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CONTRADIÇÃO NA SOCIEDADE HIPERCONSUMISTA

No último capítulo da tese, a proposta é apresentar o conceito de felicidade no contexto monacal, sobretudo no Mosteiro da Ressurreição. Um estilo de vida, como o monástico, por mais afastado que esteja do urbanismo, está inserido numa determinada cultura e em certo tempo, sofrendo também as consequências dos mesmos. Muitas indagações e muitas curiosidades sobre o monaquismo surgem e as respostas nem sempre aparecem. Após uma consideração inicial a respeito do caráter inusitado da felicidade monacal; num segundo momento apreciaremos alguns depoimentos de monges e de monjas sobre a vida monástica, testemunhos válidos sob a ótica da fé. A vida deles é o maior argumento e pode ser a resposta para aqueles que, curiosos e ansiosos pretendam entender um pouco melhor esta forma de viver.

7.1 – Monaquismo e consumismo

Os monges do Mosteiro da Ressurreição, desde os tempos de sua fundação, acreditaram que Jesus Cristo caminha com todos “aqueles que crêem sem ter visto” (Jo 20, 29), uma vez que a Ressurreição é o que motiva os cristãos a praticar as boas ações e a manter sempre acesa a esperança de dias melhores. A Ressurreição é um fato, aceito sob o prisma da fé, mesmo havendo tantas controvérsias em nossa sociedade. Em todos os tempos e em vários lugares, muitas pessoas derramaram seu sangue, por professarem a Ressurreição de Cristo.

Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia, e permitiu que aparecesse, não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois que ressuscitou. Ele nos mandou pregar ao povo e testemunhar que é Ele quem foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. Dele todos os profetas dão testemunho, anunciando que todos os que nele crêem recebem o perdão dos pecados por meio de seu nome (At 10, 40-43).

 

O mosteiro, objeto desta pesquisa, traz o nome de Ressurreição não apenas exteriormente. A impressão de muitos que o visitam é que seus monges trazem gravados interiormente em seus corações a Ressurreição de Cristo: “... eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). O que a sociedade pode dizer diante de uma vivência de fé neste nível? É a crença nestes valores, quase inenarráveis, que inspira algumas pessoas a se tornarem livres e espontaneamente encarcerados dentro de um mosteiro, vivendo um estilo de vida nada comum aos olhos da sociedade laica:

Na atual sociedade humana, que tão facilmente repele a Deus e o nega, a vida de homens e mulheres, dados à contemplação das coisas divina, proclama abertamente a existência de Deus e a sua presença, uma vez que essa vida traz consigo uma característica de amizade com Deus, que dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus. Por isso, os que assim vivem podem confirmar aos que são tentados na fé e que, por erro, chegam a negar a faculdade dada a todo homem de entrar em colóquio com o Deus inefável.1

Muito já foi discutido sobre a relação da sociedade pós-moderna e a vida monástica, já que na atualidade este tipo de vivência não é tão relevante ou interessante e, portanto, desejável. Aparentemente, a vida monástica é uma inutilidade, que não gera lucros materiais, algo quase descartável:

O ideal ascético já não é a figura dominante do capitalismo moderno (...). O que resta no momento em que o afrouxamento pós-moderno liquida o torpor e o enquadramento ou o transbordamento niilista; a descontração elimina a fixação ascética.2

É um paradoxo que neste transbordamento niilista e de vazio existencial, pessoas, sobretudo, jovens, batam à porta de algum mosteiro para viver uma vida baseada no ideal ascético. A sociedade propõe e impõe o consumismo como uma suposta felicidade. A propaganda diz: compre e consuma o máximo, cuide-se, tenha muito dinheiro, seja o melhor, viva o hedonismo, nada é eterno, tudo pode ser

       

1 Agostinho ROBERTS, Vida monástica - elementos básicos, p. 186. 2 Gilles LIPOVETSKY, A era do vazio, p. 20.

descartável e relativizado. Enfim, a lista é enorme. No entanto, os valores do monaquismo são: ter despojamento, possuir apenas o necessário, viver com simplicidade e com poucas coisas, amar a Deus de todo coração e ao próximo como a si mesmo:

Se o amor é uma capacidade do caráter maduro e produtivo, segue-se que a capacidade de amar de um indivíduo que viva em qualquer cultura depende da influência que essa cultura tem no caráter da pessoa mediana. Falar do amor na cultura contemporânea é indagar se a estrutura social da civilização ocidental é o espírito que dela resulta propiciam o desenvolvimento do amor. Levantar tal questão é respondê-la negativamente. Nenhum observador objetivo da nossa vida ocidental pode duvidar que o amor [...] seja um fenômeno relativamente raro e que seu lugar seja tomado por um grande número de formas de pseudo-amor, que na realidade são formas de desintegração do amor. 3

Parece um contrassenso apresentar a vida monástica como uma fonte perene de amor, capaz de preencher a existência humana de significado. No mais profundo de todos os seres humanos, há um único desejo de amar e ser amado, conforme afirma Comblin:

A raiz e a força de todas as paixões e atos humanos é o amor inato do ser. (...) Mas o espírito humano não se contenta com o que satisfaz os sentidos, e o amor inato de ser nunca se detém. O desejo se desenvolve sempre mais, o esforço para alcançar a plenitude aumenta, cumula a imaginação e impulsiona o sentimento para outro fim.4

O amor é a solução para muitas doenças do nosso tempo, inclusive o vazio. “‘Se pelo menos eu pudesse sentir alguma coisa!’ Esta frase traduz o “novo” desespero que aflige um número cada vez maior de pessoas”5. Scheler dizia num sentido análogo: “o espaço de Newton é o vazio do coração. O homem não encontra no universo neutro e estéril do discurso científico o como satisfazer suas exigências íntimas. O espaço de fora não corresponde mais ao espaço interior”6. Ainda segundo as palavras de Dom Bento: “... precisamos não de muito espaço, mas do que        

3 Erich FROMM, A arte de amar, p. 103.

4 José COMBLIN (dir.), O peregrino Russo - três relatos inéditos, p. 114-115. 5 Gilles LIPOVETSKY, A era do vazio, p. 55.

 

realmente nos ajuda a crescer humana e espiritualmente para atingirmos a estatura e a medida de Cristo”7. O espaço monástico é preenchido pelo desejo de atingir o próprio Cristo, já na sociedade, pretende-se preencher com coisas, que nem sempre saciam a fome de amar e ser amado.

Na sociedade pós-moderna, onde quase tudo requer a comprovação cientifica dos dados, a vida monacal nem sempre é compreendida e estimada por ser uma vivência voltada para o sagrado. Torna-se difícil descrevê-la, já que o discurso é limitado e a experiência é pessoal:

O sagrado não é uma categoria do entendimento que nosso espírito poderia manipular ao seu bel prazer; não é uma idéia nem uma doutrina; é uma presença, a revelação feita a alguns homens que se acham “diante de Deus”, fórmula, sem dúvida, intraduzível extremamente numa linguagem humana qualquer que ela seja. Estar “diante de Deus” é aceitar em não ser dono do sentido, é descobrir sua própria inexistência perante uma Existência transcendente, que anula o homem e ao mesmo tempo o reabilita graças a uma espécie de nova criação. Esta experiência assombrosa não pode ser transcrita na linguagem humana; os livros santos, as grandes figuras da vida religiosa dão-lhe descrições aproximativas, sob forma de alegorias, recorrendo a transposições imaginarias e poéticas. Pode-se indicar o sentido, não se pode analisá-lo, explicar-lhe o motivo. “É uma coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo”. Está dito nas Escrituras.8

O sagrado torna-se uma realidade cotidiana na vida dos monges e, portanto, eles supõem que encontraram a felicidade. “Na vivência do sagrado a pessoa pressente o Ser e o sente como presença que coloca o seu próprio modo ser em devir e em realização. Após a experiência, sente-se transformada”9. Ser monge é enfrentar uma grande batalha pessoal, “... numa vida de luta contínua contra os costumes do mundo, contra os vícios, as paixões e tudo o que pode afastar-nos de Deus, e em uma vida de esforço constante para adquirir as virtudes”10. Com uma busca contínua de configuração ao próprio Cristo crucificado, o monge aceita o sofrimento com alegria, não porque é masoquista, mas por ser um homem de fé.

       

7 Dom Bento de SOUZA, Claustro: o útero que gera vida nova, p.1. (Mimeo, e-mail: 21/05/2011). 8 Georges GUSDORF Georges, A Agonia da Nossa Civilização, p. 196.

9 Gilberto SAFRA, Desvelando a memória do humano: o brincar, o narrar, o corpo, o sagrado, o

silêncio, p. 53.

No próprio instante em que iniciava sua paixão, Jesus nos legava sua alegria, que consistia em cumprir em todas as coisas a vontade do Pai. Aí está também a fonte de alegria do monge. Mais cedo ou mais tarde vamos nos achar pregados à cruz por meio dos votos. Não se trata meramente de uma frase piedosa, mas de uma necessidade íntima da vida verdadeira. Será justamente a cruz que preferiríamos não carregar, Jesus declara, no entanto: “Felizes os pobres de espírito, porque a eles pertence aqui e agora, o reino dos céus”. A vida dos santos não faz mais que interrogar o paradoxo: “Ao ser interrogado pelos irmãos acerca das razões de suas renúncias, um dos santos Padres do deserto dizia: “Meus filhos, fazemos bem em odiar todo repouso na vida presente e também os prazeres do corpo e as alegrias do comer e beber. Não busquemos as honras dos homens. Porque então nosso Senhor Jesus Cristo nos dará as honras celestiais, o repouso na vida eterna e a alegria gloriosa de seus anjos”. Uma vida de aniquilamento por amor a Jesus Cristo não pode ser triste, confusa ou amargurada. Se renunciamos a tudo, inclusive às coisas boas, é para amar melhor e mostrar melhor a todos os homens o amor do Pai, que Jesus nos deu. Temos que aprender a deixar- nos invadir mais plenamente por esse amor, a fim de estarmos mais unidos ao Amado.11

Que espécie de gente são estes monges e estas monjas, que ao longo de tantos séculos marcam presença na história do Cristianismo? “Somos homens e mulheres do nosso século com o que há de melhor e pior, e foi esse o momento que Deus escolheu para existirmos e fazermos parte de seu desígnio de salvação, para no mundo estarmos plenamente, porém sem sermos dele”12. Ou, ainda, nas palavras do próprio Cristo, que se tornou vivo na vida destas pessoas:

Dirigi-te esta oração enquanto estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria. Dei-lhes a tua palavra, mas o mundo os odeia, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Não os peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mundo mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo (Jo 17, 13-16).

Tudo indica que são pessoas comuns, como qualquer pessoa, mas que decidiram viver a vida sob o prisma da fé, comprometendo-se sem reservas com a pessoa de Jesus Cristo: “No claustro nossa vida se desenvolve num ritmo diverso daquele que o mundo oferece. Corremos muito, mas o objetivo é o mesmo. Corremos para servir e servimos para amar”13.

       

11 Agostinho ROBERTS, Vida monástica - elementos básicos, p. 182.

12 Homília de Dom Abade André MARTINS, IX Domingo do tempo Comum - Ano A, p. 2.

 

Os paradoxos parecem que se encontram: vida de fé e vida sem fé. Podemos ver despontar novas situações pessoais e históricas, onde só o próprio tempo poderá fazer a avaliação positiva ou negativa, também em relação à pequena sociedade monacal, já que segundo Lipovetsky, estamos “... na hipermodernidade, um tempo em que excesso e vazio enfrentam-se num combate que gera autonomia, novas liberdades e produz também, como não poderia deixar de ser, novos problemas, novas angústias e novas expectativas”14. Quando o Mosteiro da Ressurreição foi fundado, no coração daqueles jovens monges havia muitas expectativas em relação ao futuro, deixando o mosteiro de São Paulo, que estava no centro da cidade, para iniciar algo novo afastado da cidade. Certamente, não foi uma situação fácil, mas prosseguiram com o propósito:

Por meio do humilde processo de sua vida, através da perseverança na fé, da docilidade, dos louvores divinos e do amor fraterno, está fazendo um apelo a Deus para atuar com intensidade no mundo de hoje. O monge descobre que sua experiência de Cristo o faz pai do mundo vindouro, príncipe da paz, primícias de uma nova humanidade.15

Muitas vezes, olhamos para a vida monástica como um ideal perfeito e distante, mas esta idéia não procede e nem corresponde à verdade. Podemos comparar a vida comunitária com as colunas que formam o claustro do Mosteiro da Ressurreição, ou seja, são diferentes uma das outras. Algumas são tortas, outras largas e ásperas, outras quase perfeitas. Enfim, um detalhe importante que pode ficar despercebido, mas com profundo significado. Cada uma delas pode representar cada monge do mosteiro, com seus limites, mas, quando juntas, formam um bonito conjunto, onde os defeitos não aparecem com tanta saliência.

Num mosteiro, para além de sua disciplina como pedagogia de vida, tudo nos é permitido, porque somos livres, mas nem tudo nos convém, pois muitas coisas nos escravizam, nos tiram do alvo, mudam nosso roteiro, nos esvaziam e nos causam enfermidades físicas e psíquicas em nós e nos outros.16

       

14 Gilles LIPOVETSKY, A Era do Vazio, p. XI.

15 Agostinho ROBERTS, Vida Monástica - elementos básicos, p. 186. 16 Homília de Dom Abade André MARTINS, Abertura da Quaresma, 2011, p. 2.

Ter bom senso e saber usar da liberdade é a chave para uma boa convivência consigo mesmo e com as demais pessoas. Dom Bento compara o claustro e a vida comunitária com um útero:

O claustro de um mosteiro é como um grande útero, que enquanto gera, está ainda sendo gerado, porque não existe nem subsiste fora do útero maior que é aquele da Igreja de Cristo que nos acolhe e jamais rejeita. No claustro, através de orações, silêncio, trabalho, disciplina e convívio fraterno, muitas almas vão aos poucos sendo modeladas e formadas para também elas começarem um dia a gerar e serem responsáveis pela continuidade desta dinâmica de geração e criação de homens novos renovados em Cristo.17

Será possível que o mosteiro seja um lugar que proporciona aos seus membros a felicidade? Como é concebida a felicidade dentro da vida monacal? Um mosteiro formado por gente de diversos níveis culturais, sociais e cronológicos, pode contribuir para uma vivência pacífica? “A vida feliz não se vê com os olhos, porque não é corporal”18, parece que a vida feliz dentro do claustro é vivida noutro parâmetro:

Não existiríamos nem resistiríamos sozinhos, mas somos aquecidos e alimentos pela seiva da graça do Espírito Santo, que gera e regenera homens e mulheres que batem à porta de nossas casas e experimentam a alegria, mesmo nas dores, de serem consagrados para a vida no claustro.19

São Bento apresenta sua proposta de felicidade, dizendo que é o próprio Deus quem nos convida à vida feliz:

Desde o início do Prólogo da Regra, São Bento anuncia seu programa: propõe um caminho de felicidade: “Onde está o homem, pergunta a seu leitor, que quer a vida e deseja ver dias felizes? [...] Bento acrescenta: é quando você tiver feito isso, meus olhos estarão sobre você e meus ouvidos atentos às suas preces, e antes que você me invoque, eu direi: “Aqui estou!” Resposta encorajadora que arranca da pena de Bento um dos mais raros e breves impulsos líricos de sua Regra: “Que há de mais doce para nós, irmãos muito queridos, do que esta voz do Senhor que nos convida? É por sua

       

17 Dom Bento de SOUZA, Claustro: O útero que gera vida nova, p. 2. (Mimeo, e-mail: 21/05/2011). 18 SANTO AGOSTINHO, Confissões, 10, 21, p. 293.

 

pietas, por sua ternura, que Deus nos mostra o caminho da vida”- quer dizer, da felicidade. 20

O monaquismo, como uma pequena sociedade inserida na grande sociedade, tem seus desafios próprios:

... a história não é feita apenas de êxito daqueles que construíram intelectual e praticamente um mundo novo; é feito também da queda das sociedades que não compreenderam, permitiram e organizaram as novas formas que assume a vida econômica, política e cultural. 21

Outros perigos, como o isolamento e o fechamento em si mesmo, numa atitude de auto-proteção ou egoísta, podem levar às pequenas comunidades a se dilui na macro-sociedade, que segundo Touraine:

Em vez de as nossas pequenas sociedades se fundirem pouco a pouco numa vasta sociedade mundial, vemos desfazerem-se diante dos nossos olhos os conjuntos simultaneamente políticos e territoriais, sociais e culturais, que nós denominávamos sociedades, civilizações ou simplesmente países. Vemos separar-se, por um lado, o universo objetivado dos signos da globalização e, por outro, conjuntos de valores, expressões culturais, lugares de memória, que já não constituem sociedades na medida em que estão privados da sua atividade instrumental já globalizada e, por isso, se fecham sobre sim mesmas dando cada vez mais prioridade aos valores e não às técnicas, às tradições e não às inovações.22

Segundo Lipovestky, “a Era do Vazio está cheia de novos significados”23. Descobrir estes novos significados deve ser a grande sabedoria deste tempo:

Tudo é descartável. Mas como encarar o fato? Será que, conforme sugerem alguns, o sistema temporal prevalecente equivale a um “presente absoluto”, fechado, encerrado em si mesmo, separado do passado e do futuro? Será que o indivíduo contemporâneo vive realmente num estado de imponderabilidade temporal”, confinado numa imediatez esvaizada de qualquer projeto e herança? Será que ele se confunde com o “homem

       

20 D. André LOUF, OCSO, A procura da felicidade na Regra de São Bento, Revista Beneditina, p. 1-

2.

21 Alain TOURAINE, Iguais e Diferentes - Poderemos viver juntos?, p. 31. 22 Ibid., p. 14.

presente”, transformando em estrangeiro no tempo, mergulhado apenas no tempo da urgência e da instantaneidade? Será que a aceleração generalizada, o frenesi do consumo, o retraimento das tradições e utopias teriam conseguido criar a civilização do “presente perpétuo”, sem passado e sem futuro?24

A vida monástica parece estar noutro parâmetro de comparação com a atual sociedade, embora tenha e faça uso de alguns elementos da pós-modernidade:

Se um ventilador quebra, antes de tudo nós tentamos consertar. Costumamos dizer que lidamos com as coisas como se fossem vasos sagrados do altar, como se cada item fosse uma peça única, e não algo descartável!, comenta Dom Elredo. Por essa razão existe um esforço, por parte do mosteiro, de ter tudo aquilo necessário às manutenções. O isolamento do mosteiro deve ser alicerçado no fato de ser sustentável. Mas a proximidade com a agitação urbana ocorre, de uma forma ou outra, seja no chinelo crocs que um dos monges usa, seja pela internet, através da qual o mosteiro emite suas notas fiscais, mantém um site e loja virtual, e por meio da qual os monges podem entrar em contato com a família. “Os mosteiros do mundo todo estão adotando a internet, porque é algo necessário até para escrever uma carta”. Justifica Elredo. 25

O ser humano é relacional e, mesmo na vida monástica, é indispensável a comunhão entre todos “... reconheceu-se logo que a vida do anacoreta não era possível para todos, surgindo então a tradição “cenobita”, na qual os monges já viviam sozinhos, passando a compartilhar a vida de dedicação a Deus e a comunidades”26.Ou ainda:

Elemento essencial na vida monástica é o respeito profundo pelo próximo. Dado que somos criação de Deus e por sermos chamados ao batismo, somos todos filhos do Senhor. Como filhos de Deus, temos de nos respeitar mutuamente. Isso é um eco da reverência que temos por Deus. Como o Senhor nos disse: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Com isso, o respeito e a reverência que temos uns pelos outros estendem-se para tudo o que há no mosteiro, São Bento diz que as ferramentas do mosteiro devem ser tratadas como se fossem vasos sagrados do altar.27

       

24 Gilles LIPOVETSKY, Os Tempos Hipermodernos, p. 65.

25 A vida no mosteiro. Jornal Urbe – O JM EM REVISTA, 09/01/2011, Caderno Comportamento, p. 4-

5.

26 Anthony STORR, Solidão, p. 120.

27 Mark W. McGINNIS, A sabedoria dos beneditinos - trinta monges e freiras compartilham as

 

O monge aceita livremente viver o amor cristão na medida do próprio Cristo. Abraça este estado de vida na alegria e na tristeza, na saúde e na doença,