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A presença do povo judeu em território ibérico parece ser anterior aos árabes, romanos e godos. É possível que os primeiros judeus tenham chegado por meio das armadas fenícias e que após a tomada de Jerusalém pelos Romanos em 70 d.C., muitos outros tenham se encaminhado à Península Ibérica ao encontro dos que ali já estavam. A convivência entre judeus, cristãos e os outros povos em território ibérico na Idade Média foi muito conflituosa. Chamava a atenção os contrastes entre aspectos físicos, crenças, modos de vestir e preceitos morais judaicos e cristãos em meio à população corrente, o que gerava animosidade e intrigas. Durante os primeiros anos da era Cristã os judeus exerciam destacada atividade comercial, casavam-se com mulheres cristãs e possuíam escravos cristãos. Estes atos de superioridade desagradavam aos cristãos de fé que não aceitavam que mulheres cristãs fossem convertidas ou que até escravos cristãos fossem circuncisados. As reuniões de Concílios criaram leis que restringiam tais atitudes e atividades judaicas chegando ao decreto de expulsão no ano 613 na

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Vaso de cerâmica do século XII encontrado em Tavira, Algarve. Representa uma das mais importantes peças da arqueologia medieval portuguesa do período islâmico. Apresenta representações de animais, elementos militares, uma figura feminina e músicos, dentre estes um tocador de frame drum quadrado. Usado como elemento simbólico de bom augúrio nas cerimônias de matrimônio (DIAS, 2011, Anexos, Quadro I, p. 2).

Espanha, à exceção daqueles que aceitassem a religião católica. Mesmo cristianizados, os judeus que ali permaneceram continuaram fiéis a suas crenças e a exercer seus cultos no interior de seus lares. Durante as batalhas de conquista árabe pelo território Ibérico, tomaram posição contrária aos cristãos como forma de defesa ou represália e por contar com maior tolerância dos muçulmanos a seus hábitos. A conquista árabe no ano de 711 estabeleceu uma tolerância religiosa que amenizou os conflitos tornando a vida dos judeus mais próspera nos territórios sob domínio muçulmano. Sobre esse aspecto Lúcio de Azevedo (1975, p. 5) afirma:

O domínio sarraceno manifestou-se aos hebreus tão fecundo em prosperidades materiais como em progressos, de maior valia, de ordem intelectual. Senhores do comércio em uma sociedade, guerreira, como a antecedente, continuavam a ser os detentores da riqueza. Nas cortes dos soberanos mosléns, alcançaram a máxima influência e exerceram altas funções, até a de primeiro-ministro. Ao mesmo tempo, em contacto com a civilização requintada que os invasores trouxeram à Península, poliram os costumes e a linguagem, aprenderam as ciências e a poesia.

Os judeus chamavam a Península Ibérica pelo nome hebraico de Sefarad e falavam sefardi, também conhecido por ladino, uma mistura de palavras hebraicas com a língua da região em que habitavam como castelhano, português, árabe e até mesmo catalão. A cultura musical sefardita deixou um legado de canções em ladino que são muito apreciadas e executadas até os dias de hoje, apresentando em suas letras, ademais o caráter religioso ou as memórias de Israel, um retrato documental dos costumes e comportamentos da sociedade sefardita medieval. Encontramos alguns exemplos nos seguintes versos:

Alabar quero al Dió, con tanyer y cante, siendo El mos pedrió Amistad avante de hombre merbane El mos escapó,

y a Hamán lo enforkó, en una paída, non topó fuida15

Um dos registros mais representativos da presença de frame drums na Antiguidade e Idade Média pode ser verificado em textos sagrados em hebraico, os mesmos que compõem o Velho Testamento da bíblia católica. Em hebraico, os frame drums são chamados tof Miriam, em alusão ao fato de Miriam tocá-lo em meio a outras mulheres, enquanto seguiam caminho depois da travessia do Mar Vermelho, quando os judeus eram guiados por Moisés na fuga do Egito. Essa passagem é relatada no Antigo Testamento, Êxodo 15,20. “Maria, a profetisa, irmã de Aarão, tomou na mão um tamborim e todas as mulheres a seguiram com tamborins, formando coros de dança” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2013).

15 Exemplo de estrofe em ladino extraído da canção “Alabar quero al Dió”, louvando a Deus por meio de cantos

Alguns registros iconográficos feitos no período medieval ilustram essa passagem e são geralmente encontrados no Velho Testamento da bíblia católica ou nas Hagadás judaicas, textos lidos na noite do Pessach que contam a libertação do povo de Israel do Egito.

13. Hagadá de Sarajevo, século XIV16

14. Página 14 da Hagadá de Ouro, século XIV, e detalhe (BRITISH LIBRARY, s/s)17

16 Uma das mais belas hagadás medievais, essa foi encomendada como presente de casamento e é composta de

109 páginas confeccionadas em ouro, bronze e cores vivas sobre um pergaminho branco. Foi encontrada em Sarajevo no início do século XVI, após um longo percurso desde a expulsão dos judeus da Espanha, em 1492 (A HADAGÁ DE SARAJEVO, 2003; SARAJEVO HAGADA 1).

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Essa cena sugere um festivo encontro e nos mostra Miriam, irmã de Moisés, segurando um tof decorado com motivos islâmicos e rodeada por mulheres que dançam e tocam outros instrumentos. Além do tof quadrado que Miriam segura, há outro redondo.

15. Hagadá de Castilha, século XIV18 16. Hagadá Kaufmann, século XIV19

As imagens 13, 14, 15 e 16 são de diferentes Hagadás do mesmo período e referem-se todas à mesma passagem do Êxodo 15:20, em que Miriam sustenta um tof. É interessante observar como o tof é representado em diversos formatos: no Hagadá de Sarajevo o vemos redondo e com platinelas; o Hagadá de Ouro nos mostra dois formatos distintos para o tof, um quadrado e outro redondo, dispostos lado a lado; no Hagadá de Castilha voltamos a encontrar o tof de forma circular; e no Hagadá Kaufmann da Catalunha novamente o vemos em formato quadrado. Esta análise aponta para a conclusão de que a palavra tof equivale ao que hoje entendemos por frame drum, um termo genérico aplicado aos tambores de moldura sem distinção de tamanho, formato ou ressonadores.

De acordo com Curt Sachs (2006, p. 108), o tof hebraico corresponde ao mesmo frame

drum da antiga Mesopotâmia e Egito, encontrado também na Grécia e Roma e teria sido a

matriz etimológica do duff árabe que gerou o Al-duff, o Adufe português.

18 Miriam tocando tof e dançando com duas mulheres israelenses (BRITISH LIBRARY, [12--?]).

19 Hagadá Kaufmann, Catalunha, século XIV, que mostra Miriam à esquerda tocando tof e duas outras

O ano de 1492 marca a expulsão dos judeus das regiões de Castilha e Aragão e cinco anos depois, em 1497, são os judeus de Portugal obrigados a converter-se ao cristianismo ou abandonar o reino. Muitos conversos seguiram praticando os ritos judaicos às escondidas formando grupos criptojudaicos que, no decorrer dos séculos XVI e XVII, seriam a base das novas comunidades israelitas que migraram para outros países e continentes. A cultura judaica sefardi manteve-se em prática e desenvolvimento até os dias de hoje em algumas comunidades como ocorre em Tras-os-Montes, Portugal, onde é possível notar a presença do Adufe, um frame drum quadrado com pele nos dois lados e ressonadores internos ou externos, sendo ainda executado para acompanhar o canto feminino a capela como podemos observar na canção O pandeiro, coletada e gravada por Judith Cohen e Tamar Adams (2000).22  

Viva quem toca o pandeiro, viva quem o tem na mão (2)  viva quem há de lograr(e) menina seu coração. 

Este pandeiro que eu toco, não é meu, que é de María,  que mo deu para tocare, no dia de romaria. 

Este pandeiro que eu toco, não se toca com a mão,  toca-se com anel douro, prenda do meu coração.  Pandeiro de quatro esquinas, é feito de pelh d’ovelha,  ontem comeu na carpaça, hoje toca com rebenta.