Os árabes muçulmanos absorveram muito da cultura musical e utilização dos frame
drums oriundos dos povos da antiguidade, conforme apresentado no capítulo anterior.
O domínio árabe na Península Ibérica, chamado de período islâmico, passou por momentos distintos de mudanças políticas e sociais que geraram muitos intercâmbios culturais e levaram às distintas camadas sociais diversos fenômenos culturais e musicais.
Ana Dias aponta em sua pesquisa três períodos políticos importantes que serviram para definir o perfil musical dos árabes na Península Ibérica, especialmente na região do Al- Andalus: o inicial árabe-oriental, o tradicional autóctone, e o final hispano-árabe. Estes três períodos correspondem às “três idades da música” (a indefinição, o fascínio pelo já feito, e a criação de algo novo), como se esta pudesse ser representada por meio da aprendizagem humana em evolução com a maturidade (DIAS, 2011, p. 25).
Entre os anos de 565 a 636, pouco antes da conquista islâmica em 711, a música que era feita na região entre Portugal e Espanha continha elementos populares visigóticos coexistindo com o canto litúrgico gregoriano, além da cultura judaica e de músicas de procedência afro-oriental que chegavam por meio de migrações de pessoas do norte da África, em processo de dominação islâmica.
A partir da conquista árabe, um dos principais marcos para a cultura musical na Península Ibérica foi a chegada do músico Ziryab que revolucionou os hábitos e cultura geral da população, além de trabalhar pela área musical. Durante o século IX a corte de Córdoba buscava igualar-se em requinte e elegância à cidade de Bagdá e para isso acolhe as inovadoras ideias de Ziryab criando escolas, supostamente públicas, que revolucionaram os métodos de ensino. Atribui-se a ele a ampliação do repertório musical da época por meio do conhecimento de canções orientais, a introdução de dezenas de novos instrumentos orientais e berberes na prática musical ibérica, além de haver introduzido a quinta corda do Ud ou Alaude, a corda da alma. Segundo contam, quando Allah criou o homem, também criou o Alaúde com suas quatro cordas simbolizando, cada uma delas, os elementos da natureza: terra, água, fogo e ar. Ziryab teria introduzido a quinta corda na intenção de aproximar o homem da natureza por meio da alma, batizando-a de “a corda da alma”. Dentre os instrumentos introduzidos na Península Ibérica neste período é provável que possamos incluir o frame drum árabe nesta lista, o chamado Duff. Vale lembrar que o trânsito de pessoas entre a Península Ibérica, norte da África e Oriente Médio é anterior ao período de conquista islâmica e que, portanto, é possível que muitos elementos culturais, ao invés de terem sido
introduzidos, tenham se fortalecido a partir desta dominação. É importante ressaltar a contribuição de al-Kindi, filósofo e contemporâneo de Ziryab que, seguindo um pouco da tradição greco-romana em paralelo com o pensamento católico, preocupou-se com a concepção mística e mágica da música. Também faz parte deste elenco o autor e filósofo Ibn Bayya, conhecido como Avenpace, que, após Ziryab, teria reformulado o ensino musica e escrito um tratado teórico sobre música, a perdida Epístola sobre a música. Ibn Bayya também propôs uma nova estrutura para as composições poético-musicais em formato intercalar entre parte instrumental e declamativa denominadas nouba e muwashshsah. Nesta época era prática comum a mescla de idiomas como o árabe culto, árabe dialectal, hebraico ou romance, nas estrofes de uma mesma canção como parte formal da estrutura musical, o que mais uma vez aponta para a diversidade cultural e para a tolerância entre os povos desse território no período medieval.
Pela orientação estética greco-romana da época, a prática musical cantada era preferível à instrumental mas, apesar disso, a prática musical instrumental desenvolveu-se muito devido ao grande interesse, instrumentos disponíveis e acesso ao aprendizado.
O ensino da música era especialmente voltado à formação das gawari, escravas e/ou concubinas de rica formação intelectual e artística, antes ou depois de ter sido compradas. As
gawari sabiam caligrafar, cantar, declamar poesia, dançar e tocar vários instrumentos como ud, rebab e duff. O preço de uma gawari variava muito, de acordo com seus dotes e saberes.
11. Mulher árabe tocando um frame drum redondo, século XIII12
12 Essa figura aparece num dos vários medalhões de um pequeno cofre, no Museu da Catedral de Palma de
Apesar de a função musical estar muito centralizada na figura das gawari, aos poucos homens e mulheres da comunidade passaram a se especializar na arte de tocar e cantar, atuando em suas residências com animados concertos noturnos. No fim do século X, a cultura musical tornou-se acessível a todas as classes sociais, e o ambiente artístico nas cidades do Al-Andalus era intenso:
O ensino da música estava já bastante desenvolvido não só para as escravas artistas, mas também para as mulheres e homens islâmicos ou não. A dança e o canto eram uma e a mesma coisa, e surgem no início do século XI, as
zambras ou samar, os serões musicais e artísticos que já não só se
realizavam nas veladas noturnas dos palácios reais com as cem flautistas e alaudistas, mas também um pouco por todas as casas das famílias andalusas [...] (DIAS, 2011, p. 29).
No início da orientalização ibérica, os instrumentos de percussão eram considerados vulgares e aos poucos foram sendo introduzidos no cotidiano de eventos e caindo no gosto popular. Os frame drums árabes em uso eram o Tar, Ghirbal, Mizhar ou Mazhar e Bandayr, além de outros instrumentos de percussão como darabuka e naqqara.13
A palavra árabe que foi mais utilizada com o mesmo sentido de frame drum, como designação genérica para estes instrumentos, é duff. Esta palavra está relacionada etimologicamente com o termo hebraico tof e historicamente com adapa suméria, conforme veremos mais detalhadamente em capítulos posteriores. No início do período de dominação árabe na Península Ibérica, o termo duff poderia representar tanto um instrumento redondo quanto quadrado, com ou sem platinelas ou sinos, com pele em ambos os lados ou apenas em um deles, tal era o uso genérico deste termo. Para identificar um determinado duff, alguns autores não ibéricos do período medieval incluíram um adjetivo como em duff murabba (duff quadrado), duff al-mudjaldjal (duff com sinos), duff maftuh (duff “aberto” e redondo) e duff
murabba maghluq (duff quadrado e “coberto”), estes dois últimos referindo-se a um frame drum redondo com pele em um dos lados, e a um frame drum quadrado com pele em ambos
os lados, respectivamente. Outra forma de dar identidade a um determinado duff era chamá-lo por um nome específico. Assim identificamos o Tar, após o século XIII, como um duff redondo com uma pele, possivelmente com sinos ou platinelas; o Mizhar ou Mazhar, após o século XI, poderia ser tanto quadrado quanto redondo; o bandayr, a partir do século XII, em
13
Darabuka é um instrumento de percussão com o corpo em formato de cálice, feito tradicionalmente de argila ou madeira e que usa como membrana pele de peixe ou cabra, entre outros animais. Naqqara é um tambor com o corpo baixo e arredondado, feito de argila cozida e com a parte superior coberta de pele animal, que é tocada com uma baqueta de madeira, geralmente usando um par do instrumento.
formato redondo; e o Ghirbal como um duff redondo com uma esteira esticada atrás de sua pele. A palavra Ghirbal também significava peneira e, conforme foi dito anteriormente no tópico 2.2.1 nos remete a associações de origem agrícola do instrumento. O termo duff passou a ser mais conhecido como um instrumento de formato quadrado quando a palavra bandayr, ou o termo pandeiro, passou a identificar os instrumentos redondos a partir do século XII.
12. Vaso de Tavira e detalhe destacando um tocador de frame drum quadrado, século XII14