3 FREMGANGSMÅTER FOR KIRURGISK BEHANDLING
3.4 Utviklingen av begrepet kirurgi gjennom praksis
METODOLÓGICAS DE SE ANALISAR A TELEVISÃO?
Em meio à espinhosa discussão sobre os rumos científicos e metodológicos da comunicação, os estudos de televisão parecem ficar à deriva. A heterogeneidade discursiva do material televisivo parece tornar ainda mais embaraçosa uma tomada de posição metodológica que seja pacífica. Inapelavelmente, um primeiro problema se impõe: as inevitáveis queixas de todo pesquisador do veículo repousam sobre a sobreposição de significantes, traço que confere diferença substantiva à TV em relação a outros meios. Freitas parte do entendimento de que pensar a televisão tem como contrapartida a “forma própria dessa mídia, no qual se encavalam: sons, imagens, falas e inscrições escritas”. (1999: 2). Na tentativa de oferecer modos de análise, ela questiona: “como estabelecer sobre o princípio da determinação da função do significante, uma hierarquia que permita a fixação de prioridades, frente à sobreposição dessas materialidades distintas nas emissões televisivas?” (Id. Ibid.: 2).
Em Arlindo Machado encontramos uma reclamação comum: “Enquanto filmes e romances são unidades relativamente discretas, os programas de televisão são objetos muito mais diversificados, quando não mais complexos e, nesse sentido, mais difíceis de analisar”. (2007: 1).
Ora espelhando-se nos estudos sobre cinema no que tange à análise do filme, ora anexando-se às pesquisas das mídias em geral, as investigações dos programas televisivos ainda padecem com a falta de território próprio sobre o qual o pesquisador possa encontrar sustentação, tateando em vários departamentos disciplinares uma metodologia coerente. Muitas propostas foram elaboradas com o objetivo de transpor esse imbróglio.
França, ao analisar os programas populares de TV,52 pondera que a
análise do veículo avançou significativamente sob diversos aspectos. Para ela, um dos mais importantes foi a superação da fase de saber “o que a televisão faz à sociedade”, da concepção maniqueísta e totalizadora, abrindo caminho para estudos que oscilam na análise do produto (mensagem ou forma discursiva) ou da audiência (condições de recepção), atentos aos diferentes papéis que ela desempenha. (cf. FRANÇA, 2005: 89). O progresso não isenta a autora de fazer reconsiderações em torno dessa nova/outra perspectiva, porque segundo ela:
Alguns excessos, no entanto, foram cometidos nesse caminho: uma linearidade ao inverso, um ênfase excessiva no receptor, uma valorização indiscriminada dos usos, assim como uma fragmentação da abordagem e uma sociologização dos estudos de recepção em detrimento da apreensão do processo e do próprio enfoque comunicacional. (Id. Ibid.: 90).
Acedo às críticas formuladas por França, embora não caminhe com ela em todo seu trajeto. Se é inegável que as pesquisas televisivas conseguiram se livrar do espartilho que as asfixiava, igualmente verdadeiro é o fato de que elas palmilharam “o caminho das mediações direcionado estritamente para o lugar da recepção e para o contexto cultural – com freqüência desviando-se da comunicação”. (Id. Ibid.: 93).
Desenha-se com esses avanços e mudanças de enfoque na pesquisa televisiva, perspectivas que parecem gravitar nos extremos. Pesquisadores da área, incansavelmente, procuram um substrato metodológico que seja apropriado: onde buscar a globalidade, a apreensão do processo, o confronto das partes? O que é analisar uma relação, ou a dinâmica relacional que reposiciona os elementos de um processo e confere a singularidade daquela situação ou fenômeno? (Id. Ibid.: 92).
52 O artigo versa sobre uma pesquisa em andamento denominada Problemas metodológicos e
conceituais na análise de programas populares de TV. In.: CAPPARELLI, Sérgio, SODRÉ, Muniz &
A agonia foi sentida antes pelo primo-irmão da TV: o cinema. Raymond Bellour propôs53 uma espécie de sub-disciplina voltada a um estudo mais
aprofundado e mais rigoroso dos filmes enquanto entidades singulares, de modo a superar a mera descrição ou a mera opinião sobre um trabalho cinematográfico.
Para o autor, a maturidade que o cinema atingira na década de 70 o tornou titular de uma proposta metodológica consistente, superando a práxis da crítica de cinema, normalmente marcada pelo impressionismo. Ainda segundo Bellour, a análise do filme poderia “se beneficiar das últimas conquistas da semiótica, dos estudos culturais, da psicanálise ou das ciências cognitivas para propor uma nova forma de abordar os filmes.” (2007: 14). Machado inspira-se na proposta de Bellour, e afiança ser possível a busca de “métodos mais precisos de análise de programas, que possibilitem resultados mais densos em termos de compreensão da real capacidade da televisão dialogar com o mundo em que está inserida. Por razões diversas relacionadas com as estratégias das especialidades que buscam entendê-la, a televisão produziu pouca reflexão analítica...” (Id. Ibid.).
O problema torna-se ainda mais embaraçoso caso retrocedamos para a hipótese do trabalho, que considera que a televisão costuma extinguir os limites entre os programas, ou inserir um programa dentro do outro, a ponto de tornar difícil a distinção entre um programa ‘continente’ e um programa ‘conteúdo’. Raymond Williams recusa o conceito estático de programa, por considerar que
53 Wilson Gomes, professor da Faculdade de Comunicação Social (FACOM) da Universidade
Federal da Bahia (UFBA), empreendeu pesquisa sobre a construção de um aporte metodológico para a análise de TV. Além de pesquisadores da área, as tentativas de construção de um referencial teórico-metodológico para o estudo do veículo vêm despertando o interesse de profissionais e pesquisadores de outros departamentos disciplinares, expressamente da educação. O interesse mais geral é suscitado pelo fato de que num mundo marcado por uma profusão de textos, como o nosso, o televisivo ocupa papel de destaque. Vivemos hoje, como lembra Maingueneau, imersos em uma profusão de textos tão efêmeros quanto invasores, a exemplo dos panfletos, jornais, cartazes, guias turísticos, malas-diretas de propaganda etc. (2000: 11).
na televisão não existem unidades fechadas ou acabadas, que possam ser analisadas separadamente do resto da programação. Para ele, mais do que de programas, a TV se faz de fluxos, em que os limites entre um segmento e outro não são mais considerados tão marcados com em outros meios.
Mesmo sofrendo críticas (Machado, por exemplo, considera que o conceito de fluxo empastela toda a produção televisiva num caldo homogêneo e amorfo), concordo com o conceito de fluxo instituído por Williams, porque permite observar a televisão como um acervo de trabalhos audiovisuais, cujo denominador comum é a prodigiosidade de narrar. As distinções, a meu ver, inexistem nesse patamar, o que tentarei demonstrar no próximo capítulo.