• No results found

5. METHODS

5.3 D EFINITION OF VARIABLES

Em Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, Fredric Jameson (2007) não procura responder à questão sobre qual é a lógica cultural específica do capitalismo tardio, mas sim de destacar que a esfera cultural, ela mesma, é a lógica do novo estágio do capital. O autor recorre às ideias e produções artísticas do pós-modernismo para levantar os elementos constitutivos do novo sistema produtivo, focado mais em imagens do que em mercadorias concretas. Esses elementos, ele os elenca tal como seguem:

Uma nova falta de profundidade, que se vê prolongada tanto na “teoria” contemporânea quanto em toda essa cultura da imagem e do simulacro; um consequente enfraquecimento da historicidade tanto em nossas relações com a história pública quanto em nossas novas formas de temporalidade privada, cuja estrutura “esquizofrênica” (seguindo Lacan) vai determinar novos tipos de sintaxe e de relação sintagmática nas formas mais temporais de arte; um novo tipo de matiz emocional básico – a que denominarei de “intensidades” – [...]; a profunda relação constitutiva de tudo isso com a nova tecnologia, que é uma das figuras de um novo sistema econômico mundial [...] (Ibid., p. 32).

Portanto, a compreensão de Jameson sobre o pós-modernismo, e portanto sobre o estágio tardio do capitalismo, embasa-se quatro eixos principais: (1) a falta de profundidade na cultura da imagem e do simulacro; (2) a estrutura esquizofrênica das novas vivências da temporalidade; (3) a excitação “intensional” (no sentido de intensidade) como tonalidade afetiva da contemporaneidade; e (4) o papel das novas tecnologias nesse novo quadro sociocultural. Cabe salientar que, embora Jameson encontre esses elementos em produções culturais como o vídeo, o cinema, a literatura e a arquitetura, por exemplo, ele não se detém nos objetos estéticos eles mesmos. Fiel à tradição marxista, mas flexionando seus prismas de análise, Jameson transita constantemente entre o nível estético e político, tratando de remontar os objetos analisados às suas condições materiais de existência. Seu procedimento teórico parte, assim, de uma indistinção, ou, antes, de uma colocação em contínua inter-relação entre infraestrutura (meios de produção) e superestrutura (cultura e ideologia), entre economia e cultura.

passa a abarcar o econômico, o social e o político. A produção simbólica supera, em dimensão e importância analítica, a produção material. Nesse contexto, as superfícies desbancam as profundidades – “achatamento” generalizado que Jameson aborda em diferentes contextos, da pintura à arquitetura, da teoria pós-estruturalista ao pastiche das colagens, da subjetividade à experiência espaço-temporal.14 Essa mudança na dinâmica cultural patenteia a chamada “morte” do sujeito (tal como este comparece no pensamento moderno), de modo que a problemática de sua alienação (cara ao marxismo) é deslocada por outra, relativa à sua fragmentação (ibid., p. 42). Tal fragmentação, observada no campo da linguagem, do tempo, do espaço e da subjetividade, reflete-se num modo particular experiência que Jameson procura descrever recorrendo à noção de esquizofrenia em Lacan, tomada mais como “estrutura” descritiva do que como diagnóstico clínico, na medida em que “parece oferecer um modelo estético sugestivo” (ibid., p. 52). Esse modelo estético se refere ao rompimento da “cadeia significante”, isto é, da relação interna dos significantes na articulação de um significado.

Quando essa relação se rompe, quando se quebram as cadeias da significação, então temos a esquizofrenia sob forma de um amontoado de significantes distintos e não relacionados. A conexão entre esse tipo de disfunção linguística e a psique do esquizofrênico pode ser entendida por meio de uma proposição de dois níveis: primeiro, a identidade pessoal é, em si mesma, efeito de uma certa unificação temporal entre o presente, o passado e o futuro da pessoa; em segundo lugar, essa própria unificação temporal ativa é uma função da linguagem [...]. Com a ruptura da cadeia de significação, o esquizofrênico se reduz à experiência dos puros significantes materiais, ou, em outras palavras, a uma série de puros presentes, não relacionados no tempo. (Ibid., p. 53).

A impossibilidade da unificação temporal entre passado, presente e futuro já estava implicada na ruína das teleologias modernas, conforme foi demonstrado no primeiro item deste capítulo. Abandonando a noção de futuro, o pós-modernismo habita um presente intenso. A diferença trazida por Jameson consiste na aproximação dessa lógica pós-histórica, de teor rigorosamente filosófico, para o âmbito da linguagem e da subjetividade.

A essa altura, parece razoável supor que a esquizofrenia, tal como descrita no trecho acima, é a categoria central que permite articular toda a compreensão de Jameson sobre o pós- modernismo, e consequentemente sobre o capitalismo tardio. É possível argumentar, nesse

14

Por exemplo, o autor destaca quatro “modelos tradicionais” da profundidade que se encontram negados pelo pós- modernismo e pós-estruturalismo, alguns dos quais já mencionados neste capítulo: o dialético (da essência e da aparência), o freudiano (do latente e do manifesto), o existencialista (da autenticidade e da inautenticidade) e o semiótico (do significante e do significado) (cf. JAMESON, 2007, p. 40).

sentido, que os quatro eixos explicativos destacados na primeira citação passam necessariamente pela esquizofrenia como estrutura. Em primeiro lugar, a falta de profundidade está implicada nessa experiência fragmentária do esquizofrênico, incapaz de articular uma noção de tempo profundo. Em segundo lugar, esse presente absoluto, inundado por significantes descontínuos, não possui uma “extensão”, sendo antes totalmente percorrido por intensidades que se apresentam ao sujeito ao modo de “baratos” ou de “choques” (cf. TÜRCKE, 2010). Em terceiro lugar, a multiplicação das telas e superfícies significantes é resultado direto do desenvolvimento tecnológico da comunicação, que viria a transformar todos os contemporâneos em esquizos (não no sentido clínico).

Essa última indicação adquire especial importância quando se considera que a tecnologia, há muito, deixou de ser uma mera ferramenta ou instrumento para se tornar um verdadeiro campo de atuação e de constituição dos indivíduos. Pode-se evidenciar tal princípio com a proliferação de dispositivos de subjetivação no ciberespaço: avatares pessoais em jogos online (como Second Life, World of Warcraft, entre outros), perfis biográficos em redes sociais digitais (Orkut, Facebook, Twitter etc.), fóruns de discussão e outros ambientes semelhantes permitem ao indivíduo existir como imagem, como superfície. Sem mencionar a quantidade de telas em que essas realidades podem ser experienciadas: televisões digitais, computadores, smartphones e tablets concorrem para transformar o espaço presencial em uma verdadeira colagem, um patchwork de superfícies descontínuas que assaltam a percepção do indivíduo com o “eterno presente” das notícias e acontecimentos em tempo real. Nesse contexto, a afirmação de Deleuze e Guattari segundo a qual o capitalismo produz, antes de mais nada, esquizofrênicos, adquire pleno significado.15