Um ensino eficaz deve possibilitar saberes que propendam dar sentido à vida, influenciando em atitudes e contribuindo para a superação dos problemas que emergem na sociedade. Assim, um ato pedagógico dialógico utiliza as experiências do seu meio, faz reflexões acerca do que se vive, do que se pode ser e o do que está sendo construído.
Desta forma, o pleno desenvolvimento humano deve implicar em uma constante construção de um novo saber ambiental, social e educacional, mediado pelo diálogo, que transcende os espaços fragmentados e que tracem novas estratégias de ensino que movimentam o pensar sobre uma ecologia humana incorporada aos programas educacionais.
O desenvolvimento dos saberes em sala de aula deve proporcionar de acordo com Gadotti (2001) que o educando busque a resposta por meio da pergunta, isto é um diálogo entre todos e por todos. Buscando inspiração nos pensadores antigos,
encontramo-nos com um dos mais célebres pensadores gregos: Sócrates. Este utilizava o diálogo como método para se chegar ao conhecimento verdadeiro.
Segundo este filósofo, o conhecimento já estava no interior do ser humano, porém, esquecido. O papel do diálogo utilizado por ele era o de despertar, acordar o conhecimento, através de perguntas práticas, utilizando-se da maiêutica e da ironia, para que o conhecimento pudesse ser aflorado.
A pedagogia utilizada por Sócrates tinha algo de novo em sua época, pois, entendia que através da cooperação e da solidariedade, a verdade não estaria presa a um único sujeito, de forma pronta e acabada, mas, através do diálogo novos saberes eram construídos.
Neste sentido, concordando com Sócrates, Lipman, Oscanyan e Scharp (1994, p. 45), afirmam que “Quando internalizamos o diálogo, não apenas reproduzimos a expressão dos pensamentos dos outros participantes, como também argumentamos, em nossas próprias mentes, com respeito a essas opiniões”. O que o autor enfatiza é que, no diálogo, as pessoas se envolvem em interações críticas, sendo por isso, mais que meros expectadores do conhecimento, mas, colaboradores de uma construção de saberes.
Desta forma, diante de uma educação fragmentada, a aquisição de um conhecimento muitas vezes pouco eficaz, tanto no método, quanto na própria prática pedagógica, em muitos casos não leva ao questionamento e ao pensar sobre as questões sociais e humanas, que certamente, acaba por restringir o desenvolvimento da personalidade, determinando apenas o desenvolvimento de uma habilidade necessária à sobrevivência.
O pensamento ecossistêmico trabalha com um olhar dialógico, onde todos doam e recebem saberes de forma espiral, valorizando não uma inteligência mecânica em determinada área, mas a condição humana de partilhar, buscando direcionar os saberes para que os mesmos possam compor ações partilhadas.
Estas ações devem contribuir para a diminuição da desigualdade social através da solidariedade, estimulando o pensamento para o universo que nos rodeia, dando significação ao aprender, permitindo-se abrir-se às múltiplas
inquietações que interferem positivamente, não apenas na consciência, mas, na consciência da humanidade como um todo, portanto, partindo-se da adoção de um conhecimento que se constrói e desconstrói a partir da prática e do que é significativo.
Tal reinvenção permanente nada mais é do que uma concepção de que a prática pedagógica deve constituir-se em um espaço de produção de novos conhecimentos, de troca de diferentes saberes, de repensar e refazer a prática do educador, da construção de competências em prol de um ambiente harmonioso, dentro de uma compreensão filosófica e pedagógica do diálogo.
O diálogo como princípio pedagógico nos mostra que não existem verdades prontas e fechadas, entretanto, é visto analogamente como uma ponte que leva o desvelar de descobertas de verdades a partir da capacidade da interação.
Tanto em sala de aula quanto na vida cotidiana, o risco é fazer do diálogo apenas aceitação do que a tecnologia tem a dizer. A ciência, em nome de uma verdade absoluta, tem dificultado a existência de diálogos, uma vez que, o que ela provou, está evidenciado e não se pode discutir.
É preciso, por conseguinte, redescobrir o diálogo como oportunidade de descobrir o que parece já está anunciada. Pelo menos, se não traz nada de novo, o diálogo pode trazer-nos um novo sentido do saber, o que já é uma grande novidade. Assim, o diálogo é talvez, um dos maiores desafios do mundo contemporâneo, pois, o pensamento fragmentado não permite pensar de forma holística. E assim, no mosaico das verdades, onde não há interações, parece que está em risco o próprio sentido da existência.
No que tange ao conhecimento que se deseja alcançar, Habermas (1989) propõe não a existência de um conhecimento finalizado, mas um saber estratégico que permite o mútuo entendimento e a interpretação da totalidade relacionada ao mundo da vida.
Através da cooperação e da fala de uns com os outros, o autor acredita na possibilidade de orientar pretensões válidas para além dos contextos particulares, viabilizando probabilidades de fundamentação racional, sendo mediado pela
comunicação não distorcida dos indivíduos, que permite o estabelecimento de acordos, anunciando condições deliberativas para a produção do saber democratizado.
O diálogo como princípio, no sentido exposto, é entendido como método pedagógico, ou seja, como fundamento da educação. Na perspectiva de Habermas (1989, 1990), o diálogo visto na ótica da filosofia, deve colaborar para que os fundamentos da teoria pedagógica e a legitimidade dos discursos educacionais não fiquem apenas no falatório, sem sentido, devendo, portanto, mediar o conhecimento como prática social.
Nesta realidade do mundo contemporâneo, o ensinamento não pode ser simplesmente um “Dito”, como ensina Levinas (1997), mas deve possibilitar um dinamismo dialógico de maneira criadora e interlocutora.
Segundo a proposta levinasiana, apresentado por Costa (2000), é a libertação dos limites ontológicos, portanto, a possibilidade de instaurar uma linguagem ambígua e enigmática que enuncia uma impossibilidade. O Dizer é a revelação de uma linguagem compartilhada, gratuita e aberta, e é neste sentido que se deve compreender o diálogo, capaz de fazer mediação para práticas educativas.
É no diálogo que se lança o grande desafio para uma pedagogia voltada para o pleno desenvolvimento humano, que é saber lidar com o conhecimento cognitivo, científico e cultural que permeia por todo o espaço escolar, agregando estes conhecimentos à prática social, cultural e afetiva, tanto dos educandos, quanto dos educadores, que por sua vez, são solicitados a pensar sobre a importância de formar sujeitos pensantes que colaborem de forma direta nas situações econômicas, sociais e políticas que englobam toda a sociedade.
Uma prática pedagógica embasada no diálogo, no Dizer levinasiano, como mediador de práticas educativas dinâmicas, constrói-se no conhecimento contextualizado, prático, dinâmico e dialógico, onde todos os sujeitos são contribuintes para a evolução do pensamento visando estimular o conhecimento e resgatando o sujeito das suas acomodações teóricas através dos diálogos e da investigação, recuperando um pensamento que trabalhe as lógicas aliado às emoções e inquietações.
O ser humano visto por Aristóteles (2001) como animal social e político, também deve ser compreendido, por isso mesmo, relacional por natureza. A linguagem, portanto, exerce o papel de encurtamento de distâncias, além do mais, ajuda-o a se desenvolver enquanto pessoa. Este desenvolvimento não deve acontecer de forma egológica, contudo, deve ter em tendo em vista a vida social, presente e futura.
Sócrates enfatiza a importância do diálogo em seus discursos, utilizando-se da maiêutica e da ironia, como já fora afirmado anteriormente, fazendo com que a própria pessoa pudesse chegar ao conhecimento da verdade. A ideia não era impor, mas, desvelar o que cada um já tinha guardado dentro de si.
Neste sentido o diálogo não apenas encurta distâncias, todavia, visto sob o ponto de vista educacional, possibilita ao ser humano uma compreensão de mundo, capacita-o a interagir com os demais seres e o coloca em uma posição de tomada de decisões. Como afirma Levinas (1997, p. 35), “É no diálogo que nos sentimos com o outro e, ao mesmo tempo, abrimo-nos para acolher o outro”.
A prática de uma educação envolvida pelo diálogo tira as pessoas do isolamento dos saberes, colocando-as em comunhão. Neste sentido, entende-se o processo educacional que tenha o diálogo como elemento mediador, somente é possível quando seus interlocutores exercitem os atos de falar e escutar.
Assim, não há verdades pré-estabelecidas, mas sim, fruto de um movimento com trocas dialógicas, permeadas de compreensão e, mais especificamente, de sentido. Isso possibilita encontrar com as tradições e, ao mesmo tempo, liga uma geração à outra, fazendo com que o passado chegue até nós e, o futuro, seja antecipado.
O diálogo, portanto, é o mediador de uma prática educacional contextualizada, pois insere o sujeito no mundo e o mundo no sujeito, ou seja, as ações não são isoladas, as palavras ganham sentido, a utopia é construída.
Não se trata de uma retórica linguística afirmar que o mundo contemporâneo parece ser incapaz para o diálogo. O desenvolvimento técnico-científico embora agregue inúmeros benefícios, tem por muitas vezes afastado os indivíduos de um
maior aprofundamento nas interações humanas, que é a arena das afinidades dialógicas. Isso não quer dizer que não tenhamos palavras, porém, como afirma Dalbosco (2006, p. 52), estamos vivendo “[...] o palavrório incessante e fugaz”.
Como se pode notar, é impossível falar em uma pedagogia do diálogo se não se tem em vista um mundo contextualizado e partilhado, pois, como se vê, não haveria diálogos, mas, falatórios sem sentidos e desconectados com a realidade.
Heidegger (2006) em sua obra “Ser e Tempo” elucida que, quando o homem toma a decisão de se afogar na familiaridade e no cotidiano, criando caminhos de fuga de sua realidade de ser jogado no mundo, ocupando-se apenas das questões instrumentais e com o mundo dos objetos, passa então a fechar-se cada vez mais para a reflexão e se mantém no nível do falar sem sentido.
Deste modo, o ser humano de acordo com Dalbosco (2006, p. 53) “[...] desencadeia, através da necessidade permanente de falar, uma dupla forma de fuga, de si mesmo e do que os outros têm a lhe dizer”.
Quando se pensa efetivamente em educação, ou mesmo, no agir pedagógico como processo ensino-aprendizagem, necessariamente o diálogo entra como instrumento para se criar interações humanas e, desta forma, é difícil ou até mesmo impossível, pensar um crescimento intelectual que não seja fruto de interações.
O que se propõe no diálogo não é tão somente uma interação entre pessoas, mas, a capacidade que o homem contemporâneo deve desenvolver para dialogar (interagir) com o planeta e com tudo o que nele existe. Uma educação realmente eficaz produz no sujeito um diálogo capaz de mediar uma educação como prática de vida.
De acordo com Fávero (2002, p. 114), “o diálogo é a relação de um “eu” frente a um tu”. Isto pressupõe, deste modo, a existência de saberes nos dois sujeitos. Assim sendo, o diálogo como mediador, deve ser compreendido como a possibilidade de um sujeito falar e o outro, seja outro sujeito ou mesmo o próprio planeta, de dizer. Não obstante, esse diálogo apenas será possível se houver humildade, pois, o sujeito deve se sentir incluso, mas não, o fim de todo o conhecimento.
1.8 O PENSAMENTO DIALÓGICO COMO ALICERCE DO PLENO