3. FIGURER OG TABELLER
3.8 UTSKRIVNING OG TIDEN ETTERPÅ
É óbvio que não há uma relação de ‘existência’ entre a cor e o espaço em que ela ‘existe’. Não há nenhum elemento intermediário entre a cor e o espaço. Cor e espaço saturam-se mutuamente. [Farbe und Raum sättigen einander.] E o modo como se impregnam [durchdringen] um ao outro constitui o espaço visual.123
Como observávamos, uma nova concepção da linguagem, após 1929, irá permitir encarar o problema das cores sob uma nova óptica. Após a fragmentação da forma tractariana, já não serão as regras da sintaxe lógica mas a gramática das cores – que o octaedro apresenta sinopticamente124 –, que permitirá ver, de maneira panorâmica, as regras da nossa linguagem para usarmos as palavras para cores. Com efeito, o problema das cores, na filosofia pós-TLP, muda de figura – as cores não são somente, ou deixam mesmo de ser uma ‘dor de cabeça’ filosófica, como o eram quando escreve Some Remarks on Logical Form (texto que rejeita passado pouco tempo), mas um verdadeiro estimulante:
As cores são um estímulo para filosofar. Talvez isso esclareça a paixão de Goethe pelas cores.
123 De um manuscrito: I. Band Philosophische Bemerkungen (WA1. 15.2-4) Österreichische Nationalbibliothek,
Wien, apud Bernhard Leitner, The Wittgenstein House, Princeton Architectural Press, Nova Iorque, 2000, p.128.
124 O octaedro das cores é, aliás, o único exemplo concreto de uma übersichtliche Darstellung (apresentação
sinóptica, ou, visão panorâmica – sobre a qual nos demoraremos na Parte II deste trabalho), que Wittgenstein caracteriza (IF, I, §122) como fundamental para a nossa compreensão. Cita-se a seguir a passagem em que, num capítulo intitulado “A fenomenologia é Gramática”, do chamado “Grande Dactiloscrito” (“The Big Typescript”), Wittgenstein se refere ao octaedro das cores como um exemplo da apresentação clara das regras gramaticais (i.e., do que regula o uso com sentido) das palavras para cores: “O espaço da cor [Farbenraum] é sensivelmente [beiläufig] apresentado pelo octaedro, com as cores puras nos cantos, e esta apresentação é gramática, não é psicológica. Por outro lado, dizer, em determinadas circunstâncias, que aparece uma imagem posterior [Nachbild], é psicológico (pode acontecer ou não acontecer, a outra é a priori; esta pode ser confirmada mediante experiências, a outra não pode). (...) / [U]ma experiência de pensamento [Gedankenexperiment] não é, claro, nenhuma experiência. No fundo é uma observação gramatical [Im Grund ist es eine grammatische
Betrachtung]. / O octaedro das cores é gramática porque nos diz que podemos falar de um azul avermelhado,
mas não de um verde avermelhado, etc. / A apresentação-octaedro [Oktaeder-Darstellung] é uma apresentação
sinóptica das regras gramaticais. / Se alguém dissesse, ‘o espaço visual é colorido’ [‘der Gesichtsraum ist farbig’], então nós sentir-nos-íamos tentados a responder, ‘Mas nós não conseguimos sequer imaginá-lo (pensá-
lo) de outra maneira! [uns (...) vorstellen (denken)]’ (...) Ou poderíamos dizer, de forma mais correcta, não seria então o que nós chamamos ‘espaço visual’.” Ludwig Wittgenstein, The Big Typescript: Ts213, Kritische zweisprachige Ausgabe Deutsch–Englisch, C. Grant Luckhardt, Maximilian A. E. Aue (ed. e trad. inglesa), Blackwell Publishing, Oxford, 2005 [BT], p. 322.
As cores parecem presentear-nos com um enigma, um enigma que nos estimula [ein Rätsel, das uns anregt,] – não um que nos exaspere [– nicht aufregt].125
As cores deixam de desesperar Wittgenstein e presenteiam-no com enigmas frutíferos, mas ainda assim o que estará em jogo terá a ver com as descrições possíveis com sentido ou com as possibilidades de descrição das cores que, são sempre casos intermédios, quer dizer, como observa Chiara Cappelletto, “a cor não existe a não ser como cor intermédia, e tal natureza intermédia relaciona-se com a sua posição na topologia da estrutura cromática. O visível é tomado na sua múltipla totalidade de variações.”126 As cores tornam-se um impulso salutar para filosofar, o que se prende com o método novo de Wittgenstein, que valoriza a multiplicidade e que lhe permite encarar as cores com novos olhos. O caminho já não será no sentido da simplicidade, mas o inverso: é a “múltipla totalidade de variações” que o vão interessar e espicaçar. Este interesse, tem a ver com uma transformação do ponto de vista sobre a linguagem, que é renovado e corrigido – que deixou de alimentar uma “fome da simplicidade” para se tornar um exercício de tentativa de fazer justiça aos factos na sua grande diversidade (exercício que não conhecerá termo) –, e poder-se-ia dizer inspirado na natureza da cor, na medida em que ela oferece uma tensão produtiva para pensar outros conceitos, que é esclarecedora. Essa tensão prende-se com exemplos que as cores suscitam e que giram em torno do uso de palavras para cores, por exemplo, enquanto substantivos (e.g. a cor ‘azul’), ou enquanto adjectivos (e.g. o livro é ‘azul’), e que remetem para o facto de que não podemos pensar o espaço sem a cor (pois se, por um lado, não existe cor a não ser como intermédia, por outro lado ainda, nada medeia entre a cor e o espaço) – o que permitirá ver algo acerca das coisas que é fundamental, a saber, que elas expressam por si próprias algo que não é acrescentado de fora, como um ingrediente ou determinação (assim, dizer que uma melodia é triste ou que um rosto está triste, não equivale, da nossa parte, à atribuição de uma característica, de uma relação de existência, mas ao reconhecimento de um aspecto daquilo que temos à nossa frente).
Mas, como dizíamos, Wittgenstein estará ainda interessado em compreender quais as descrições possíveis com sentido ou quais as descrições de cores que são permitidas: a sua apresentação no octaedro das cores, revela-lhe precisamente as regras gramaticais, i.e., as
125
Ms 136 92b: 11.1.1948, VB, p. 76.
regras a seguir para falar das cores com sentido. Estas regras não são psicológicas127 nem empíricas, pois a gramática, de algum modo como a lógica (a priori), não provém da comparação com a experiência para descobrir o sentido128, mas das próprias coisas, quer dizer, são estas que segregam as próprias regras (no caso das cores, aquilo a que devemos atender tem a ver com o que é dito na citação em epígrafe, e com o carácter intermediário das cores, com a sua posição na “estrutura cromática”, por exemplo, no octaedro129 ou numa pintura130), que reconhecemos no nosso modo de falar ao compreender, por exemplo, que, embora possamos falar de um “azul avermelhado”, não podemos falar de um “verde avermelhado”.
Que ao falarmos estejamos a seguir regras, tem a ver com a comparação da linguagem com o cálculo, que Wittgenstein desenvolve no seu pensamento pós-TLP. A rigidez desta concepção, embora não tenha nada da dureza da sintaxe e da gramática lógicas, será, de algum modo, adicionalmente suavizada. Vejamos como surge essa concepção na Gramática
Filosófica:
127 Aliás, é o carácter não psicológico das regras que fazem Wittgenstein exclamar que a fenomenologia é
[afinal] gramática: “[n]ão é a harmonia [Harmonielehre], pelo menos em parte, fenomenologia, i.e. gramática! A harmonia não é uma questão de gosto.” BT, p. 322.
128
Ou seja, não tem a ver com saber, mediante um certo número de experiências psicológicas, o que se passa dentro de cada um quando uma palavra é dita, nem tem a ver com saber como uma palavra se liga a um objecto univocamente, por meio de uma definição que visasse estabelecer o seu significado de modo definitivo com base no pressuposto de que todas as palavras funcionam como nomes próprios – e de que é possível aprender a usar uma palavra apenas apontando o seu referente, o que seria puramente empírico (e prescindiria de considerar as ocasiões em que é usada – as ocasiões em que as regras do seu uso são inseparáveis da expressão e fisionomia da palavra). (Irá voltar-se a isto).
129
O carácter intermediário das cores – a visão das cores em contexto – virá a ser (mais tarde, nas Bemerkungen
über die Farben) elucidado assim por Wittgenstein: “[I] 55. Uma cor ‘brilha’ (‘leuchtet’) apenas em um
contexto (assim como uns olhos sorriem apenas em um rosto). (...)” Ludwig Wittgenstein, Bemerkungen Über
Die Farben / Anotações Sobre As Cores, ed. bilíngue alemão / português, João Carlos Salles (estabelecimento do
texto, trad. e notas), Editora Unicamp, Campinas, 2009 [Observações Sobre As Cores / OsC]
130 Veja-se, e.g. o caso da pintura de Rembrandt, “O Homem do Elmo Dourado”, apresentado por Wittgenstein
nas suas Observações Sobre As Cores, no qual as cores utilizadas, castanho, preto, amarelo, se tornam dourado na tela, o que tem a ver com a mistura das mesmas, mas também com o brilho que adquirem umas ao lado das outras: “[III] 53. Há a cor dourada, mas Rembrandt não se serviu dela para representar um elmo dourado.” Wittgenstein, OsC. Cf., sobre este exemplo – e sobre as Observações Sobre As Cores como comentário da
Farbenlehre de Goethe (e da carta do pintor Philip Otto Runge a Goethe, publicada na sua Teoria das Cores, e
da de Lichtenberg a Goethe, publicada mais tarde), Olli Lagerspetz, “The Ambiguities of Colour: Wittgenstein and Lichtenberg on colour and colour perception”, in Wittgenstein and Philosophical Psychology, Gefwert & Lagerspetz (eds.), Uppsala Studies of Philosophy, vol. 55, pp. 223-235. Dissemos que a natureza da cor poderia ter influenciado o novo método e referimo-nos à tensão produtiva para pensar que ela oferece – não podemos deixar de referir igualmente a riqueza das suas nuances e o jogo das cores umas ao lado das outras, que o exemplo de Rembrandt não deixa esquecer.
Uma linguagem que fosse falada sempre com o mesmo metro. (...) ‘O significado de uma palavra: o papel que desempenha no cálculo da linguagem. Pensemos em como calculamos com a palavra ‘vermelho’. E depois: a palavra, ‘ah’ – o que corresponde agora ao cálculo? [Eine Sprache, die in einem immer gleichen Versmaß gesprochen würde. (...)'Die Bedeutung eines Worts: die Rolle, die es im Kalkül der Sprache spielt.' Denken wir, wie mit 'rot' kalkuliert wird. Und dann: das Wort 'ach' – was entspricht nun dem Kalkül?]131
O papel que uma proposição desempenha num cálculo é o seu sentido. É só numa linguagem que alguma coisa é uma proposição. Compreender uma proposição significa compreender uma linguagem. [Welche Rolle der Satz im Kalkül spielt, das ist sein Sinn. Etwas ist ein Satz nur in einer Sprache. Einen Satz verstehen, heißt, eine Sprache verstehen.]. (PG, §130)
Por outras palavras, compreender uma proposição significa que conseguimos reconhecer a regra que está aí a seguir-se e o seu papel no todo da linguagem, que é a actividade que dá sentido a qualquer proposição que compreendemos. De igual modo, o papel de uma palavra numa proposição, depende do seu papel, do seu uso, na linguagem (concebida como cálculo ou actividade na qual se opera com símbolos), da qual faz parte.132 É interessante que Wittgenstein fale do “papel desempenhado” por uma palavra e por uma proposição no cálculo, pois isso é já um traço de uma outra comparação decisiva, a saber, entre linguagem e Spiel, entendido como “jogo dramático”133 – comparação que retomaremos em mais detalhe neste estudo. Presentemente, contudo, não pode deixar de se sublinhar que é precisamente a analogia entre a linguagem e o jogo que irá prevalecer no pensamento de Wittgenstein – o jogo é a actividade que, melhor do que o cálculo, dá conta daquilo que fazemos quando falamos, e é graças a esta afinidade entre falar e jogar que, como dizíamos, a rigidez da linguagem concebida como cálculo é posteriormente tornada mais flexível.
131 Ludwig Wittgenstein, Philosophische Grammatik, Werkausgabe in 8 Bänden, Band 4, Rush Rhees (ed.),
Shurkamp Verlag, 1984 [PG], §67.
132
Cf., adicionalmente, PG, §59: “Se eu me decidisse a usar uma nova palavra em vez de ‘vermelho’, como é que mostraria que esta palavra fica no lugar da palavra ‘vermelho’? [Wenn ich mich entschlösse statt 'rot' ein
neues Wort zu sagen, wie würde es sich zeigen, daß dieses an dem Platz des Wortes 'rot' steht?].
133 Maria Filomena Molder, As Nuvens e o Vaso Sagrado. (Kant e Goethe. Leituras), Relógio D’Água Editores,
Embora, como esclarece Glock134, Wittgenstein volte a referir a concepção baseada na analogia do cálculo, isso tem a ver com a sua maneira de trabalhar que, muitas vezes, volta a observações anteriores e as traz para contextos mais recentes. Nos casos em que volta a falar de cálculo, isso é para salvaguardar os aspectos que a comparação da linguagem com o cálculo possui em comum com a comparação da linguagem com o jogo, sem sublinhar a importância de outros traços – mais estritos – que deixa cair. Glock observa ainda que o cálculo é uma maneira de compreender a linguagem típica do chamado período ‘intermédio’ de Wittgenstein, que o autor localiza entre 1929-1933, mas que poderíamos estender de maneira a incluir o Livro Azul e o Livro Castanho. Com efeito, é após o abandono da tentativa de rever e traduzir para alemão o Livro Castanho135, que Wittgenstein escreve as que se tornariam as primeiras observações (1-188) das suas Investigações Filosóficas – na nossa opinião, contudo, o Ms 142, portanto a primeira versão, de 1936-37, das Investigações, não representa um corte radical com a filosofia do período intermédio, e mesmo em relação ao
Livro Castanho, o que sobressai são os aspectos contínuos; de qualquer modo, o que Glock
afirma acerca do cálculo para entendermos o período que vai de 1929 a 1933, é válido, e gostaríamos mesmo de reforçar a observação do autor notando que, com efeito, nas aulas que lecciona nos anos 1933-34 – das quais podemos ler alguns apontamentos, seleccionados e compilados sob o título Yellow Book136 –, Wittgenstein começa a deixar para trás a hipótese
da linguagem como actividade que obedece a regras estritas:
Pode dizer-se de mim que eu descrevo a linguagem como se fosse um vácuo. O que eu faço é falar da linguagem como se ela consistisse de regras fixas, o que é contrário aos factos. Considerem a maneira como jogamos um jogo e a maneira como as regras participam em jogá-lo. (...) [Q]uando usamos uma palavra sem regras estritas e depois mais tarde fixamos regras estritas para o seu uso, a sua gramática não pode ser inteiramente como a do seu uso anterior. Seria semelhante da mesma maneira que uma figura desenhada com contornos fixos é semelhante a uma figura desenhada com contornos desfocados. YB, pp. 47-48.
134
Hans-Johan Glock, A Wittgenstein Dictionary, Willey-Blackwell, 1996, p. 67.
135
Cf. GBW: carta de Wittgenstein a Moore de 20.11.1936. (Wittgenstein tinha levado o Livro Castanho consigo para a Noruega, em Agosto de 1936.)
136 O YB são apontamentos de aulas e conversas informais que antecedem, em parte, o ditado do Livro Azul
(“Lectures Preceeding the Dictation of The Blue Book”, YB, pp. 43-55), e que em parte são contemporâneas ao mesmo (Lectures and Informal Discussions in the Intervals of Dictation of the “Blue Book”, YB, pp. 56-73).
Assim, a gramática como conjunto de regras – que desemboca na ideia de uma apresentação sinóptica corresponder a uma tabulação das mesmas (e da qual o octaedro é um exemplo – exemplo que, apesar desta circunstância, será sempre valioso por se tratar do único exemplo concreto dessa maneira de apresentar, e por poder, por isso, servir de pedra-de-toque para as posteriores caracterizações de übersichtliche Darstellung realizadas por Wittgenstein, ajudando a ver o que muda e o que se mantém nas mesmas ao longo do seu pensamento) – é uma compreensão que não é estanque, e, nas IF, passa mesmo a ser possível falar de regras que vamos inventando as we go along (cf. IF, I, §83)137.
A diferença na maneira de ver e pensar sobre as cores, no âmbito da mudança de perspectiva acerca da linguagem em geral, poderá ter resultado da fragmentação da forma tractariana. No TLP, como houve oportunidade de sublinhar, os objectos são incolores e é apenas na descrição de um estado de coisas que recebem uma cor – num determinado ponto do espaço a um certo tempo. Pelo contrário, a nova compreensão da linguagem, que se desenvolverá ao longo dos anos posteriores ao Tractatus, não está interessada em ver as coisas de modo separado e esmiuçado até aos ossos – num movimento duplo, que primeiro alcança a dureza dos objectos concretos, para só depois tomar e proceder dos objectos como eles se configuram na experiência numa composição visual –, mas é sempre já uma certa composição ou contexto que é o ponto de partida138. Portanto nada para o qual seja preciso uma escada para lá chegarmos. Posto isto, se a fragmentação da forma tractariana pode ajudar a compreender a mudança de perspectiva de Wittgenstein acerca da linguagem em geral, e da cor em particular, isso prende-se com a natureza da cor ter contribuído, como vimos, para a queda do edifício do TLP – por outro lado, é também a natureza da cor que poderá ter em parte encorajado uma nova maneira de filosofar, que não está interessada em chegar a algum sítio onde não esteja já.
137 No entanto, nunca sozinhos: o ‘we’ da expressão é importante, pois, seguir regras, mesmo inventadas, é algo
que nós humanos fazemos publicamente, como bem mostra o chamado argumento da linguagem privada nas IF. Sobre a apresentação sinóptica como tabulação das regras gramaticais e a sua progressiva transformação e alargamento, cf. Beth Savickey, “Wittgenstein and Hacker: übersichtliche Darstellung”, in Nordic Wittgenstein
Review, 3 (No2), 2014, pp. 99-123 – a autora, ao defender a posição, à qual nós aderimos, de que uma übersichtliche Darstellung virá a ultrapassar a simples tabulação das regras gramaticais, afasta-se da concepção
de übersichtliche Darstellung que P. M. S. Hacker defende ser a adoptada por Wittgenstein ao longo de todo o
corpus pós-TLP [cf. P. M. S. Hacker, “Surveyability and surveyable representation (§122)”, in P. M. S. Hacker,
G. P. Baker, Wittgenstein, Understanding and Meaning. Part I, Essays, segunda edição extensivamente revista por P. M. S. Hacker, Wiley-Routledge, Oxford, 2005, pp. 307-334]. Cf. adicionalmente, IF, I, §81, que em conjunto com o §83 confirma o que Glock sugere acerca do abandono do modelo do cálculo e da adopção da analogia entre linguagem e jogo por parte de Wittgenstein.
138
A palavra latina cor, vem do latim color, termo que pertence à constelação etimológica de celare, esconder (nascondere), em virtude do facto de que a cor é aquilo que cobre, recobre e esconde a superfície de uma coisa. A cor, no entanto, também era a encarnação, a cor da pele, portanto aquilo que revela e apresenta, ou, melhor, aquilo por meio do qual a coisa se apresenta.139
Este último sentido de cor, como a própria pele das coisas (que não pode separar-se por se arriscar com isso a desfiguração da coisa a conhecer), está presente na constatação de que cor e espaço se saturam mutuamente e de que o modo como se impregnam um ao outro constitui o espaço visual, a qual, dá o mote para não tentar ver atrás das coisas para perceber como elas são – elas apresentam-se já a nós: a cor é o bom exemplo disso140 (daí que tenhamos dito que a sua natureza tenha podido encorajar Wittgenstein a desenvolver uma nova visão da linguagem – o que se verte no que ele próprio diz quando observa que as cores
139 Chiara Cappelletto, Il Rito Delle Pulci, p. 104.
140 Ao invés, a sua ligação etimológica com o verbo esconder, na medida em que aponta para aquilo que cobre e
recobre uma superfície, é mais próximo da concepção tractariana de cor, que consistia numa determinação do objecto, de acordo com o que pudemos já apurar. Não esqueçamos, no entanto, que o TLP pretendia tornar nítida a forma que as roupagens da linguagem quotidiana não deixam muitas vezes perceber com facilidade, sendo que ela é patente se nada obscurecer a nossa visão ou compreensão (por isso defendemos já neste estudo que o que Wittgenstein tratava de fazer, não era inventar uma teoria lógica, mas tornar a lógica perspícua, uma vez que a lógica trata de si própria – por outras palavras, mesmo que não seja problemático dizer que no TLP a cor recobre o objecto, temos de ser cuidadosos ao falar da cor como algo que o esconde).
Gostaríamos ainda de notar que a palavra nascondere se reverteu de uma fertilidade inegável por aparecer associada à natureza no famoso aforismo de Heraclito, 14 [A92], que Giorgio Colli traduz do seguinte modo: “Nascimento ama nascondersi” [cf. Giorgio Colli, La Sapienza Greca, III, Eraclito, Adelphi Edizioni, 4ª ed., Milão, 2010, p. 91; cf. também pp. 187-188, e, adicionalmente, Giorgio Colli, La Natura Ama Nascondersi, Enrico Colli, ed., Adelphi Edizioni, 1998, pp. 189-209, em especial, p. 209 (a propósito destas palavras de Heraclito, veja-se ainda: Pierre Hadot, Le Voile D’Isis, sobretudo, pp. 25-31).] Sobre este aforismo e sobre a tradução que Giorgio Colli dele realizou, escreveu Maria Filomena Molder que, “a palavra latina natura vem de
(g)nascor, e entre os Gregos, a palavra physis, cujo radical é phy, tinha justamente o mesmo sentido de
nascimento, de proveniência. Num dos seus fragmentos mais conhecidos, diz Heraclito: “a natureza gosta de esconder-se”. Porém, na versão de Giorgio Colli (La sapienza greca III), physis é traduzida por nascimento, uma tradução cuja exactidão abre uma claridade inesperada sobre o enigma que está em causa no fragmento. (...) Demoremo-nos no fragmento heraclitiano: “O nascimento gosta de esconder-se”, quer dizer, a natureza é um excesso, um puro e continuado aparecimento que se oculta. Há um aspecto enigmático na natureza que nos é comum, mas há um outro aspecto enigmático da ocultação da natureza que não nos é comum. Numa frase muito simples, a natureza é nascimento, nós nascemos. Esta é a diferença.” Maria Filomena Molder, “A Inactualidade de Goethe: Uma Descoberta Nietzschiana”, in Sujeito, décadence e arte: Nietzsche e a modernidade, Scarlett