A política do cotidiano está relacionada às subjetividades ou aos componentes subjetivos que motivam a participação individual e coletiva no fazer política cotidianamente. Esta dimensão busca a educação ambiental “de corpo e alma”, de processos revolucionários, que necessitam da beleza, da subjetividade, mas também da conexão com o real, com a práxis e que almejam a felicidade, produzindo e contribuindo com o novo. Tal dimensão contribui com a qualificação do eixo da participação, necessária para a constituição de Coletivos na perspectiva de forças sociais instituintes ou movimentos sociais instituintes.
A dimensão da política do cotidiano implica em uma atitude de fazer planejamentos e intervenções sociais participativamente e interativamente em busca da emergência de projetos que promovam a participação, entendida como meio e como fim. Dessa forma, nesta quarta dimensão enunciada, apontam-se eixos ou caminhos a se percorrer, sem prejuízo de que outros sejam identificados: 1) a perspectiva pedagógica; e 2) de planejamentos participativos.
8.4.1 A perspectiva pedagógica
A perspectiva pedagógica pauta-se na necessária reconstrução das relações humanas em todos os níveis, o que só é possível a partir da educação. Não de uma educação tecnofuncionalista, mas sim de cunho antropológico, além de ético e político, uma “educação estética entendida como formação cultural” (Severino, 2006, p. 633). Uma “educação ambiental, como pedagogia da complexidade, exige o exercício da outridade/alteridade/identidade” (Sorrentino, 2005, p. 8).
Há várias formas para se compreender o que é complexidade. Morin (2002) apresenta caminhos possíveis, ressalta a incerteza do conhecimento e a necessidade de simplificar sem
reduzir, apontando para a diversidade, biológica e sociocultural, e para a necessidade do diálogo, com o outro e consigo próprio, na necessidade de se trabalhar a tríade indivíduo/comunidade/espécie para encontrar a comunidade de destino planetário.
A construção de políticas públicas de educação ambiental, com as quatro dimensões apresentadas neste trabalho, necessita de processos de formação entendidos como processos de vir-a-ser, sem que caminhos sejam previamente traçados, exigindo a invenção de uma nova cultura política.
Para o exercício da perspectiva pedagógica da dimensão da política do cotidiano, a fundamentação teórica se dá com os cinco conceitos trabalhados pelo grupo de pesquisadores da Oca63, Comunidade, Identidade, Diálogo, Potência de Ação e Felicidade (Sorrentino et al., 2013, Alves et al., 2010),com a hipótese de que são pilares que ao serem adotados de forma conjunta, contribuem com a sustentabilidade de processos educadores ambientalistas.
8.4.2 O planejamento participativo
O segundo eixo, ou caminho, são os planejamentos participativos presentes na dimensão da política do cotidiano, que têm como pressuposto garantir que as necessidades humanas sejam priorizadas em lugar das econômicas e políticas. Tem como opção epistemológica aceitar que a participação é imanente à condição humana. Segundo Sawaia (2002) a participação não vem de fora, é paixão que leva os homens e mulheres a se comporem com outros homens e mulheres e, portanto, o ser da participação é definido na sociedade e na subjetividade, o que equivale a dizer que “não há participação sem subjetividade” (p. 122).
O desafio imposto pelas condições históricas, sociais, econômicas e subjetivas exige estimularem-se novas formas de organização humana, criando o sentimento e a prática da cidadania e participação. Sawaia (2002), dentre outros autores, alerta sobre a polissemia da palavra e a variedade de sentidos da participação, com sua dialética exclusão/inclusão “historicamente, ela aparece tanto como conceito central do discurso neoliberal e ditatorial, como do nazismo e dos fundamentalistas, como do discurso revolucionário” (p. 120). Tassara e Ardans (2006) falam em “silêncios e silenciamentos” (p. 71).
Sob a ótica de processos participativos, importam os processos comunicativos em reciprocidade entre o planejamento e as pessoas. Se intencionaliza o diálogo, enquanto uma
circunstância possível na busca da emergência, não de consensos, mas de projetos de intervenção que tenham o dissenso como força motriz da busca do exercício da diversidade, explicitando-se as concepções de sociedade, ética e justiça, bem como de exclusão social, desigualdade, movimentos sociais, educação popular, dentre outros – diálogo revelador das contradições que constituem a problemática socioambiental.
Os planejamentos participativos intencionam a prática – é a partir da práxis que as forças sociais se constituem e, portanto, de processos que a tem como eixo central. A proximidade com “o chão”, com a realidade vivenciada é a força motriz das forças instituintes. Esta atuação no território no exercício da práxis é a condição de se tornar uma unidade aberta fazendo-se a si mesma de modo permanente e democrático.
Para que a práxis a partir de planejamentos participativos se realize, o desafio é, inicialmente, a própria existência do grupo enquanto grupo, com uma identidade coletiva e, portanto, exercitando a sua capacidade de auto-organização e auto-análise, enquanto protagonistas de seus anseios, onde têm claro que os caminhos se constroem à medida que passos são dados. Segundo Baremblitt (2002, p. 19) estes são dois processos diferenciados, mas complementares: a auto-análise ou a produção de saberes acerca dos problemas, das condições de vida, das demandas é simultânea ao processo de autogestão, de auto- organização, no qual o coletivo se organiza para desmistificar o saber dominante e para que possam operar as forças destinadas à transformação e, ao fazê-lo, constitui-se de dentro para fora.
Um grupo constitui-se enquanto grupo ao explicitar quais são suas utopias e exercitar a práxis com planejamentos participativos, ou seja, planejamentos feitos “com” os sujeitos envolvidos na práxis. São planejamentos participativos e incrementais, abertos e processuais, que vão monitorando, avaliando e ajustando a caminhada conjuntamente com os atores sociais envolvidos.
8.5 Ocorrências da dimensão do cotidiano nos Coletivos Educadores fomentados pelo