É de uma maneira positiva que os inquiridos avaliam os vários contributos que o curso de Animação Sociocultural lhes proporcionou em termos da vida profissional (gráfico III, apêndice C), pondo em causa as declarações pessimistas de alguns dos porta-vozes da Animação Sociocultural retiradas dos documentos analisados na fase exploratória da investigação. Dão especial destaque aos que se prendem com: a) a
integração na vida activa, actuando como um importante mecanismo de inclusão, particularmente no contexto actual em que os níveis de desemprego são elevados; b) a aquisição de métodos de trabalho profissional, contribuindo para o desenvolvimento profissional e pessoal dos Animadores, dotando-os de conhecimentos, habilidades e atitudes exigidas para o exercício da Animação Sociocultural; c) a capacidade de tomar decisões em contextos que requerem soluções para situações não previsíveis; d) a capacidade de expressão e comunicação, o desenvolvimento de sentido crítico; e) a capacidade de análise e de síntese.
Pese embora a avaliação seja positiva, não deixa de ser contrastante que a opção de 43% dos inquiridos, caso tivessem de escolher novamente, não voltasse a recair no curso de Animação Sociocultural (gráfico IV, apêndice C), sendo apresentadas para esta não opção razões relacionadas com a fraca estabilidade profissional que se faz sentir ao nível da relação contratual, com o baixo nível de remuneração praticado, com as escassas oportunidades de promoção e, ainda, com a dificuldade em fixar a “jurisdição
profissional” (Abbott, 1988), o que se traduz numa indefinição das fronteiras da sua
acção e, sendo assim, numa ausência de protecção quanto à possibilidade de qualquer pessoa, mesmo não estando certificada, poder exercer a actividade.
Muito embora a opção de 43% dos inquiridos não voltasse a recair no curso de Animação Sociocultural, é curioso que a avaliação da importância do curso em termos profissionais, medida através da sua recomendação a outrem, permite verificar que 65% dos Animadores recomendariam o curso aos filhos ou a pessoas importantes na sua vida, contra 35% que não fariam tal recomendação (gráfico V, apêndice C).
A recomendação do curso é apresentada com recurso a um vasto conjunto de justificações. Porém, em todas elas são realçadas as questões da “justiça e do bem
comum” e da “proximidade/intimidade” (Thévenott, 2006). Na verdade, as justificações
apresentadas pelos inquiridos para a recomendação do curso, quase todas recaindo sobre a problemática dos afectos, do estar próximo e das das emoções, põem em relevo a sua “grande abrangência na área social e o seu grande interesse para quem se preocupa
com os problemas da sociedade”, o seu trabalho “muito próximo das pessoas e da comunidade, contribuindo para o seu desenvolvimento pessoal e social”, o que
que obriga a uma actividade, energia e paixão constantes (…)”, a sua “ligação humana e social”, a sua “maneira diferente de ver o mundo e a vontade de mudar alguma coisa”
e, ainda, o fornecimento de “ferramentas para a participação enquanto cidadão/ã na
sociedade e na organização de respostas colectivas de cariz social, cultural, educativo com potencial participativo e transformador.”
Por seu turno, as justificações encontradas pelos inquiridos para não recomendar o curso agrupam-se em três grandes categorias. A primeira, relacionada com o emprego:
(…) profissão sem carreira, estagnada e sem margem de progressão”. A segunda,
relacionada com o reconhecimento: “não é um curso com reconhecimento, nem saída
profissional (…), o animador sociocultural ainda é visto como um ‗palhaço‘ que anima as pessoas”, o que aliás é confirmado por um dos Animadores entrevistados ao afirmar:
“Muitas vezes o Animador é contratado para uma instituição para animar e aqui a palavra, logo à partida, na minha opinião, tem um cariz muito ligado à alegria, à festividade, enquanto a Animação Sociocultural, neste momento, não tem esse cariz. Animar é desenvolver competências nas pessoas… trabalhar com as pessoas.” (entrevista n.º 1, Setembro de 2018: apêndice D).
A terceira, que decorre da falta de reconhecimento, relacionada com o ganho mensal: “ganhamos o salário mínimo ou o mesmo que um animador de um curso
profissional”, é indicada pelo mesmo Animador entrevistado ao afirmar que ―(…) o ordenado também é (…), por vezes, abaixo do valor atribuído a outros profissionais… com o mesmo grau académico… com licenciatura.” (entrevista n.º 1 Setembro de
2018: apêndice D), situação de precariedade salarial que, por corresponder a uma desigualdade de tratamento, gera um sentimento de injustiça.
Para os Animadores que apresentam esta postura crítica, o curso só passaria de não recomendável a recomendável caso conhecesse “inovação no seu reconhecimento,
na sua prática, no seu currículo académico e na sua área científica (…), se posicionasse e se diferenciasse de outros agentes de intervenção social, educativa e comunitária”, exigindo, para isso, que os “próprios animadores sejam agentes/multiplicadores do seu próprio desenvolvimento, inovação e reconhecimento”,
mais adaptada ao trabalho de animação” e, ainda, de “professores com mais conhecimentos na área”, requisitos que alguns dos Animadores Socioculturais também
apontam nas entrevistas que concederam:
“O que não gosto é a falta de reconhecimento, (…) esta profissão (…) muitas vezes é vista…, pelos outros e por algumas pessoas, com pouca dignidade, com pouca unidade” (entrevista n.º 1, Setembro de 2018: apêndice D). “(…) estou a lembrar- me de [referência à organização de trabalho] em que em detrimento do Animador Sociocultural colocaram uma Assistente Social e tinham uma Animadora Sociocultural que trabalhou lá sete anos e fez um trabalho notável na comunidade (...)” (entrevista n.º 2, Setembro de 2018: apêndice D). “(…) acho que nós deveríamos ter mais professores Animadores, que não tínhamos assim tantos, acho que só tínhamos um ou dois. Todos os outros eram formados e professores de outras áreas (…)” (entrevista n.º 3, Setembro de 2018: apêndice D). ―(…) ao nível do nosso curso, porque lá está, está muito focado na prática e um curso superior não deve ser tão focado na prática, deve ter uma base teórica que nos permita intervir de uma maneira diferente. (…) esta focagem na prática é comum a todos os cursos de Animação. A componente teórica, científica deveria ter maior peso nos planos de estudos, ficaríamos melhor preparados para desenvolver o trabalho enquanto Animadores.” (entrevista n.º 4, Setembro de 2018: apêndice D).
V.2 – Em síntese:
Os Animadores avaliam de forma positiva os vários contributos que o curso de Animação Sociocultural lhes proporcionou em termos da vida profissional. Dão especial destaque aos que se prendem com a integração na vida activa, a aquisição de métodos de trabalho profissional, a capacidade de tomar decisões, a capacidade de expressão, o desenvolvimento de sentido crítico e, ainda, a capacidade de análise e de síntese. Esta avaliação positiva é reforçada por dois terços dos Animadores que recomendariam o curso aos filhos com a justificação de que se trata de um curso que realça as questões da “justiça e do bem comum” e da “proximidade/intimidade”. Como que a contrastar com a recomendação feita, está a opção de uma parte significativa dos Animadores de não voltar a escolher o curso de Animação Sociocultural caso tivesse de decidir novamente. As razões apresentadas para não voltar a escolher o curso estão relacionadas com a fraca estabilidade profissional que se faz sentir ao nível da relação
contratual, com o baixo nível de remuneração praticado, com as escassas oportunidades de promoção e, ainda, com a dificuldade em fixar a “jurisdição profissional”, o que se traduz numa indefinição das fronteiras da sua acção e, sendo assim, numa ausência de protecção quanto à possibilidade de qualquer pessoa, mesmo não estando certificada, poder exercer a actividade.