Seguindo uma proposta de Rawls (1987, 1989), podemos reunir as ideias sobre a ordem conversacional de Sacks (1992) e sobre a ordem interacional de Goffman (1967) e ver os princípios organizacionais de interação como respostas tanto às necessidades da representação do Eu quanto à exigência da compreensibilidade das ações. Conforme a mesma autora, é de se pressupor que esses princípios “não têm um conteúdo particular, i.e., não têm um objetivo além de realizar a interação” (RAWLS, 1989: 166). Isso significa que, embora esses princípios possam ser sensíveis a imposições da ordem institucional, é óbvio que não visam a conseguir objetivos externos, como favorecer os interesses de uma classe social, etc. De fato, eles impõem, aos interactantes, um conjunto compartilhado de expectativas no que diz respeito aos cenários individuais de interação e à construção e preservação da imagem identitária na vida cotidiana.
Nesse ponto de vista, a necessidade de produzir um Eu social e a ordem interacional oriunda dela são a fonte de constantes restrições sociais que não têm sua origem na estrutura social, na divisão de trabalho ou em ideias culturais:
Por meio da ordem interacional, há obrigações impostas aos interactantes pelas necessidades do Eu que não podem ser ignoradas. O Eu, portanto, não é um ponto de partida ontológico, [mas...] um produto final cuja existência depende de uma ordem de representação que representa a primeira restrição de situações com copresença (RAWLS, 1987, p. 139).
Assim, pois, enquanto negociam o sentido das suas ações, as pessoas sujeitam-se às regras básicas de interação para assegurar a própria interação e para proteger a “face sagrada” (GOFFMAN, 1967, p. 19; realce
nossa) dos participantes. Mais concretamente, Goffman afirma que os
proteger suas faces mutuamente. Tal atitude leva-os a escolher certas táticas para a realização das interações locais: “Ao tentar salvar a sua própria face, [a pessoa] tem que levar em consideração a perda da face que sua ação pode provocar nos outros” (GOFFMAN, 1967, p. 14). Conforme o autor, a preservação da dignidade pessoal pelo “trabalho de face” e o interesse comum de evitar atos que ameaçam a face do outro são aspectos fundamentais da ecologia das relações sociais em práticas comunicativas locais.
Atendendo ao objetivo da preservação da face, as interações humanas selecionam e produzem continuamente uma identidade social para cada interlocutor, e elas explicam, ao mesmo tempo, a situação, construindo um sentido que corrobora, desafia ou resiste às imposições da estrutura social. O sentido das interações, consequentemente não é dado, simplesmente, pelos objetivos institucionais ou pelas relações com estruturas externas; também não é o resultado de fatores situacionais contingentes. De fato, ele é negociado na interação à base do consenso comum de manter um compromisso com a ordem interacional que fornece um fundamento moral para as interações. É na relação dinâmica entre as convenções institucionais, de um lado, e a ordem interacional, do outro, que se desenrola o dilema da liberdade humana e da possibilidade de escapar das forças restritivas dos contextos macrossociais. A autonomia da ordem interacional transcende todas as considerações institucionais ou culturais:
Enquanto o direito de projetar um determinado papel social pode ser definido institucionalmente, a obrigação moral de aceitar a representação de acordo com o valor da face e a obrigação correspondente de representar a face cuidadosamente existem independentemente das formas institucionais particulares, apenas com base nos imperativos interacionais. Em qualquer ocasião específica, essa dualidade constitui uma dialética essencial entre o compromisso com as convenções que, por si mesmas, possibilitam a interação e o compromisso com as convenções que possibilitam essa interação, mas que são particulares a um contexto institucional (RAWLS, 1987, p. 144; realce nosso).
Tudo isso não significa querer negar que muitas interações são influenciadas por exigências institucionais. Toda conversação é, simultaneamente, um processo local, realizado na ecologia imediata da copresença dos interlocutores, e um processo mais ou menos global,
genéricas, os princípios de polidez, as características institucionais) que têm sua origem em lugares no mundo social, distantes do cenário imediato da interação. “O contexto pode ser organizado, imediatamente, no momento da enunciação, mas, igualmente, é pré-formado pela história e pelos fatos sociais que se encontram nos espaços vazios e nos silêncios da fala. Nem tudo pode ser revisto” (HANKS, 1996, p. 166).
Assim, pois, não há dúvida de que as pessoas, quando querem interagir, têm que fazer isso de uma maneira ordenada, mas esse fato não quer dizer, necessariamente, que os participantes têm que se submeter a uma vontade especial da sociedade, entrar numa ordem institucional, posicionar-se numa hierarquia social e assumir papéis sociais com direitos desiguais (por exemplo: de gênero, de raça, de idade, de classe social ou de educação). Por conseguinte, a relação entre a estrutura social e o indivíduo não pode ser caracterizada adequadamente pela simples dicotomia entre restrição e contingência. Há de fazer uma diferença entre interações cujo sentido é um resultado constitutivo de uma ordem localmente produzida e esses aspectos interacionais cujo significado é definido em relação a considerações prévias sobre enquadres institucionais (RAWLS, 1989, p. 149). É preciso perguntar, então, como as ecologias local e global são ligadas na conversação?
Temos que considerar, cuidadosamente, de qual modo e em que extensão os processos sociais de grande escala influenciam a produção local do discurso em interações face a face e como os processos locais envolvidos na produção da conversação na vida cotidiana de atores sociais locais influenciam os processos sociais de grande escala (ERICKSON, 2004, p. 112).
Sabemos que uma conversação pode tratar, também, de assuntos que não são locais, e os objetivos dos participantes nem sempre são imediatos. O horizonte temporal de um diálogo pode se estender muito, tanto para o passado como paro o futuro; ele pode envolver, também, a vida de pessoas que não participam do evento atual, mas que vivam, talvez, em circunstâncias semelhantes. Além disso, as estruturas macrossociais podem ter um papel decisivo na interação. De fato, a ordem institucional pode fornecer os tópicos e
os enquadres para cenários dramatúrgicos, pode constituir diferentes crenças e atitudes e estabelecer relações assimétricas de poder, mas, como mostra Goffman (1983, p. 1-17), tudo isso tem que ser filtrado pelas exigências constitutivas da ordem interacional que dizem respeito à negociação do sentido e a representação do Eu. Por conseguinte, é oportuno afirmar que as forças macroestruturais são “parasitárias do consenso moral profundo” (RAWLS, 1990, p. 75) que representa a condição prévia de toda interação comunicativa. Para Goffman, o indivíduo e a estrutura social não são entidades em competição; não existe uma dicotomia entre micro e macro, ou seja, uma brecha entre a agência individual e a estrutura social; pois ambas são um produto comum da ordem de interação (cf. GOFFMANN, 1961). O ponto de partida, nessa abordagem, não é o sujeito individual nem a estrutura social, mas “o cenário, as obrigações e as interpretações que, primeiramente, proporcionam aos agentes e à estrutura social a possibilidade de ter uma presença social” (RAWLS, 1987, p. 139).
A abordagem de Goffman, desse modo, escapa, de um lado, do voluntarismo que vê em tudo o que acontece na sociedade um resultado do esforço e da vontade dos agentes individuais; e simultaneamente, evita o determinismo social que acredita serem as forças culturais e sociais os determinantes das ações individuais. A ordem interacional de Goffman representa um sistema autônomo que ocupa uma posição média entre o agente individual e a estrutura social. Nesse modelo, é possível conceber uma influencia mútua em ambas as direções: de cima para baixo, ou seja, das estruturas macrossociais para os agentes individuais que preservam e reproduzem rotineiramente as relações tradicionais de poder; e de baixo para cima, ou seja, dos movimentos individuais para as estruturas institucionais cujas regras podem ser alteradas, esporadicamente, por inovações e empréstimos culturais e pela bricolagem de elementos preexistentes (ERICKSON, 2004, p. 161-174). Nessa perspectiva, os agentes sociais não são portadores passivos de uma ideologia dominante, mas agentes que se apropriam das estruturas sociais preexistentes “pela luta, pelo questionamento e pela penetração parcial dessas estruturas” (WILLIS, 1977, p. 175). Há de se pressupor, portanto, que existe, dentro da ordem das práticas locais, uma