Kapittel 3: Læreplanen i møte med læreren
4.2 Valg av metoder
Um passo além no quesito da intimidade é um outro tipo de recurso largamente utilizado em Cinelândia, que nasce a partir do apagamento da figura do jornalista, como se não houvesse um intermediário, tática inexistente na revista concorrente. Artigos supostamente escritos pelas estrelas tornam-se ponto central do interesse editorial porque contêm os supostos discursos das atrizes. A aproximação se serve, então, da certeza em partilhar de uma confissão, por menor que seja. O apagamento da figura do jornalista do artigo pode ser entendido como um meio de aproximar a imagem da estrela, humanizando-a através da linguagem em primeira pessoa. A ocultação da figura do repórter ocorre também quando mortais que partilharam da vida da celebridade antes do sucesso, escrevem artigos para mostrar quão especial é a atriz58. Há ainda descrições
57 Parsons, Louella. Os espiões de Cinelândia em Hollywood informam. Cinelândia, v. 1, n. 1, p. 30-31 e 46, maio de 1952.
58 Como exemplo, temos a narrativa da ex-cunhada de Marilyn Monroe, mostrando quão especial já era a garota antes de se tornar famosa, construindo um mito de amor em torno do ex-marido, supostamente
de pessoas que presenciaram o it 59 da estrela antes da fama. São relatos de homens comuns, convertidos em fontes jornalísticas, muitas vezes com diálogos na primeira pessoa. O objetivo é ou simular uma longa amizade com a deusa, ou conversar de igual para igual com o leitor.
No caso destes últimos artigos, há sempre a mesma fórmula: uma pessoa comum ficou impressionada ante a beleza de uma moça vista de relance, ou admirada numa fotografia. Afinal a estrela é especial. Anos mais tarde, a musa inspiradora transformou- se numa atriz famosa. Este primeiro admirador da então desconhecida serve como um observador da história, como um vidente. A abertura dos textos a partir do relato de uma testemunha ocular possibilita discorrer sobre os atributos da celebridade, sem intermediação. Mais importante do que a opinião do jornalista enfatizando as qualidades da estrela, é o discurso de um indivíduo isento a provar que a atriz já possuía o it. Esta fonte prediz de forma retroativa o sucesso, e aproxima o leitor do ídolo, às vezes deixando clara a impossibilidade do sucesso a qualquer mortal. Foi um empregado do comércio o primeiro a vislumbrar o it de Ava Gardner:
“Certo dia, em 1940, o empregado do comércio, Barney Duhan parou diante da vitrine de um fotógrafo em Nova York para admirar o retrato da garota mais linda que já vira em toda a sua vida.
Deu-lhe então uma vontade doida de conhecer ‘aquele fenômeno’, e entrou no fotógrafo para perguntar quem era ela, dizendo-se agente dos estúdios da Metro.
– A garota é Ava, minha cunhada – explicou o fotógrafo Larry Tarr. – E ela vive na roça, na Carolina do Norte. Eu poderia telegrafar...
– Não! Não precisa! – interrompeu Barney em pânico. – Não é preciso chamá-la! Basta mandar as fotografias dela para o estúdio da Metro, aos cuidados de Marvin Schenk!
– Mas quem me garante que ele verá as fotografias? – perguntou Larry.
– Ponha uma marca vermelha no envelope – disse Barney rapidamente, procurando escapulir do apuro em que se metera.
E o rapaz, que hoje é detetive da companhia de trens subterrâneos, não mais pensou no caso durante alguns anos, e já se tinha esquecido completamente da moça do retrato, quando viu novamente aquele rosto lindo na capa de uma revista...
– Quem sabe o que teria acontecido se ela estivesse em Nova York quando eu inventei aquela história? – pergunta Barney. – Mas assim foi melhor, embora eu nunca a tivesse encontrado... Como pode um humilde detetive particular de Nova Iorque sonhar em conhecer pessoalmente a mais famosa estrela do cinema da atualidade?” 60
Estes casos são menos recorrentes do que a narrativa escrita diretamente pela atriz aos leitores. Um exemplo da intimidade da estrela com o leitor, aparentemente sem a intermediação do jornalista, é o texto creditado à atriz Jan Sterling, na seção Eu sou
nunca esquecido pela estrela. Nelson, Elyda (ex-cunhada de Marilyn). Pela primeira vez é contada a verdadeira história do casamento de Marilyn Monroe. Cinelândia, v. 2, n. 10, p. 38-41, fev. 1953.
59 Foi a escritora e roteirista inglesa Elinor Glyn a primeira a definir o it como uma magia da sedução feminina. (Holanda, 1991)
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assim. Ela chega a sugerir que o leitor puxe sua cadeira para “bater um papo”, prometendo, inclusive, dizer toda a verdade:
“Não peço desculpas a ninguém pelo que venho a dizer nesta seção. Puxe a cadeira, leitor, e conversemos um pouco. Sinceramente falando, acho que os artistas de cinema têm todo o direito de manifestar publicamente suas opiniões. (...) estou disposta a dizer o que penso e o que sinto e o mesmo farão (...) todas as que por aqui aparecerem.” 61
Essa aproximação da diva antes de se tornar estrela pode ser sentida mais de perto quando ela conversa diretamente com os leitores. Supostamente os atores querem saber como o público procederia se estivesse em seu lugar, porque não sabe como agir para não decepcionar seus fãs. Não há temas realmente íntimos, apenas se discute a representação mediática das estrelas, como por exemplo, questionar se o público confunde ator e personagem, se almeja histórias fantasiosas sobre seus ídolos ou se quer uma profunda identificação entre ator e personagem 62. No final do texto, sempre se escreve:
“É esse o meu problema, prezados fãs, e acreditem que não é nada fácil de resolver. Escrevam-me dando sugestões, através das páginas de Cinelândia. (...) Eu dou aqui a minha opinião, e espero a de vocês”. (...) Que pensam vocês do problema (...)? Escrevam dizendo.”63
No ano de 1952, este recurso torna-se comum em todas as edições, mas quase some nos anos seguintes. Há um tom muito artificial na suposição do artista pedir ajuda aos leitores, talvez por isso a tática tenha sido abandonada. Continua a existir a conversa com os leitores, ou as confissões de erros64, mas não os pedidos explícitos de ajuda. O objetivo é trazer uma dimensão menos marmórea dos atores, ressaltando seu lado humano.
A partir dos artigos onde a estrela pede a opinião dos fãs, nasce um pressuposto diferente. Não é mais o fã que se intromete sem ser chamado na vida da estrela; é ela
61Eu sou assim. Cinelândia, v. 1, n. 3, p. 19, julho 1952. 62
Como exemplo, temos o artigo de Kirk Douglas perguntando às leitoras se as mulheres ainda não cansaram de ver os papéis de protagonistas submissas e masoquistas. Diz temer que as mulheres tenham medo dele, o achando semelhante aos papéis interpretados. Douglas, Kirk. As mulheres gostam de brutalidade nos filmes? Cinelândia, v. 1, n. 2, p. 41, junho 1952.
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Skelton, Red. Alô fãs, os problemas de um cômico. Cinelândia, v. 1, n. 1, p. 6; 41, maio 1952.
64 Abordaremos os erros das estrelas no próximo capítulo, mas citamos aqui dois exemplos para situar o tema. Joan Crawford admite ter sido mal educada com alguém no telefone. Contudo, a atriz retornou a ligação para pedir desculpas, ensinando as regras do bom viver aos leitores para chegar à formula da felicidade. Crawford, Joan. O que a felicidade significa para mim. Cinelândia, v. 1, n. 2, p. 8-9; 44, junho 1952. Já Mário Lanza confessa sua desilusão com o sucesso porque estranhos lhe pedem dinheiro, como se o conhecessem. Além disso, tem de sustentar diversas pessoas por estar em melhor situação financeira. Além dessas “infelicidades”, mal tem tempo para gastar seu próprio dinheiro, porque trabalha demais. Nem tudo são flores. Cinelândia, v. 1, n. 5, p. 26-7; 52, set. 1952.
quem pede a aproximação com seu público, mas logicamente sobre sua vida mediática. Há um aumento na intimidade quando o leitor sente verdadeiramente partilhar dos segredos da estrela, porque ela assim o pediu, não o inverso. Cria-se um mito de dependência da estrela aos desejos dos fãs extremamente útil aos valores difundidos por este veículo. Esta subordinação da estrela ao leitor gera uma inversão mitológica da forma mais pura do estrelismo, na qual o fã depende da concessão do ídolo em fornecer informações. A inversão mostra ao leitor que o estrelismo precisa dele para sua continuidade.
Para atrair o leitor recorre-se a uma conversa íntima entre amigos. Contudo este processo não aconteceria de forma efetiva, se a representação da estrela não tivesse sido alterada para a humanização crescente dos ídolos. Os pressupostos entre humanização e intimidade serão analisados no próximo item. As estratégias descritas até aqui se pautam também sobre o conhecimento do jornalista dos processos de projeção e identificação, que veremos no tópico a seguir. Sem a humanização e os mecanismos projetivos inter-relacionados, os processos descritos aqui não atingiriam tão bem seus fins.