Dada essa natureza das compreensões que os agentes possuem das circunstâncias nas quais estão localizados, convém afirmar ainda que “qualquer cenário social é auto-organizador com respeito ao caráter inteligível de suas próprias aparências” (GARFINKEL, 1984, p. 33). Diz-se que nossas ações são reflexivas porque constituem e organizam o próprio contexto ao fornecer as pistas necessárias para a interpretação dos acontecimentos:
As atividades pelas quais os membros produzem e dirigem os cenários dos negócios organizados do cotidiano são idênticas aos procedimentos dos membros para tornar esses cenários explicáveis (GARFINKEL, 1984, p. 1).
Isso significa que, durante a negociação do sentido, os participantes de uma interação, ao pressuporem o conhecimento das circunstâncias relevantes e ao inserirem certos elementos situacionais nos seus enunciados, referem-se, inevitavelmente, ao contexto situacional:
Já que, numa dada sequência, cada enunciado concreto formará o contexto imediato para a próxima ação, é inevitável que esse enunciado contribua para o quadro contextual, dando, assim, as condições para o modo como a próxima ação será interpretada (DREW & HERITAGE, 1992, p. 18).
De fato, a natureza das atividades sociais não se define previamente nem posteriormente, mas no próprio ato da sua realização. Os fatores que influenciam o processo interacional e explicam seu funcionamento têm que ser estabelecidos pela própria interação. “As ações sociais e os cenários sociais com os quais elas mantêm uma relação reflexiva são estabelecidos nos e por meio dos detalhes de interação” (HERITAGE, 1997, p. 371). Por conseguinte, a situação de ação deve ser vista como “a pressuposição, o projeto e o produto de suas próprias ações constituintes” (HERITAGE, 1997, p. 350).
Para Sacks (1992), a produção local da ordem interacional não depende tanto do footing quanto da necessidade de produzir um sentido pelo encadeamento de enunciados. Isso significa que as exigências que os interactantes devem cumprir no que diz respeito à compreensibilidade dos enunciados e às obrigações de envolvimento são fatores essenciais de influência para a organização das práticas comunicativas. É certo que a
através das categorias de espaço, tempo e pessoa, à realização de um determinado contexto, mas esse contexto, ao mesmo tempo, é estabelecido apenas pela própria organização interativa. Reconhecendo esse caráter duplo das interações, o autor distingue entre “contextos com condições normativas de justificação”, que sugerem aos participantes como explicar o que está acontecendo, e “relevâncias sequenciais”, que ocasionam a organização das sequências conversacionais.
As tarefas constitutivas dessa dimensão particular e autônoma da realidade social surgem somente com a realização das atividades conversacionais. Isso significa que os problemas e necessidades organizacionais (como a constituição social da presença dos participantes, a construção de uma sequência ordenada de turnos, a produção de condições de conexão que possibilitam a continuação interativa e a desativação do mecanismo da troca de turnos para poder concluir uma conversação) são produzidos e, simultaneamente, resolvidos no decorrer das próprias manifestações interacionais. Em outras palavras: as unidades e estruturas que constituem o sistema comunicativo e, portanto, os eventos conversacionais são produzidos pelas próprias atividades comunicativas. “A contextualidade é reflexiva e o contexto de agora é, em princípio, o emulador do contexto seguinte” (MARCUSCHI, 2001, p. 8). Assim, pois, toda atividade social é produzida e compreendida, como tal, apenas pelos desdobramentos da própria atividade.
Qualquer cenário organiza suas atividades para fazer suas propriedades detectáveis, interpretáveis, explicáveis, memoriáveis, narráveis, contáveis, analisáveis, enfim, explicáveis como ambiente organizado de atividades práticas (GARFINKEL, 1967, p. 33).
Isso significa que os falantes, nos seus enunciados e através da forma dos seus enunciados, não se referem, apenas, à situação, mas criam essa situação pela maneira como falam e pelas próprias interações. Conclui- se, então, que o contexto não é um quadro social preestabelecido que contém e acomoda os enunciados dos participantes; antes, pelo contrário, são os
próprios participantes que constroem o contexto imediato de uma situação comunicativa e, desse modo, criam as condições para fazer conexões entre as práticas locais e os processos globais da ordem social mais ampla.
As atividades sociais rotineiras pressupõem, assim como a língua, uma gramática, ou seja, uma estrutura básica de padrões interacionais. Orientando-se nos esquemas sócio-comunicativos e culturais, os interactantes interpretam suas ações, mutuamente, como uma expressão ou um “documento” (GARFINKEL, 1967) desses padrões, que, por sua vez, podem ser construídos e elaborados com base, apenas, na interpretação de concretas ações. Essa relação recíproca entre as ações interpretadas e os padrões de base chama-se “indicialidade”. A linguagem cotidiana é repleta de expressões indiciais que servem como meios de referência para exprimir qual significado é dado a um determinado contexto e como os outros participantes devem definir a situação em questão. De fato, pertencem a essa categoria todos os elementos linguísticos que, quando vistos isoladamente, ou seja, sem seu contexto concreto, não dispõem de um significado inequívoco, claro e inquestionável. Evidentemente, esse critério vale, especialmente, para todas as formas dêiticas, mas como, de princípio, “todo sentido é determinado pelo contexto” (BAKHTIN, 1986, p. 79) e até o significado literal é um produto da intersecção entre a forma linguística e as circunstâncias de uso, é oportuno afirmar que o sentido de toda palavra é, parcialmente, opaco e que a própria língua tem um caráter indicial.
Naturalmente, na interação concreta, pressupõe-se que os outros conhecem o referido contexto e sabem o que é relevante para a compreensão da situação atual. Daí que, na perspectiva dos conhecedores, as expressões indiciais facilitam a compreensão; para os outros, porém, são motivo de aborrecimento, porque sem o conhecimento necessário dessas pistas decisivas não se sabe exatamente de que se trata ou o que um falante quer dizer com seu enunciado. É óbvio que, nesse caso, não se cumpre uma condição indispensável para realizar práticas sociais interativas: o esclarecimento dos componentes indiciais de um enunciado. Todavia, na prática, as possibilidades de esclarecer as estruturas indiciais são delimitadas, como comprova
demonstram como pedidos insistentes de dar algumas explicações adicionais e resolver a vagueza indicial (“O que você que dizer com isso?”) provocam o aborrecimento do interlocutor e a suspensão das interações.
Juntando essas duas linhas de pensamento, pode-se afirmar que a reflexividade e a indicialidade juntas caracterizam o processo pelo qual é encenado o caráter sistemático-ordenado das interações cotidianas. Devido a esse entrelaçamento, na maioria das vezes, não é necessário dar explicações adicionais; pois, enquanto os interactantes, mutuamente, dão a entender que suas contribuições fazem parte de atividades rotineiras e racionais, é comum que as representações ostentadas durante uma comunicação interpessoal mantêm um caráter desinteressante (GARFINKEL, 1967, p. 7 seg.); quer dizer, elas não são questionadas, mas aceitas tacitamente como exemplos de experiências típicas que correspondem aos padrões interiorizados de uma comunidade sociocultural. Evidentemente, os métodos cotidianos de construir o sentido não pressupõem formulações inequívocas, e a compreensão mútua, para todos os fins práticos, também não depende delas. No fundo, todo enunciado é simultaneamente vago, ou seja, digno de explicações, e perfeito, no sentido de servir como uma instrução para a interpretação das nossas ações.
Teoricamente, cada enunciado é incompleto e as ampliações ou acréscimos de pormenores, em princípio, são sempre possíveis ou podem ser exigidos, mas, na comunicação verbal cotidiana, os participantes, por razões práticas, supõem, na maioria das vezes, que se compreendem mutuamente e que as pistas fornecidas de contextualização, ainda que incompletas, são suficientes para encaixar os enunciados no esquema de interpretação relevante. Daí que as ações vagas ou não esclarecidas, num primeiro momento, são recebidas sem reclamações, sempre na confiança de que, na visão retrospectiva de um segundo momento, todas as indeterminações se esclarecerão. Por conseguinte, seja qual for a contribuição em questão, é imprescindível que os interlocutores se orientem um para o outro e se esforcem para tornar suas ações mutuamente compreensíveis (accountable). Quem quer
interagir com o outro tem que fazer contribuições identificáveis, descritíveis e explicáveis que sejam aceitáveis para as expectativas comuns (background
expectancies) de uma comunidade interpretativa. Por outro lado, é claro
também que uma interação será interrompida quando se tornar incompreensível ou inaceitável diante as expectativas intersubjetivamente compartilhadas. Nesse caso, é preciso fazer reformulações ou comentários metacomunicativos ou dar explicações adicionais que esclarecem a ambiguidade de uma expressão indicial, restabelecem o equilíbrio ameaçado da interação e normalizam a situação, fechando, desse modo, a lacuna entre as expectativas e a ação.