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5.5 Sårbarhet i INI

5.5.2 Sentrale egenskaper for INI

Julia Kristeva, em Introdução à semanálise (1974), expõe que os estudos de Mikhail Bakhtin representam um dos acontecimentos mais marcantes e uma das mais poderosas tentativas de avanço do Formalismo Russo. Longe do rigor técnico dos linguistas, Bakhtin aborda problemas fundamentais, que o estudo estrutural da narrativa enfrentava ainda

107 MAINGUENEAU, 1997, p. 26

na época das investigações da autora e que tornam atual a leitura dos textos que ele esboçara no início do século XX. Para Kristeva, Bakhtin é um dos primeiros escritores a substituir a

découpage estatística dos textos por um modelo, no qual a estrutura literária não é, mas onde ela se elabora em relação a uma outra estrutura. Esta dinamização do estruturalismo só era possível a partir de uma concepção, segundo a qual a “palavra literária” não é um ponto (um sentido fixo), mas um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras: do escritor, do destinatário (ou da personagem), do contexto cultural atual ou anterior109.

Kristeva afirma que Bakhtin é o primeiro a introduzir na teoria literária a ideia de que todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade e a linguagem poética lê-se pelo menos como dupla110.

Para Bakhtine (sic), a divisão diálogo-monólogo tem uma significação que ultrapassa largamente o sentido concreto, utilizado pelos formalistas. Não corresponde à distinção direto-indireto (monólogo-diálogo), numa narrativa ou numa peça. Em Bakhtine, o diálogo pode ser monológico e o que chamamos monólogo é frequentemente dialógico. Para ele, os termos remetem a uma infraestrutura linguística, cujo estudo pertence a uma

semiótica dos textos literários, que não deveria se contentar nem com métodos linguísticos nem com dados lógicos, mas construir-se a partir de ambos. “A linguística estuda a língua por ela mesma, sua lógica específica e suas entidades que tornam possível a comunicação dialógica, mas faz abstração das próprias relações dialógicas... As relações dialógicas não se reduzem mais a relações de lógica e de significação que, por si mesmas, são privadas de momento dialógico. Devem ser revestidas de palavras, tornar-se enunciações, expressões por palavras, posições de diversos sujeitos, para que relações dialógicas surjam entre elas... As relações dialógicas são absolutamente impossíveis sem relações de lógica e de significação, mas não se reduzem a elas tendo sua própria especificidade” (Problemi poetiki

Dostoïevskovo). (KRISTEVA, 1974, p. 65-66.)

Segundo Kristeva, ao mesmo tempo em que insiste sobre a diferença entre as relações dialógicas e as relações propriamente linguísticas, Bakhtin esclarece que as relações sobre as quais se estrutura a narrativa são possíveis porque o dialogismo é inerente à própria linguagem. Sem explicar em que consiste este duplo aspecto da língua, Bakhtin sublinha, no entanto, que “o diálogo é a única esfera possível da vida da linguagem”.

Kristeva afirma que o discurso bakhtiniano designa o que Benveniste tinha em vista quando falava do discurso, ou seja, a linguagem assumida como exercício pelo indivíduo, ou, para empregar os termos do próprio Bakhtin, diga-se que: para “que as relações

109 KRISTEVA, 1974, p. 62. 110 KRISTEVA, 1974, p. 64.

de significação e de lógica se tornem dialógicas, elas devem se encarnar, isto é, entrar numa outra esfera de existência: tornar-se discurso, ou seja, enunciado, e obter um autor, isto é, um sujeito do enunciado” (Problemi poetiki Dostoïevskovo). Mas para Bakhtin, o diálogo não é só a linguagem assumida pelo sujeito, é uma escritura onde se lê o outro. Dessa forma, o dialogismo bakhtiniano designaria a escritura simultaneamente como subjetividade e como comunicatividade, ou melhor, como intertextualidade; diante desse dialogismo, a noção de “pessoa-sujeito da escritura” começa a se esfumar, para ceder lugar a uma outra, a da “ambivalência da escritura”111.

Na década de 1960, Julia Kristeva chegou à noção de “intertextualidade”, termo que designaria o processo de produtividade do texto literário, a partir da ideia bahkitiniana de que todo texto absorve e transforma um outro texto. Nesse sentido, o processo da escrita seria, então, resultante também do processo de leitura de um corpus literário anterior – o que possibilita afirmar que um texto é, portanto, absorção e réplica de outro texto – ou de vários outros – como já se afirmou.

A intertextualidade, que consiste na criação de textos a partir do reaproveitamento de outros, orais ou escritos, provocando um diálogo entre esses diferentes textos, é um procedimento corrente na literatura contemporânea. Julia Kristeva, num texto indispensável aos estudos sobre a problemática da narratologia, define o texto como

um aparelho translinguístico que redistribui a ordem da língua, relacionando uma fala comunicativa, destinada à informação direta, com diversos tipos de enunciados anteriores ou sincrónicos. O texto é, pois, uma PRODUTIVIDADE, e isto quer dizer: 1) a sua relação com a língua em que se situa é redistributiva (destrutiva-construtiva) e, por conseguinte, pode ser estudado mediante categorias lógicas e matemáticas, mais que simplesmente linguísticas; 2) essa relação é uma permutação de textos, uma intertextualidade: no espaço de um texto cruzam-se e neutralizam-se vários enunciados tomados noutros textos. (KRISTEVA, 1984, p. 12.)

Este conceito de intertextualidade, que interessa aos estudos semióticos em geral, tornou-se fundamental para a compreensão e recepção da arte – em particular, da literatura. Como se percebe, o século passado desenvolveu a consciência de que, sendo a linguagem essencialmente dialógica, o sentido repousa na interlocução – não em palavras ou em pessoas em particular.

Note-se que o conceito de intertextualidade, de Julia Kristeva, parecer apresentar- se adequado à leitura comparativista da ficção de Franz Kafka e Modesto Carone, na medida em que oferece subsídios teóricos e analíticos que possibilitam a verificação de aspectos que

aproximam as obras desses dois autores. Mais adequado seria, contudo, utilizá-la para um estudo comparativo entre as obras desses autores em relação a outros que são diretamente referidos em seus textos ou aos quais se fazem alusão. A teoria da intertextualidade fundamentaria, por exemplo, um estudo analítico sobre as relações que se podem estabelecer entre alguns títulos dos contos de Kafka e as obras que esses evocam ou entre as epígrafes utilizadas por Carone em seus livros e os textos que as sucedem.

Vale ressaltar que a ampliação das possibilidades mecânicas da reprodução de textos originais e da circulação dos diferentes signos e, consequentemente, a tomada de consciência de que somos porta-vozes de um discurso de outro(s) fizeram com que se intensificasse e se explicitasse o fenômeno da intertextualidade.

Segundo Perrone-Moisés, o

[...] objetivo dos estudos de intertextualidade é examinar de que modo ocorre essa produção do novo texto, os processos de rapto, absorção e integração dos elementos alheios na criação da obra nova. Para Kristeva, portanto, as “fontes” deixam de interessar por elas mesmas: elas só interessam para que se possa verificar como elas foram usadas, transformadas. As “influências” não se reduzem a um fenômeno simples de recepção passiva, mas são um confronto positivo com o Outro, sem que se estabeleçam hierarquias valorativas em termos de anterioridade-posteridade, originalidade-imitação. (PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 94.)

Roland Barthes, na perspectiva das afirmações de Kristeva, definiu o intertexto como a “impossibilidade de viver fora do texto infinito”112, o que torna a intertextualidade a própria condição da textualidade, considerando que os livros sempre estariam falando sobre outros livros e as histórias estariam sempre se referindo a outras histórias já contadas – como argumenta Michel Schneider, no livro já citado.