4. Selvets analyse
4.1 De utvalgte verkene
Em síntese podemos concluir que os nossos estudos das emoções morais, através do paradigma do vitimizador feliz/infeliz, produziram algumas evidências que podemos resumir da seguinte forma.
Atribuição de emoções e justificação
As crianças mais novas, de 5/6 anos, invocam emoções positivas e negativas para avaliarem a conduta dos transgressores. Contudo, encontrámos resultados diferentes nos dois estudos (1 e 3) em que foram avaliadas crianças destas idades: no estudo 1, observa-se um equilíbrio entre os dois tipos de atribuições, enquanto no estudo 3 predominam as emoções negativas. Da mesma forma, as crianças deste nível etário invocam os vários tipos de justificação, embora as justificações morais apareçam em percentagem reduzida (0 a 10%), predominando as justificações orientadas para as sanções e para os resultados. Tal como para a atribuição de emoções, encontrámos resultados diferentes nos estudos 1 e 3: no primeiro, observa-se uma distribuição
equilibrada entre justificações orientadas para o resultado e orientadas para as sanções e, no segundo, predominam as emoções negativas e as justificações orientadas para as sanções. A atribuição de emoções negativas contraria os resultados dos estudos clássicos sobre o paradigma do vitimizador feliz/infeliz (e.g., Arsenio & Kramer, 1992; Lourenço, 1993) e confirma as evidências encontradas por Harter e Whitesell (1989) e Yuill et al (1996). Porém, a grande maioria das nossas crianças de 5/6 anos utiliza justificações orientadas para as sanções quando faz atribuições negativas, revelando portanto uma orientação para o evitamento do castigo, expresso no medo de ser observado por outrem e/ou de ser castigado (Piaget, 1932/1984), ou orientada para a satisfação dos interesses individuais expressa pelo medo de perder a amizade do sujeito vitimizado (Kohlberg, 1984/1992), justificações estas que reflectem uma heteronomia moral (Piaget, 1932/1984) e uma moralidade pré-convencional (Kohlberg, 1984/1992).
Por sua vez, as crianças mais velhas, de 9/10 anos, invocam quase sistematicamente emoções negativas e apresentam um padrão de justificações semelhante nos dois estudos, ou seja, uma justificação das emoções negativas maioritariamente orientada para as sanções. A utilização de justificações morais permanece minoritária, mas diferente nos dois estudos, uma vez que os sujeitos do estudo 3 (31%) recorreram mais a esta categoria de justificações do que os seus pares do estudo 1 (12,5%). Embora se constate que é maior o número de crianças que atribui emoções negativas ao vitimizador, a sua compreensão moral é ainda dominada pela moral heterónoma ou moral individualista e instrumental, um resultado que contraria os resultados dos estudos clássicos do vitimizador feliz/infeliz (e.g., Nunner-Winkler & Sodian, 1988) e apoia a inexistência de uma mudança forte aos 8 anos constatada por alguns estudos (e.g., Arsenio, 1988; Arsenio & Kramer, 1992; Lourenço, 1997).
No estudo 2, os sujeitos dos três grupos etários, de 10/11, 12/13 e 14/15 anos, atribuem emoções negativas e justificações orientadas para a moral de forma quase sistemática. Este resultado mostra que estes jovens têm uma compreensão moral superior aos grupos avaliados nos estudos 1 e 3, revelando já uma moral autónoma (Piaget, 1932/1984) e convencional (Kohlberg, 1984/1992), o que permite colocar a hipótese que a idade de mudança significativa no padrão de atribuição de emoções morais se situa por volta dos 10 anos e não dos 8 anos. Contudo, nos três grupos de idade existem atribuições positivas justificados pelo resultado tangível da acção, o que confirma também a persistência do padrão de vitimizador feliz depois da infância (e.g., Murgatroyd & Robinson, 1993).
Em síntese, a relação entre as emoções atribuídas e as justificações invocadas, com particular ênfase para estas últimas, constituem um indicador da motivação moral dos sujeitos. Porém, a análise dos resultados nos diversos grupos de idade que estudámos mostra que não existe uma curva desenvolvimentista, porque não há uma diferença qualitativamente forte da competência moral entre as crianças mais novas e as mais velhas e porque o padrão moralmente correcto, emoção negativa e justificação moral, diminui durante a pré-adolescência e adolescência. Esta evidência permite-nos portanto interrogar até que ponto os processos cognitivos são dominantes na motivação moral, em particular quando avaliamos a motivação para a acção moral.
Associação entre competência cognitiva e competência moral
Ao longo dos nossos estudos procurámos então avaliar a relação entre o desenvolvimento cognitivo do sujeito e a sua competência moral. Ora, tanto a existência de uma associação presumida pela relação entre a idade e a competência moral (estudos 1 e 2), como a associação directamente avaliada entre a competência cognitiva e a competência moral (estudo 3) nunca foram verificadas. Este resultado, sugere portanto que a motivação para agir moralmente pode depender de uma complexidade de factores e que, para além da maturidade cognitiva, outros componentes psicológicos podem desempenhar um papel importante, o que está de acordo com alguns dos estudos mais recentes sobre as emoções morais (Ferreira et al, 2007; Ferreira & Sargento dos Santos, 2007; Lourenço, 2000a).
Efeito da Condição
Considerando que a literatura sobre o fenómeno do vitimizador feliz/infeliz mostra o efeito de diferentes condições de indagação (e.g., Ferreira et al, 2007; Ferreira & Sargento dos Santos, 2007; Lourenço, 1998, 2000a, 2001), confrontámos os nossos sujeitos a dois tipos de condições, a questão deôntica e a questão referida ao próprio (auto-atribuição), e verificámos que tanto a atribuição de emoções, como a respectiva justificação sofre variações distintas nos vários grupos de idade.
As crianças mais novas apresentaram, em ambos os estudos (1 e 3), mais emoções negativas e justificações orientadas para as sanções na condição deôntica, mas só no estudo 1 se verificaram diferenças significativas em três das seis condições testadas, o que revela um efeito moderado da condição neste grupo etário. Seja como
seja, aos 5/6 anos, as crianças são aparentemente mais sensíveis à questão deôntica, que os confronta com uma atribuição ao outro e com a dimensão do dever.
Pelo contrário, tanto nas crianças mais velhas, como nos pré-adolescentes e adolescentes a condição do próprio elicita uma competência moral presumivelmente superior. Em ambos os estudos (1 e 3), os sujeitos de 9/10 apresentaram, mais emoções negativas e justificações orientadas para as sanções e, também, para a moral, na condição do próprio e verificaram-se diferenças estatísticas em quatro das seis condições testadas no estudo 1 e em duas das seis condições testadas no estudo 3. Neste grupo etário, há portanto um efeito relativamente mais acentuado da condição, efeito este que tende a esbater-se nos pré-adolescentes e adolescentes, onde se observou a mesma tendência, mas apenas foram encontradas diferenças estatísticas para uma minoria das condições testadas (estudo 2).
Ora, embora a atribuição de emoções ao outro possa ser vista como um exercício de tomada de perspectiva, a atribuição ao próprio poderá eventualmente induzir mais decisivamente essa tomada de perspectiva, pois implica o sujeito nos seus componentes psicológicos, implicando-o assim na diferenciação do si e do outro. Os sujeitos mais novos, limitados pela dificuldade, natural, em realizar a tomada de perspectiva, serão portanto menos sensíveis à auto-atribuição ao próprio do que as crianças mais velhas, porque não discriminam as duas condições e reduzem a indagação deôntica ao seu ponto de vista próprio e único. Pelo contrário, as crianças mais velhas, a partir dos 9 anos, parecem menos limitados pela dificuldade de tomada de perspectiva, evidenciando mais competência moral quando confrontados à questão de auto-atribuição. Contudo, mesmo inquiridos pela condição do próprio, os sujeitos mais velhos revelam uma elevada variabilidade de respostas, pois apresentam percentagens significativas de emoções positivas e de justificações orientadas para o resultado da acção de transgressão. Assim, tanto a análise conceptual, como os resultados empíricos apoiam a convicção que a auto-atribuição constitui uma boa medida para avaliar as emoções morais em sujeitos com mais de 9 anos, enquanto indicador da motivação para a acção moral.
Efeito do Domínio
Considerando ainda que alguns autores discriminam vários domínios do conhecimento social e moral (e.g., Davidson et al, 1984, Nucci, 1981, Smetana, 1981a,
Turiel, 1978, 1979, Weston & Turiel, 1980), utilizámos 3 histórias de domínios diferentes, moral, convencional e pró-social.
Verificámos que, na atribuição de emoções, as crianças (5/6 e 9/10 anos) não fazem distinção entre domínios e, entre os pré-adolescentes e adolescentes, apenas os mais velhos, de 14/15 anos, distinguem o domínio pró-social atribuindo menos emoções negativas à transgressão. Verificámos ainda que, na justificação das emoções atribuídas, as crianças mais novas continuam a não distinguir o domínio da transgressão, o que já não acontece nas mais velhas que apresentam menos justificações orientadas para as sanções externas e mais justificações morais na transgressão pró-social. Os grupos de pré-adolescentes e adolescentes fazem também distinções entre domínios, mas distinções diferenciadas, uma vez que os de 10/11 anos apresentam mais justificações morais nos domínios convencional e pró-social, os de 12/13 anos apenas no domínio pró-social e os de 14/15 anos nos domínios moral e pró-social.
Em síntese, as crianças pré-escolares não distinguem os domínios do conhecimento social, o que contraria a hipótese de Turiel (1983), mas as crianças mais velhas tendem a mostrar uma motivação moral superior no domínio pró-social, tendência que se mantém até à adolescência, onde emerge também uma outra tendência para a diminuição de motivação moral no domínio convencional. A compreensão do domínio pró-social parece portanto evoluir rapidamente e, provavelmente, a sua integração no sistema motivacional do self torna-se, por isso, mais efectiva. Pelo contrário, após a fase de mudança desenvolvimental na atribuição de emoções, que situámos por volta dos 10 anos de idade, a motivação moral dos pré-adolescentes e dos adolescentes tende a diminuir perante transgressões convencionais e a aumentar relativamente a transgressões morais. Ora, este padrão desenvolvimental sugere quatro conclusões essenciais.
Em primeiro lugar, a compreensão do domínio pró-social constitui eventualmente um componente psicológico importante para a promoção do desenvolvimento moral, pelo que deve ser mais investigado e utilizado na prevenção dos comportamentos de tendência anti-social.
Em segundo lugar, os adolescentes (14/15 anos), para além da sensibilidade moral aos deveres positivos, também revelam alguma sensibilidade aos deveres negativos, o que não acontece com os sujeitos mais novos. Esta evidência é consistente com a observação que a integração do sistema moral no self emerge apenas na adolescência (Colby e Damon e Blasi), tornando-se assim fundamental implementar estratégias
psico-educativas destinadas a promover uma integração mais efectiva das emoções morais no sistema do self e a formação de identidades morais.
Em terceiro lugar, a diminuição acentuada da sensibilidade moral às transgressões convencionais, que se verificou a partir dos 12/13 anos, deve-nos fazer reflectir sobre o perigo de uma socialização carente de referências mais nítidas de natureza moral. A relativização progressiva das referências morais que se tem verificado nas últimas décadas e a sua transformação em referências meramente sociais deve alertar-nos para a importância de que os processos de desenvolvimento das crianças e jovens não ocorram em contextos esvaziados de uma componente moral sólida, evitando assim a progressão de um pensamento demasiado relativista e o risco de formação de identidades frágeis relativamente à capacidade de balancear individualidade e colectividade, self e alter, meios e fins.
Em quarto lugar, a diferenciação entre domínios que também observámos (e.g., Davidson et al, 1984, Nucci, 1981, Smetana, 1981a, Turiel, 1978, 1979, Weston & Turiel, 1980) reclamam uma investigação mais detalhada sobre cada um deles e, particularmente, uma construção criteriosa das situações que são utilizadas na avaliação psicológica. Além disso, verificámos que a atribuição das emoções morais é sensível ao tipo de transgressão apresentada e, por isso, os estudos futuros devem incluir a análise das diferenças individuais, de forma a avaliar o possível efeito do conteúdo, tanto na comparação entre domínios, como na comparação intra-domínio.
Implicações para estudos futuros
Os resultados dos nossos estudos mostram-se favoráveis à utilização das emoções morais, avaliadas pelo fenómeno do vitimizador feliz/infeliz, como uma boa medida para avaliar a motivação moral. A inclusão das emoções no estudo da moralidade parece-nos, de facto, fundamental pois não é suficiente um determinado nível de compreensão cognitiva da dimensão normativa para que ocorra uma acção moral. Esta capacidade é certamente imprescindível para a aprendizagem das normas e regras sociais, assim como do seu significado no contexto das relações sociais, mas ela é provavelmente insuficiente para conduzir o indivíduo, de forma mais ou menos inequívoca, à acção moral. Nesta linha de pensamento, Nunner-Winkler (1993), uma das mais importantes investigadoras das emoções morais, considera que existem dois níveis evolutivos na motivação moral, um nível precoce em que a criança possui determinado conhecimento moral mas não age em conformidade com ele, e um nível
posterior em que já existe uma disposição motivacional para agir de acordo com o conhecimento moral.
Na nossa perspectiva, a autora sublinha a necessidade de integração dos processos de compreensão moral no sistema motivacional do sujeito, ligado ao self. Ora, a compreensão da motivação moral exige o prosseguimento dos estudos sobre as emoções morais e induz a necessidade de se melhorarem as condições metodológicas susceptíveis de oferecerem um conhecimento mais alargado e mais preciso do funcionamento psicológico das pessoas confrontadas a situações morais. Este objectivo é aliás suportado: (i) pela observação que as emoções morais, medidas pelo paradigma do vitimizador feliz/infeliz, estão associadas com o comportamento das crianças, tanto em ambientes experimentais como naturais (Asendorpf & Nunner-Winkler, 1992; Nunner-Winkler, 1999); (ii) pelos estudos que mostram uma associação entre a atribuição de emoções positivas a um vitimizador hipotético e o comportamento mais egoísta e agressivo em crianças (e.g., Hughes e Dunn, 2000 e Malti, citada por Krettenauer e Eichler, 2006); e, ainda (iii) pelos estudos que mostram a associação entre comportamento delinquente e emoções morais em adolescentes (Krettenauer & Eichler, 2006).
Com efeito, a acção consistente com o conhecimento moral, habitualmente associada a um nível moral mais evoluído (Nunner-Winkler, 1993), pode requisitar um conjunto diverso de processos psicológicos, sejam eles emocionais, cognitivos, sociais, morais ou identitários. E a competência nestes vários domínios do funcionamento psicológico, mas, sobretudo, a competência para os coordenar e utilizar, com eficácia, na orientação de comportamentos sofisticados como os que estão subjacentes à avaliação e acção moral, parece ser uma condição importante para a competência moral.
Para Blasi (1983, 1995, 1999), o mais importante teórico da identidade moral, a motivação moral está portanto relacionada com a integração das emoções e do conhecimento moral no sistema do self, promovendo assim uma maior consistência entre os juízos morais e a conduta do indivíduo. Esta hipótese, pela sua pertinência conceptual, requer uma análise cuidada das concepções da identidade do ego e da identidade moral e contribuiu para orientar o prosseguimento dos nossos próprios estudos empíricos.