Kapittel 3: Læreplanen i møte med læreren
4.4 Utforming og gjennomføring av spørreundersøkelsen
Quando as estrelas pedem ajuda ao leitor, ou quando abrem “seu coração” sobre seus problemas, confessando sua natureza mortal, são humanizadas porque revelam algum segredo. Humanizadas parecem mais perto do público, como mortais, e não como deusas. Ou seja, a geração da intimidade entre o ídolo e leitor está focada no processo de humanização da atriz. Lembramos novamente que esta nova configuração do estrelismo é muito mais presente em Cinelândia.
Para entender porque a crescente humanização da estrela é uma novidade, precisamos voltar às primeiras configurações do star system, ainda nos anos vinte. Nesse período, as estrelas pareciam mais distantes de seu público. Habitavam castelos e mansões, sozinhas. Eram inacessíveis e inimitáveis. Com a evolução do star system e do realismo no cinema, a partir dos anos 30, a veneração dos seres supra-humanos se converte em admiração, processo analisado por Edgar Morin (1957). A estrela aproxima-se de nós. Não é uma heroína distante. Esta aproximação acentua o culto ao invés de eliminá-lo. Mais presente e familiar, a celebridade está quase à disposição de
seus admiradores: daí o florescimento de fãs-clubes, revistas, fotografias, correspondências.
Assim, a admiração nasce com o processo de humanização da estrela. Morin lembra que as estrelas passam a morar em casas ou apartamentos 65, casadas, com filhos. Só falta o cachorro. Do ponto de vista teórico, há uma diferença na percepção desse movimento. Para Edgar Morin, as estrelas continuam a ser deusas para os leitores, só mais próximas deles, enquanto que para Roger-Gerard Schwartzenberg (1978), mais preocupado com o estrelismo na política, as estrelas se aproximam do homem comum, como se nos representasse. Processo descrito como de dessacralização. O ídolo deixa de ser motivo de fascinação, e passa a ser modelo comportamental. Entre semi- excepcional e semi-cotidiana, a estrela é agora um modelo imitável, como um líder charmoso. Encerrara-se, para Schwartzenberg, a era mitológica dos ídolos inacessíveis com o advento do cinema sonoro, porque o imaginário cinematográfico aproximou-se do real.
Alexander Walker (1970) revela o aspecto econômico por detrás da humanização dos atores nos anos trinta. Depois da crise de 1929, com cortes de custos, os estúdios pagavam menos aos atores. As estrelas queriam mostrar sua popularidade para impressionar seus chefes, aumentando as informações sobre as suas personalidades. Para isso, queriam ter contato com o público. Alguns atores apelavam para leituras públicas para provar que eram tão bons quanto os atores do teatro legítimo. Assim, segundo Walker, o povo sentia que as estrelas eram semelhantes a ele. Os filmes fechariam o ciclo, confirmando a estrela como representante do público. O autor mostra que nos anos trinta, o papel popular dos atores é mais presente do que nos decênios anteriores. O medo de que a maternidade atrapalhasse a imagem romântica da estrela mudava. Temia-se, por exemplo, que o nascimento do bebê de Norma Shearer atrapalhasse a imagem de seus personagens. Contudo a maternidade aumentou o interesse sobre ela. Os fãs gostaram de ver seus ídolos humanizados, iniciando um ciclo de filmes sobre maternidade e paternidade.
A mesma humanização foi descrita por Guilherme de Almeida décadas antes. Ele escreveu que procurava a realidade no cinema, não a fotogenia. Então, quando viu George Bancroft, encontrou o homem a representar “a verdade americana”, porque o
65 Guilherme de Almeida (1929) ainda nos anos vinte, cita os apartamentos das estrelas, sendo, portanto, relativo afirmar que apenas em idos de 1930-40 houvesse tal mudança. Mas como esta nova morada passa a ser mais comum nos decênios subseqüentes, por isso não desconsideramos as apropriações de Morin.
ator é como um amigo seu. O crítico cita Bancroft para renegar os rostos fotogênicos falsos porque estes não existem na vida real. Portanto, o tema da representação do estrelismo do common men descrita por Schwartzenberg já podia ser encontrada em estrado bruto na frase do colunista brasileiro. (Almeida, 1929: 143-44)
Deusa ou modelo comportamental, as teorias encontram consonância porque explicam a dupla natureza dos olimpianos, mortal e divina. Morin fala em modelo de vida, enquanto Schwartzenberg usa o termo modelo comportamental. Ambos percebem o processo de humanização e aproximação com os leitores.
Voltando da digressão necessária para compreender o histórico da humanização, no período estudado por nossa pesquisa há uma ampliação da intimidade com a estrela, além da descrita por Morin e Schwartzenberg 66. Nas reportagens de Cinelândia, as celebridades erram, e esta é uma novidade que altera a configuração clássica do estrelismo, porque amplia o processo de conversão da estrela em um ser mais humano que divino. O intuito das revistas de fãs em mostrar pedidos de ajuda (ou erros dos ídolos, como veremos adiante), é proporcionar ao leitor a experiência de partilhar da vida do ídolo a partir do sentimento de igualdade.
A humanização está calcada sobre os mecanismos de projeção, identificação e transferência, vitais para aproximar o leitor de seu ídolo. O interesse em relação à estrela surge quando o espectador, através do duplo, realiza o que não pode fazer em sua vida. A percepção da função do duplo não foi percebida só por Morin. Duas décadas antes, quando era crítico de O Estado de S. Paulo, Guilherme de Almeida (1929) narrou a a forma por meio da qual, imaginariamente, o personagem do filme abandona a tela, e sai com ele, para tomarem um drink 67. Brinca já com a possibilidade de projeção do leitor a partir do duplo.
Exatamente por ter uma natureza humana e divina, o duplo realiza a circulação entre projeção e identificação. Morin (1956) explica o processo de funcionamento do duplo por três mecanismos imaginários. O primeiro deles é a identificação. Esta nasce quando o leitor compartilha sobre sua auto-imagem um paralelo com a vida da atriz ou com o personagem interpretado. Sente, a partir do duplo, viver emoções fora de seu
66 Porém não podemos precisar ao certo quando esta ampliação da intimidade se iniciou cronologicamente em Cena Muda.
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No trecho citado, Guilherme de Almeida escreve: “George despede-se de mim. Volta para a tela. O filme trepida nos seus últimos lampejos. A sala acendeu-se. E, ao passar pela cortina de veludo ou ao abotoar o meu sobretudo, tenho a impressão de que George passa o seu braço pelo meu – e vamos juntos, George, um homem tão verdadeiro, e eu, um homem tão mentiroso, tomar um drink bem seco por aí...” (Almeida, 1929: 147)
corpo. A identificação pode ser com um alter ego, do mesmo sexo, ou com um parceiro do sexo oposto, numa identificação apaixonada. Já a projeção funciona como expulsão para fora de si do obscuro, proporcionando libertação psíquica, embora os processos de projeção e identificação estejam interligados, através do suporte da transferência 68. Quando a estrela se humaniza, o processo de identificação e de projeção se torna ainda mais presente para o leitor69, servindo como um sistema de legitimação para os novos padrões do star system, onde é importante a atriz ser como os mortais. Transferem-se desejos e anseios para ela.
Os leitores consomem a vida da atriz porque na cultura de massa existe um duplo movimento do real arremedando o imaginário e vice-versa. O setor imaginário, tal como analisado por Morin, procura se parecer com o realismo, e o real procura ter as cores do imaginário. As intrigas romanescas dos ídolos passam a ter a aparência de realidade. Na verdade, é o imaginário que permite ao homem moderno a projeção e identificação, daí a importância dos amores das celebridades, porque estes permitem tirar uma substância romanceada que a imprensa e leitores necessitam. Isso porque as estrelas são, segundo Morin, “heróis modernos que encarnam os mitos de auto- realização da vida pessoal”, ligando assim o duplo à projeção. (Morin, 1962: 106-7)
Para existir intimidade é preciso gerar uma continuidade nos mecanismos imaginários que transformam o ídolo em modelo comportamental para o fã. As estratégias de legitimação criaram mecanismos para incutir a curiosidade pela vida pessoal. Este interesse surge quando o espectador vê nos famosos as características, almejadas por ele, a partir dos mecanismos projetivos explicados aqui. Além disso, o duplo gera no espectador o desejo de encontrar o grande amor de sua vida, concretizado no mundo do sonho, ou de se tornar conhecido, pelo menos no imaginário. Toda a
68Aprofundando o tema, explica Edgar Morin que “na identificação, o sujeito, em vez de se projetar no mundo, absorve-o. A identificação ‘incorpora o meio ambiente no próprio eu’ e integra-o afetivamente. A mais banal ‘projeção’ sobre outrem - o ‘eu ponho-me no seu lugar’ - é já uma identificação de mim com o outro, identificação esta que facilita e convida a uma identificação do outro comigo: esse outro tornou-se assimilável. Não basta, pois, isolar a projeção de um lado, a identificação do outro (...). É o complexo projeção-identificação-transferência que comanda todos os chamados fenômenos psicológicos subjetivos, ou seja, os que traem ou deformam a realidade objetiva das coisas, ou então se situam, deliberadamente, fora desta realidade, como os estados da alma, e os devaneios”. (Morin, 1956, 82-5)
69Não pretendemos aqui estudar a audiência relacionada ao estrelismo. Para maiores detalhes, consultar Andrew Tudor e Leon Handel que estabeleceram quatro categorias para separar os tipos de percepção da estrela pelos espectadores, como fenômeno de consumo. (Tudor; Handel apud Dyer, 1998). Há a afinidade emocional (sentimento forte pelo protagonista), auto-identificação (colocar-se no lugar da estrela), imitação (modelo para a audiência, geralmente jovens) e projeção (imitação não só de vestuário e acessórios, mas imitar a forma de vida da estrela). Neste último, a estrela ensina como lidar com a realidade.
estratégia das revistas de fãs está calcada na função do duplo. Os jornalistas e/ou publicistas que escreviam sobre a intimidade da estrela conheciam bem a função de duplo. Daí o surgimento do nicho de mercado das revistas de fãs.
A proximidade criada entre o repórter e o ídolo criou espaço para uma nova demanda. O próximo passo foi o suposto contato direto com as estrelas, presente em Cinelândia, e para tal, era necessário gerar um tipo de star system mais humano. Só que as bases desse novo estrelismo são diferentes das descritas por Edgar Morin. O processo de aproximação com os leitores, tal como descrito por Morin, gera um tipo de deusa humanizada, mas que não erra em nada grave, nem precisa pedir ajuda.
O período estudado pode ser pensado como momento de transição para uma humanização calcada sobre erros, dificuldades e problemas, sempre com o objetivo de se parecer cada vez mais com o real. Essa característica humana das estrelas está presente nas duas revistas, em todas as edições, em matérias como Iguais a todos nós70:
“faz-se tanta ressonância em torno da personalidade do artista que se chega a impressão de que ele é um ser a parte, para o qual não há o cotidiano nem o sentimento comum a cada um de nós. Vai-se ver (...) são todos iguais a nós e aos nossos vizinhos. Com a diferença de que nós e nossos vizinhos não andamos nos telegramas nem nas manchetes. A propósito, vale a pena mostrar estes ‘skils’ colhidos na intimidade de alguns ‘big names’?”
A matéria fotografa os atores em atividades comuns como pintar xícaras ou fazer tapetes. As revistas tentam vender a idéia de que os próprios ídolos passam a narrar suas vidas. Através da humanização e dos processos projetivos, as celebridades surgem como modelo comportamental, e sem esses mecanismos, as revistas de fãs não teriam tido a abrangência cultural que tiveram. No próximo item, mostraremos através de exemplos os processos descritos aqui. A partir dos mecanismos projetivos, a estrela surge como parâmetro comportamental, especialmente para as mulheres. Focalizamos a construção como modelo comportamental e o ensejo dos leitores em se tornarem olimpianos. Por outro lado, humanizadas, as atrizes estão mais aptas a dar conselhos. Assim, a análise recai também sobre as seções de cartas e espaços destinados aos leitores, além dos artigos escritos supostamente pelas celebridades aconselhando de forma direta o público.
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