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Ora et labora é marca registrada dos Beneditinos. Desde os tempos mais remotos até os nossos dias, este é o perfil do monge Beneditino: orar e trabalhar. Aliás, tal fato devia ser algo natural para cada cristão, isto é, “orai sem cessar” (I Tess 5,17), uma vez que é uma norma recomendada pelo próprio Cristo. Para aqueles cristãos que decidem viver dentro de um mosteiro, há uma maior possibilidade de exercício desta ação. Assim, interrompem o trabalho manual ou intelectual sete vezes ao dia e se dirigem à capela. Reza-se não apenas para si mesmo, mas pelos outros, pedindo ou agradecendo as graças recebidas. Rezar os salmos é também um grande e insubstituível serviço, que o monaquismo oferece para a humanidade e, de modo especial, à Igreja.

Este capítulo quer ressaltar os sete momentos de oração comunitária, quando os monges do Mosteiro da Ressurreição rezam sem interrupção desde a sua fundação, há trinta anos. A maior parte da oração consiste na recitação dos Salmos e na escuta da Palavra. A jornada diária nesse mosteiro começa ainda de madrugada, nas chamadas Vigílias, que acontecem às 4h20. O segundo momento de oração, no amanhecer, são as Laudes, às 6h15. De terça-feira a sábado, as Laudes são rezadas junto com a Missa. Tércia é a terceira oração do dia que ocorre às 9h00. Sexta é a oração das 12h00. A tarde começa com a oração de Noa às 14h30. No entardecer são rezadas as Vésperas às 17h30. Para completar a jornada das sete orações, quando a noite cai sobre a terra, reza-se as Completas às 19h00. Após esta última oração, cada monge retira-se em profundo silêncio para sua cela. Sucessivamente, dia após dia, ano após ano, os Beneditinos vão prolongando, através do tempo e das gerações, a tradição de rezar sem cessar. O Mosteiro da Ressurreição, como herdeiro direto desta Tradição secular, sempre realizou esta atividade sem jamais interrompê-la. Cada comunidade monástica possui sua característica própria no que diz respeito à Liturgia. Nesta parte do trabalho, será ressaltado o rosto litúrgico do Mosteiro da Ressurreição.

 

4.1 - Vígilias - das 4h20 às 5h10

No Mosteiro da Ressurreição, o dia começa de madrugada, com o toque do sino, às 04h00, despertando os monges para a primeira oração. Ainda está bem escuro, mas a escuridão é apenas externa, pois há uma luz que brilha e as palavras do salmista parecem tornar-se realidade. “As próprias trevas não são escuras para vós. A noite vos é transparente como o dia e a escuridão, clara como a luz” (Sl 138, 12). O silêncio é quebrado apenas pelo badalar do sino. As palavras desta poesia expressam melhor o significado deste momento:

MUITO CEDO TOCA O SINO...

Muito cedo toca o sino, Já despertos se levantam, Pouco a pouco povoando, Corredores solitários, Mergulhados no silêncio, Homens de tantos lugares, De idades e culturas variadas, Que se doam totalmente, Desde a noite ao sol poente, Repartindo um dom precioso, O amor que existe neles... Que beleza, que harmonia, Todo dia sempre novo, Nenhum dia há outro igual, Tudo ali é diferente,

Tudo é fruto do amor,

Renovando a cada instante, Vida nova é gerada,

Para ser sacrificada num amor de doação, Nada em vão, nada fugaz,

Faz crescer quem é pequeno, Faz pequeno até o grande, Num caminho que se sobre, Numa escada que se desce, Quem quer vida encontra a morte,

Quem quer morrer ganha vida, Como a vela se consome, Quando a todos ilumina... 1

Todo cristão é convidado, dia após dia, a despertar sua alma para escutar o próprio Cristo que fala ao coração: ”A cada manhã Ele me desperta meus ouvidos para que escute como discípulo” (Is 50, 4). O monge cristão é alguém que organizou sua vida de tal maneira, que é possível a ele despertar para a oração em qualquer horário da noite ou do dia. Acordar e se levantar da cama é relativamente fácil, quando se acostuma, mesmo no inverno; o mais difícil é ser uma pessoa vigilante o tempo todo e estar sempre desperto2. Rezar é um grande combate espiritual:

A oração é um dom da graça e uma resposta decidida da nossa parte. Supõe sempre um esforço. Os grandes orantes da Antiga Aliança antes de Cristo, como a Mãe de Deus e os santos com Ele, nos ensinam: a oração é um combate. Contra quem? Contra nós mesmos e contra os embustes do Tentador que tudo faz para desviar o homem da oração, da união com o seu Deus. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza. Se não quisermos habitualmente agir segundo o Espírito de Cristo, também não poderemos habitualmente rezar em seu Nome. O “combate espiritual” da vida nova do cristão é inseparável do combate da oração. No combate da oração, devemos enfrentar, em nós mesmos e à nossa volta, concepções errôneas da oração. Algumas vêem nela uma simples operação psicológica, outras em esforço de concentração para se chegar ao vazio mental. Algumas a codificam em atitudes e palavras rituais.3

Os hóspedes são convidados, mas não obrigados a rezar com os monges, sobretudo nesta hora da madrugada. A natureza parece despertar um sentimento de alegria, por exemplo, quando é tempo de lua cheia ou quando se olha o firmamento com as estrelas brilhando. Parece algo indescritível. As palavras do salmista tornam- se as próprias palavras daquele que vive esta realidade:

       

1 Liturgia das Horas, vol. II, Leitura da 3ª semana da Quaresma – quinta-feira.

2 “El dia, para los monjes, empieza quando aún es de noche. Han dormido bastante: de siete a nueve

horas em inverno y cinco horas em verano, com el comlemento de la siesta, es una cantidad de sueño bastante razonable. Estaban preparados para emprender la jornada. Las vigílias se celebran durante todo el año cuando todavía está oscuro”. Garcías M. COLOMBÁS, La Tradicion Benedictina. Ensayo histórico, p. 87-88.

 

Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? (Sl 8, 2-5).

Há um texto sobre o tratado da oração de Tertuliano, do século III, dizendo que os anjos e as criaturas, juntamente com toda a natureza, como as feras e as aves, louvam o Deus criador, rezando à sua maneira. Na capela do Mosteiro da Ressurreição, algumas vezes, aparece um cachorro, um gato ou um pássaro, dando a impressão que se fazem presentes para acompanhar a oração:

Oram todos os anjos, ora toda a criatura. Oram à sua maneira os animais domésticos e as feras, que dobram os joelhos. Saindo de seus estábulos ou de suas tocas, levantam os olhos para o céu e não abrem a boca em vão, fazendo vibrar o ar com seus gritos. Mesmo as aves quando levantam vôo, elevam-se para o céu e, em lugar de mãos, estendem as asas, em forma de cruz, dizendo algo semelhante a uma prece. 4

Nesta esta hora da madrugada, na capela, há pouca luz, tornando o ambiente próprio para o recolhimento. Propositalmente, não se acendem todas as luzes. O hóspede entra na capela e fica sentado em uma cadeira de madeira. Cada monge que chega faz uma inclinação para o altar5 e segue para a sua cadeira do lado do coro. Alguns estão com o capuz sobre a cabeça, outros colocam as mãos sobre os

       

4 Frei Alberto BECKHAUSER, Liturgia das Horas, vol. II, Leitura da 3ª semana da Quaresma –

quinta-feira.

5 “No Novo Testamento menciona-se o altar ainda, mas somente em sentido figurado. Os que crêem

em Cristo “tem um altar do qual não podem se alimentar os que servem à Tenda” (Hb 13, 10), ou seja, os cristãos só têm uma lei sobre comida, a da eucaristia, que exclui todos os outros de sua participação, de modo particular os que pemanecem a serviço da Tenda (= Judaísmo). O altar é a mesa santa da ceia de Cristo e constitui, em última análise, cópia do altar que o apocalíptico João viu no céu e sob o qual ficam as almas “dos que foram imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela tinham prestado” (Ap 6, 9). A mesa, sobre a qual o Senhor celebrou com os discípulos a última ceia (Mt 26, 20-46, Lc 22,14-23), é o primeiro altar para o novo sacrifício, essencialmente diverso dos sacrifícios do Antigo Testamento. A parte mais importante da casa de Deus é o altar, cujo caráter de santidade expressa-se de maneira mais vigorosa nos ritos latinos da consagração de igrejas. Os significados simbólicos principais do altar são: ser representação da mesa da última ceia, ser símbolo da santa cruz sobre a qual foi oferecido o sacrifício redentor e ser símbolo do próprio Cristo. A mesa de pedra assinala para “a pedra que os construtores rejeitaram” e, não obstante, “tornou-se a pedra angular” (Sl 118,22). Uma interpretação místico-mortal dos Padres da Igreja viu no altar o coração de todo homem em que se queima o amor divino como eterna chama. Já Ambrósio considerou as virgens consagradas a Deus como altares do Altíssimo. E as virtudes são os degraus de acesso ao altar, considerando-se os degraus do altar de Salomão como o seu anúncio”.Manfred LURKER, Dicionário de figuras e símbolos bíblicos, p. 5, vocábulo: Altar.

joelhos. A maioria dos monges está com os olhos fechados. Enfim, há um profundo silêncio, também corporal, mas o corpo fala por si mesmo, em cada gesto que os monges fazem6, há uma atmosfera de oração.7

A oração das Vigílias8 começa pontualmente às 4h20, ao toque de um pequenino martelo de madeira. O Abade dá uma suave e discreta batida; o som é quase imperceptível aos ouvidos do hóspede, que não está acostumado com um toque tão discreto. Monges e hóspedes ficam em pé, voltados para o altar e com os olhos fitos sob o ícone da Virgem Maria. As mãos postas uma sobre a outra, um

       

6 “O corpo é o inconsciente visível”, afirmava Wilhelm Reich. É o nosso texto mais concreto, nossa

mensagem mais primordial, a escritura de argila que somos. É também o templo onde outros corpos mais sutis se abrigam. A pele é a ponte sensível do contato com o mundo e pode ser também um abismo. É o nosso órgão mais extenso, é o nosso código mais intenso, um lar de profundas memórias O corpo sente, toca, fala, comunga. Vida incorporada, corpo da Vida. Hoje sabemos o quanto nos desviou da saúde integral a concepção moderna que dissociou o corpo da alma e do espírito. Perdemos a coesão e a congruência: mais do que isto, perdemos a transparência. A fragmentação epistemológica também refletiu-se no indivíduo e na sociedade, separando o organismo do meio ambiente, enfatizando as fronteiras e os conflitos. Alienação diabólica, já que diablos é o que divide, o fator tanatológico básico. Divino é o que vincula, unifica e restaura a inteireza vital”.Jean- Yves LELOUP, O corpo e seus símbolos, p. 9.

7 “São Bento, no 6º capítulo, não fala de silentium, que significa mais a prática do silêncio, e sim de

taciturnitas, taciturnidade. Com isto ele quer, por um lado, referir-se à atitude do silêncio, e por outro a uma atitude de recolhimento, que deve dominar em seu convento. Este espaço de recolhimento é o lugar em que o monge está aberto para Deus, em que ele pode escutar a palavra de Deus na Escritura e na Liturgia, e onde pode viver na presença de Deus. Aqui São Bento está descrevendo mais uma atmosfera do que uma técnica de silêncio. É uma atmosfera de abertura para o espírito de Deus. Ele coloca estas duas palavras uma ao lado da outra: “calar” e “ouvir”. O silêncio serve para ouvir, ao escutar a palavra de Deus. Ele aguça a percepção para a presença de Deus como espaço em que nos movimentamos, e para a palavra de Deus que nos aponta o caminho”. Anselm GRUN, As exigências do silêncio, p. 67-68.

8 “A noite é o tempo em que esperamos pelo Cristo como esposo da humanidade. O tempo noturno

de oração chama-se “Vigília”, que significa o não querer dormir, o ficar acordado. Essa prática era adotada pelos filósofos gregos para libertar a alma do sono da existência terrestre, reconduzindo-a à sua essência original, mais pura. Gregos e romanos conheciam celebrações noturnas, das quais esperavam a iniciação em mistérios mais profundos. “Vigílias” significa também a vigilância para a segurança da cidade. É um conceito derivado da linguagem militar, pois, à noite, o soldado deve estar no seu posto, montando guarda.

Os monges vigiam para, na oração, se encontrarem com Deus. E ainda para o bem da população. Com sua vigília noturna, eles prestam um serviço ao mundo. Vigiam orando, para que ninguém seja assaltado por inimigos internos. A vigília é o tempo mais demorado de oração; nesse momento, recitam-se salmos e medita-se sobre como penetrar no mistério da vida diante de Deus. Enquanto todos dormem, os monges cuidam para que o mundo não se afunde no inconsciente, mas seja despertado pelo Espírito de Deus e enfrente a realidade de olhos abertos. E vigiando, querem participar da oração de Jesus, de quem Lucas afirma: “passou a noite toda em oração a Deus” (Lc 6,12b). Os salmos nos dizem que é, sobretudo, durante a noite que se deve refletir sobre as instruções e o agir de Deus. “Recordo teu nome no decorrer da noite, Senhor, e observo tua lei” (Sl 118, 55). E como base para a Vigília dos monges, São Bento cita outro versículo de um salmo predileto: “No meio da noite me levanto para te louvar pelas tuas justas normas” (Sl 118, 62). A noite é um tempo propício para se refletir sobre as obras de Deus. Por isso São Bento prescreve leituras da Bíblia e dos esclarecimentos dos santos padres”. Anselm GRUN, No ritmo dos Monges, convivência com o tempo, um bem valioso, p. 25-27.

 

pouco abaixo do queixo, fazem uma cruz sobre os lábios e cantam alternando entre uma voz-solo e todos respondem:

Senhor, abri os meus lábios! E minha boca anunciará vosso louvor! Desperte conosco a Virgem Maria! Que ela nos faça guardar a Palavra no coração! Com Ela cantamos o Cântico Novo! Glória a Vós, Senhor, por vosso Filho no Espírito Santo.9

Ouvi muitas vezes a palavra coração durante as celebrações da liturgia. Qual o significado de repeti-la tantas vezes?

O coração, para a grande tradição monástica, como para a Bíblia, é em primeiro lugar, o homem em suas raízes mais profundas; este lugar onde ele pode dizer sem mentira eu e sim, mas também tu. É o lugar onde o homem se revela, separado, pode enfim habitar consigo mesmo, reconhecer o Senhor e rezar em verdade. Entra em teu coração e vê o que experimentas lá e que tu és a imagem de Deus. O monge deve, em primeiro lugar, reconhecer que ele tem um coração petrificado; deve então reuni-lo na paz e, com a lembrança do Senhor, amolecê-lo e quebrá-lo no arrependimento até que ele se torne um coração de carne, trabalhado pela Palavra de Deus, irrigado e semeado pelo Espírito. Então, deste “âmago”, brota o louvor e assim a vida comum, que o monge vive com seus irmãos, se torna concórdia, unidade dos corações, a convivência com a Palavra não é mais somente leitura ou estudo, mas recordatio, meditação no coração, e a liturgia que ele celebra se desenrola também no altar de seu coração.10

Um dos monges leitor da semana dirige-se ao ambão11 com o passo tranquilo e acende uma lâmpada para enxergar melhor. Com a voz clara e terna, canta12 o

       

9 MOSTEIRO DA RESSURREIÇÃO, Hinário do Mosteiro da Ressurreição, p. 3-4. 10 Jean Yves LELOUP, Palavras do Monte Atos, p. 8-9.

11 Estante de madeira onde fica o livro para as leituras.

12 “No Mosteiro da Ressurreição, canta-se em tom gregoriano e em português todos os salmos. Pois

o canto Gregoriano é uma forma musical para uso nas celebrações litúrgicas da Igreja. Característica do Canto Gregoriano é ser essencialmente orante. Ele próprio se constitui em oração e suas melodias não são acessórios à ornamento exterior, mas sim a própria vida da oração, que reforçando a Palavra e dirigindo o pensamento, dispõe o fiel à ação do Espírito Santo, elevando-o a Deus. Como, a partir do século III, a língua latina foi adotada pela Igreja Romana, para celebração litúrgica, também as composições do gregoriano tradicional, até a Reforma do Concilio Vaticano II, foram feitas em Latim. Celebramos a Liturgia em vernáculo, segundo o espírito da reforma litúrgica do Vaticano II, sem deixar de lado a tradição do canto gregoriano. Esse foi um desafio assumido pelos monges do Mosteiro da Ressurreição: adaptar o espírito do Canto Gregoriano para o Português. Com base no principio fundamental de que a melodia no canto Gregoriano é “serva” da Palavra, iniciou-se então o trabalho de adaptação e composição das melodias de forma a que essas pudessem contemplar a

salmo 94 e toda comunidade monástica repete sempre o refrão referente à temática do dia. Ao terminar, volta para seu lugar:

Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos o Rochedo que nos salva! Ao seu encontro caminhemos com louvores, e com cantos de alegria o celebremos!

Refrão: Adoremos a Deus, o nosso Criador.

Na verdade, o Senhor é o grande Deus, o grande Rei, muito maior que os deuses todos. Tem nas mãos as profundezas dos abismos, e as alturas das montanhas lhe pertencem; o mar é dele, pois foi ele quem o fez, e a terra firme suas mãos a modelaram!

Refrão: Adoremos a Deus, o nosso Criador.

Vinde adoremos o prestemo-nos por terra, e ajoelhemos ante o Deus que nos criou! Porque ele é o nosso Deus, nosso Pastor, e nós somos o seu povo e o seu rebanho, as ovelhas que conduz com sua mão.

Refrão: Adoremos a Deus, o nosso Criador.

Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: “Não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras.

Refrão: Adoremos a Deus, o nosso Criador.

Quarenta anos desgostou-me aquela raça, e eu disse: “Eis um povo transviado, seu coração não conheceu os meu caminhos!”E por isso lhes jurei na minha ira: “Não entrarão no meu repouso prometido!”.

Refrão: Adoremos a Deus, o nosso Criador. (Sl 94).

E num ato sincrônico, com se fosse uma grande sinfonia, outro monge começa a cantar o hino, dando a continuidade da temática do dia.

Todo hino termina com uma saudação à Santíssima Trindade e faz uma inclinação, por exemplo: “A vós Trindade Santa, inefável: a majestade, a honra e poder, nós tributemos junto aos vossos Anjos eternamente”13. Ou ainda: “Deus Clemente e Pai Piedoso, a Vós louvor e a Jesus que está à vossa destra. Ao Consolador que nos reúne em mistério o que é vindouro e glória eterna”14. Muitos santos tinham uma devoção especial para com a Trindade, como, por exemplo:

       

estrutura das frases do texto litúrgico em português, atendendo as tônicas das palavras e métricas das frases”.www.abadiadaressurreicao@org. Acesso em: 05 abril 2009.

13 Hino referente à festa dos Santos Anjos. MOSTEIRO DA RESSURREIÇÃO, Hinário do Mosteiro

da Ressurreição, p. 19.

 

“Santa Madalena de Pazzi tinha tanta devoção ao recitar o Glória Patri, que via-se nesse momento empalidecer, tão compenetrada estava da doação que fazia de si mesma à Santíssima Trindade, ao pronunciar essas palavras”15.

Ao terminar este momento, outro monge reza em voz alta a oração do dia, ou melhor, da madrugada. Palavras como escuridão, noite e trevas, são próprias deste momento de oração, pois ainda é madrugada. Exemplificamos com apenas duas orações, mesmo havendo uma variedade imensa:

Enquanto as trevas ainda não se dissipam, Senhor nosso Deus, nós vigiamos celebrando o vosso louvor. Derramai, vos pedimos, em nossos corações o amor, cuja chama não se extingue e fazei-nos entrar um dia em vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.16

Senhor Jesus, no silêncio da noite assumistes nossa carne nascido da Virgem Maria. Enquanto caminhamos, pela fé, até Vós, possamos nossas trevas vos acolher e assim nos tornarmos filhos da luz na glória de vosso Pai. Atendei-nos, Vós que sois nosso Salvador vivendo com o Pai na unidade do Espírito Santo.17

Após esta oração, todos se sentam e sobre suas mãos está o saltério18 e o Abade, em pé, com a voz clara e suave, recita a antífona do primeiro salmo.