A maior parte das nossas ações sociais realiza-se rotineiramente de acordo com determinados padrões acionais e papéis sociais. Evidentemente, em nossas ações cotidianas costumamos proceder metodicamente para produzir a nossa normalidade (GARFINKEL, 1967). Em nosso agir, pressupomos que entendemos os outros e que eles nos entendem igualmente. Justifica-se essa confiança pela expectativa de que nossas perspectivas e sistemas de relevâncias sejam congruentes e que nossas interpretações se baseiem numa realidade social construída em comum. Em outras palavras: acreditamos que existam coisas que todo mundo sabe; coisas que fazem parte de um senso comum em que a vida cotidiana aparece como um conjunto de fatos acima de qualquer dúvida.
Como já foi mencionado na seção 4.1.2, a conversação em situações cotidianas é um fator decisivo para criar esse senso comum. De fato, ela é uma atividade tão essencial à vida social que é possível até dizer que “a vida de uma pessoa se desdobra numa série de conversações” (TANNEN, 1990, p. 13) e que, nessa troca contínua e recíproca da conversação, se formam as relações interpessoais e a identidade social das pessoas. O indivíduo, nessa perspectiva, deve ser visto, antes de tudo, como um agente social que ocupa uma posição numa rede de relações sociais cujos fios se cruzam, se interpenetram e se emaranham, transformando-se mutuamente. Nessa rede, a conversação é o grande canal de aproximação social. De fato, cada relação social que reúne e integra pessoas e grupos sociais tem sua origem na vivência do cotidiano coletivo.
A vida cotidiana é, sobretudo, a vida com a linguagem, e por meio dela. É na linguagem que se erguem as pontes entre o pensamento particular e o contexto social, entre o conhecimento e a sociedade, a objetividade e a subjetividade, o indivíduo e o grupo. Além disso, a linguagem é a principal forma de comunicação e transmissão do conhecimento. É ela que, no fluxo da experiência, conserva, modifica e reconstrói continuamente a realidade subjetiva (BERGER & LUCKMANN, 1996, p. 56). Isso vale, particularmente, para o mundo cotidiano que representa a área da realidade na qual o sujeito, inevitavelmente, volta a participar de die in diem. Portanto, a compreensão das atividades linguageiras e do raciocínio prático de senso comum nas situações mundanas de ação é essencial para a compreensão da realidade da vida cotidiana:
O mundo é interpretado à luz de categorias e construtos do senso comum que são largamente sociais em sua origem. Esses construtos são os recursos com os quais os agentes interpretam suas situações de ação, captam as intenções e motivações dos outros, realizam compreensões intersubjetivas e ações ordenadas e, de maneira mais geral, navegam no mundo social (HERITAGE, 1996, p. 329).
Como os conteúdos e as propriedades desses construtos representam a estrutura básica da nossa realidade e o pressuposto comum do entendimento e da interação entre os membros de uma comunidade, é evidente que eles não podem ser ignorados. Numa abordagem socialmente fundada das interações, a compreensão intersubjetiva é considerada um processo dinâmico que se desenrola diante do horizonte do conjunto preestabelecido dos conhecimentos sociais. Com efeito, há áreas da nossa complexa realidade que influenciam nossos pensamentos e nossas ações e que são acessíveis apenas ao indivíduo (por ex.: o mundo privado do sonho, da fantasia e do passado individual), mas nenhuma área se apresenta de uma maneira tão inquestionável e natural como o mundo da vida cotidiana que é permeado pelo que Schütz denomina a “epoché da atitude natural” (SCHÜTZ, 1962b, p. 229), ou seja, que se caracteriza por “uma suspensão geral da dúvida de que as coisas poderiam não ser como parecem ou que a
(HERITAGE, op. cit., p. 329 seg.; realce nosso).
Convêm desenvolver essas afirmações um pouco mais: evidentemente, é preciso ter um conjunto amplo de conhecimentos comuns que explique como os interactantes podem se compreender mutuamente e podem indicar, um ao outro, os seus motivos individuais. O sociólogo Alfred Schütz (1970) concebeu a organização desse conhecimento básico pelos termos Lebenswelt ou lifeworld (”mundo vivido”, “mundo vivencial” ou “mundo da vida”) e afirma que esse mundo da vida fornece todos os significados pré-fabricados e aceitos como certos que são socialmente distribuídos entre os membros de uma comunidade comunicativa. Claro que o senso comum do mundo da vida e os conhecimentos rotineiros dos agentes sociais se distinguem por diferenças de acordo com a identidade e a biografia dos interactantes, mas, obviamente, todos os membros de uma cultura ou um grupo social dispõem de um sentido para certos tipos de objetos ou eventos que lhes permite compreender duas coisas individuais como exemplos do mesmo tipo pré-constituído. Mais ainda, evidentemente, basta perceber certos fragmentos desses objetos para poder antecipar ou completar, mentalmente, as partes que faltam e interpretar a experiência única como instância de um objeto típico.
Na prática, todas as relações sociais, inclusive as de face a face, são amoldadas pelas tipificações que os interactantes retiram de um inventário socialmente elaborado e transmitido de convenções e experiências padronizadas. Conforme Schütz (op. cit.), a habilidade de ativar conhecimentos prévios e acrescentar características implícitas delimita o “horizonte interno” de um tipo ou, nas palavras de Ingarden (1973, p. 84 seg.), “o sentido potencial” dos enunciados. O sentido ocasional, por outro lado, ou seja, o uso concreto de uma expressão num determinado contexto depende essencialmente das circunstâncias sócio-históricas e situacionais de uma interação (SCHÜTZ, 1970, p. 108). Assim, pois, a produção de sentido realiza- se no horizonte dos conhecimentos prévios compartilhados e no contexto continuamente reestruturado das atividades práticas com seus diversos
propósitos comunicativos. Nesse processo, cada enunciado apoia-se tanto na forma linguística quanto no “campo fenomenológico” (MERLEAU-PONTY, 1964) que se desdobra de acordo com as atuais condições de produção. As conversas, então, são construídas, passo a passo, no limite entre as obrigações inevitáveis e as escolhas opcionais postas pelas nossas experiências generalizadas (Luckmann, 1986). Pode-se dizer, então, que os participantes dessa colaboração mútua vivem numa “rede de significados” (GEERTZ, 1973, p. 5) que lhes fornece os relevantes “enquadres de referência” (SCHÜTZ, 1970, p. 119-120). No que diz respeito às suas possibilidades de criar sentido, vale dizer – retomando Wittgenstein (2003 [1921], p. 89) – que os limites da nossa língua são os limites do nosso mundo.