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Kapittel 3: Forskningsmetode

3.2 Utvalg

À semelhança do que acontece com o conflito e a negociação, o poder não é externo à realidade, participa da sua essência, dinamizando-a. A capacidade transformadora da actuação social é alicerçada nas relações de poder que se constroem. A sociedade contemporânea repercute esta dinâmica que atravessou os séculos e pode entender-se como um conjunto de processos de aplicação de meios de poder nas instituições, das quais se destacam as organizações (Fernandes, 1998; Giddens, 1993; Giddens, 1997; Knights, Noble, Vurdubakis, & Willmott, 2001).

No entanto, o poder ainda se mantém como um dos maiores „tabus‟ da contemporaneidade. Para Kanter (1979), “é mais fácil falar de dinheiro e muito mais ainda sobre sexo do que sobre a questão do poder”. Segundo a autora, “as pessoas que o têm negam-no, as que o querem ter parece que o odeiam e as que se empenham para o ter fazem-no discreta e secretamente”. Apesar disso, é uma das maiores aspirações do género humano, não se podendo escamotear as suas implicações (Kanter, 1979).

Não são só „preconceitos morais‟ que proliferam sobre este tema. Num plano lógico, os fenómenos de poder, porque integrativos, derivam de formas de raciocínio contraditórias e, não raras vezes, inconciliáveis. O paradigma da moralidade, embora não deixe de se impor, vai perdendo realce para o da negociação. Para além da face obscura do fenómeno encarado como inadmissível e vergonhoso, existe outra em que é considerado legítimo. Aliás a este processo também não escapou o conceito de conflito,

exposto no primeiro capítulo. Está-se perante uma realidade que se destaca nas Ciências Sociais. Tem acompanhado sempre todos os processos de integração social. Sem o poder nem integração nem sociedade existiriam provavelmente (Crozier, 1995).

É uma realidade que é muito construída mentalmente. Depende da maneira como se interpretam as interacções. Criar percepções sobre o poder é quase tão importante como detê-lo. Certos conceitos são determinantes para enquadrar o pensamento humano, numa dinâmica onde os pontos de partida e chegada se confundem, constituindo-se como estruturas dimensionais sem as quais qualquer reflexão social sairia, possivelmente, enfraquecida. Um destes temas é, certamente, o poder. Nas organizações, assiste-se à (re)produção de história narrativa. A análise organizacional preocupa-se com os mecanismos e estratégias narrativos. As organizações são (re)produzidas em contextos sociais. É um conceito que tem que ver com as decisões que os indivíduos tomam sobre as circunstâncias em que vivem e os acontecimentos que constituem a história da sua época, repercutindo-se na realidade organizacional (Russel, 1990; Leal, 1995).

Há uma relação complexa entre o poder e o sistema de regras sociais. A cada regime de regras é inerente uma distribuição particular de poder social. Este pressuposto pode ser transposto para o plano organizacional. Também nas organizações, os sistemas de regras implementados não evitam que a distribuição dos recursos dite a distribuição do(s) poder(es) nas interacções entre os actores, nem obliteram as estratégias levadas a cabo com esse propósito. Os actores sociais dispõem de um poder desigual para alterar ou manter sistemas de regras. Todo o tipo de acção colectiva se estrutura como sistema de poder. O poder desenvolve-se no interior de um campo estruturado de relações sociais (Leal, 1995; Chandler Jr., 1998).

Como objecto de estudo esta temática foi completamente incorporada no corpo conceptual das Ciências Humanas e, crescentemente, foi-se desdobrando em vários focos de interesse e, consequentemente, dando origem a diferentes “micro-poderes”, na justa proporção das inúmeras áreas de investigação que sobre ela se debruçam. O poder passou a ser uma categoria de análise que, muitas vezes, congrega saberes e sentidos completamente díspares. Cabe a cada núcleo científico abordá-lo, consoante os seus

objectivos específicos. Um acordo conceptual é quase impossível. Trata-se de um conceito controverso entre as ciências sociais, com reflexos na sua aplicação às teorias organizacionais. A sua conceptualização assenta numa variedade de paradigmas. A dificuldade de se chegar a um consenso traduz tanto a complexidade temática como a pertinência do debate sobre este conceito (Clegg, 1997).

A este propósito argumenta Leal (1995, p. 379):

“(...) A tentativa de delimitar este objecto: o Poder em função de cinco grandes parâmetros estruturais, simultaneamente descritivos e explicativos, como sejam a sua natureza, os seus objectivos, as suas fontes, as suas estratégias e os seus intérpretes, esbarra facilmente num emaranhado linguístico e conceptual. Consegue-se, depois de uma pesquisa mais ou menos sistemática, uma definição minimamente consensual que apenas cobre dois dos parâmetros acima referidos, a saber: que o poder implica a imposição de uma vontade, traduzida num extenso conjunto de comportamentos e produções dos indivíduos e dos grupos e contribui directa e/ou indirectamente para a manutenção e/ou transformação das hierarquias sociais e da vida em sociedade (...)”

A distinção entre o poder enquanto capacidade e o seu exercício obsta, mais acentuadamente, ao entendimento desta temática. Um poder pode ser real sem ser exercido. Este fenómeno efectiva-se em dois níveis: como motivo (latente) e como comportamento (manifesto). Embora não deixe de ser um atributo, o poder é, acima de tudo, dinâmico, só potencia a sua existência em exercício (Foucault, 1992; Giddens, 1993; Benfari, Wilkinson & Orth, 1995; Kinsella, 1999; Foucault, 2000; Knights, Noble, Vurdubakis, & Willmott, 2001).

A atestar a validade deste pensamento, no entender de Ricardo (2000, p. 597):

“(...) O poder não pode ser concebido como estático, sendo produzido através da agregação de um sistema de significações, por parte dos interesses dos vários subgrupos que, simbolicamente, constroem uma realidade (...) que funciona a seu favor: Opera-se, assim, uma nova dualidade: os interesses dominantes são mais capazes de mobilizar estruturas a seu favor e, por sua vez, estes sistemas de símbolos produzem e reproduzem o domínio de certos grupos de interesses (...)”.

A realização de grande parte dos objectivos sociais, mesmo em situações em que o empenhamento e o conhecimento são assinaláveis, implica a aplicação de poder. Para Etzioni (1989) existe uma ligação estreita entre poder e eficácia da acção. Quando há algum processo de mudança o poder aparece, directa ou indirectamente, como uma força transformadora. Qualquer acção pressupõe o exercício do poder. Para alguns actores o poder afecta quase sempre o seu detentor numa lógica bipolar de causa/efeito. Quanto mais experiências de poder vivenciar o indivíduo maior propensão encontra para a acção e vice-versa. O facto do poder e a acção estarem inter-relacionados pode influenciar a heurística e, consequentemente, a hermenêutica, desenvolvidas na sua abordagem.

O poder pode ser perspectivado não só como um elemento da estrutura social, mas também como uma estrutura cognitiva que pode ser activada através da resposta a um estímulo ambiental. A posse de um determinado poder num contexto pode ter consequências num outro não relacionado com o primeiro. Ao explorar este assunto, uma questão pode assolar os espíritos de quem o investiga. Porque é que o poder conduz à acção? Actualmente a discussão na literatura articula-se, sobretudo, num nível funcional de análise. O poder permite ao indivíduo envolver-se em acções que podem promover não só a realização de interesses como a retenção de poder. Esta relação poder-acção pode surgir do crescimento inerente a uma aprendizagem na adaptação a um envolvente que encoraja aqueles que detêm poder a tomar posição. Tudo isto se efectiva tendo-se em atenção que o poder nem sempre corrompe e que pode, igualmente, ser utilizado na prossecução de um bem-comum (Galinsky, Gruenfeld & Magee, 2003).

Para autores como Crozier & Friedberg (1977), ou Foucault (1992), o poder é uma relação e não um atributo, não existe independentemente dos seus actores, não tem essência, é operatório. Por seu turno, a visão transaccional do poder de Aubert (1992) não exclui a percepção do mesmo como um atributo que decorre de uma necessidade defensiva de controlo dos recursos comuns. Estes critérios retomam, de certa maneira, as categorias aristotélicas de potência e acto. Desta forma, o poder poderá basear-se na sua força potencial e efectiva ou em ambas. A divisão quanto a esta questão faz-se sentir na literatura consultada. Enquanto alguns autores argumentam que a essência do poder

está na sua força potencial, outros reforçam o seu carácter efectivo, defendendo que existe apenas em exercício (Moreira, 2003; Moreira & Cunha, 2008; Moreira & Cunha, 2009).

No estudo levado a cabo por Brass & Burkhardt (1993), onde a correlação entre estas duas naturezas é testada, esta distinção converge para as abordagens apresentadas: a estrutural e a comportamental. Considerando a ligação entre os autores referidos anteriormente e o modelo de estruturação de Giddens (1993), também neste estudo se concluiu que a estrutura molda e é moldada pelo comportamento, o que equivale a dizer que as duas essências não só existem como se relacionam e se complementam.Para alguns autores, o poder é uma imposição que vai contra a resistência. O que está implícito no poder é a coerção. A dominação exige que se obedeça a uma ordem de determinado conteúdo.

Outro conceito que muitas vezes se liga, intimamente, ao domínio é o de influência. Certos autores admitem que estas duas noções possam ser percebidas como equivalentes enquanto práticas de poder. No entanto, a influência mobiliza-se mais no plano simbólico. A influência relaciona-se com a indução. Age através da condução de opiniões alheias ou pela ascendência sobre as consciências. Possui uma dimensão simbólica. Quando se acciona, a apropriação dos seus resultados é feita pelos detentores dos meios de produção simbólica. É um processo quase doutrinário e não de disciplina dos corpos e das vontades, diferindo, por oposição, do mando que, por seu turno, está mais ligado à coerção e à imposição. Alguns autores consultados defendem que a influência se filia conceptualmente no poder potencial. Se A tem influência sobre B, este reage em função do que A imagina, sem ser preciso manifestá-lo e mesmo na ausência de uma relação de subordinação. A influência também é um poder exercido não intencionalmente e que se manifestará à revelia de quem o exerce (Ricardo, 2000).

Trata-se de um processo através do qual se modificam comportamentos. As diversas tácticas de influência utilizadas, enquanto meios de controlar os comportamentos, podem provocar „metamorfoses‟ no exercício do poder. Kipnis (1984) refere-se a três tipos / dimensões de tácticas de influência: fortes, fracas e racionais. Desenvolvendo este aspecto, surgem tácticas como a assertividade, a persuasão, o

recurso às trocas, o apelo aos superiores ou a formação de coalizões, entre outras. Cada uma se pode inserir nas dimensões anteriores, embora sejam conotadas mais com umas do que com outras. Tudo depende do contexto em que são aplicadas. A intensidade com que são utilizadas varia em função do tempo e do espaço em que se inscrevem. De uma forma geral, as tácticas fortes impõem submissão. O alvo de influência não é visto como um agente livre. Este tipo de controlo não é tão acentuado nas outras dimensões. O recurso à tecnologia, por exemplo, como fonte de rotinização do trabalho, dota os gestores de meios de influência que reduzem as escolhas por parte dos executantes (Kipnis, 1984; Munro, 1999; Mulinge, 2001).

O exercício do poder enquanto relação recíproca e desequilibrada pode criar situações extremas de domínio em que a relação recíproca acaba por se desfazer. Esta noção de relação de poder parece voltar a enfatizar as noções de poder como potência e de poder coercivo (Leal, 1995; Barros; Moreira & Cunha, 2008; Moreira & Cunha, 2009).

Para além do seu carácter colectivo, o fenómeno tem uma essência individual e refere-se, num primeiro plano, à capacidade de um indivíduo realizar a sua vontade, mesmo contra a dos outros, que num plano mais político se dilui em coligações e em grupos de interesse. No seguimento desta ideia, o poder é a capacidade de um indivíduo ou organização imporem projecções das suas estruturas internas ao meio ambiente (Hindess, 1995; Hickson, Hinings, Lee, Schneck & Pennings, 1995; Hahn, 1997; Valle & Perrewe, 2000).

Esta concepção „individualista‟ encontra paralelo na terminologia designada pelos psicólogos de self que tem sido abordada pelos seus apologistas como uma evidência natural. Alguns estudos de cariz antropológico estabelecem que este modelo está demasiado preso à cultura ocidental. A cultura ocidental enfatiza uma metáfora egocêntrica, segundo a qual a ordem pessoal e social dependem do controlo individual, sendo os indivíduos encarados como estruturas equilibradas e centralizadas. A esta perspectiva contrapõe-se a “metáfora sociocêntrica”, prevalecente, em muitos exemplos, nas sociedades orientais, nas quais as atitudes e os comportamentos se explicam pela existência de um controlo mais externo e ambiental, a partir do qual as pessoas são

vistas como agentes descentralizados (Gonçalves & Gonçalves, 1995; Leal, 1995; Benbenaste, Delfino & Vitale, 2006).

A posição “egocêntrica” articula-se numa visão epistemológica mecanicista. A metáfora central desta abordagem é a máquina e pressupõe um entendimento da realidade constituída por entidades em interacção, nunca esquecendo que o ser humano possui características semelhantes a este „dispositivo‟ actuando, não raras vezes, de forma mecânica (como o atestam certas teorias comportamentais e psicanalíticas) (Gonçalves & Gonçalves, 1995).

A este respeito aduzem Gonçalves & Gonçalves (1995, p. 397):

“(...) desde o século XVII que Bacon, Hubbes e Locke iniciaram uma crítica de utilização de causas formais (dependentes de explicações formais) e finais (dependentes de explicações teleológicas), defendendo o recurso da ciência às causas materiais e eficientes (explicações que, respectivamente, procuram determinar o material que constitui determinado objecto e as causas imediatas que lhe deram origem). A este ideal aderiram rapidamente os psicólogos, com o interessante corolário de recusarem a compreensão do comportamento baseada na intencionalidade (....).”

Entre os psicólogos, regra geral, a tendência é para que estes sejam ensinados a evitar construir os comportamentos de „forma humana‟. A concepção mecanicista revela-se, no mínimo, dicotómica, destacando-se algumas percepções bipolares como: mente/matéria; alma/corpo; pensamento/comportamento; interior/exterior ou objectivo/subjectivo (Gonçalves & Gonçalves, 1995; Benbenaste, Delfino & Vitale, 2006).

Foucault (1992) debruçou-se sobre a maneira como as práticas sociológicas de „individualização‟ proporcionaram o advento de novos paradigmas de poder a partir do século XVII que, embora mantivesse a génese mecanicista, se afastava gradualmente da mesma, incorporando imperativos políticos e sociais que influenciaram o entendimento da alma como instrumento da anatomia política. Aliás, na literatura sobre o controlo nas organizações a égide da teoria „Foucaultiana‟ é muito sentida. Muitas das investigações acabam por, implícita ou explicitamente, reflectir essa temática. Os principais críticos

de Foucault no que concerne ao poder apontam para a deficiência teórica na exploração da resistência, porque o autor se centra muito na „vigilância‟. Apesar de algum fundamento, na globalidade, a análise do autor sobre o poder e a política, baseando-se nos mecanismos estruturais de influência, deixa todo o espaço de manobra para a disseminação de outras vias de poder que se opõem às tradicionais (Townley, 1993).

Nesta linha de raciocínio, Gonçalves & Gonçalves (1995) defendem que toda a obra de Focault sustenta o modo como as ciências humanas se desenvolveram, tendo como ponto de partida as estratégias de poder que emergiram nos séculos XVI e XVII, mas equacionando e (re)inventando novas possibilidades. Estes tipos de poder são „parentes‟ de uma “anatmo-política” e do conceito de “bio-política” (ex: controlo da populações) (Gonçalves & Gonçalves, 1995).

O poder é, pois, uma „troca‟ de acções, de comportamentos entre um conjunto de actores individuais e colectivos. Mas é, acima de tudo uma relação instrumental e política (que tem que ver com a negociação), transitiva e recíproca. Pressupõe uma transacção, todavia, essa troca está sujeita às relações de força expressas. Alguns autores reconhecem o poder como central na escolha estratégica. Desta maneira, sem deixar de ser um atributo, é, sobretudo uma estratégia, um relacionamento de forças, um composto, sempre em variação e derivação de tácticas, manobras (incorporadas pelas tácticas) e posicionamentos. Este jogo de incertezas é determinante no confronto de poder(es). As estratégias desenvolvidas são sempre racionais, embora de racionalidade limitada (Moessinger, s/d; Schoemaker, 1993; March, 1994; Cunha, 1995; Crozier, 1995; Friedberg, 1995; Giddens, 1997; Miller, Hickson & Wilson, 1999; Foucault, 2000).

Quando Foucault se refere às relações de poder e às formas de racionalidade que as regulam, não se direcciona num sentido impositivo e absolutamente predominante. De facto, a dicotomia dominador/dominado não pode ser encarada de uma forma simplista. Ao contrário de Hobbes, e tendo mais do que uma „visão monolítica de poder‟, Foucault sugere que um mundo de novas e distintas práticas emerge longe das preocupações com a soberania, aproximando-se, deste modo, de Maquiavel. Esta ideia é reforçada pelas palavras de Foucault que expressam que “o poder está em toda a parte,

não que englobe tudo, mas porque vem de toda a parte”. É um fenómeno inerente a um complexo de forças em exercício, é um „biopoder‟, um poder que sofre alterações genéticas. À semelhança do que defende Crozier, para Foucault, não se deve tomar o poder como algo que se adquire, conquista, partilha, perde ou deixa escapar, mas como algo que não existe senão em acção, na imanência do seu exercício. A proposta de Foucault para uma “microfísica do poder” obriga a traçar um novo mapa de focos de instabilidade, cada um deles contendo os seus riscos de conflito, de luta e de inversão das relações de poder (Moreira, 2003; Moreira & Cunha, 2010).

A nova „cartografia‟ do poder tem a originalidade de não o percepcionar como algo evidente, homogéneo ou unívoco, mas enquanto uma rede de elementos múltiplos e relações de forças heterogéneas onde ele circula, por onde passa, ora solidificando bases de apoio, ora produzindo contradições. Foucault faz o inverso de Hobbes, que não dá ênfase à questão da multiplicidade de vontades a partir das quais se forma um corpo único: a soberania (a cabeça do leviatã, a alma do Estado), e esforça-se por apreender as instâncias difusas de sujeição material dos corpos, o modo como os efeitos do poder estão inscritos nos pensamentos e nas energias. Apesar de manter actualidade conceptual, a “visão horizontal” de Foucault não pode ser encarada como um absoluto radical e insofismável. O controlo exercido pelas sociedades como um todo de instituições políticas e religiosas caracteriza, parcialmente, os sistemas sociais que têm como base o estado e o seu monopólio institucionalizado. O poder não constitui uma unidade global, é uma prática social que assume formas heterogéneas, às vezes díspares entre si, porque é constituído historicamente e assenta nas articulações locais circunscritas a determinadas áreas de acção (Fleury & Fischer, 1992; Drummond, 1993; Levy, 1997).

A concepção de Dahl (referenciado por Hickson, Hinnings, Lee, Schneck & Pennings, 1995; Crozier, 1995; Cabral-Cardoso, 1996), segundo a qual “o poder será a capacidade de um indivíduo levar outro a fazer algo contra a sua vontade mas sem que o primeiro tenha alterado o seu comportamento”, não é tão linear quanto a priori possa parecer. Se este raciocínio tem a virtude de simplificar e a vantagem de não requerer como pré-requisito alguma teoria acerca da essência do poder, apresenta como grande inconveniente a dificuldade de operacionalização subjacente. De facto, as perspectivas

de Foucault, Crozier e Friedberg complementam a de Dahl, na medida em que reconhecendo o desequilíbrio de forças, dão espaço de acção aos dominados.

O actor B também pode condicionar o comportamento de A. A posição que se ocupa é apenas uma grande vantagem e não uma garantia absoluta de domínio. Neste sentido, uma pessoa não é “poderosa” ou “sem poder”. Um indivíduo, uma organização ou uma sub-unidade, têm mais poder com respeito a um determinado actor social do que em relação a outro. Modificando, um pouco, a definição de Dahl, o poder de A sobre B corresponde à capacidade de A impor a B os termos de troca que lhe são favoráveis sem descurar as condições que este último, de igual modo, lhe propõe. A característica mais premente do poder já não é tanto a capacidade de comando ou de acção, mas de interacção (Crozier & Friedberg, 1977; Foucault, 1992; Wrong, 1993; Crozier, 1995; Clegg, 1998).

Em suma, actualmente, face a algum descrédito das teorias da legitimidade e das concepções institucionais da sociedade, enfrentamos uma época na qual a sociedade parece assumir contornos de um „moderno maquiavelismo‟ que se alicerça num certo pragmatismo funcionalista. A visão contemporânea do poder político é, em grande parte, subsidiária da nova figura do „moderno príncipe‟, que é o partido político, que, afinal, se torna tanto ou mais maquiavélico quanto menos assumir o seu carácter institucional e mais potenciar o princípio da soberania popular. É indiscutível que os fundamentos do maquiavelismo ainda estão bem patentes no poder social exercido, que se manifesta, pontualmente, nas idiossincrasias de que se alimenta e através de mecanismos que ultrapassam o controlo e o domínio tradicionais (Romme, 1999).

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