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Vários autores13, especialmente da economia, trataram a estrutura produtiva da cidade de Franca utilizando os conceitos de pólo industrial, distrito industrial ou

cluster14. Ao ler a bibliografia e posteriormente agregando a ela as observações de

12 A base de dados do Ministério do Trabalho RAIS-migra-vínculos seria o ideal para captar essa transição

e fragilidade dos vínculos de trabalho no setor, mas isso demandaria uma nova pesquisa.

13 Garcia (1996; 2001; 2003); Suzigam (2000; 2001); Reis (1992); Braga Filho (2000).

14 A discussão acerca dos distritos industriais ganhou relevo dentro do debate da reestruturação produtiva

em virtude do seu forte dinamismo e como alternativa ao modo de organização industrial fordista. O caso mais discutido de distrito industrial é o da Terceira Itália, analisado por Piore & Sabel (1984). Foi no estudo desse fenômeno que esses autores cunharam o termo “especialização flexível”. A forma de organização dos distritos industriais permite que o seu funcionamento apresente uma elevada flexibilidade

campo, percebi ser verdadeira e frutífera a aproximação do tecido industrial da cidade a esses conceitos, embora certamente Franca guarde particularidades, assim como os demais casos de concentração geográfica de empresas de um mesmo setor, seja na Itália, no Vale do Silício nos Estados Unidos ou nas industrias calçadistas da Espanha.

A literatura sobre os clusters é extensa e não é intenção do trabalho realizar uma revisão bibliográfica sobre o tema, o que demandaria um capítulo à parte. Os conceitos de cluster, distrito industrial e pólo industrial só nos interessa se puderem iluminar a configuração industrial da cidade de Franca.

Os pólos industriais caracterizam-se pela concentração em uma cidade ou região de um determinado número de empresas, cujas atividades estejam voltadas para um mesmo produto final. Essas empresas podem atuar em atividades similares (um mesmo produto) ou complementares (distintas fases de um processo produtivo). “Ou seja, os

pólos industriais se caracterizam principalmente pela aglomeração setorial existente quando cidades ou regiões têm sua economia voltada para um mesmo produto” (Reis, 1992:51).

A partir do início dos anos 80, foram se acentuando, com mais força, o dinamismo tecnológico e competitivo de aglomerações industriais localizadas em regiões específicas, como por exemplo, o Vale do Silício nos EUA, os distritos industriais da Terceira Itália, entre outras. Estas aglomerações denominadas Cluster possuem um forte poder de inovação, seja tecnológico ou mesmo organizacional. Os Clusters em geral aumentam a produtividade, direcionam a trajetória da inovação e estimulam a formação de novos negócios. Um cluster possibilita a cada membro se beneficiar como se possuísse grande escala ou como se fosse formalmente associado a outros, sem sacrificar sua flexibilidade (BAZAN, L.; NAVAS-ALEMAN, L.: 2001).

Muitos autores, como Garcia (1996; 2001; 2003), Reis (1992) e Braga Filho (2000), utilizam os três termos, pólo industrial, distrito industrial e cluster, como sinônimos. Entretanto, Suzigam (2000) empreendeu uma diferenciação interna entre os conceitos de cluster e distrito industrial. Segundo Suzigam (2000, 5), “Um cluster é uma

da produção, pois consegue atender rapidamente a flutuações da demanda, formando uma cadeia produtiva bastante flexível.

aglomeração de tamanho considerável de firmas numa área espacialmente delimitada com claro perfil de especialização e na qual o comércio e a especialização inter-firmas é substancial”. Ainda segundo esse autor, apoiado na definição de Altenburg & Meyer (1999, 1694), “Redes locais de negócios onde um denso tecido social baseado em

normas e valores culturais compartilhados e uma elaborada rede de instituições facilitam a disseminação de conhecimento e inovação, constituem um tipo específico de cluster e pode ser denominados ‘distritos industriais’ .

No presente trabalho adotaremos a distinção empreendida por Suzigam (2000), utilizando o termo cluster para nós referirmos a uma concentração regional setorial com cooperação entre as firmas e distrito industrial como um tipo específico de cluster onde existem fortes elementos sócio-culturais associados a esfera industrial.

A meu ver, compactuando com a perspectiva de Garcia (1996), Franca pode ser vista como um distrito industrial, pois tem uma característica central a eles que é a “atmosfera industrial”: “A existência de uma comunidade sociocultural específica

garante a transferência e a acumulação das habilidades de maneira natural, deixando “no ar” os segredos da indústria. Essa identidade sociocultural, que é representada por instituições como a família, a igreja e o clube, garante a reprodução de elementos tácitos e específicos à região, de forma a promover os elementos intangíveis que serão a base da competitividade do distrito” (Garcia, 1996: 42). A “atmosfera industrial” presente nos distritos proporciona o intercâmbio de informações, o estabelecimento de contatos baseados na confiança e a acumulação de competências especificas a esse tipo de concentração industrial.

A presença dos distritos industriais é mais comum nos setores tradicionais, absorvedores de tecnologia, onde o processo de produção apresenta fortes descontinuidades. Nesses setores, a inovação é mais relevante na diferenciação do produto, nos canais de comercialização e no marketing em detrimento das inovações tecnológicas. Duas características adicionais podem explicar as causas pelas quais o aparecimento de aglomerações setoriais de pequenas e médias empresas é favorecido nesses setores da indústria. Em primeiro lugar, o processo produtivo desses setores apresentam fortes descontinuidades, o que reduz significativamente os requisitos de

investimento em capital fixo e possibilita a larga utilização de grande contingente de mão-de-obra, muitas vezes não qualificada. Essa possibilidade de fragmentação do processo produtivo estimula o aparecimento de pequenas empresas especializadas em uma ou algumas etapas do processo de produção (descentralização vertical), que constitui uma das características verificadas nos distritos. Além disso, a descontinuidade permite às empresas menores ocupar nichos de mercado que não são atendidos pelas grandes empresas.

A descentralização vertical das indústrias funciona como um acicate à divisão do trabalho entre as diversas firmas, que, por sua vez, acarretam ganhos em eficiência

coletiva em função da ação conjunta das pequenas e médias empresas do distrito (Garcia, 1996). A eficiência coletiva, encontrada nos distritos industriais, deve ser entendida como a capacidade de obter ganhos de escala provenientes da divisão do trabalho entre as empresas e da especialização das firmas em uma ou algumas das etapas do processo produtivo, resultando numa estrutura produtiva altamente flexível. A flexibilidade é resultado da extensa teia de relações de cooperação interfirmas que pode ser verificada no distrito.

Na cooperação entre as empresas, é preciso ressaltar o papel de relevância que as instituições públicas ou privadas exercem, de forma a obter, de fato, os ganhos de

eficiência coletiva. Essas instituições podem estar organizadas sob a forma de associações de classe, centros de serviço ou ligadas ao governo local, e têm a função de dar suporte institucional para as pequenas e médias empresas que fazem parte do sistema de produção (Suzigan, 2000).

A concentração geográfica permite às empresas operarem de modo mais eficiente na busca de insumos, tais como, mão de obra especializada e fornecedores de máquinas e componentes, além de facilitar o acesso à informação e tecnologia. O cluster também se destaca no binômio cooperação/competição. A cooperação interfirmas é facilitada pela concentração geográfica das empresas. As empresas continuam competindo no mesmo mercado, mas cooperam em aspectos que trazem ganhos mútuos, como por exemplo, participação em feiras, consórcios de exportação, compartilhamento de frete para comercialização, tratamento de matéria prima, etc. Uma prática bastante comum

nos distritos industriais, que ilustra a importância da cooperação na coordenação dos recursos, é o freqüente estabelecimento de contratos informais entre os produtores locais. Isso pode facilmente ser observado na cidade de Franca (Suzigan, 2001).

Em termos gerais, os distritos industriais se definem como aglomerações de empresas de pequeno e médio porte de um mesmo setor ou segmento industrial localizadas numa área geográfica limitada. Mas, essa definição ainda não é suficiente para caracterizar um distrito industrial. É necessário ainda que exista nessas concentrações industriais, fortes relações interfirmas, que intensificam a especialização em determinadas etapas do processo produtivo e possibilitem ações coletivas; redução de rigidez e capacidade de resposta rápida e flexível às mudanças da demanda; endogenização da capacidade tecnológica, que permite um processo contínuo de inovação (Garcia: 1996).

Garcia (1996: 43), resumiu as características que devem ser encontradas em um distrito industrial:

• Fortes relações interfirmas

• Papel importante dos agentes exportadores • Identidade sociocultural

• Papel de apoio das autoridades locais

• Presença de instituições de apoio ao setor industrial • Altos padrões de qualidade e tecnologia

• Alta capacidade de sobrevivência das firmas individuais • Forte dinamismo e alta competitividade

De imediato, é possível verificar em Franca, características típicas dos distritos industriais, uma população de empresas especializadas na etapa de confecção de calçados, assim como, uma série de firmas atuando na provisão de matéria-prima à indústria e no fornecimento de maquinário. Encontramos, ainda, uma série de empresas prestadoras de serviços à indústria calçadista, como as chamadas “bancas” e os escritórios de exportação. Como bem observou Schmitz (1992) (citado por Garcia, 1996), o distrito industrial serve de estimulo ao aparecimento de empresas

especializadas no fornecimento de matéria-prima e de maquinário, como pode ser observado em Franca.

Outra característica já citada encontrada em Franca, que a torna mais próxima da definição de um distrito industrial, é a vasta presença de pequenas e médias empresas no seu parque produtivo. Também encontramos em Franca a chamada “atmosfera industrial” e uma forte identidade sociocultural assentada na produção de calçados. O forte caráter artesanal do processo de produção de calçados na cidade estimula a manutenção e a transferência das habilidades dos produtores e a formação da “atmosfera industrial”. Essa atmosfera garante a transmissão daqueles elementos tácitos e específicos ao setor calçadista local e incorporados à mão-de-obra. Como pudemos presenciar na pesquisa os segredos da indústria em Franca “pairam pelo ar” e são compartilhados pelos familiares, vizinhos e amigos que detêm as chaves da produção do calçado. “A presença na comunidade de uma tradição de valores e das instituições

garante que o processo de aprendizado dentro do distrito industrial se dê de maneira natural, já que a transmissão das informações ocorre através de contatos de cunho muito mais pessoal do profissional, no âmbito de instituições sociais como a família, a igreja e o clube (Garcia, 1996: 29).

A produção de calçados de Franca tem um alto percentual de exportação (36%)15 e isso pode ser visto como indicador de competitividade do setor. Também podemos encontrar em Franca, a exemplo do que ocorre nos distritos industriais, a presença de agentes vendedores para mercados distantes. A exportação de parcela significativa da produção só é possível em virtude da presença dos escritórios de exportação na cidade, que exercem um papel semelhante aos impannatori italianos, uma vez que esses agentes são os responsáveis pelo recebimento dos pedidos do exterior e pelo repasse aos produtores locais. Segundo Garcia (1996:101), a relação entre esses agentes exportadores e os produtores locais é semelhante a uma relação de subcontratação. As atividades de design, marketing, controle de qualidade, definição dos modelos, cabem aos agentes de exportação, e às empresas locais resta a tarefa de produzir segundo

15 Segundo dados da Resenha estatística do SindiFranca do ano de 2007, com base em informação do

especificações predefinidas. Esses agentes de exportação agiriam, assim, como um coordenador de recursos produtivos, beneficiando o binômio cooperação e concorrência entre os produtores locais.

Reis (1992: 74) afirma que a intervenção dos agentes exportadores na dinâmica do comércio do calçado da cidade tem um caráter contraditório. De um lado, a sua presença proporcionou um desenvolvimento da indústria calçadista local e a inseriu no mercado internacional. Mas, de outro lado, provocou uma excessiva dependência em relação a esses agentes, pois se tornaram o único escoadouro internacional da produção calçadista local.

No que diz respeito à competitividade da indústria calçadista da cidade, destacamos dois aspectos. O primeiro refere-se a extensiva divisão do trabalho entre os diversos agentes especializados (produtores locais, bancas de pesponto e escritórios de exportação) que estabelecem relações de cooperação que proporcionam economias indisponíveis para uma firma individual. “Em outras palavras, é possível observar na

aglomeração setorial de Franca a existência dos ganhos de eficiência coletiva, dando um teor high road competitiveness (Garcia, 1996: 105)”. Já o segundo aspecto relaciona- se com as reduções de custos decorrentes da exploração de mão-de-obra barata, alcançada por meio da subcontratação junto às bancas de pesponto e corte da cidade. Assim, é preciso destacar que podem ser observados na produção calçadista francana ganhos de eficiência coletiva decorrentes da divisão do trabalho entre produtores especializados, assim como reduções de custos referentes à exploração da mão-de-obra. Como observou Prochnik (1991: 33), “as empresas adotam um modelo de organização

no qual os fatores de competitividade autêntica se misturam à competitividade espúria”

(citado por Reis, 1992: 92).

Quanto as instituições privadas e públicas - que prestam auxilio às pequenas e médias indústrias do distrito industrial na experiência internacional – destacamos em Franca a presença do Centro de Tecnologia de Couro e Calçados (CTCC), do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que presta serviços de pesquisa relativos ao controle de qualidade do produto final e da matéria-prima. Entretanto, é preciso destacar que,

segundo Suzigam (2000: 37), são poucas as indústrias que se beneficiam dos serviços do CTCC.

Outra instituição presente em Franca que atua no campo da formação da mão-de- obra é o SENAI (Serviço Nacional da Industrial), que oferece cursos voltados para a indústria calçadista, como o de cortador de calçados, montador e acabador de calçador, pesponto de calçados e mecânico de manutenção de máquinas.

Das entidades representativas, destacamos o Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca (Sindifranca) e o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Calçadista. O Sindifranca, órgão de representação política dos produtores locais, tem uma atuação tímida em relação aos serviços prestados às empresas, limitando-se à assessoria jurídica e à prestação de informações comerciais, além da elaboração de números sobre o setor.

Braga Filho (2000: 117), nos alerta para a especificidade do pólo calçadista francano que se aproxima muito em termos de organização industrial de um modelo de

industrial District ou aglomeração industrial cujo perfil é o da especialização estreita, onde várias empresas se especializam na produção de um único produto. Inserido neste modelo está o chamado “survival cluster” ou cluster de sobrevivência, que consistem em micro-empresas de subsistência (setor informal). As características que se destacam nesse tipo de organização industrial são capital social modesto, grande desconfiança, concorrência ruinosa e mínima capacidade inovadora. Tal fenômeno pode ser interpretado de diversas formas, entre outras, como uma forma específica de fracasso no mercado. O mecanismo funcional normal da microeconomia é marcado pela entrada e saída de empresas. Se o faturamento genérico diminuir, as empresas menos eficientes se desagregam do mercado. Contudo, o cluster de sobrevivência funciona exatamente pelo contrário. Eles são o centro de acolhimento para pessoas que se tornaram vítimas do processo normal de adaptação microeconômica.

Deste modo, Braga Filho (2000) acredita que o surgimento da indústria calçadista de Franca baseou-se na própria especialização desenvolvida em função de sua formação econômica que acabou transformando-se em vocação. Porém, o desenvolvimento dessa vocação baseou-se mais na obtenção de vantagens comparativas – disponibilidade de matéria-prima e mão-de-obra abundante – e na inserção passiva

nos mercados do que no fortalecimento e no desenvolvimento de vantagens competitivas e na inserção ativa nos mercados.