2. Selvet som undersøkelsesmateriale
2.6 Kaja Silverman og Amelia Jones
Para validar empiricamente a sua tese, e tal como Selman (1976) o havia feito, Kohlberg (1976, 1981, 1984/1992) utilizou dilemas destinados a avaliar os níveis de desenvolvimento da perspectiva sócio-moral.
Em conjunto com a investigadora Anne Colby, Kohlberg desenvolveu um instrumento de avaliação do raciocínio moral constituído por situações dilemáticas que confrontavam o sujeito a dois valores morais contraditórios e em que este era inquirido não só sobre a decisão que tomaria como, principalmente, sobre as justificações dessa escolha (Colby & Kohlberg, 1987a, 1987b). Para avaliarem o nível de desenvolvimento moral de um dado sujeito, os investigadores seleccionavam uma das três formas (A, B e C) compostas por três dilemas morais, entre os nove construídos por Kohlberg. Apresentamos em seguida um exemplo das histórias utilizadas, nomeadamente o dilema de Heinz e o farmacêutico, o mais conhecido.
“Na Europa, uma mulher corria o risco de morrer de um tipo de cancro muito raro. Havia um medicamento que os médicos julgavam que a podia salvar. Era uma forma de rádio que um farmacêutico da sua cidade havia descoberto recentemente. O medicamento tinha um custo de produção elevado, mas o farmacêutico cobrava dez vezes o valor de custo. Ele pedia 4000 euros por uma pequena dose. O marido da doente, Heinz, pediu dinheiro emprestado em todos os sítios que conhecia e tentou arranjar dinheiro por meios legais, mas só conseguiu 2000 euros, metade do valor que o medicamento custava. Heinz disse ao farmacêutico que a sua mulher estava a morrer e pediu para lhe vender o medicamento mais barato ou se podia pagar, mais tarde, a metade do dinheiro que faltava. O farmacêutico respondeu-lhe: “Não, eu descobri o medicamento e vou ganhar dinheiro com ele”. Assim, tendo tentado todos os meios legais, Heinz, desesperado, estava a pensar assaltar a farmácia para roubar o medicamento para a sua mulher.” (Kohlberg, 1984/1992, p. 589).
Após a apresentação do dilema, cada sujeito era confrontado a cerca de 10 questões destinadas a avaliar o seu raciocínio e a sua orientação sócio-moral como, por exemplo:
“1. O Heinz deve roubar o medicamento? Porquê? E porque não?
2. Está certo ou errado que ele roube o medicamento? Porquê?
3. O Heinz tem obrigação de roubar o medicamento? Porquê e porque não?
4. Se o Heinz não gostasse da mulher, devia ou não roubar o medicamento? Porquê?
5. Se a pessoa que estava a morrer não fosse a mulher, mas um desconhecido, o Heinz devia ou não roubar o medicamento? Porquê?
6. Se o sujeito indagado estiver a favor do roubo do medicamento para um desconhecido: Supõe que se tratava de um animal, o Heinz devia roubar para o salvar? Porquê e porque não?
7. É importante que as pessoas façam tudo o que podem para salvar a vida de alguém? Porquê?
8. Se o Heinz roubar o medicamento está agir contra a lei? Isso é moralmente errado? Porquê e porque não?
9. Em geral, as pessoas devem fazer tudo para obedecer à lei? Porquê e porque não? Como se aplica o que o Heinz está a fazer?
10. Se pensares de novo no dilema qual seria a decisão mais responsável do Heinz? Porquê? (Kohlberg, 1984/1992, p. 590).
O observador pode utilizar questões adicionais (e.g., O que quer dizer com isso? Poderia explicar melhor o que disse?), mas a pessoa inquirida tem que apresentar sempre uma justificação para as suas opções.
Esta metodologia exige contudo um conhecimento profundo, tanto do método de indagação clínico-crítica proposto por Piaget (1926), como da teoria e do método de Kohlberg (1984/1992, Colby e Kohlberg, 1987a, 1987b), uma vez que, no decurso da entrevista, o examinador deve ter o conhecimento e sensibilidade suficientes para se aperceber se as respostas fornecidas são classificáveis ou se deve prosseguir a indagação para que o sujeito explique melhor como está a pensar a situação e explicite assim o seu raciocínio e a sua perspectiva moral.
Para se atribuir o estádio de desenvolvimento moral a um sujeito, procede-se à análise da gravação da entrevista realizada, começando por segmentar a narrativa produzida em unidades discretas, designadas juízos de entrevista. Esta análise de conteúdo do material fornecido pelo sujeito deve seguir três etapas sucessivas.
Na primeira etapa, o investigador identifica a conduta escolhida pelo sujeito, ou seja, a opção que tomou face aos dois valores em confronto. Por exemplo, no dilema de Heinz que descrevemos, os valores em oposição são o valor da vida e o valor da propriedade. Assim, se o sujeito responde que Heinz deve roubar, opta pelo valor da vida, mas se responder que Heinz não deve roubar, opta pelo valor da propriedade.
Na segunda etapa, analisa-se a razão fornecida pelo sujeito para sustentar a sua opção anterior, ou seja, procede-se à identificação da norma moral que lhe é associada. As normas morais são considerações que justificam a opção por um determinado valor moral, tendo Kohlberg (1984/1992) definido doze: vida, verdade, afiliação, amor
erótico e sexo, autoridade, lei, contrato, direitos civis, religião, consciência e castigo. Por exemplo, se o sujeito responder que Heinz deve roubar porque gosta da mulher
estará a invocar a norma de afiliação, mas se disser que Heinz não deve roubar porque é proibido será a norma da lei que apoia a sua decisão.
Finalmente, na terceira etapa é analisada a justificação, fornecida pelo sujeito, para escolher o valor e a norma associada, ou seja, procede-se à identificação do
elemento moral que o sujeito utiliza. Os elementos morais são categorias morais primárias, que estão agrupados em quatro grandes categorias que correspondem a diferentes tipos de argumentos que foram fornecidos pelos sujeitos observados pelos autores: os elementos normativos referem uma orientação para normas prescritivas e papéis de natureza moral ou social, ou seja, para uma tomada de decisão baseada no elemento regras; os elementos utilitários referem uma orientação para as boas ou más consequências da acção para os outros ou para o próprio; os elementos de justiça referem uma orientação para relações de liberdade, igualdade, reciprocidade e acordo entre pessoas; e os elementos perfeccionistas referem uma orientação para a imagem do actor como um indivíduo bom, com consciência moral, e para a manutenção das virtudes do Eu independentemente da aprovação dos outros. Por exemplo, justificar a opção de não roubar porque é proibido ou feio, revela um elemento moral normativo; defender que Heinz deve roubar porque precisa da mulher, exprime um elemento utilitário; afirmar que não deve roubar porque se todos resolvêssemos os nossos problemas dessa maneira a sociedade desorganizava-se, seria expressão de um elemento de justiça; afirmar que deve roubar porque uma vida vale mais do que os direitos do farmacêutico, embora tenha consciência que está a fazer algo contra a lei e poderá ser preso, revela um elemento perfeccionista. Para melhor identificação dos diversos tipos de argumentos que foram utilizados pelos sujeitos observados e que caracterizam o seu raciocínio moral, apresentamos em seguida uma tabela com as categorias de elementos morais definidas por Kohlberg (1984/1992).
Quadro 1.
Elementos Morais (Lourenço, 2002a)
Normativos
Obedecer/Consultar Censurar/Aprovar Castigar/Desculpar Ter/Não ter direito Ter/Não ter dever
Utilitários
Boa/Má reputação
Procurar recompensa/Evitar castigo Boas/Más consequências individuais Boas/Más consequências para o grupo
De Justiça
Balancear perspectivas Reciprocidade e mérito
Manter a equidade e justiça processual Manter os acordos estabelecidos
Perfeccionistas
Manter o carácter Manter o auto-respeito
Servir a harmonia e um ideal social Servir a autonomia e a dignidade humana
Assim, os sujeitos situados em estádios de raciocínio moral mais elevados tendem a utilizar mais elementos morais de justiça e perfeccionistas e os de raciocínio moral menos evoluído tendem para a utilização de elementos morais normativos e utilitários. Mas, para além de servirem para identificar o estádio moral, os elementos morais também permitem distinguir o tipo moral, uma vez que a intersecção dos elementos morais de orientação normativa e utilitária caracteriza o tipo A, enquanto a associação entre os elementos de orientação para a justiça e perfeccionista é típica do tipo B (Kohlberg, 1984/1992, p. 613). Para proceder à distinção destes dois tipos morais, uma espécie de sub-estádios, como veremos mais adiante, foi construído um sistema de pontuação específico (Kohlberg, Higgins, Tappan, & Schrader, 1984).
Após identificar e segmentar os juízos de entrevista, o investigador deve analisá-los em função de outras categorias pré-definidas, designadas juízos-critério, que são exemplos de raciocínio prototípico de cada estádio sistematizados no manual de avaliação proposto pelos autores (Colby & Kohlberg, 1987b). A análise das correspondências encontradas entre juízos de entrevista e juízos de critério, considerando a totalidade da informação produzida na entrevista, permite então atribuir um estádio global de desenvolvimento moral à pessoa inquirida. Por exemplo, no
dilema de Heinz, onde os valores morais em confronto são a vida e a propriedade, o sujeito pode afirmar que Heinz deve roubar, opção pelo valor da vida, porque gosta da mulher, norma da afiliação, porque não quer que ela morra, elemento utilitário; e, no final deste processo de classificação, considerando todas as respostas aos três dilemas apresentados, o examinador classifica o sujeito num estádio de desenvolvimento moral
puro, completamente consciente, ou de transição.