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A natureza do tema e o objecto do presente estudo implica a opção de uma metodologia qualitativa. Fernand Gauthier citado por Lessard-Hébert et al (2005: 47) adopta D GHILQLomR GR WHUPR ´TXDOLWDWLYRµ, atribuída em 1986 por Jerone Kirk e Marc Miller, que sublinha o carácter de proximidade entre o investigador e os participantes na investigação qualitativa centrada na construção de sentido. Esta proximidade manifesta-se tanto no plano físico (o terreno) como no simbólico (a linguagem):

A tradição de investigação qualitativa, em ciências sociais, consiste essencialmente em estudar e em interagir com as pessoas no seu terreno, através da sua linguagem, sem recorrer a um distanciamento que levaria ao emprego de formas simbólicas estranhas ao seu meio (Gauthier, 1987: 32 in Lessard-Hébert et al, 2005: 47).

Um dos objectivos essenciais da investigação qualitativa é compreender melhor os factos ou os fenómenos sociais ainda mal elucidados (Fortin et al 2009: 290).

Rossman e Rallis (in Fortin et al, 2009: 298) apresentam as principais características da investigação qualitativa, que consideram indispensável conhecer:

1) A investigação qualitativa desenrola-se no meio natural dos participantes; 2) Utiliza múltiplos métodos tais como a participação de todos na recolha de dados; 3) As questões de investigação precisam-se à medida que o estudo avança;

4) Dá lugar a uma interpretação, ou seja, faz a descrição de um indivíduo, de um meio, põe em evidência temas ou categorias na análise dos dados e extrai conclusões; 5) Implica que o investigador tenha um papel de observador participante e de agente de investigador;

6) Supõe uma visão holística dos fenómenos sociais;

7) Baseia-se em princípios ou em estratégias na colheita e na análise de dados.

6.2.1. Entrevista semi-directiva

Como é sabido, a escolha dos métodos e técnicas de pesquisa é uma etapa crucial no processo de investigação. A existência de uma variedade de métodos e técnicas de investigação disponível obriga-nos a fazer uma opção metodológica. A selecção das técnicas de recolha de informações está intimamente relacionada com o problema de pesquisa. Assim, com base nos objectivos traçados e os pressupostos formulados e considerando as vantagens e desvantagens das várias técnicas de recolha de dados optou-se pela entrevista semi-directiva.

De acordo com Fortin et al (2009: 375), a entrevista é o principal método de recolha de dados nas investigações qualitativas. Quivy e Van Campenhoudt (2008: 193):

Os métodos de entrevistas caracterizam-se por um contacto directo entre o LQYHVWLJDGRUHRVVHXVLQWHUORFXWRUHV « ª 4XLY\ H Van Campenhoudt (2008: 192). De acordo com os referidos autores, a entrevista é útil,uma vez que a análise do sentido que os actores dão às suas práticas e aos acontecimentos com os quais se vêem confrontados; a análise de um problema específico; a reconstituição de um processo de acção, de experiências ou de acontecimentos do passado (Quivy e Van Campenhoudt, 2008: 193).

De acordo com Fortin et al (2009) «a entrevista tem três funções: 1) examinar conceitos e compreender o sentido de um fenómeno tal como é percebido pelos participantes; 2) servir como principal instrumento de medida; 3) servir de complemento aos outros métodos de colheita de dados» (Fortin et al, 2009: 375).

Entre os tipos de entrevistas encontra-se a entrevista semi-estruturada, que foi a utilizada no presente estudo. Zajc (in Fortin et al, 2009: 377) define este tipo de entrevista da seguinte forma:

>«] Uma interacção verbal animada de forma flexível pelo investigador. Este deixar-se-á guiar pelo fluxo da entrevista com o objectivo de abordar, de um modo que se assemelha a uma conversa, os temas gerais sobre os quais deseja ouvir o respondente, permitindo assim destacar uma compreensão rica do fenómeno em estudo (Zajc in Fortin et al, 2009: 377).

Nas entrevistas semi-directivas:

O entrevistador conhece todos os temas sobre os quais tem de obter reacções por parte do inquirido, mas a ordem e a forma como os irá introduzir são deixados a seu critério, sendo apenas fixada uma orientação para o início da entrevista (Ghiglione e Matalon, 2001: 64).

O investigador recorre a este tipo de entrevista nos casos em que deseja obter mais informações particulares sobre um tema. Quando o investigador quer compreender a significação de um acontecimento ou de um fenómeno vivido pelos participantes (Fortin et al, 2009: 376-377).

A opção pela entrevista semi-directiva prende-se com o facto de poder propor um conjunto de temas que permite às entrevistadas estruturar o seu pensamento em torno da questão proposta ao mesmo tempo que possibilita que elas tenham a liberdade de falar sobre as suas vivências.

Procurou-se através da realização da entrevista semi-directiva, obter informações de natureza qualitativa, relativamente à vivência e o projecto migratório das mulheres abrangidas no estudo através da recolha das histórias de vida10.

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Convém realçar que se recorreu às entrevistas semi-directivas com o propósito de recolher apenas algumas dimensões de histórias de vida, podendo ser consultada no guião de entrevista em anexo.

De forma a garantir o anonimato exigido pelas mães abrangidas no presente estudo decidiu-se atribuir-lhes nomes fictícios. Convém realçar que as entrevistas foram realizadas na língua materna, isto é, em crioulo, de modo a facilitar a compreensão das questões por parte das mulheres entrevistadas e posteriormente foram transcritas em português.

Durante o processo de recolha de dados, foram surgindo algumas questões consideradas pertinentes para o estudo, desta feita decidiu-se acrescentá-las ao guião de entrevista. O referido guião é composto por oito blocos, com questões diversificadas e a entrevista tem uma duração prevista de 50 minutos.

Importa frisar que no processo de recolha de informações foram efectuadas entrevistas informais (durante as férias em Cabo Verde - natal de 2009) com algumas pessoas que assumiram a responsabilidade de cuidar dos filhos das mães quando emigraram, assim como algumas crianças filhos de mães imigrantes. Estas entrevistas informais foram feitas com o propósito de recolher algumas informações sobre a situação em que vivem, o que sentem, que dificuldades enfrentam, entre outras.

6.2.2. Percurso das entrevistas

A realização das entrevistas foi uma etapa bastante criteriosa. Para a recolha de dados fez-se uma primeira visita a alguns bairros da cidade de Lisboa onde reside uma grande percentagem dos cabo-verdianos. Após conhecer alguns bairros decidiu-se limitar a amostra, escolhendo um dos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa. O concelho de Amadora foi escolhido por ser um dos concelhos onde residem muitos cabo-verdianos e em condições distintas.

A realização das entrevistas não foi fácil, porque a identificação de mulheres com as características pretendidas exigiu muito tempo, uma vez que de acordo com o plano de trabalho só poderiam ser entrevistadas, mães solteiras de origem cabo-verdiana, residentes no concelho da Amadora, que já tinham sido mães antes do projecto migratório e que não vivem maritalmente. Por isso, decidiu-VHXWLOL]DUDWpFQLFD´ERODGHQHYHµ11 para identificá-

las. Ao identificar uma mãe solteira foi possível descobrir outras mães solteiras através desta técnica. Entretanto, a realização das entrevistas seguiu um percurso diferente do previsto, uma vez que houve a necessidade de agendar a data das entrevistas de acordo com a disponibilidade das entrevistadas para que pudesse ir a casa destas para realizar a entrevista. Às mulheres contactadas para a realização da entrevista foram explicados os objectivos do estudo, a sua importância, e só depois agendado o dia, a hora e o local da

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Consiste em identificar as entrevistadas a incluir na amostra a partir das próprias mães entrevistadas, procurando assim identificar outras entrevistadas que tenham características semelhantes.

realização das entrevistas. As entrevistas foram realizadas em dias de folga, fins-de-semana ou no final do dia, algumas das vezes à noite após o trabalho, uma vez que as mães não dispunham de tempo para serem entrevistadas durante o dia pelo período de 50 minutos.

O tempo estipulado para a realização das entrevistas foi bastante inferior ao tempo real gasto, sendo que deparou-se com algumas situações que dificultaram a realização da mesma. Tal deveu-se, em parte, ao facto das entrevistas terem sido realizadas em casa das entrevistadas. Algumas entrevistas foram interrompidas porque houve situações em que a mãe tinha que cuidar dos filhos, atender o telefone, fazer alguma tarefa de urgência, entre outras situações.

Convém realçar que algumas entrevistadas mostraram-se inseguras e pouco à vontade em responder a algumas questões. Em tais circunstâncias foi necessário persuadi-las a responder, sublinhando novamente que o seu anonimato estaria garantido.

Embora as entrevistadas tenham sido informadas sobre os objectivos do estudo e do carácter confidencial e anónimo da sua participação, foi possível observar algum nervosismo e constrangimento por parte das entrevistadas relativamente a algumas questões, havendo algumas respostas bastante simplificadas, sobretudo as entrevistadas que se encontram em situação de ilegalidade. Importa ainda realçar que as entrevistas foram realizadas entre Abril e Maio de 2010 de forma individual12.

6.2.3. Análise de conteúdo

Os dados recolhidos através das entrevistas, após a sua transcrição13 na íntegra, foram

trabalhadas mediante a técnica de análise de conteúdo. «A análise de conteúdo é hoje uma das técnicas mais comuns na investigação empírica realizada pelas diferentes ciências humanas e sociais» (Vala, 2001: 101). Como sublinha Guerra (2006: 62), «todo o material recolhido numa pesquisa qualitativa é geralmente sujeito a uma análise de conteúdo, mas esta não constitui, no entanto, um procedimento neutro, decorrendo o seu accionamento e a sua forma de tratamento do material do enquadramento paradigmático de referência».

De acordo com Isabel Guerra «a análise de conteúdo pretende descrever as situações, mas também interpretar o sentido do que foi dito. De facto, falamos de uma série de operações como descrever os fenómenos (nível descritivo), descobrir as suas co-variações ou associações (nível correlacional e grosso modo objectivo da análise categorial) e ainda descobrir relações de causalidade/de interpretação das dinâmicas sociais em estudo (nível interpretativo e grosso modo corresponde à análise tipológica)» (Guerra, 2006: 69).

12 Com o consentimento de todas as entrevistadas, utilizou-se um gravador para registar as informações.

In document fastsetting av god økologisk tilstand (sider 95-119)