• No results found

Dataanalyse og Tolkning

Como já sabemos, Kalapalo foi primeiro chefiada por um homem chamado Kapita, que era kankgagü, mas vivia em Kuapügü e lá se tornara chefe. Ele é o protagonista de uma narrativa que conta um dos primeiros encontros dos Kalapalo com os brancos naquela região, mas que é mais interessante do que isso: ela fala sobre a origem da palavra kamaga, usada pelos karib xinguanos para se referir aos não chefes. Esta é provavelmente uma corruptela de “camarada”, mas que parece ter sido incorporada ao karib há muito tempo. Ela dificilmente é ouvida em sua forma não possuída, aparecendo sempre como X kamagagü (“camarada de X”) ou itsamagagü (“camarada dele”), referindo-se ao pessoal de algum anetü específico.

Para os Kalapalo, a origem deste termo está ligada a um “mistério” que eles até hoje tentam entender. Os brancos começaram a aparecer quando eles viviam em Kuapügü, de onde muitas pessoas foram raptadas. Homens e mulheres, principalmente jovens, eram eventualmente levados pelos kagaiha, que os abordavam nos arredores de algum rio ou então vinham à sua aldeia, armados com “facões gigantes” (espadas?) e carabinas. Às vezes era possível fugir, pois os kagaiha tinham o hábito de chegar na aldeia cantando (uma mulher kalapalo, que infelizmente já faleceu, era a única que conhecia uma dessas canções dos kagaiha). Mas os kagaiha não roubavam qualquer pessoa, apenas chefes e seus filhos. Ninguém sabe como, mas quando um chefe tinha algum filho ou filha que também começava a se tornar chefe, logo vinham os brancos para capturá-lo. Por isso, essa época é lembrada com muita tristeza, pois os chefes estavam se acabando e muitas pessoas morriam, ou pelas mãos dos kagaiha, ou pela ação desenfreada dos feiticeiros (que naquela época começaram a usar feitiços que se espalhavam sobre aldeias inteiras – epidemias que chegavam com o contato). Nas histórias deste período, há lembranças de corpos de filhos de chefes encontrados pelos Kalapalo no caminho dos kagaiha, que os abandonavam quando estes apresentavam resistência ou não aguentavam a sede e a fome. Alguns dos chefes mortos ou desaparecidos naquela época são lembrados nos discursos de recepção de mensageiros e há alusões a eles em várias execuções de discursos formais, reproduzindo uma memória sobre este passado nas ocasiões rituais (ver capítulo 5). A história de Kapita está ligada a esse estranho conhecimento dos brancos a respeito dos chefes: os Kalapalo capturaram um branco (o primeiro kagaiha que

viram de perto), chamado Õdoni ou Ãtoni (Antonio?), que sabia o nome do chefe Kapita! É uma história peculiar, pois este branco teria vivido muito tempo entre os Kalapalo, aprendido sua língua, e depois teria ido para os Wauja, que tentaram – em vão – matá-lo.

Mito 3: Kapita54 Ageu Kapita telü...

Kapita foi...

Segitsunda beja, Kapita egitsunda

Ele estava fazendo egitsü, Kapita estava fazendo egitsü

Ugise Kapita helei kuge?

Kapita era gente/chefe?

Ageu Kuge beja, Kalapalo

Uma grande pessoa/chefe, um Kalapalo Ekü aketselei Kankgagü ng hũ oho Ele é de origem Kankgagü

Kalapalo hujati hale etepügü, tseta leha sanetu leha, ilango aketselei Ele se mudou para os Kalapalo e lá ele chefiou, ele é assim

Kapita saiu de sua aldeia para buscar uma grande panela de cerâmica que havia ficado no acampamento onde eles haviam pescado para a festa, o lago Aitsagü (perto de onde hoje é a aldeia Nhütisüpe, conhecida como Kaluani ou Paraíso). Certa noite, ele sonhou que uma “borboleta de Ahasa” (um tipo de borboleta cuidada pelo itseke Ahasa55

) vinha ao seu encontro. Quando acordou, ele disse à sua esposa que no dia seguinte iria buscar a panela. Ele dormiu e sonhou mais uma vez com uma borboleta de Ahasa vindo em sua direção. Os antigos diziam que sonhar com essa borboleta era um pesadelo com kagaiha, e significa que a pessoa seria morta por um branco. Kapita acordou de madrugada e avisou sua irmã:

Ah! Ahasa hototogu heke aketsange ulopenügü nügü iheke “Ah! Uma borboleta de Ahasa veio em minha direção”, disse ele

54 Narrada por Ageu em 02 de julho de 2010, em sua casa na aldeia Aiha. 55 Um itseke canibal desajeitado, muito alto, que detesta crianças e vive na mata.

Itseke heke aketsange uhelüingo nügü iheke “Um espírito vai me matar”, disse ele

Hm, uelüingo itseke heke nügü iheke Hm, “um espírito vai me matar”, disse ele

Itseke heke nügü iheke Um espírito, disse ele

“Cuide do seu filho!”, disse à sua irmã. Kapita foi buscar a panela junto com alguns companheiros, também chefes. Kapita lhes contou sobre seu sonho, e avisou que encontraria um kagaiha em sua viagem. Disse que iria na frente, e que se eles o ouvissem gritar deveriam vir para tentar agarrar o “espírito”. Quando ele vinha pelo caminho, perto de seu destino ele viu aquele com quem havia sonhado. Era um homem que tinha a cabeça bem branca e estava pegando frutas da árvore kumigu, que guardava no bolso de sua camisa. Seu nome era Õdoni. Kapita se aproximou furtivamente por trás de uma moita e o agarrou. Quando foi pego, Õdoni começou a gritar: “Kapita, Kapita, Kapita, Kapita!”.

Sanetu uhunügü leha iheke Ele reconheceu sua chefia

Sanetu uhunügü Reconheceu sua chefia Lepene

Depois

Ka!, aibeha, akago heke itsatomi

Ka!, ele gritou para que os outros ouvissem Akago heke itsatomi

Para que eles ouvissem Tuhisükinhüko heke

Seus companheiros ouvissem Angi aketsange koto hetunda nügü iheke tühisü heke

“Nosso dono/pai está gritando”, disse um de seus companheiros Isinünkgo leha ijopetigi

Eles vieram para encontrá-lo (...)

Kangamuke nügü iheke “Crianças”

Ah nügü beja iheke Ah, ele disse

Ah itseke aketsegei kagaiha nügü iheke “Ah, este é um espírito kagaiha” Osi hõhõ ihetüe hõhõ nügü iheke “Vamos lá, agarrem-no”

Ihetüe hõhõ “Agarrem-no” Euhutokomi iheke nügü iheke “Para que ele os conheça”

Euhutokomi

“Para que ele os conheça” Ẽhẽ nügü iheke

Sim

Tu! he he e: “ah a aga a aga!” n g eha he e Tu! quando o agarraram ele gritou: “ah, kamaga kamaga!” Inguhenkgilüko bele iheke kukinha bahale anetaõ56 mebege Ele se confundiu mesmo, pois para nós eles eram chefes

O mais novo correu para avisar as pessoas em Kuapügü e chegou gritando. Depois de ouvir a notícia, Ahua, irmã de Kapita, enviou seu filho para seus parentes em Amagü: “vá para seu tio materno!”. Ahua disse que iria ao encontro de Kapita para ser morta por um branco pela mesma flecha que o matasse. Mas então ela viu que eles estavam chegando. Õdoni era bem alto, e vinha na frente. As pessoas ficaram ao seu redor e Kapita disse: “Crianças, este é um espírito, um kagaiha”. Kapita o levou para sua casa, onde ele viveu por cinco anos. Ele

aprendeu a língua dos Kalapalo, se pintava e dançava com eles, e ficou sendo como um filho para Kapita.

Um dia ele pediu a seu pai adotivo que o levasse de volta, para buscar facões, machados, enxadas, tesouras. Eles o levaram para o barranco Kahitsü Ekugu, no alto Culuene.

Üginabe naha egei Lá é um barranco Kahitsü Ekugu

Kahitsü Ekugu [“lugar de kahitsü”, um tipo de árvore] Kagaiha ĩhũgu atsakigatühügü tsügüha egei

É onde os ancestrais dos brancos apareciam Ẽ, ngiholo inha tsügüha, ẽ

Sim, para os antigos, sim

Ngiholo inha tsetinge kagaiha ĩhũgu enta uãke

Para os antigos é de lá que os ancestrais dos brancos vinham Ukeale beha ingila uãke

Para nos matar, há muito tempo

Õdoni disse que voltaria na próxima estação seca trazendo muitos objetos. No ano seguinte ele retornou com outros quatro kagaiha por outro caminho, pelo rio Batovi, e chegaram nos Wauja, que os hospedaram em sua casa dos homens. Kapita ouviu a notícia e foi até lá buscá- los. Kapita chegou no final da tarde, e Õdoni foi encontrá-lo na entrada da aldeia wauja para dizer que eles deveriam fugir imediatamente, pois ele estava desconfiado que os Wauja planejavam matá-los naquela noite. “Não dá”, disse Kapita, “eu estou com o corpo todo dolorido por ter vindo remando, vamos amanhã”. Naquela noite, os Wauja os atacaram para roubar seus machados e enxadas, e mataram os quatro companheiros de Kapita. Ele conseguiu fugir, levando alguns machados, e foi chamar Kapita para fugir com ele. Eles chegaram em Kuapügü e Õdoni deu alguns machados para Kapita, que os distribuiu – mas não foram suficientes. Õdoni pediu então que o levassem de volta para Kahitsü Ekugu e que dessa vez ele iria embora para sempre.

Eles nunca mais viram Õdoni, mas Kahitsü Ekugu continuou a fazer parte da história dos Kalapalo como o lugar de onde vinham os brancos para capturá-los e matá-los. O Kapita desta história é o mesmo mencionado na narrativa anterior, o que situa estes acontecimentos não muito tempo depois da fundação de Kalapalo. No começo, o sobrinho do mestre de histórias pergunta: “Kapita era gente (Kapita helei kuge?)”? Com isso, ele próprio me disse, queria saber se Kapita era anetü: mais uma vez gente e chefe aparecem como sinônimos. Há detalhes interessantes, como as observações sobre sua camisa com bolsos, sua “cabeça branca”, sua altura, o episódio conflituoso com os Wauja57

e o lugar do rio onde ele aparecera. Mas duas coisas chamam a atenção: a forma como Õdoni interpela os que o agarraram e sua adoção pelo chefe kalapalo. Quando Õdoni grita “Kapita, Kapita, Kapita, Kapita!”, alguns jovens hoje especulam que ele talvez estivesse dizendo “capitão”, e que os antigos devem ter ouvido errado. Um mestre de histórias de Tankgugu corrobora essa interpretação, e diz ainda que o chefe kalapalo provavelmente tinha outro nome, mas teria adotado “Kapita” depois do ocorrido. Já o narrador da versão que apresento é categórico ao dizer que não, que Kapita era seu nome verdadeiro e Õdoni o adivinhou por um motivo óbvio: os itseke podem saber de tudo! Mas ele se enganou quando foi agarrado pelos companheiros de Kapita: os chamou de kamaga porque não sabia que eles também eram chefes. Mas o mito não pode ser considerado contraditório. Apesar de serem todos chefes, em algumas passagens Kapita chama seus companheiros de kangamuke (crianças), e estes se referem a ele como ukoto58 (nosso dono/pai). Considerando que a filiação é o modelo da relação entre um chefe e seu povo, no final das contas o itseke estava certo: eles eram Kapita kamagagü, “pessoal do Kapita”.

Kapita pensa que vai morrer e, por precaução, deixa sua irmã de sobreaviso para que proteja seu filho. Ahua59 fica tão desesperada quando a notícia da captura de um itseke chega à aldeia que envia seu filho para outro de seus tios maternos em Amagü60 e diz que vai ao encontro de seu irmão para ser morta pelo espírito. Os kagaiha já eram, logicamente, vistos como perigosos, mas mesmo assim Kapita estava disposto a capturar um. Ele o fez e transformou o espírito em seu filho adotivo, até que ele se tornou como os Kalapalo: falava,

57 Não consegui encontrar registros do contato com os Wauja que me permitissem cruzar as histórias. Aristóteles

Barcelos Neto (comunicação pessoal) afirma nunca ter ouvido algo semelhante.

58

Uk-oto (12-dono/pai).

59 Reencontraremos Ahua nos discursos cerimoniais apresentados no capítulo 5.

se pintava, dançava (mas dizem que nunca se casou). Kapita fez com aquele tipo peculiar de espírito o que se deve fazer com qualquer itseke que ataque alguém ou apareça em seus sonhos: o adotou e humanizou. Quando se sonha com um itseke, isso é um índice de que a pessoa já está sendo atacada por ele, já está doente, e por isso Kapita tinha tanta certeza de que seria morto por um espírito (se via um em seus sonhos é porque já estava “morrendo um pouquinho”). Mas assim como a reversão dessa situação se dá pela familiarização do itseke por seu “dono” (Barcelos Neto, 2008; Franco Neto, 2010), Kapita tentou fazer o mesmo com Õdoni61.

Depois de Õdoni e até a época de Von den Steinen, os Kalapalo só conheceram kagaiha violentos. Uma das narrativas mais famosas sobre a violência dos brancos é a história de Saganaha, um épico da história oral karib (que, junto com o rapto da bela Ahuseti, dariam filmes incríveis). Basso (1993; 1995: 41-61) já apresentou uma longa versão dessa narrativa que não difere das que ouvi em campo, a não ser por pequenos detalhes, e por isso vou me limitar a resumi-la. O herói é capturado, casa-se na cidade, tem filhos e retorna à aldeia, onde se casa novamente e se torna um importante chefe. É desse casamento na cidade que resulta a maior onda de ataques de kagaiha, não só aos Kalapalo, mas a todos os índios da região, pois segundo a história, os brancos seriam chefiados pelos filhos de Saganaha que atacariam as aldeias em busca de seu pai. O condutor dos ataques seria seu filho mais velho, Paipegü. Não estamos muito longe dos eventos com Õdoni, pois o chefe de Kuapügü à época do rapto de Saganaha era Haja/Juaikumã62, um dos companheiros de Kapita (o mais velho de seus acompanhantes). Os Kuikuro também falam sobre ataques no tempo em que estavam no Buritizal, em Óti:

Os antepassados dos caraíba chegaram muito tempo atrás. Os antepassados caraíba vieram até o Kuluene, montaram acampamento em Turi, construíram muitas canoas de casca de jatobá, muitas enfileiradas para matar nossos antigos. Estavam em Agahúku [...]. (Franchetto, 1998: 344)

61 Esse modelo de relação vigora em grande medida até hoje: os brancos precisam de um dono (um chefe). Este

tema será objeto de parte do capítulo 6.

62 Um homem de mesmo nome foi o principal chefe entre os Kalapalo antes de Sagagi (começo do século XX),

outro Juaikumã (seu neto, possivelmente) foi identificado como chefe na época da Expedição Roncador-Xingu por Orlando e Cláudio Villas Boas (1970: 33), seu filho foi chefe em Aiha (falecido em 2009 e homenageado em um egitsü em 2010) e hoje o neto mais velho deste homem foi indicado para substituir seu pai. Semelhante continuidade de chefes é incomum para os padrões alto-xinguanos conhecidos, mas revela tanto a importância da genealogia quanto o valor dos “nomes famosos”.

Os brancos iam de aldeia em aldeia, à noite, matando as pessoas, roubando mulheres e procurando os chefes: “Juntaram os mortos e perguntaram: ‘Onde está o chefe? Onde está Kujaicí?’. Lá não estavam os chefes, nem Kujaicí, nem Aráhi, nem Painigkú. Os caraíba foram procurá-los, foram procurar Kujaicí. (...)” (Franchetto, 1998: 344). Franchetto nota que os chefe mencionados na narrativa Kuikuro são os mesmos “celebrados como epônimos dos Kuikuro no discurso cerimonial que apresenta a identidade distintiva do ótomo kuikuro (...)” (id. ibid.; ver capítulo 5). Dole (1984: 319) diz que os Kuikuro confirmam conflitos com homens que, “vestindo lenços azuis e amarelos”, destruíram muitas de suas plantações.

Dole sugere que estes ataques talvez tenham sido conduzidos pelo bandeirante paulista Antônio Pires de Campos (cf. também Franchetto, 1998: 345). Não há informações sobre ele ter conduzido ataques pelo Culuene, mas a proximidade de seu nome em karib (Paipegü ou Paypegi) e a forma pela qual era chamado pelos Bororo (Pai Pirá) torna a aproximação tentadora. Pires de Campos tinha um grupo de soldados bororo que o ajudava nas bandeiras, e a referência a índios que atacavam as aldeias junto com Paipegü (filhos de Saganaha, segundo a narrativa kalapalo) é outro ponto favorável à especulação. Dole ainda sugere que, se Pires de Campos não esteve no Culuene, talvez os ancestrais dos karib xinguanos tenham estado mais a leste, no Rio das Mortes, onde Pires de Campos conduziu expedições para escravizar índios. É uma possibilidade, mas a marcação do local destes eventos, Kuapügü/Kalapalo, entre o Buritizal e o oeste do Culuene, não sugere isso. Os formadores do Xingu eram pouco conhecidos e não é improvável que o Buritizal tenha sido uma via de acesso dos bandeirantes à região (com efeito, os Kalapalo dizem que Paipegü chegava descendo o córrego Hotogi, que se origina no Buritizal e deságua em Lahatua, uma lagoa cuja região é ocupada pelos Kuikuro). Estaríamos no máximo em 1760, quando se especula (Martini, 2008: 7) que Pires de Campos tenha morrido com uma flechada durante um encontro com índios (a data exata é desconhecida; sugere-se que ele tenha morrido entre 1750 e 1760). Neste ponto, a história se cruza novamente com a memória indígena, desta vez dos Kuikuro. Os historiadores dizem que Pires de Campos teria sido morto por uma flechada em um confronto com os kayapó, e carregado em uma rede por seus soldados bororo até o quartel (Martini, 2008: 7). Os Kuikuro contam que um de seus antepassados, Kuirálu (um personagem “vingador”), teria matado o chefe dos brancos hostis (Paipegü) com uma flechada, enquanto era carregado em sua rede (Franchetto, 1998: 346):

Kuirálu estava lá para matar o chefe dos caraíba, ele tinha fugido com seu sobrinho. Cavou um buraco na beira d’água [...] os caraíba chegaram queimando a mata. À noite, os soldados foram se banhar; no meio deles estava seu chefe, carregado na rede até a água. Flecharam e Kuirálu voltou correndo para se esconder no buraco.

Depois disso, os Kuikuro contam que os chefes de Óti foram aprisionados pelos brancos, mas acabaram voltando com eles “amansados”:

Esse acontecimento é importante por marcar um corte na história das relações com os brancos, uma mudança relatada como abrupta e possível graças aos chefes aprisionados, aos quais se atribui o papel de verdadeiros ‘pacificadores’, ‘civilizadores’ dos caraíba selvagens e assassinos. (ibid: 347)

Mas por que filhos de chefes? Os Kalapalo prontamente dizem que os índios eram roubados para trabalhar para os kagaiha, mas ainda assim, não poderiam os brancos roubar pessoas comuns? Grande parte das coisas que acontecem nas histórias são com chefes e, na visão kalapalo dos ataques dos brancos, não era diferente. Essa aparente “obsessão” por identificar os protagonistas das histórias a chefes sugere que a própria chefia pode ser vista, ao menos em parte, como um efeito narrativo. Não que apenas “chefes de verdade” sejam eleitos como personagens, mas a recorrência da identificação entre chefes e protagonistas históricos é tão grande que é preciso perguntar se, ao protagonizar uma história, alguém não seja automaticamente “interpretado” como chefe. Quando um grupo é “representado” por alguém nos rituais, ele é personificado por chefes. São eles as pessoas capazes de agir no lugar do grupo, que assumem a posição de sujeitos nessas relações (no sentido de Lima, 2005). Algo semelhante parece se passar com a memória histórica. Se a memória de eventos envolvendo grupos é associada a acontecimentos na vida de pessoas específicas, estas assumem a posição de sujeitos e são, logicamente, equiparadas a chefes. Não quero dizer que os eventos não tenham “acontecido de verdade” com chefes, pois esta seria uma questão irrelevante. Chefe é quem é feito chefe, e a forma da memória histórica kalapalo, tão biográfica, como Basso (1989) já discutiu, ao narrar eventos de pessoas que “stand for the group”, pode equacioná-las a chefes – assim como os ex-moradores de Amagü mudaram sua visão sobre Temetihü que, de acusado de feitiçaria, se tornou o principal ancestral do grupo que é o “ponto zero” da identidade kalapalo.