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O livro Por trás dos vidros, de Modesto Carone, é essencialmente marcado por citações – como as epígrafes – e, às vezes, o autor insere frases em itálico no meio dos textos, sem, contudo, apontar quais seriam os autores dessas expressões, como o faz, por exemplo, na narrativa “Matilda”: “Atrás da porta um sopro torpe desmascara objetos mais familiares.”113 É evidente que isso pode se constituir mais uma estratégia da criação literária de Carone que, como crítico literário que é, possui consciência de que um texto se constrói a partir de diversos outros pré-existentes.

112 BARTHES apud HUTCHEON, 1991, p. 167. 113 CARONE, 2007, P. 65.

Como se tem argumentado, desde a invenção do livro, as obras literárias jamais apresentaram à sociedade um texto despido, carente. Ao contrário, o texto é sempre cercado de notas e informações que o completam e/ou o protegem em relação ao público, conforme o propósito do autor.

Para Antoine Compagnon114, o mais inegável sucesso do texto contemporâneo são as citações que o leitor faz no texto, as paradas, as reticências, os obstáculos de sua leitura. Entregando-se à leitura, ele aceita todas as citações que lhe queiram impor, sejam elas provenientes ou não de sua própria leitura, de sua própria competência. O texto concede ao leitor uma única liberdade: a da acomodação. Ele deve acomodar o texto e nele se acomodar, encontrando o lugar de onde o texto lhe seja legível, aceitável. Não se pode exigir do leitor que esse lugar lhe seja inteiramente desconhecido no momento em que abre um livro: um livro que não ofereça nenhum ponto de acomodação, que subverta todos os nossos hábitos de leitura, que não exija nenhuma competência especial, mas as ultrapasse todas, é-nos completamente inaceitável. Toda citação, nesse sentido em que é apresentada pelo autor115, é primeiro uma leitura – assim, como toda leitura, enquanto grifo, é citação – mesmo quando a consideramos no sentido mais trivial: já lemos, outrora, a citação que fazemos, antes de ela ser citação.

Dessa forma, a citação constituir-se-ia um elemento privilegiado da acomodação, pois ela seria um lugar de reconhecimento, uma marca de leitura – como é o caso das epígrafes, em Modesto Carone. Seria, sem dúvida, a razão pela qual nenhum texto, por mais subversivo que fosse, renunciaria a uma forma de citação. A subversão desloca as competências, confunde sua tipologia, mas não as suprime em princípio, o que significaria privar-se de toda leitura. A citação seria, assim, um lugar de acomodação previamente situado no texto. Ela o integraria em um conjunto ou em uma rede de textos, em uma tipologia das competências requeridas para a leitura; ela seria reconhecida e não compreendida. Nesse sentido, seu papel seria inicialmente fático, de acordo com a definição de Jacobson: “Estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação, [...] verificar se o circuito funciona”.116

A citação é leitura e escrita. Unindo o ato de leitura ao da escrita, a citação representa a prática do texto, o fundamento da leitura e da escrita: citar seria repetir o “gesto arcaico do repetir-colar, a experiência original do papel, antes que ele seja a superfície de

114 COMPAGNON, 1996, p. 18-9. 115 COMPAGNON, 1996, p. 17.

inscrição da letra, o suporte do texto manuscrito ou impresso”117. Segundo essa proposição de Compagnon, escrever seria, pois, reescrever, não diferindo do ato de citar118. Dessa forma, se a citação está na base de toda prática com o papel, e se a ela se atribui seu sentido pleno, considerando tudo que ela põe em movimento na leitura e na escrita, não é mais possível falar da citação por si mesma, mas somente de seu trabalho, “o trabalho da citação”, pois a

citação trabalha o texto, o texto trabalha a citação. A citação não tem sentido em si, porque ela só se realiza em um trabalho, que a desloca e que a faz agir. [...] ela não tem sentido fora da força que a move, que se apodera dela, a explora e a incorpora. [...] A questão “O que ela quer?” parece ser a única que convém à citação: ela supõe, na verdade, que uma pessoa se apodere da palavra e a aplique a outra coisa, porque deseje dizer alguma coisa diferente. O mesmo objeto, a mesma palavra muda de sentido segundo a força que se apropria dela: ela tem tanto sentido quantas são as forças susceptíveis de se apoderar dela. O sentido da citação seria, pois, a relação instantânea da coisa com a força real que a impulsiona. (COMPAGNON, 1996, p. 31.)

No caso específico da epígrafe (à qual Compagnon dedica parte de seu trabalho) – desencadeadora de todo o texto que a sucede – tratar-se-ia de um tipo de citação que, aparecendo na abertura de um texto, logo após o título, serve-lhe como moldura ou comentário introdutório, com o propósito de reafirmar o ponto de vista do texto que introduz ou apresentando-se como uma síntese do tema desenvolvido. Para Compagnon119, a epígrafe “é a citação por excelência, a quintessência da citação, a que está gravada na pedra para a eternidade, no frontão dos arcos do triunfo ou no pedestal das estátuas”. Na borda do livro, a epígrafe seria um sinal de valor complexo, um índice, mas, sobretudo, um ícone, no sentido de uma entrada privilegiada na enunciação. Mais que isso, ela seria uma imagem, uma insígnia ou uma decoração ostensiva no peito do autor. A epígrafe seria, ainda, uma condensação do prefácio, cuja forma teria sido definitivamente dada por Descartes. Nela, o autor mostra as cartas. Sozinha, no meio da página, a epígrafe representa o livro – apresenta- se como seu senso ou seu contra-senso – infere-o, resume-o. Mas, antes de tudo, ela seria um grito, uma palavra inicial, um “limpar de garganta” antes de se começar, realmente, a falar, um prelúdio ou uma confissão de fé: “eis aqui a única proposição que manterei como premissa, não preciso de mais nada para me lançar”120. Base sobre a qual repousaria o livro, a

117 COMPAGNON, 1996, p. 31.

118 Registra-se a forma como a afirmação de Compagnon corrobora a tese de Michel Schneider de que “tudo já

foi dito”, anteriormente apresentada.

119 COMPAGNON, 1996, p. 79. 120 COMPAGNON, p. 79-80.

epígrafe seria uma extremidade, uma rampa, um trampolim, no extremo oposto do primeiro texto, plataforma sobre a qual o comentário ergue seus pilares.

Em se tratando das narrativas caroneanas, a epígrafe é um importante recurso de estrutura composicional – como se demonstrará a seguir – e nelas consiste parte da chave de leitura dos textos caroneanos, como é o caso, por exemplo, da citação inicial de T. Adorno, referindo-se às marcas de sofrimento do mundo alienado.

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