7. DISCUSSION
7.1 A VAILABILITY AND QUALITY OF DATA
Em distinção comumente aceita entre biopolítica e biopoder, o primeiro conceito refere-se à potência da vida e o segundo ao poder sobre a vida (PELBART, 2011). Há mais de meio século, os meios de comunicação passaram a constituir uma esfera decisiva na gestão e no governo da vida de populações e indivíduos. Uma esfera decisiva, portanto, para o biopoder. A sociedade de controle (DELEUZE, 1992), entendida como configuração tecnopolítica da civilização mediática, corresponde à conjuntura social-histórica na qual os meios de comunicação se afirmam como tecnologias de poder determinantes e, se quisermos, cada vez mais “democratizadas”, uma vez que o apelo da visibilidade mediática é lançado a setores tão distintos quanto o estatal, o organizacional, o institucional, o individual etc.37
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Segundo Trivinho (ibid.), a existência em tempo real envolve: “1. uma dependência acentuada em relação aos objetos tecnológicos, aos produtos culturais e à rede (e, no âmbito particular da cibercultura, ao capital cognitivo necessário para operá-los, bem como ao status de sujeito teleinteragente); 2. uma aderência dessimbólica ao acoplamento promíscuo e compulsório entre corpo/mente e máquina/tela/fluxos mediáticos […]; 3. um referendo à equação tecnocultural contemporânea que equipara, de maneira inflexível – independentemente de qualquer discurso de legitimação – os conteúdos e paisagens da visibilidade mediática à categoria de um real prioritário […], como se os acontecimentos e pulsações diversificados da vida humana se restringissem à socioespacialização das telas; 4. uma conformidade ao habitus hegemônico de abordagem da alteridade (quase exclusivamente) como espectro; e […] 5. uma rendição tácita – voluntária ou involuntária, não importa aqui – ao modelo vigente de civilização tecnológica […]”.
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Muitas vezes, o próprio aspecto bidirecional dos novos meios de comunicação é propalado como sinônimo de democracia, na medida em que permite a todos (minorias inclusas) se expressarem nas (e participarem das) paisagens mediáticas do ciberespaço. Nesse sentido, Jodi Dean está correta na tese de que a tecnocultura reapropria e capitaliza em cima dos ideais democráticos, doravante “materializados” nas tecnologias de comunicação: “Os novos media se apresentam para e como um público democrático. Eles se apresentam para um público democrático em sua oferta impaciente de informação, acesso e oportunidade. Eles se apresentam como um público democrático quando o
Na cibercultura, os media interativos produzem e modulam a própria vida e suas formas. Isso fica mais evidente nas modalidades de existência que as novas tecnologias condicionam: viver como imagem, avatar, perfil biográfico e/ou fluxo mediático em tempo real são verdadeiras formas de ser, estar e interagir no/com o mundo, pelas quais se busca a superação do wetware orgânico (o corpo) com a difração da presença física em múltiplas composições sígnicas, através das quais os sujeitos podem tele-existir (isto é, existir à distância) em variados ambientes mediáticos interativos – redes sociais, blogs, fotologs, fóruns de discussão, chats etc. Ao modular constantemente as relações do indivíduo com o mundo, com o outro e consigo mesmo, as tecnologias de comunicação se colocam como uma grande máquina de produção de sujeitos espectrais, doravante inscritos nos fluxos informacionais do ciberespaço.
Qual a natureza desses “sujeitos espectrais”? Sendo constituídos através da tecnologia, teriam eles uma “natureza”? De fato, a adaptação do conceito de biopoder para o âmbito das imagens como forma de vida, ou da vida como imagem, requer uma perspectiva teórica que não admite a dicotomia entre natureza e cultura. Agamben (2014) revela, a partir da vida monástica, que uma forma-de-vida supõe inseparabilidade entre vida e regra. No caso presente, observa-se a mesma aderência entre vida (natureza) e código tecnológico (cultura). Assim, a existência glocalizada (como imagem, espectro ou fluxo mediático) – seja na vertente militante ou conservadora – constitui uma verdadeira forma de vida: isto é, um modo de vida que, ao aderir estreitamente a uma forma ou modelo (neste caso, determinado pelo próprio medium), torna-se inseparável deste.
Essas considerações demonstram que os novos media estão localizados em um campo estratégico complexo. Por um lado, são tecnologias de poder sobre a vida no que diz respeito às novas técnicas de vigilância e coleta de dados que a Internet possibilita para fins comerciais, epistêmicos e securitários (lógica do biopoder) (cf. BRUNO, 2013); por outro lado, existem na própria materialidade dos novos media possibilidades de expressão, participação e cuidado de si que vêm ensejando práticas biopolíticas de resistência e autonomia, paradoxalmente efetuadas no interior dos dispositivos do biopoder. Por mais tentador que seja atribuir o sucesso desses movimentos a um suposto ato de profanação, isto é, de restituição dos dispositivos do capitalismo
próprio fato da comunicação em rede passa a significar democratização, quando expansões na infraestrutura na sociedade da informação são tidas como a promulgação de um demos. [...] entretanto, a expansão e intensificação das redes de comunicação e entretenimento produzem não democracia, mas algo totalmente diferente – capitalismo comunicativo” (DEAN, 2002, p. 3).
para o uso comum (cf. AGAMBEN, 2007), é preciso considerar que, até o momento, as formas de vida possibilitadas pelas novas tecnologias não efetuaram o potencial emancipatório que contêm, permanecendo vinculadas aos circuitos do consumo, do entretenimento e da vigilância – separadas, portanto, da esfera do uso comum. Se o desempenho das novas tecnologias na dinâmica da resistência é hoje tão eficiente, deve-se situar essa tendência tanto nas novas estratégias corporativas de captura (que já preveem os usos possíveis no planejamento de produtos ciberculturais) como na “profanação” dos dispositivos pela multidão. Conforme vimos, a bi-direcionalidade inerente ao medium interativo contêm, em si, um modo de exercício do poder que consiste na estruturação de campos de ações possíveis: trata-se, assim, de delimitar espaços vazios no dispositivo comunicacional, capazes de acolher a ação livre e voluntária dos usuários.
Destacou-se acima como o estágio atual da indústria da expressão se apoia em práticas comunicativas interativas que promovem um sentimento de potência e de empowerment associados à liberdade de expressão e a certa autodeterminação na comunicação, mas que corroboram com o funcionamento atual do biopoder antes de resistirem a ele.38 O dispositivo de captura, nesse contexto, aparece não como um obstáculo à ação e à autodeterminação comunicativa e/ou biopolítica, mas como sua condição efetiva de possibilidade. Para Žižek (2008, p. 257-260), esse fato é preocupante e perturbador justamente porque assinala "certo tipo de convergência entre a dinâmica capitalista e a dinâmica da resistência", ambas baseadas na produção afetiva e na fluidez libidinal. De fato, essa tendência parece adquirir força total nas redes sociais digitais, empreendimentos recentes do capitalismo mediático que, nos últimos anos, têm possibilitado a articulação de inúmeras mobilizações e resistências políticas. Eis que, presas entre os extremos da inovação técnica e do conservadorismo político, as novas tecnologias prometem mudanças sociais e políticas ao mesmo tempo em que categoricamente as desativam (KROKER; KROKER, 2004).
No lugar de “falsas consciências” ou “consciências mistificadas”, o que se observa nas
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Tome-se como exemplo as inúmeras críticas à Rede Globo publicadas diariamente no Facebook. Como se sob empuxo de uma ditadura da opinião, ou simplesmente empolgados com a possibilidade de autoexpressão mediática, indivíduos investem seu tempo para criticar as mazelas da emissora na rede. De fato, com isso não fazem mais do que garantir à Globo um tipo de marketing gratuito, ainda que negativo. O modo como se organiza atualmente a produção e circulação de signos torna necessário o conteúdo “viral”: aquele que todos irão comentar e compartilhar, seja para falar bem ou não. Numa era de atenção e tempo escassos, o simples estar visível no Facebook é lucro simbólico para a emissora. Esse princípio é perfeitamente ilustrado na última campanha publicitária do jornal Folha de São Paulo, no qual leitores afirmam concordar ou discordar de certas posições do jornal. No final, o locutor convoca: “Concordando ou não, siga a Folha”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rR_IALrhU_s>. Acesso em: 13 ago. 2014.
práticas mediáticas emergentes é então uma espécie de cinismo. O cinismo emerge quando o conhecimento dos pressupostos ideológicos de uma ação não é suficiente para alterar o curso dessa mesma ação. Se a frase que define a alienação ideológica é “eles não sabem o que fazem”, a expressão definidora do cinismo seria: “eles sabem o que fazem, e o fazem mesmo assim”. Quando os sujeitos participam de redes como Facebook e Twitter, eles têm pleno conhecimento de que estão sujeitos a uma vigilância constante, e de que seus dados e informações pessoais podem ser (e são) utilizados para fins mercadológicos e securitários. Apesar de críticas e indignações contra as práticas abusivas do Facebook, pessoas continuam a utilizar a plataforma. Muitas vezes, chega-se ao extremo cínico de criticar a rede dentro da rede. A título de exemplo, veja-se as publicações abaixo:
Figura 17. Outro exemplo de publicação "cínica" no Facebook (out. 2013).
Diante dessa convergência entre a dinâmica capitalista e a dinâmica da resistência, não mais se sustenta a separação entre biopolítica e biopoder como prisma de leitura para os antagonismos do presente. A biopolítica, na cibercultura, se efetua a partir do interior de dispositivos do biopoder; ou, invertendo os termos, trata-se, para o biopoder, de fornecer os instrumentos para práticas biopolíticas autônomas e voluntárias, a fim de promover, simultaneamente (entre outros efeitos), "o aumento das forças dominadas e o aumento da força e da eficácia de quem as domina" (FOUCAULT, 2013, p. 291). A partir de uma visão mais articulada entre esses dois campos, é possível então verificar que o antagonismo entre biopoder e biopolítica é neutralizado pela relação de parceria entre fornecedor-usuário (em oposição àquela entre vendedor-comprador) que caracteriza a chamada "era do acesso" (RIFKIN, 2001). Nesse contexto, uma crítica teórica orientada permite articular a passagem do conceito de cooptação ao de captura.