2. METODE
2.3 S VARPROSENT OG REPRESENTATIVITET
O disco fonográfico, o pensamento musical, a notação musical, as ondas sonoras, todos eles estão uns para os outros naquela relação interna de representação pictórica [abbildenden internen Beziehung] que é a que existe entre linguagem e mundo.
A construção lógica é comum a todos eles.
(Como no conto [Märchen32], os dois jovens, os seus dois cavalos e os seus lírios. Todos são em certo sentido um.) (TLP 4.014. Trad. modificada.)
Que haja uma regra geral, através da qual o músico pode extrair a sinfonia da partitura, através da qual se pode inferir [ableiten] a sinfonia da linha do disco fonográfico, e segundo a primeira regra de novo a partitura, nisso consiste justamente a semelhança interna destas estruturas aparentemente tão diferentes. E essa regra é a lei da projecção, que projecta a sinfonia na linguagem da notação musical. É a regra da tradução da linguagem da notação musical para a linguagem do disco fonográfico. (TLP 4.0141. Trad. modificada.)
A ideia de relação interna entre disco fonográfico, pensamento musical, notação musical e ondas sonoras, serve aqui a Wittgenstein para chamar a nossa atenção para o que está em jogo na relação interna de representação pictórica que existe entre a linguagem e o mundo. Como se verá, é esta relação que permite compreender toda a lógica da representação,
32 Trata-se com certeza do conto de fadas Die Goldkinder dos Irmãos Grimm. (Ver excurso: O conto “Die
e assim perceber como uma proposição expressa o seu sentido.
A analogia mostra que o que torna possível a transição entre coisas aparentemente tão diferentes, i.e., entre modelos ou estruturas [Gebilde] que à primeira vista não compararíamos graças à sua forma exterior, é a existência de uma semelhança interna – de uma correspondência – de uma ligação essencial, que permite chegar à sinfonia através da partitura, permite inferir a sinfonia da linha do disco fonográfico, e, do mesmo modo, ou seja, através da mesma regra, inferir novamente a partitura. Wittgenstein apelida esta regra de lei da projecção [Gesetz der Projektion]. É graças a ela que se consegue reconhecer aquilo que as estruturas têm em comum: a sua construção lógica, a qual, torna visível a conexão dos elementos que as constituem. Se várias estruturas possuem a mesma construção lógica, isso significa que há entre elas uma relação interna, ou seja, todas representam o mesmo modelo, pois existe uma correspondência entre as suas partes constituintes, e isso torna possível que, através da regra de projecção, se chegue a uma através da outra. Se compararmos o que sucede entre disco fonográfico e ondas sonoras com o que acontece com a expressão de sentido por parte da proposição:
Podemos dizer imediatamente: em vez de esta proposição tem este e este sentido: esta proposição apresenta este e este estado de coisas! [dieser Satz stellt diesen und diesen Sachverhalt dar!]33
Ela retrata-o logicamente. [Er bildet ihn logisch ab.]
Só assim a proposição pode ser verdadeira ou falsa: só sendo a imagem de um estado de coisas pode ela concordar com a realidade.34 (Cadernos, 2.10.14, pp. 17-18. Trad. modificada.)35
A regra que determina se uma proposição tem sentido – se representa uma dada
33 Cf. TLP 4.031: “Na proposição, uma situação [Sachlage] é como que construída a título de experiência
[probeweise]. Pode-se dizer simplesmente: em vez de esta proposição tem este e este sentido, esta proposição apresenta esta e esta situação [dieser Satz stellt diese und diese Sachlage dar].” [Trad. modificada.]
34
Cf. TLP 4.06: “A proposição só pode ser verdadeira ou falsa por ser uma imagem da realidade.” Cf. adicionalmente TLP 4.05 “Compare-se a realidade com a proposição.”
35 No original lê-se: Man Kann geradezu sagen: statt, dieser Satz hat diesen und diesen Sinn: dieser Satz stellt
dieser und dieser Sachverhalt dar! / Er bildet ihn logisch ab. / Nur so kann der Satz wahr oder falsch sein: nur dadurch kann er mit der Wirklichkeit übereinstimmen oder nicht übereinstimmen, daß er ein Bild eines Sachverhaltes ist. Ludwig Wittgenstein, Notebooks: 1914-1916, G. H. von Wright and G. E. M. Anscombe
(eds.), German with an English translation by G. E. M. Anscombe, Harper Torchbooks, Harper & Row Publishers, New York and Evanston, 1979 [Notebooks], p. 8.
situação, ou, para sermos mais fiéis à letra, se apresenta um estado de coisas – é a regra de projecção, que se baseia na relação interna que existe entre a linguagem e o mundo, e revela, deste modo, as condições nas quais a proposição pode ser verdadeira ou falsa (todas as proposições com sentido possuem bipolaridade). A relação interna, que desempenha um papel fundamental de ancoragem entre a linguagem e o mundo, é, portanto, o ponto de partida da determinação de sentido, logo, da possibilidade da proposição enquanto imagem de um estado de coisas, concordar com a realidade. A averiguação de como uma proposição expressa sentido consiste, pois, na averiguação da relação interna entre a proposição e a situação que esta representa – entre a proposição e a projecção. Não se trata, portanto, de descobrir uma ligação externa entre linguagem e mundo que permita à proposição projectar uma imagem no mundo, mas de reconhecer o elo essencial que existe entre o nosso modo de expressão e a realidade.
Se entre a linguagem e o mundo existisse uma relação externa, poderíamos conceber a linguagem como independente do mundo. Nesse caso, a verdade da proposição teria que estar garantida antes de podermos compará-la com a realidade, caso contrário, ao partir da linguagem para o mundo, o resultado seria apenas uma ligação hipotética entre a proposição e a situação. Nada nos poderia garantir a expressão de sentido por parte da proposição, uma vez que a conexão entre os seus elementos e a situação teria sempre um carácter arbitrário36. Seria igualmente impossível conceber a proposição como uma imagem da situação que representa37.
36
Um esclarecimento possível deste ponto é o facto das proposições, que descrevem um determinado estado de coisas, terem sentido; por seu turno os nomes têm significado, apenas em conexão com a proposição, ou melhor, apenas na conexão, contexto ou nexo de uma proposição (nur im Zusammenhang des Satzes hat ein Name
Bedeutung, TLP 3.3), e correspondem a objectos (cf. TLP 3.21, 3.22. e 3.263). A descrição de um objecto “é
feita segundo as suas propriedades externas”, ao passo que “a proposição descreve a realidade segundo as suas propriedades internas” (TLP 4.023) – a proposição diz que as coisas se passam ‘assim’ (so), e é possível compreendê-la, saber qual é caso se for verdadeira, i.e., é possível compreendermos a situação que representa, pois a “proposição constrói um mundo com a ajuda de um andaime lógico, e por isso se pode também ver na proposição, como tudo se relaciona logicamente, se ela é verdadeira.” (TLP 4.023. Cf. adicionalmente TLP 4.021, e TLP 4.0311, citada abaixo). Apenas compreendemos o significado (Bedeutung) dos sinais simples, das palavras, se este nos for explicado, no entanto, “com as proposições fazemo-nos entender” (TLP 4.026). Enquanto que a fixação do sinal pode ter um carácter arbitrário, uma vez que a descrição dos objectos é feita segundo as suas propriedades externas, a descrição da realidade que a proposição realiza, é feita segundo as suas propriedades internas, de maneira que ela diz como as coisas se passam, que determinada situação é ‘assim’, e podemos compreendê-la – compreender o seu sentido – sem mais elucidações. Cf. adicionalmente TLP 5.552 e TLP 5.5521.
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Cf. Cadernos, 3.10.1914, p. 8: “A proposição só afirma alguma coisa na medida em é uma imagem!” Se o elo de ligação entre proposição e mundo fosse arbitrário, a proposição teria o carácter de uma conjectura impossível de comparar com o mundo, pois aí nada se afirmaria que dependesse dessa comparação para o estabelecimento da sua capacidade figurativa (e restitutiva; trata-se de uma capacidade figurativa que é uma Schilderung, capaz
No entanto, a analogia apresentada por Wittgenstein (relativa à relação interna de representação pictórica existente entre disco fonográfico, pensamento musical, notação musical e ondas sonoras, e à que existe entre linguagem e mundo), afirma a existência de uma relação interna de representação pictórica entre a linguagem e o mundo, uma vez que aquilo que têm em comum possibilita, apesar da sua diferença aparente, que a linguagem chegue ao mundo – eles são em certo sentido um. (Como os dois jovens, os seus dois cavalos e os seus lírios.) Para que a confusão que possamos sentir por pensarmos em linguagem e mundo como coisas diferentes possa ser dissipada, Wittgenstein sugere que pensemos na relação entre linguagem e mundo como a que existe entre linguagens diferentes, e no método de projecção entre ambos como semelhante ao que “projecta a sinfonia na linguagem da notação musical”. A regra de projecção é semelhante à regra da tradução entre linguagens: a cada elemento de uma linguagem corresponde um elemento de outra linguagem – “regra da tradução da linguagem da notação musical para a linguagem do disco fonográfico”.
Assim,
Um nome está em vez de uma coisa, um outro em vez de outra coisa e entre si eles estão ligados. Assim o todo apresenta o estado de coisas como um quadro vivo [lebendes Bild]. (TLP 4.0311. Trad. modificada.)
O carácter pictórico do nosso modo de expressão tem a ver com a essência da proposição consistir na representação dos factos que descreve, de maneira que ela é um
de ilustrar os elementos que constituem aquilo que se descreve) – para que pudéssemos dizer que a proposição é uma imagem. Ou seja, nada poderia permitir que estabelecêssemos em definitivo uma proposição como imagem, como representação. No entanto, a concepção da proposição como imagem da situação que representa, mostra que a proposição é imagem de alguma coisa, quer dizer, ela afirma alguma coisa – acerca do mundo – e é comparável com uma situação, de maneira a estabelecermos a sua capacidade figurativa da mesma. Poderíamos então dizer que a comparação entre imagem e proposição não deixa brechas – a proposição é uma imagem, diríamos, mas não de outra coisa (de si mesma), na medida em que o que o que afirma acerca do mundo é simultaneamente o que a torna uma imagem da situação que representa. No entanto, a proposição diz menos do que aquilo que é projectado – embora não o diga, a proposição mostra a sua relação interna com o mundo, graças à sua construção lógica. (Voltar-se-á a este ponto no início da secção dedicada à construção lógica.) A proposição é imagem, Bild, daquilo que representa – a situação, o estado de coisas que retrata – e modelo, Bild, na medida em que aquilo que mostra é o que tem em comum com todas as proposições que possuem a mesma construção lógica. Enquanto quadro vivo, é alegoria – não poderíamos dizer “de si mesma” (será mais do que isso, uma vez que aquilo que mostra, ao tocar no mundo, é comum a todas as proposições que partilham consigo a mesma construção lógica, i.e., que estão na mesma relação interna de representação pictórica com a situação que representam), mas também não poderíamos dizer de outra coisa, se imaginarmos essa outra coisa como algo que lhe é estranho (como no fragmento de Novalis: “Imagem – não alegoria, não símbolo de algo que lhe é estranho: símbolo de si mesma.” Novalis, Fragmentos de Novalis, Rui Chafes, selecção, tradução e desenhos, Assírio & Alvim, 2ª edição, Lisboa, 2000, p. 49) e sem salvaguardar que o carácter simbólico da proposição tem a ver com aquilo que é em si a expressão do que tem em comum com outras proposições. (Ver mais à frente:
“quadro vivo” do estado de coisas que apresenta – à proposição pertence tudo o que pertence à projecção.
O exemplo da escrita hieroglífica38, através do qual Wittgenstein estabelece a essência da proposição naqueles termos, refere ainda um outro aspecto crucial relativo à natureza do nosso modo de expressar sentido, e que consiste no facto da escrita alfabética não ter perdido o essencial da representação pictórica, de tal modo que isso é visível no facto de “compreendermos o sentido do sinal proposicional sem que ele nos tenha sido explicado” (TLP 4.02) – o sinal proposicional, condensa ainda uma imagem, tem uma fisionomia que nos ajuda a compreendê-lo (e que nele se pode reconhecer, mesmo que implicitamente). Este ponto é esclarecedor, na medida em que também uma propriedade interna de um facto é como um traço de um rosto “(no sentido em que se fala dos traços do rosto)” (TLP 4.1221), de modo que podemos equacionar a compreensão do sinal proposicional sem que ele nos tenha sido explicado, com o reconhecimento de uma propriedade interna que é aí tornada patente.39
Wittgenstein define uma propriedade interna como algo que “não é pensável que o [seu] objecto não possua” (TLP 4.123)40 – mas também se refere a propriedade interna como “propriedade de estrutura” (4.122); do mesmo modo usa variavelmente “relação das estruturas” e “relação interna” (ibid.). Em TLP 4.122, Wittgenstein aponta uma característica fundamental destas propriedades e relações, nomeadamente, o facto da sua existência não poder afirmar-se mediante proposições, mas, pelo contrário, ela “mostra-se em proposições
38 Como é bem sabido, a escrita hieroglífica é figurativa e simbólica e o seu carácter pictórico influencia a
invenção de posteriores formas de escrita. Wittgenstein sublinha a dimensão figurativa da escrita, que não se perdeu com o nosso alfabeto, e sobrevive na forma das letras, que convocam ainda uma imagem, mediante a sua expressão escrita e, claro, um som. Por outras palavras, poderia dizer-se que elas são ainda símbolo e que ligam ainda, de maneira interna, som e imagem; estabelecem uma unidade, uma fisionomia, de traços particulares. Uma diferença importante entre a escrita hieroglífica (e também a escrita cuneiforme) e o alfabeto, é que, com o alfabeto estamos na posse de todos os caracteres necessários para dizer tudo – não precisamos de inventar novos caracteres para palavras que ainda não possuam uma expressão escrita. A notação simbólica do Tractatus é igualmente completa – capaz de dar conta de todas as relações.
39 Juliet Floyd (Aspects of Aspects, ‘Penultimate Draft’ for The Cambridge Companion to Wittgenstein, Hans
Sluga and David Stern, eds., second edition) propõe uma nova abordagem ao tema dos aspectos na filosofia tardia de Wittgenstein, que compreenda a sua origem na sua filosofia primeira, no âmbito do qual era uma nova versão – diferente – da ideia de Russell de conhecimento por acquaintance (contacto). Para o ponto aqui em questão, cf. p. 2: “Wittgenstein desenvolveu um símile que assemelha a noção de um ‘aspecto’ em lógica ao ‘semblante’ [‘look’] ou ‘carácter’ de um rosto, expressão facial ou propriedade [feature]. Chame-se a esta ideia fisionómica o ‘símile-mestre’ [‘the master simile’]. Vejo-o como uma contribuição para a nossa compreensão da verdade.”
40 O exemplo que Wittgenstein nos dá de algo que não é pensável que um objecto não possua, é o seguinte:
“(Esta cor azul e aquela estão, eo ipso, na relação interna de mais escuro e mais claro. É impensável que estes dois objectos não estivessem nesta relação)”. (TLP 4.123). (Irá voltar-se a este exemplo.)
que apresentam aqueles estados de coisas e que tratam daqueles objectos.”41 Isto ilustra um ponto principal relativo à lógica da representação pictórica, que consiste no “pensamento fundamental”42 de que a lógica dos factos não pode ou não se deixa representar, pois ela não é delegável por mandato. O que acontece, no entanto, é que a lógica dos factos mostra-se, ou é tornada visível naquilo que é expresso, i.e., naquilo que é dito nas proposições com sentido (com poder de representação de um estado de coisas), através da sua construção lógica.
1.1.1. Relações internas – uma linha de continuidade no pensamento de Wittgenstein:
As relações internas dizem respeito às relações estruturais entre as proposições, de modo que reconhecê-las ajuda-nos a conseguir apreender o funcionamento da linguagem. Estas relações internas têm de ser vistas, ou seja, a construção lógica deve torná-las visíveis. É interessante que Wittgenstein esclareça a natureza, objectivo e resultado da filosofia, e estabeleça os seus limites (cf. TLP 4.111-4.115), referindo-se de seguida à distinção entre dizer e mostrar (cf. TLP 4.116-4.1212), e ao esclarecimento da natureza das relações internas, pois isso assinala a sua relevância para aquilo que Wittgenstein considerava o problema cardinal da filosofia.
A ideia de relações internas e a importância da sua visibilidade para a compreensão do funcionamento da linguagem, é de facto substancial e persiste na filosofia de Wittgenstein – por exemplo, nas Investigações Filosóficas, I, §122, na ideia de que a nossa gramática, da qual não temos uma visão nítida, poder ganhar clareza através de uma visão panorâmica – de uma apresentação sinóptica (übersichtliche Darstellung) –, que consiste precisamente na compreensão capaz de “ver ligações” (Zusammenhänge sehen). Wittgenstein sublinha a importância de encontrar e inventar “elos intermédios” (Zwischengliedern), e acrescenta que o conceito de visão panorâmica é de uma importância fundamental pois refere-se com ele ao
41
Das Bestehen solcher internen Eigenschaften und Relationen kann aber nicht durch Sätze behauptet werden,
sondern es zeigt sich in den Sätzen, welche jene Sachverhalte darstellen und von jenen Gegenständen handeln.
(Trad. modificada.)
42
“A possibilidade das proposições baseia-se no princípio dos sinais serem mandatários dos objectos. / O meu pensamento fundamental é que as ‘constantes lógicas’ não são mandatárias. Que a lógica dos factos não é delegável por mandato.” (TLP 4.0312) [Die Möglichkeit des Satzes beruht auf dem Prinzip der Vertretung von
Gegenständen durch Zeichen. / Mein Grundgedanke ist, dass die ‘logischen Konstanten’ nicht vertreten. Dass sich die Logik der Tatsachen nicht vertreten lässt.]
seu modo de apresentação, à maneira como vê as coisas. A procura de clareza acerca das ligações existentes e a possibilidade de as tornar mais nítidas através dos elos intermédios que podemos reconhecer e inventar, conhece, na necessidade de tornar visíveis as relações internas entre uma proposição e a situação que representa, uma primeira versão (como se verá na Parte II deste estudo, nas IF, as diferenças, que aqueles elos intermédios põe em jogo, não serão menos importantes do que as semelhanças). Podemos assim traçar uma linha de continuidade no pensamento de Wittgenstein, que ilumina a importância da visão e da filosofia enquanto actividade que possibilita uma nova maneira de olhar para a linguagem, livre das confusões que os hábitos enraizados no nosso uso quotidiano das palavras podem originar. O conselho, Denk nicht, sondern schau (PU43, §64), que é também um preceito do método filosófico de Wittgenstein, é outro caso exemplar da compreensão inalterada da filosofia enquanto actividade apoiada em exercícios do olhar.
A ideia de que uma propriedade é interna quando não é pensável que o seu objecto não a possua, e de que uma propriedade interna de um facto é semelhante ao traço de um rosto, expressam igualmente uma intuição acerca da linguagem que Wittgenstein não irá abandonar, e que tem a ver com o reconhecimento de uma fisionomia particular de uma palavra – uma maneira de expressar que compreendemos uma palavra, consiste, no pensamento de Wittgenstein posterior ao Tractatus, na possibilidade de atribuir um rosto ao significado de uma palavra mediante o desenho dos traços que ligam os vários usos que uma palavra pode ter nos vários jogos de linguagem onde é utilizada por nós.