mais importante que o caráter de quem age). Primeiro devemos nos acautelar contra uma possível objeção: o particípio presente grego práttontas, traduzido pela perífrase ‘pessoas que agem’ (ver nota 2) não permite que se escolha de forma inequívoca qual a sua ênfase, se no sujeito da ação (as pessoas que agem) ou se na ação propriamente dita (as pessoas que agem) e, na segunda hipótese (se ele se centra na ação), não haveria grande distância entre os capítulos 2 e 6: se trata, nos dois casos, de privilegiar a ação. Entretanto, a seqüência do capítulo 2 não deixa dúvidas: os agentes é que são ditos virtuosos ou viciosos, é do caráter deles que o tratado se vale para distinguir as diferentes artes miméticas. Se há um propósito em focar o agente, isso só pode ser entendido como um meio mais adequado para chegar à finalidade do capítulo, que é distinguir as diferentes artes miméticas, notadamente a tragédia da comédia. É mais evidente que os homens são virtuosos ou viciosos. Essa forma de apresentar o assunto está de acordo com o trecho da Física citado na nota 6 do capítulo 1 (Física I - 184 a 16 et seq.): o percurso do conhecimento se faz a partir do que é mais cognoscível e claro para nós em direção ao que é mais cognoscível e claro por natureza. Também não se deve excluir a hipótese de que, ainda que a tragédia seja a mímese de ações, e que nela a ação ocupe um lugar de destaque, o mesmo não necessariamente se dá nas outras artes miméticas: no início do capítulo 5 se diz que a comédia é a mímese de homens viciosos, sem que se privilegie a ação. E é ainda uma questão em aberto saber até que ponto a música pode mimetizar ações. Ela parece mimetizar antes caracteres (Política - VIII, 6, 1340 a 18-39). O capítulo 2, abrangendo sem distinção todas as artes miméticas, deve centrar-se no que é mais comum a todas.
69 Vício e virtude são conceitos éticos que aqui entram sem mais detalhes e que não fazem jus, pela sua simples
menção, às nuances da psicologia moral aristotélica. Entretanto, são suficientes para diferenciar a tragédia da comédia.
70 O esquema sintático que a tradução adota foi usado por Dupont-Roc e Lallot e é defendido por Lucas
(ARISTÓTELES, 1998b, p. 63), que afirma que também Gudeman e Sykutris utilizaram-no em suas edições. Mas esse não é o ponto de vista de outras traduções consultadas (Hardy, Bywater, Eudoro de Sousa, Gallavotti, Halliwell, Gernez) e do comentário de Rostagni (ARISTÓTELES, 1945, p. 10, nota à linha 1448 a 4), todos
unânimes em considerar ‘certamente ou melhores que nós, ou piores, ou tais quais’ como a oração principal do período, tendo como subordinadas a ela as orações “uma vez que aqueles que realizam a mímese realizam a mímese de pessoas que agem” e “essas forçosamente são virtuosas ou viciosas”. Se observarmos a conexão lógica entre as frases,
1. quem mimetiza mimetiza pessoas em ação 2. pessoas são necessariamente virtuosas ou viciosas
3. quem mimetiza mimetiza pessoas que são melhores, piores ou iguais a nós,
veremo s que 3 é antes uma espécie de truísmo, além de não ser conclusão lógica natural de 1 e 2. Muito mais adequado parece o seguinte esquema:
1. quem mimetiza mimetiza pessoas em ação 2. pessoas são necessariamente virtuosas ou viciosas 3. (são ou melhores que nós, ou piores, ou semelhantes)
4. é evidente que cada uma das mímeses mencionadas terá essas diferenças,
Neste caso, 3 aparece como uma explicitação de 2 e 4 apresenta-se como a verdadeira conclusão, de valor relevante inclusive para o objetivo anunciado no capítulo 1: diferenciar as artes miméticas quanto ao objeto do qual se faz a mímese. As diferentes opções de tradução não chegam a obscurecer o ponto 4, de modo que a objeção que aqui se levanta contra as outras traduções não chega a comprometer o entendimento que elas oferecem do assunto. Mas se poderia objetar que 4, para servir como apódose, como conclusão do raciocínio, não poderia ter associada a ela a partícula de, na expressão dêlon de hoti (‘é evidente que’). Não é usual, de fato, que uma apódose seja introduzida assim. Mas Denniston (1954, p. 180) dá um exemplo de apódose com de na
Retórica (1355 a 2-14, sendo que a apódose está em 1355 a 10), em um trecho, assim como na Poética, cuja
prótase se inicia como epei de (‘uma vez que’), é seguida de outras prótases introduzidas com de para finalmente chegar a uma apódose que se inicial com dêlon de hoti (‘é evidente que’).
Dessa passagem Jaime Bruna tem uma outra tradução ainda, que, apesar de, a nosso ver, ser equivocada, merece análise. Ele traduz: “Como aqueles que imitam imitam pessoas em ação, estas são necessariamente ou boas ou más...” (ARISTÓTELES, 1997, p. 20). Ou seja, para Bruna, 2 é a oração principal, conclusão lógica de 1. Quem age necessariamente é bom ou mau. Como sua tradução não tem notas, não é possível saber seus reais motivos, mas é interessante observar que ela estaria de acordo com uma análise da Poética que desse ao termo grego
práxis, ação, um sentido estritamente ético: segundo tal ponto de vista, a práxis não seria uma ação qualquer,
mas uma ação de caráter moral relevante, uma ação na qual certamente haveria uma escolha deliberada entre dois extremos, sendo que essa ação seria virtuosa quando escolhe o meio entre os extremos, e viciosa quando erra essa meio. Na Poética é possível ler, por vezes, a práxis nessa chave, inclusive quando o termo aparece de par com energéin, que significaria uma ação desprovida de relevância moral (por exemplo, em 1448 a 23).
71 Ainda em relação a esse primeiro parágrafo, seria pertinente perguntarmo -nos como uma divisão binária
(virtude/vício) pode dar origem à tripartição ‘melhores que nós/iguais/piores que nós’. Colocando a questão de outra maneira, como se explica a relação entre as frases 2 e 3 (numeradas na nota anterior)? Else (ARISTÓTELES, 1994, p. 83, notas 18 e 20), para contornar essa dificuldade, sugeriu que a menção a pessoas “tais quais”, bem como a menção, entre os pintores, a Dionísio, fosse uma interpolação. Baseava-se ele no fato de que não há, no restante da Poética, menção à parte da doutrina que deveria tratar da imitação de homens “tais quais nós”. No entanto, os manuscritos não autorizam a hipótese. Mesmo se adotássemos a hipótese de Else, a dificuldade da relação entre 2 e 3 não estaria totalmente resolvida. Ela surge do fato que 2, ao fazer referência a conceitos éticos, parece prescindir de uma referência explícita a um termo de comparação. Um homem é dito virtuoso não em relação a seus pares, mas por possuir uma disposição deliberativa relativa a uma mediedade (a virtude é definida assim, na Ética Nicomaquéia, em 1106 b 36). Como então 3 faz surgir ex abrupto uma referência a um genérico “nós”? Isso não parece um lapso, uma vez que a frase final do capítulo (“homens piores que os de agora”) reforça a idéia de um referencial externo. Dupont-Roc e Lallot (ARISTÓTELES, 1980, p. 157- 158, nota 4), na tentativa de resolver a questão, fazem intervir aqui um distanciamento entre o plano da realidade, em que os homens são ditos virtuosos ou viciosos, e o plano da representação. A mímese opera no sentido de transformar seu modelo (que participa de uma lógica binária fundamentada na realidade – virtude e vício) em um objeto representado (que participa de uma lógica ternária – igual, melhor ou pior que nós). É função daquele que realiza a mímese “transformar acentuando a qualificação ética em direção seja do pólo nobre (beltionas, “melhores”), seja do pólo baixo (kheironas, “piores”), seja conservando “tal qual” (toioutos)” (ARISTÓTELES, 1980, p. 157). E acrescentam: