A participação nas atividades promovidas pelas políticas sociais para a alfabetização de jovens e adultos interfere no processo de construção da identidade dos alfabetizandos. Isso ocorre, sobretudo pela importância atribuída à alfabetização, já que, como é possível identificar, nas suas interpretações há uma diferença no status de cidadania entre aqueles que são alfabetizados e os analfabetos, o que ocorre em virtude das possibilidades que a alfabetização apresenta no cotidiano e no reconhecimento como cidadão. Além do próprio analfabetismo, outros elementos contribuem para uma identidade marcada pela baixa auto-estima, tais como a idade e aparece aqui com destaque especial uma trajetória de vida de muitas dificuldades, além, é claro, da influência exercida pela relação com outras pessoas que constantemente os fazem se colocar ou os colocam em uma condição de inferioridade. A construção dessa identidade começa a passar por um processo de alteração a partir do momento em que inicia a participação no projeto e nas demais atividades vinculadas, pois um trabalho voltado para a valorização de cada pessoa e ainda encontram outras em situação semelhante, passando assim a estabelecer laços de compartilhamento e amizade e são essas relações que permitem a freqüência nas atividades e, sobretudo a permanência nas turmas por muitos anos. Isso tudo possibilita uma maior inserção social.
A necessidade de inserção em um grupo é uma característica importante dos alfabetizandos. Possivelmente deva-se a isso o tempo de permanência nas turmas de alfabetização, considerando que em muitos casos eles estão ali, falam da importância de
aprender, de se alfabetizar e expressam a possibilidade de que não vão conseguir, mas ainda assim permanecem por muitos anos. Se retomarmos a reflexão desenvolvida por Souki (2006) a partir do trabalho de Marshall, identificaremos que ela problematiza a idéia de participação em uma comunidade cívica como um elemento indispensável à prática da cidadania e, nesse sentido, certamente a educação aparece como um elemento fundamental tento em vista o seu papel enquanto facilitadora do acesso aos direitos e à participação social. É claro que no âmbito do estudo que aqui realizamos não podemos falar na amplitude da comunidade cívica, pois os grupos estudados apresentam apenas o princípio do que poderia se tornar uma comunidade cívica, considerando que nos espaços estudados as relações que são construídas indicam apenas o engendramento de uma possível superação da condição de subcidadania, através da aproximação ao direito à educação e da participação em novos espaços sociais. Essas condições mínimas ao desenvolvimento de uma comunidade cívica podem, em alguma circunstância, constituir-se como tal, no entanto para isso ainda seria necessário trabalhar de forma mais relacionada à sociedade como um todo, considerando que as condições para a realização de uma comunidade cívica prevê a participação política, cultural, social e econômica.
Segundo Paiva (2008), a escola (ou, nos termos desse estudo, os espaços educativos) apresenta-se como um agente clássico para o desenvolvimento da comunidade cívica, no entanto na análise que aqui fazemos é preciso considerar que são dados os primeiros passos em direção ao que poderia se constituir como uma comunidade cívica, por exemplo, nos termos daquilo que definiu Putnam “a comunidade será tanto mais cívica quanto mais a política se aproximar do ideal de igualdade política entre cidadãos que seguem regras de reciprocidade e participam do governo (PUTNAM, 2002, p. 102). Contudo, se no Brasil ainda não alcançamos a universalização dos direitos sociais é difícil a tradução das idéias de cidadania e cultura cívica (PAIVA, 2008).
Tais aspectos são ainda muito frágeis nos grupos estudados, embora em algumas situações seja expresso (mesmo que muito mais pelos educadores) uma dinâmica de participação com o entorno e com outras instituições. Mas, ainda é visível que essas ações e concepções apresentam um tom de “abrir os olhos” dos alfabetizandos diante daquilo que os cerca, como é o caso das relações político-partidárias presentes nos espaços estudados, em que os educadores colocam-se como responsáveis por alertar os educandos, por exemplo, sobre as intenções de determinados políticos. Isso apenas ocorreu nas turmas da CUT, tendo em vista que os educadores do convênio com a Prefeitura não tratam desses temas. Sendo assim, as iniciativas de participação estão ainda muito presas aos educadores e, mesmo que os
educandos participem, em muitos casos o fazem, mas levados pela influência do grupo e não pelo desenvolvimento de uma consciência.
No entanto, o que aqui queremos afirmar é que havendo uma ênfase na construção de novos envolvimentos sociais existe uma maior possibilidade dos alfabetizandos se integrarem no espaço que os circunda e buscarem novas formas de lidar com os direitos de cidadania dos quais podem estar mais próximos após a participação nos programas e via esse processo de formação reorganizar a sua relação com o espaço social. Esse processo ocorre de forma distinta em cada grupo, pois em alguns são priorizadas outras questões que não apenas a alfabetização. Foi possível identificar, em umas das turmas pertencentes ao convênio com a CUT, que, dadas as características do espaço onde são realizadas as atividades, ocorre uma preocupação maior com as formas de subsistência, o que é expresso através de ações voltadas para o complemento de renda como a reciclagem e o artesanato. Mas, também podemos afirmar que esse envolvimento social apenas esteja relacionado às relações de trabalho, pois como vimos esse interesse foi pouco mencionado pelos grupos observados. Assim, a construção de uma nova identidade também está bastante atrelada ao sentimento de pertencimento a um grupo, aos laços de amizade que ali são construídos, a convivência diária que retira muitos de uma realidade de solidão e casa e das possibilidades de se sentir ainda ativo e com a oportunidade de aprender novas coisas.
Esses são aspectos importantes para a análise das políticas para a alfabetização de jovens e adultos, pois podemos afirmar que é o reconhecimento como membro de um espaço social e a consciência dos seus direitos e deveres, muitas vezes construída através da participação nesses projetos, que pode possibilitar novas formas de participação social e de intervenção na sua realidade.