Em 1946 o chefe kalapalo Tajui preparava uma festa para as flautas kagutu, das quais sua esposa era dona63. A fim de conseguir peixe para a festa, saiu de Nhagü Hatoho acompanhado de várias pessoas para uma pescaria em um lago rio Culuene acima, perto da boca do ribeirão Sete de Setembro (Tügüingi hotagü). De lá, avistaram um avião sobrevoando a região e imaginaram que deveria ser coisa dos kagaiha. No dia seguinte, 7 de outubro, ouviram um barulho muito estranho. Avistaram então alguns barcos que vinham rápido e fazendo um barulho enorme, cheios de kagaiha dentro. Era a frente da Expedição Roncador- Xingu que atingia o Culuene, na qual estavam Cláudio, Leonardo e Orlando Villas Boas, chefes da Expedição. Os Kalapalo os levaram até Kahindzu, um lugar na beira do Culuene que servia de “porto” para Nhagü Hatoho, onde dormiram antes de seguir viagem no dia seguinte. Muitos kagaiha ficaram no acampamento em Kahindzu, enquanto apenas alguns seguiram para a aldeia. Quando os pescadores retornaram com os brancos, foi uma grande surpresa.
Já fazia muito tempo que as pessoas “morriam sem parar”. Aldeias como Angambütü e Angaguhütü desapareceram provavelmente no começo do século XX e, quando a Expedição chegou nos Kalapalo, havia apenas uma família angaguhütü morando com eles. Segundo os Kalapalo, eles próprios teriam se matado com feitiçaria (kugihe). Vivendo em uma região distante de qualquer rio, os moradores de Nhagü Hatoho ficaram protegidos das ondas de feitiçaria/epidemias que assolavam seus parentes, até 1946. Primeiro foi uma epidemia de gripe, logo após a chegada da expedição (que matou cerca de 25 pessoas) e depois a catástrofe do sagampu (sarampo) em 1954. Os feiticeiros daquela época eram poderosos: possuíam feitiços que eram como rojões, que explodiam no céu e atingiam a todos que estivessem em baixo, provocando muitas mortes rápidas e simultâneas. Os brancos conheciam muito bem esse tipo de feitiço, pois também são seus mestres, e grande parte das mortes do começo do século são atribuídas a eles. Outro feitiço comum era feito com bonecos de forma humana,
63 Quando uma mulher é dona de uma festa, seu pai ou seu marido (às vezes os dois juntos) assumem a
enterrados no centro da aldeia (chamados agutoho). Conforme as pessoas passavam perto do boneco, adoeciam e morriam.
O falecido xamã de Aiha contava que era criança na época do sarampo, e viu quase toda sua família morrer. Tendo ficado órfão, foi criado junto com uma irmã por sua tia materna. Não dava tempo de abrir covas para enterrar todos os mortos, e foi preciso cavar dois grandes buracos ao lado da aldeia (um para homens e outro para mulheres e crianças), próximos ao rio, onde os corpos dos mortos eram jogados dia e noite. Mães adormeciam com seus filhos e nunca mais acordavam, e os brancos também começaram a morrer (segundo o xamã, apenas dois funcionários da Expedição sobreviveram). Os brancos da região dizem até hoje que a principal causa da mortalidade indígena se deu porque estes, ao se sentirem com febre, iam para o rio refrescar o corpo, o que “empurra o sarampo para dentro” e, aí sim, o torna letal. No final daquele ano, o saldo era terrível: a população fora reduzida pela metade e a situação só foi se estabilizar nos anos 60, feito que os Kalapalo atribuem a Orlando Villas Boas. Não pela implantação do atendimento à saúde na região, mas porque ele teria convencido muitos feiticeiros a “se aposentar”, verdadeira causa da redução da mortalidade. A feitiçaria nunca desapareceu, mas depois da criação do Parque, os feitiços-rojão, de índios e brancos, e os agutoho, nunca mais foram usados.
Após 1961, ano da criação do Parque, os Kalapalo se viram em um dilema cuja lembrança traz para os mais velhos um sentimento indescritível de tristeza: abandonar Nhagü Hatoho para um lugar mais perto do Posto Indígena Leonardo Villas Boas64, a fim de facilitar o atendimento à saúde. Não há um único homem ou mulher Kalapalo que, ao se lembrar do dia definitivo da mudança, não comece a falar dos parentes mortos no sarampo, das casas e objetos deixados para trás intactos (pois não havia como carregar tudo), das lembranças de viagens que faziam com seus pais à antiga aldeia para coletar conchas de caracóis e buscar pequi. A mudança para Aiha, entre 1962 e 1963, foi muito brusca emocionalmente, e também teve seus efeitos políticos.
Quando a Expedição encontrou os Kalapalo, seu principal chefe era Sagagi, reconhecido como um dos maiores chefes kalapalo. Em 1925, ano em que o Coronel Fawcett apareceu em Kunugijahütü, Sagagi já era o chefe principal, como a narrativa de uma mulher que era criança à época deixa claro. Na mesma época, também eram chefes junto com ele
64 Antigo Posto Indígena Capitão Vasconcelos, rebatizado em 1961 em homenagem a Leonardo, falecido
Agihiga, Ageu (um homem considerado “pai” classificatório de ambos) e Enumü. Antes de Sagagi, sabe-se que houve um grande chefe chamado Juaikumã, mas não consegui recuar mais do que isso. De Sagagi até a geração dos pais dos atuais chefes adultos, porém, todos oferecem a mesma ordem de sucessão: 1) Sagagi; 2) Agihiga; 3) Kumetsi; 4) Tajui; 5) Ausuki65; e 6) Kambetse66.
Dizem que após a morte de Tajui, ainda em Nhagü Hatoho, a chefia “ficou confusa”. Como muitos nobres haviam morrido no sarampo, havia poucas pessoas aptas a assumirem seus lugares, e os anetü Ausuki e Kambetse dividiam a posição de chefes principais. Ausuki era reconhecido como um grande chefe, mas sua posição nunca foi muito clara. Ele era filho de uma itankgo (feminino de anetü) importante, mas ocupava uma condição complicada porque seu pai era um chefe mehinaku que, depois de ter sido acusado de feitiçaria em sua própria aldeia, fugiu para os Kalapalo em busca de refúgio junto aos parentes de sua esposa (o próprio Ausuki nascera na aldeia mehinaku). Kambetse, apenas um pouco mais novo que Ausuki, foi outro grande chefe, e que segundo Basso (1973: 134) teria herdado a chefia de seu FB.
Na época da criação do Parque, um grande chefe e xamã kamayurá, Takumã, foi o responsável por negociar com os Kalapalo e os Nahukua sua mudança para mais perto do Posto Leonardo, assim como encontrar para eles lugares onde pudessem erguer suas aldeias (já que a região não é território tradicional karib, mas kamayurá). Kambetse era terminantemente contra, enquanto Ausuki, primo de Takumã, era favorável à aproximação do Posto. Os Kamayurá haviam escolhido dois lugares para que os Kalapalo e Nahukua se mudassem, Aiha e Magijape. As terras de Magijape são excelentes, sendo possível encontrar terra preta bem perto da aldeia. Além disso, o sítio já havia sido ocupado pelos karib no final do século XIX, como apontado por Von den Steinen (1940). Já em Aiha, a terra é muito vermelha e pouco fértil, as poucas terras pretas da região são consideravelmente distantes e não havia qualquer memória de ocupação karib daquele local, apenas kamayurá – o que não agradou os Kalapalo. Contudo, Aiha é uma região muito “segura”, sem espíritos muito
65
Apihũ, Ulutsi ou Müuda nos trabalhos de Basso (1973; 1985; Becker, 1969). É ele o chefe chamado de Müra na história de Temetihü.
66 Bïjïjï ou Kambe nos trabalhos de Basso. Nunca entendi a grafia usada pela autora para seu primeiro nome, que
era Bogogo - cuja sonoridade não deixa de evocar proximidades com o nome “Bororo”. Essa relação fica ainda mais curiosa se notarmos que há um jovem em Aiha chamado Meruri, o mesmo nome de uma aldeia bororo. Se Paipegü era realmente Pires de Campos, e os índios com os quais ele atacava eram os Bororo, fica a questão sobre que relações, além das bélicas, estes poderiam ter estabelecido com os Kalapalo.
perigosos. Magijape, em contrapartida, fica próxima de uma lagoa onde vive um perigoso Hiper Peixe Bicuda (Johi Kuẽgü), que anda pelos arredores toda noite. Takumã disse a Ausuki que, como ele era seu primo, se ele aceitasse conduzir os Kalapalo para mais perto do Posto daria a eles o território de Aiha, não tão fértil quanto Magijape, mas livre de grandes perigos sobrenaturais. Ausuki convenceu todos a se mudarem, mas Kambetse ainda era contra e se mudou contrariado.
Ninguém sabia ao certo se aquele local tinha um nome em karib, e foi o chefe dos Yawalapíti à época quem se lembrou do nome da região, dado em função de um lago (que, diferentemente do que diz Basso, não é a lagoa próxima à aldeia). Tendo organizado a mudança e recebido o território de Takumã, Ausuki se tornou o “dono da aldeia” (ete oto) e o primeiro cacique. A aproximação do Posto, passada a tristeza da mudança, mostrava os benefícios do atendimento à saúde e acesso a objetos industrializados, rendendo a Ausuki ainda mais prestígio e deixando Kambetse mais desconfortável. Foi nesse contexto politicamente complicado que Basso realizou sua pesquisa de campo e retratou a tensão entre estes dois chefes e suas parentelas (Basso, 1973; Becker, 1969). Ela também nota que “the conflict between these men probably began around the time when pressure was put upon the Kalapalo to move their village closer to the Post” (Basso, 1973: 119).
Basso utiliza o termo “facção” para descrever as relações desiguais de prestígio e influência, que ela define da seguinte forma: “It is convenient to refer to the persons upon whom a leader may depend for support during disputes as a ‘faction’” (ibid: 119). Apesar de todos terem parentes e afins que os ajudam em ocasiões variadas, apenas alguns se oporiam como grupos conflitantes: “The opposition of Kalapalo factions as ‘conflict groups’ is manifested in verbal disputes, or more exactly (because they are rarely direct confrontations) in verbal statements and in physical avoidance” (ibid: 119). A autora também afirma que uma das principais fontes de conflito entre facções eram as afirmações de seus líderes como chefes: alguns anetü ativos eram (e ao que tudo indica sempre serão, pois a situação atual é muito semelhante) questionados acerca da legitimidade de seu status. Segundo a autora, entre 1966 e 1968 havia sete homens considerados anetü em Aiha, dos quais três nunca exerciam papeis associados a esta condição (ibid: 133):
- Kambetse, apenas um pouco mais novo do que Ausuki, e que disputava com ele a condição de chefe principal;
- Yahula, filho do grande Sagagi;
- Tuhule, o mais jovem (em torno de 26 anos) e o único que indiscutivelmente era um anetü hekugu (“chefe de verdade”);
- Nakü, filho do chefe Juaikumã, mas que nunca assumiu a posição de anetü;
- Majuta, considerado anetü hekugu, filho e neto de dois grandes chefes, mas que não exercia suas funções em respeito a seus dois cunhados mais velhos, Ausuki e Kambetse; - Sagama, um importante chefe jagamü e que chefiara a aldeia Angaguhütü antes de sua
dispersão.
Basso nota diversas vezes que Kambetse questionava a posição de Ausuki como anetü por sua origem mehinaku. Quando Ausuki patrocinava algum ritual, Kambetse não saía de sua casa, e os dois sempre se sentavam em lados opostos no banco em frente à casa dos homens (Basso, 1973: 120). A despeito das hostilidades pessoais, eram primos paralelos e suas parentelas sempre foram intimamente ligadas por relações de parentesco e casamento. Quando Ausuki ficou velho e deixou de exercer suas atribuições de chefe, Kambetse se tornou o primeiro cacique, posição que ocupou até sua morte, em 1984, quando seu filho mais velho Ageu assumiu temporariamente seu lugar. Ausuki faleceu em 1992.
Uma grande divisão aconteceu em Aiha entre o final da década de 1970 e o começo dos anos 1980, culminando na criação de Tankgugu. Este é um assunto sobre o qual ninguém gosta de conversar e, quando o faz, é sempre de forma rápida e evasiva. Várias pessoas me disseram que Aiha havia sido “cortada ao meio” e que houve uma “grande confusão”, mas ninguém nunca admitiu saber a razão da mudança. Dizer que não sabe o que aconteceu, que “só quem foi embora é que pode saber”, é a atitude padrão em casos que envolvem acusações de feitiçaria67, pois há um duplo esforço das pessoas para evitar se posicionar (a fim de evitar rumores sobre si e eventuais retaliações – reais ou mágicas) e fazer o possível para não remoer as acusações. Este último ponto é uma das coisas que mais me chama a atenção até hoje. É incrível como durante os rituais, quando todos se juntam, alguém que ameaçou outra pessoa de morte por causa de feitiçaria pode se sentar ao seu lado, pedir que lhe ensine uma música e passar bons minutos se divertindo. Pessoas que vivem se acusando, quando se
67 Segundo alguns Yawalapíti, teria havido alguma morte e os Kalapalo teriam prendido o acusado e sua família
encontram comem juntos, conversam, dançam, dão risada. Há um esforço deliberado para mascarar (mais do que esquecer) as acusações.
Tankgugu foi aberta por um homem casado com a irmã mais nova de Ausuki (ele era seu segundo marido, o primeiro já havia falecido). Dizem que ele teria aberto a aldeia por insistência de sua esposa, que se sentia “mais mehinaku do que kalapalo” (de fato, ela havia nascido lá). A situação se complicou quando um dos maiores xamãs do Alto Xingu68 foi acusado de matar por feitiçaria o primogênito de seu “neto” classificatório (seu BDS). O pai do menino morto acusou o xamã em público, que se mudou para Tankgugu, onde já estavam outros de seus parentes. Ele acabou levando muita gente para a nova aldeia, pois como se vê na etnografia de Basso, ele era um homem de grande prestígio e, no final dos anos 1960, tinha o maior grupo doméstico de Aiha, ligado por parentesco e aliança às facções dos dois chefes principais.
Hoje, existem seis anetü (homens) adultos ativos em Aiha. Dois deles (o filho mais novo de Kambetse e o neto mais velho de Ausuki, respectivamente) são “hierarquizados” como primeiro e segundo caciques, enquanto os outros “podem ser terceiro, quarto, quinto... tanto faz”, como já ouvi várias vezes. Isso é importante, pois mostra que a chefia não se organiza segundo um princípio hierárquico global capaz de posicionar “all members of Xinguano sciety in an overarching hierarchical structure”, como sugere Heckenberger (2005: 262). Em kalapalo, o “segundo” em relação a um grande chefe é isotohongo, “seu outro igual”, indicando geralmente uma situação de simetria, acompanhada de conflito em potencial. Atualmente, um dos motivos pelos quais a situação é tranquila é porque o segundo cacique é genro do primeiro (ZDH), o que impõe entre eles uma relação de grande respeito. Contudo, quando havia outro anetü em Aiha, que era considerado o otohongo do primeiro cacique, os dois viviam em conflito. Além dos adultos, há outros 16 jovens chefes (12 homens e 4 mulheres), entre 15 e 35 anos de idade. Vejamos a configuração da chefia atual de Aiha no diagrama abaixo:
Figura 1.4: configuração atual da chefia de Aiha.
Nota-se que quase todos os chefes adultos estão muito perto de Ausuki e Kambetse. A sucessão de Kambetse não foi nada simples. Ageu, seu filho mais velho, foi muito preparado por seu pai para substituí-lo (é um grande conhecedor de histórias, cantos, rezas, discursos) e Basso afirma que ele havia se tornado o líder principal após a morte de seu pai (Basso, 2009: 255). Porém, ele foi substituído por seu irmão mais novo, Waja, escolhido pessoalmente por Orlando Villas Boas. Como ele mesmo conta, poucos anos depois da morte de seu pai Orlando pediu que ele “assinasse um papel”, “que ele levaria pra Brasília”, para que se tornasse o chefe kalapalo. Isso porque ele já falava um pouco de português (ao contrário de seu irmão mais velho) e fez parte de um grupo de jovens chefes que o próprio Orlando tentou preparar para administrar o contato no Alto Xingu. Waja conta que foi levado por Orlando duas vezes para São Paulo e Brasília, onde passou temporadas de alguns meses com os filhos de outros chefes alto-xinguanos, quando Orlando aproveitava para mostrar a eles os costumes dos brancos e ensinar um pouco de português. Ele não foi tão preparado quanto outros, pois depois da segunda viagem seu pai não permitiu mais que ele deixasse a aldeia. Um pouco mais novo do que ele, um dos netos de Ausuki (que recebeu seu nome) também se tornou chefe e divide com ele a chefia.
Outro chefe entrou em cena no final dos anos 1990, um neto do anetü Agihiga casado com uma mulher yawalapíti, e que vivia na aldeia de seus afins desde a década de 1970. Ele não era considerado anetü naquele grupo, mas tinha muitos contatos na cidade e viajava
Ausuki 1 Ausuki 2 Mogeata 1 Mogeata 2 Ugise Waja Masinua Jaua Kambetse Ageu Ulehe Aiguana 1 Aiguana 2 Tipüsusu
Jakulo Kayauta Kohoi Agusahi 1
Agusahi 2 Tüwü Kohi
Kainahu Jüj i
Enumü Itsapü Eusa
Kahuga Matula Hepia Hehugo Juaikuma Jamunua chefes adultos jovens chefes chefe kuikuro
muito. Os Kalapalo decidiram que precisavam de alguém para “cuidar dos brancos”, e não tinham ninguém em sua aldeia que tivesse a experiência necessária. Decidiram, então, trazer esse homem e fazê-lo chefe, construindo para ele uma casa. Ele se tornou o segundo cacique e permaneceu em Aiha até o final de 2007, quando abriu sua própria aldeia. Nesse período, ele conseguiu vários aliados brancos para os Kalapalo de Aiha, o que proporcionou certo fluxo de visitantes, dinheiro e projetos para a aldeia, lhe rendendo muito prestígio.
Como se vê, a condição de chefe é realmente indissociável do parentesco, pois não há ninguém que tenha sido “feito chefe” sem ser filho de um anetü ou uma itankgo (questão que será abordada em detalhes no capítulo seguinte). Além disso, a transmissão de nomes parece objetivar essas relações genealógicas em seus portadores, pois não deve ser por acaso que jovens preparados para a chefia recebem muitas vezes (mas nem sempre) nomes de chefes famosos. Todavia, isso não implica, como Heckenberger (2005: 270) sugere, nenhuma hierarquização rígida de linhas de descendência entre chefes. Segundo este autor, a hierarquia entre mais velhos e mais novos criaria, ao longo do tempo, linhas de descendência hierarquizadas: filhos de irmãos mais velhos seriam mais importantes que filhos de irmãos mais novos, gerando uma estrutura semelhante ao “clã cônico” de Sahlins (1968). Vemos que, na realidade, a primazia da chefia circula muito, não obedecendo a qualquer hierarquia dada de antemão. Nem sempre o filho de um primeiro cacique ocupará sua posição, algo que depende de como cada chefe é preparado, como se comporta, sua idade relativa, seu envolvimento em rumores e conflitos, aqueles com os quais têm relações de afinidade, etc. A própria historicidade interna ao sistema impede que ele se cristalize sob uma forma hierárquica fixa, atrelando a chefia a pessoas específicas e não a unidades sociais.
***
Podemos imaginar então um duplo movimento na produção diacrônica do grupo que ficou conhecido como Kalapalo. Um, é a diferenciação: desde o tempo mítico, quando obtiveram sua especialidade produtiva (cintos e colares de conchas) e sua língua, os karib se diferenciaram progressivamente uns dos outros e fixaram diferentes identidades coletivas. Mas este processo é indissociável de outro, a mistura, pois as relações regionais sempre fizeram com que todo grupo fosse heterogêneo de saída. Como mostra Mehinaku (2010), a
mistura e a pureza, o amálgama e a diferenciação, são duas formas de se perceber o sistema alto-xinguano em movimento. Mesmo um “kalapalo puro” tem ancestrais de outros grupos, assim como pessoas “misturadas” podem, eventualmente, se tornar grandes chefes kalapalo. Gerar uma identidade específica é que sempre o foi problema, e qualquer “povo” (um conjunto de aldeias que se identifica a uma aldeia iho) sempre foi uma cristalização particular e transitória de redes de parentesco mais amplas.
A história kalapalo, do tempo do lago Tahununu aos dias de hoje, se vê em um fluxo constante entre a supressão da diferença e sua inevitável reemergência. Isso é muito visível nas fissões de Aiha dos últimos anos, pois como já notei em outra ocasião (Guerreiro Júnior, 2008: 39), algumas das novas aldeias às vezes são vistas como “jagamü” ou “matipu” em função da ascendência de seus respectivos chefes. Ao mesmo tempo que os chefes são pontos de referência históricos, símbolos de redes de parentesco que se cristalizaram para formar uma aldeia ou um povo, e que norteiam a produção contemporânea de identidades, é também ao redor da chefia que acontecem muitos dos processos de fissão (que, por sua vez, são