Em um primeiro momento, é importante apresentar, sucintamente, algumas concepções de sintaxe que foram relevantes para a pesquisa. Na perspectiva de Bechara (1992, p. 197), por exemplo, a sintaxe diz respeito ao “estudo dos padrões estruturais de uma língua determinada pelas relações recíprocas na oração e das orações no discurso”. Além disso, o autor salienta a possibilidade que o falante tem de fazer escolhas dentre os elementos da oração ou do discurso, tendo em vista atingir melhor expressividade.
Já Perini (1996), ao se referir à relação entre os papéis semânticos e as funções sintáticas, destaca a necessidade de se analisarem as relações de sentido expressas pelas funções
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sintáticas, independentemente de seu preenchimento léxico, e o complexo caráter da relação entre forma e significado.
Fromkin e Rodman (1993), por sua vez, consideram a sintaxe como a parte do conhecimento lingüístico que se refere à estrutura das frases. Segundo os autores, saber uma língua implica ser capaz de juntar seqüências, fazer combinações. Conforme salienta Rocha (2001, p. 62), a capacidade de emitir juízos de gramaticalidade reflete o conhecimento inconsciente que os falantes possuem das regras sintáticas da gramática de sua língua. Esse conhecimento - que faz parte das regras sintáticas que determinam a formação dos enunciados - implica não só a gramaticalidade, mas a ordem, a colocação dos enunciados, o conhecimento das estruturas, das relações gramaticais.
Na perspectiva de Borba (2003, p. 182), o eixo condutor da sintaxe é a relação de que resulta a subordinação de um termo a outro, determinada pela ordem estrutural e linear. Segundo o autor, a sintaxe aborda as relações que as unidades constroem no enunciado. Essas unidades se ajeitam conforme os interesses do falante ou segundo a própria mentalização do que se quer comunicar.
Por fim Koch (1995), ao discutir “articulação entre as orações”, afirma que, na perspectiva tradicional, as relações entre as orações são vistas em termos das noções de coordenação e subordinação, noções predominantemente formais. A autora salienta que, no estudo das orações justapostas, por exemplo, sem qualquer partícula de ligação, dificilmente se procura analisar o tipo de relação que elas veiculam. Após reflexões sobre propostas apresentadas por lingüistas textuais e analistas do discurso, Koch postula a existência de dois tipos fundamentais de relações: i) as relações lógico-semânticas (ideacionais ou referenciais), que são expressas por meio de um único ato de fala; ii) as relações discursivo-argumentativas (funcionais, pragmáticas), que são expressas através de dois ou mais atos de fala - às quais se acrescentam as relações contextualizadoras ou textuais em sentido restrito, ou seja, as que têm a ver com a organização da seqüência textual. A autora ressalta que o estabelecimento de relações entre as orações desempenha importantes funções de ordem argumentativa e cognitivo-interacional, “resultado de atividades de construção textual, realizadas pelos interlocutores por ocasião do processamento do texto, quer escrito, quer falado” (KOCH, 1995, p. 18).
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Todas as concepções acima apontam para uma perspectiva funcionalista em que a sintaxe se relaciona à semântica e à pragmática. Conforme Dik (1978, 1989a), a linguagem só pode funcionar comunicativamente por meio de arranjos sintaticamente estruturados, organizados, o que significa que não há uma sintaxe autônoma. Quando se admite o relacionamento íntimo entre discurso e gramática, reconhece-se o relacionamento entre discurso e sintaxe. Desse modo, a sintaxe é um componente da linguagem que se incorpora à própria interface discurso/gramática: “a gramática é feita à imagem do discurso, mas o discurso nunca é observado sem a roupagem da gramática” (DU BOIS, 1993a, p. 11).
Embora sucintamente, mas de forma a contribuir com os estudos sobre a argumentação, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000) também discutem a questão das estruturas hipotáticas e paratáticas:
quando dispomos de certo número de dados, oferecem-se-nos amplas possibilidades quanto aos vínculos que estabeleceremos entre eles. O problema da coordenação ou da subordinação dos elementos se prende em geral à hierarquia dos valores aceitos; todavia, no âmbito dessas hierarquias de valores, podemos formular ligações entre os elementos do discurso que modificarão consideravelmente as premissas: operamos entre esses vínculos possíveis uma escolha tão importante como a que operamos pela classificação ou pela qualificação (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2000, p. 176, grifo nosso).
Segundo os autores, a construção sindética é a estrutura argumentativa por excelência, uma vez que o síndeto cria contextos, constitui uma tomada de posição: “ele impõe-se ao leitor, obriga-o a ver certas relações, limita as interpretações que ele poderia levar em consideração, inspira-se no raciocínio jurídico bem-construído” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2000, p. 178), conforme podemos ver no fragmento a seguir, em que a relação de explicação é determinada pela conjunção “uma vez que”: “Sr. Presidente, Sr. Relator, não sou advogado, não sou Parlamentar, sou um técnico dos Correios. Fiz o roteiro para falar. Pontuei. Achei melhor anotar todos esses pontos, uma vez que me disseram que eu teria vinte minutos no máximo”(Depoimento de Mauricio Marinho à CPMI dos Correios, no dia 21/06/2005). Já a estrutura assindética renuncia a qualquer ligação precisa entre as partes: “o ouvinte fica livre para imaginar entre os elementos de uma relação que, dada a sua própria imprecisão, assume um feitio misterioso, mágico; por isso, aliás, ela pode provocar um efeito altamente dramático” (PERELMAN; OLBRECHTS- TYTECA, 2000, p.175).
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Ainda, segundo os autores, é com a construção assindética que se deve correlacionar, pelo menos em alguns de seus usos, a enumeração conforme podemos ver no fragmento: “Servi durante dois anos ao Governo. Não respondo a um só processo. Não sou réu”. (Pronunciamento de José Dirceu no Plenário da Câmara dos Deputados no dia 22/06/2005).
Além disso, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000) salientam também que “de modo geral, verifica-se que, na prática do discurso, quase sempre, sob a forma de uma coordenação, insere-se uma intenção de subordinação” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2000, p. 177).
A subordinação, por sua vez, não é expressa unicamente por conjunções, segundo os pesquisadores. Outras formas gramaticais podem desempenhar a mesma função como, a própria qualificação. Ao descrever o Presidente Lula, por exemplo, Roberto Jefferson assim o fez: “O presidente Lula é um homem simples [...]”, pondo em cena a relação determinante/determinado tão cara à sintaxe, à semântica e à pragmática (efeitos discursivos diferem tendo em vista a relação estabelecida entre os termos). Recentemente, no programa “Brasil das Gerais”, um empresário, ao ressaltar a excelência de sua empresa, declarou: “Queremos ser uma grande empresa e não uma empresa grande”.
Os autores não discutem a topicalização, questão, a nosso ver, também de fundamental importância aos estudos sobre a argumentação (tendo em vista as estruturas sintáticas), uma vez que a ordem como agenciamos essas estruturas interfere na persuasão, embora tenham discorrido, de forma bastante tímida, em que lugar recai o foco de determinada conjunção como, por exemplo, a concessiva.
Em nossa opinião, são necessários estudos mais abrangentes sobre as estruturas sintáticas, sobretudo sobre as orações assindéticas (tendo em vista, é claro, os efeitos discursivos pretendidos). Ousamos dizer que concordamos com Perelman e Olbrechts-Tyteca, mas a relação entre as estruturas sintáticas não nos parece tão simples quanto os autores propõem.
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