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Nessa seção são apresentados e descritos os critérios para escolha do objeto de estudo, além da definição e da caracterização das unidades de análise.

Segundo Alves (2012) um critério que não pode ser ignorado para a escolha do objeto de pesquisa é o “lugar” onde o pesquisador se posiciona com relação ao primeiro, ou seja, a proximidade física, intelectual, política, afetiva, histórica entre o pesquisador e o objeto que se propõe a pesquisar facilita o desenvolvimento da pesquisa, embora haja risco de perda de objetividade.

Assim, o fato da autora da tese atuar como Técnica no Projeto de Implantação da Incubadora de Empreendimentos solidários de SBC e participar nas ações de acompanhamento, assessoria e preparação dos catadores foi um fator determinante para a escolha do objeto de estudo desta Tese.

Para Eisenhardt (1989), é o pesquisador que decide sobre o caso que estudará e quais as unidades de análise que investigará e, essa escolha apoia-se em razões teóricas. No presente pesquisa, a decisão sobre o caso relacionou-se com o envolvimento da autora da Tese com o projeto de implantação da incubadora, conforme já comentado.

8.3.1 Objeto de Estudo

O objeto de estudo da investigação empírica foram os catadores participantes das Cooperativas de Coleta e Tratamento de Resíduos Sólidos Reluz e Raio de Luz. Em torno de 70 pessoas. Ambas as cooperativas localizadas no município de São Bernardo do Campo, na região do Grande ABC Paulista, no Estado de São Paulo.

8.3.2 Unidades de Análise

Segundo Yin (2005), uma das modalidades do estudo de caso único é o denominado caso único incorporado que pesquisa múltiplas unidades de análise em um mesmo contexto. Optou-se pela utilização do estudo de caso único com três unidades de análise incorporadas: os indivíduos catadores que compuseram a principal unidade de análise; a Cooperativa Raio

de Luz e a Cooperativa Reluz, organizações produtivas nas quais esses trabalhadores eram cooperados e, finalmente, o processo de incubação pelo qual passavam, especificamente, com relação às atividades de preparação, capacitação e treinamento.

A decisão pela análise dessas três unidades baseou-se, por um lado, na teoria sobre competências, segundo a qual, as competências dos indivíduos relacionam-se às da organização onde trabalham. Conforme já explicado, o modelo de competências relaciona as competências da organização, as coletivas das equipes de trabalho e aquelas dos indivíduos (RUAS, 1999, 2005; FLEURY e FLEURY, 2001; RETOUR, 2011; MICHAUX, 2003).

Portanto, uma análise consistente do perfil das capacidades dos catadores necessitou de um estudo das características da organização onde eles atuavam e também dos recursos tecnológicos, físicos, financeiros desse tipo de organização.

A busca de respostas às questões da pesquisa também influenciou sobre a decisão com relação a essas três unidades de análise. Assim, para responder a pergunta relacionada às competências dos catadores foi necessário compreender, inicialmente, a organização na qual trabalhavam. Dessa forma, o empreendimento foi considerado uma unidade de estudo.

A definição do processo de incubação dos empreendimentos como unidade de análise, especificamente, no que se referiu às atividades de treinamento e capacitação baseou-se na necessidade de estudar tal processo para responder uma das questões da pesquisa que se referiu à influência das atividades de treinamento e capacitação sobre o desenvolvimento profissional dos catadores. A finalidade da escolha de cada unidade de análise é apresentada no quadro a seguir.

Quadro 10 - Unidades de Pesquisa

Unidades de análise Variáveis estudadas Finalidade/propósito para o

estudo EMPREENDEDORES (catadores) - Perfil demográfico e socioeconômico e educacional - Comportamentos, visão da realidade de trabalho,

experiências dos empreendedores

- Compreender os

comportamentos dos catadores e relacioná-los às áreas do perfil de competências

EMPREENDIMENTOS (características organizacionais)

- História, estrutura, natureza do trabalho.

- Processos de gestão do empreendimento, fabricação, gestão financeira, relacionamento entre os empreendedores.

- Analisar as características da organização e sua relação com as competências dos catadores - Analisar a existência de competências coletivas e sua relação com as competências dos catadores

PROCESSO DE INCUBAÇÃO (implementação do processo)

- Fases do processo de incubação - Atividades que compõem o processo de preparação, capacitação, treinamento. - Conteúdo explorado em cada atividade

- Compreender a influência das atividades de preparação e treinamento sobre o desenvolvimento das competências dos catadores

Embora o grupo de catadores estivesse distribuído em duas cooperativas – a Cooperativa Raio de Luz e a Cooperativa Reluz - estas não foram consideradas como unidades de análise diferenciadas, o que poderia caracterizar um estudo de caso múltiplo em um mesmo contexto (YIN, 2005). As razões que influenciaram essa decisão referiram-se ao fato das duas cooperativas, do ponto de vista organizacional, serem iguais com relação à estrutura, número de cooperados, processo de trabalho, perfil dos cooperados, origem dos fundadores, relações externas com a prefeitura do município e redes de cooperativas de catadores da região do Grande ABC paulista.

Em segundo lugar, a autora da tese, atuava como pesquisadora no Projeto de Implantação da Incubadora de Empreendimentos Solidários e, por essa razão, estava presente semanalmente nas duas cooperativas. Essa presença constante no espaço dos dois empreendimentos possibilitou a verificação, por meio de observação participante e observação direta, de que os dois grupos eram muito próximos e que seus participantes, muitas vezes, atuavam hora em uma unidade, hora em outra, sem nenhuma explicação mais racional, a não ser o fato de que existia essa liberdade e receptividade de ambos os grupos para receber os participantes do outro grupo no momento em que quisessem, como participantes de um único grupo social e de trabalho.

De fato, as cooperativas onde os catadores estavam inseridos, por serem da mesma natureza organizacional e possuírem uma cultura muito semelhante, não se diferenciavam e, consequentemente, não demandavam, cada uma delas, um perfil exclusivo de competências individuais que não poderia ser utilizado pela outra cooperativa.