3. FIGURER OG TABELLER
3.6 STANDARD OG ORGANISERING
É a construção lógica comum que revela a semelhança interna das estruturas (que mostra a relação interna ou estrutural), possibilitando que se concebam como modelos. A relação interna existe entre as estruturas, na medida em que estas representam a mesma conexão dos elementos que as compõem, ou seja, na medida em que partilham a mesma construção lógica. As relações internas e a regra de projecção, acabam deste modo por remeter para a forma lógica:
O que cada imagem, qualquer que seja a sua forma, tem que ter em comum com a realidade para a poder de todo representar pictoricamente – correcta ou incorrectamente – é a forma lógica [logisches Form], isto é, a forma da realidade [die Form der Wirklichkeit]. (TLP 2.18)
imagem chama-se imagem lógica [logische Bild]. (TLP 2.181)
Cada imagem é também uma imagem lógica. (Por outro lado, por exemplo, nem toda a imagem é uma imagem espacial). (TLP 2.181)
A imagem lógica pode representar pictoricamente o mundo. (TLP 2.19)
A imagem tem em comum com o que é representado pictoricamente [Abgebildeten] a forma lógica da representação pictórica. (TLP 2.2)
A forma lógica, ou forma da realidade, designa assim a semelhança interna – a equivalência – entre uma imagem e a realidade, ou seja, designa aquilo que é comum à imagem e à realidade e em virtude da qual a imagem pode representar pictoricamente uma dada situação, correcta ou incorrectamente. I.e., trata-se de uma representação pictórica possível, quer dizer, ela é passível de ser comparada com a realidade em virtude da semelhança estrutural, da isomorfia que possui com a realidade. O que é essencial é aquilo que é comum entre a imagem e o facto que representa, de modo que aquilo que a imagem lógica mostra é o que é comum a todas as imagens que podem ser usadas para representar uma dada situação: a forma lógica que é equivalente à forma da realidade.
A semelhança interna – a isomorfia – que existe entre linguagem e mundo, é assegurada na proposição através da descrição das propriedades internas da realidade, de tal modo que a proposição é um modelo ou imagem lógica de um estado de coisas. A partir do modelo, podemos construir proposições de estrutura semelhante, pois a forma lógica, enquanto forma da realidade, é a forma da imagem lógica, mediante a qual se pode chegar a uma estrutura através de outra. Neste sentido, a forma lógica, ao simbolizar a relação interna que existe entre imagem e realidade, é o que possibilita projectar, através das regras de representação pictórica, qualquer imagem cuja forma determine a sua ligação essencial ao mundo. Portanto, “cada imagem é também uma imagem lógica”. As imagens lógicas, cuja forma é a forma da realidade, possibilitam a representação pictórica de qualquer imagem que represente uma dada situação, da qual a imagem lógica é o modelo:
Uma proposição tem que comunicar um sentido novo com expressões velhas.
A proposição comunica-nos uma situação [Sachlage], tem por isso que estar essencialmente em conexão com a situação [mit der Sachlage
zusammenhängen].
E a conexão [Zusammenhang] é justamente ser ela a sua imagem lógica.
A proposição só declara alguma coisa na medida em que é uma imagem. (TLP 4.03)
Comecemos pela última linha, de maneira a poder esclarecer melhor o que se tinha acabado de dizer: “[a] proposição só declara alguma coisa na medida em que ela é uma imagem” – quer isto dizer que, qualquer proposição é uma imagem lógica, na medida em que afirma uma determinada propriedade lógica (ou interna) e se constitui como a representação de uma dada situação. As imagens lógicas são as imagens mediante as quais qualquer proposição está em conexão com a situação; em última análise, é em virtude das imagens lógicas que podemos comunicar um sentido novo com as proposições, na medida em que as imagens lógicas são o modelo daquilo que é comum à imagem e à realidade – portanto aquilo que permite a qualquer nova proposição representar pictoricamente e expressar sentido.
A possibilidade de toda a comparação e de todas as analogias – por exemplo, a possibilidade de compararmos uma proposição com a realidade de maneira a determinar as condições da sua verdade ou falsidade – baseia-se em última análise na lógica da representação pictórica70. Se retomarmos o exemplo do disco fonográfico, veremos que este se reporta a uma relação essencial entre os estados de coisas e o modelo ou estruturas que são a sua imagem lógica e aos quais é possível chegar através da regra de projecção. As imagens lógicas – que funcionam como modelos – espelham aquilo que há em comum entre a linguagem e o mundo, ou entre a proposição e a realidade71, permitindo-nos inferir (da mesma forma que se infere a sinfonia da linha do disco fonográfico, ou se extrai a sinfonia da partitura) da forma como as propriedades internas se combinam numa imagem, o estado de coisas que aí é representado. Tornam assim visível aquela lei da projecção, que se baseia na relação e semelhança internas, através da qual podemos chegar ao estado de coisas partindo de uma imagem lógica. Assim, novamente somos levados a considerar a forma lógica, a qual se espelha na linguagem e é o que possibilita que uma proposição comunique um sentido
70 Cf. TLP 4.015: “A possibilidade de todas as analogias [Gleichnisse], de toda a figurabilidade [Bildhaftigkeit]
do nosso modo de expressão, fundamenta-se na lógica da representação pictórica [Logik der Abbildung].”
novo. A forma lógica, permite à linguagem simbolizar um facto, permite que uma proposição designe uma determinada situação, e reflecte-se no uso com sentido da linguagem72. No que diz respeito à representação pictórica, o que importa de facto considerar é o nosso modo de expressão – os usos com sentido – pois é fundamental que essa representação pictórica não se apoie em algo hipotético (numa ligação externa entre a linguagem e o mundo), mas na ligação essencial que existe entre a linguagem e o mundo, e que é exibida na forma lógica.
A coincidência entre forma lógica e forma de representação pictórica, que fazem de uma imagem uma imagem lógica, possibilita, de certo modo, conceber-se a imagem lógica como o símbolo que é tornado visível no sinal escrito ou falado:
Para reconhecer o símbolo no sinal [Um das Symbol am Zeichen zu erkennen] tem que se considerar o seu uso com sentido [muss man auf den sinnvolle Gebraucht achten]. (TLP 3.326)
O sinal é o que no símbolo é perceptível pelos sentidos [Das Zeichen ist das sinnlich Wahrnehmbare am Symbol]. (TLP 3.32)
Este uso, como afirma Elizabeth Anscombe, apoiando-se no que Wittgenstein diz no
Tractatus acerca do assunto (cf. TLP 3.325-3.33), não se reporta ao uso tal como ele é
considerado nas Investigações Filosóficas, mas à aplicação lógico-sintáctica:
Com ‘aplicação’ ele não queria dizer ‘papel na vida’, ‘uso’, ‘prática do uso’ no sentido das Investigações Filosóficas; queria dizer ‘aplicação lógico- sintáctica’ (i.e., aquele tipo de diferença entre os papéis sintácticos das palavras dos quais se ocupa um lógico). ‘Apenas em conjunto com a sua aplicação lógico-sintáctica é que um sinal determina a forma lógica’ (3.327). E é por possuir uma forma lógica que a proposição foi capaz de expressar um sentido.
Mas é deveras impossível discernir a forma lógica na linguagem quotidiana. (...)
Isto ilustra o ponto de vista de Wittgenstein sobre a diferença entre a linguagem quotidiana e uma boa notação simbólica. (...) [A] ordem ideal que
72 Cf. Cadernos, 11.9.1916, p. 122: “O modo e a maneira como a linguagem designa reflecte-se, de novo, no seu
uso.” [Die Art und Weise, wie die Sprache bezeichnet, spiegelt sich in ihrem Gebrauche wieder.] (Trad. modificada.)
caracteriza a linguagem está presente em cada frase da linguagem quotidiana (...). [D]e acordo com Wittgenstein, estudamos lógica e construímos simbolismos lógicos: de maneira a compreender a ‘lógica da linguagem’, de maneira a ver como a linguagem espelha a realidade.
Queremos, com uma teoria pictórica [picture-theory], poder dizer que a característica expressiva da linguagem é a de que sinais combinam-se de maneiras determinadas.73
A boa notação simbólica deve assim permitir revelar a lógica da linguagem, deve torná-la visível, não se tratando portanto de um conjunto de regras de projecção que ditem o modo como a linguagem deve funcionar de maneira a funcionar perfeitamente, mas de um instrumento de elucidação – uma vez que a ordem ideal da linguagem está já presente em cada frase da nossa linguagem quotidiana74. No entanto, como se viu em TLP 4.002, esta linguagem é uma parte do organismo humano e não é menos complicada do que este, pelo que é, como nos diz Elizabeth Anscombe, “deveras impossível discernir a forma lógica na linguagem quotidiana”. Esta dificuldade justifica o estudo da lógica e a tentativa de tornar claras as regras de projecção que permitem a uma proposição ser uma imagem de um facto, através de uma notação que possibilite evitar as confusões que a linguagem quotidiana pode provocar75. Estas confusões têm a ver, ou surgem, graças à frequência com que a “mesma
73
G. E. M. Anscombe, An introduction to Wittgenstein’s Tractatus, Themes in the Philosophy of Wittgenstein, Wittgenstein Studies, St. Augustine’s Press, United States, 2001, pp. 91-92. A posição de Anscombe, quanto ao carácter do uso no Tractatus, é, de facto, conforme ao que mais tarde, em 1929, Wittgenstein afirma no seu artigo Some Remarks On Logical Form. No início do texto Wittgenstein fala da linguagem quotidiana [ordinary
language], mais precisamente, da sintaxe da linguagem quotidiana, e declara que esta não se adequa ao propósito
de averiguar em que conexões apenas uma palavra concede sentido e exclui desse modo estruturas sem sentido [nonsensical structures]: “Não previne, em todos os casos, a construção de pseudoproposições sem sentido (construções como ‘o vermelho é mais alto que o verde’ ou ‘a Realidade, embora seja um em si próprio, deve também ser capaz de se tornar um para mim próprio’, etc.)” Ludwig Wittgenstein, “Some Remarks on Logical Form”, in PO, pp. 29-35 [SRLF], p. 29.
74
Cf. TLP 5.5563.
75
Anscombe não se refere só ao estudo da lógica, refere-se também a uma teoria pictórica (a chamada teoria pictórica da linguagem do Tractatus, à qual Monk se refere na citação acima transcrita) que permitiria dizer que a característica expressiva da linguagem é a de que certos sinais se combinam de determina maneira. De facto, está em jogo no TLP descobrir os modos de combinação de sinais possíveis, com sentido – no entanto, essa descoberta não é, aos olhos de Wittgenstein, uma teoria (veja-se, e.g., TLP 4.112: “A filosofia não é uma doutrina, mas uma actividade”, ou o prefácio do Tractatus – “kein Lehrbuch” [Abhandlung, p. 7]), mediante a qual poderíamos fazer face à linguagem e à sua aparente confusão. A descoberta das combinações possíveis de sinais é antes fruto de uma investigação acerca da linguagem cujo resultado não é teórico mas que pretende ser crítico, quer dizer, Wittgenstein não propõe uma teoria e embora tenha em vista munir-nos de um instrumento de elucidação – a boa notação simbólica – e de “crítica da linguagem” (TLP 4.0031), isso não implica da sua parte acrescentar à linguagem condições de sentido que estariam à partida ausentes, por via de um sistema que trouxesse ordem onde reina o caos. Se a linguagem está já em ordem e se a lógica deve cuidar de si própria, o estudo da lógica, o esforço compreensivo – que é um exercício de percepção, uma vez que, como Wittgenstein
palavra designa de modo e maneira diferentes [dasselbe Wort auf verschiedene Art und Weise
bezeichnet]” (TLP 3.323), portanto, com o facto de que a mesma palavra “pertence a símbolos
diferentes [also verschiedene Symbolen gehört] – ou sucede que, duas palavras que designam de modos e maneiras diferentes, são aparentemente empregues na proposição do mesmo modo e maneira [oder, dass Zwei Wörter, die auf verschiedene Art und Weise bezeichnen,
außërlich in der gleichen Weise im Satz angewandt werden]” (Ibid.). Na linguagem
quotidiana, apesar da sua ordem, a mesma palavra pode designar de maneiras diferentes76, ou duas palavras podem aparentemente ser empregues da mesma maneira, de maneira que é tarefa do lógico notar estas diferenças subtis – “(...) aquele tipo de diferença entre os papéis sintácticos das palavras dos quais se ocupa um lógico (...)” – e desmascarar a lógica subjacente às proposições com sentido, por meio de uma linguagem simbólica que obedeça à “gramática lógica – à sintaxe lógica” (TLP 3.325), i.e., que retrate o símbolo de forma nítida, por outras palavras, que não utilize o mesmo sinal para símbolos diferentes. Deve então possibilitar o reconhecimento do símbolo no sinal mediante o seu uso com sentido, ou seja, na sua aplicação sintáctica, pois apenas assim pode apreender-se a sua forma lógica, e ver-se como uma proposição expressa o seu sentido77. A título de clarificação, recorde-se que apenas as proposições têm sentido; por seu turno os nomes têm significado, apenas em conexão com a proposição, e correspondem a objectos (cf. TLP 3.3) – é apenas no contexto da proposição, no âmbito da conexão dos elementos proposicionais, que os sinais podem designar, daí que
nota e Anscombe recupera no seu texto, a lógica está encoberta e é impossível adivinhar a forma do seu corpo sob as roupas que a cobrem – não tem como objectivo dizer como deve a linguagem operar, mas mostrar como ela opera quando tem sentido. Esta é uma tarefa a realizar a partir do interior da linguagem – uma teoria que impusesse condições de sentido teria que ter a sua origem num ponto de vista exterior, ilusório, para lá da fronteira (cf., TLP, Prefácio, pp. 27-28). (Em bom rigor, enquanto sistema, o Tractatus não é um corpo teórico, mas uma forma sistemática – uma forma que, mediante a numeração precisa das suas proposições, apresenta sistematicamente uma série de elucidações ou clarificações que não pretendem constituir-se como doutrina, mas como descrições precisas do funcionamento da linguagem.)
76 Wittgenstein dá-nos um exemplo de um tal caso: “Na proposição: ‘Verde é verde’ – em que a primeira palavra
é um nome próprio, a última um adjectivo – estas palavras não têm apenas um significado [Bedeutung] diferente, mas são símbolos diferentes [verschiedene Symbole].” (TLP 3.323. Trad. modificada.)
Uma leitura deste exemplo é apresentada por James Conant em “Two Conceptions of Die Überwindung der
Metaphysik, Carnap and Early Wittgenstein”, in Wittgenstein in America, Timothy McCarthy, Sean C. Stidd
(eds.), Clarendon Press, Oxford, 2001, pp. 13-61 (cf. sobretudo pp. 26-28). Conant defende que o objectivo do exemplo é precisamente “mostrar-nos que não conseguimos, partindo da notação da linguagem quotidiana, determinar como um certo sinal (e.g., ‘verde’ ou ‘é’) simboliza numa certa instância.” (Ibid. p. 28.)
77
Cf. TLP 3.262: “O que não é expresso pelos sinais, é mostrado pela sua aplicação. O que os sinais condensam, é enunciado no seu emprego.” [Was in den Zeichen nicht Ausdruckt kommt, das zeigt ihre Anwendung. Was die
Zeichen verschlucken, das spricht ihre Anwendung aus.] A forma lógica, que a proposição não pode declarar,
mas que mostra, revela-se na aplicação dos sinais. Estes expressam sentido, mostram, mediante o modo como a proposição simboliza através da sua construção lógica, a sua ligação essencial ao mundo.
apenas tendo em consideração a aplicação e o papel sintáctico das palavras, seja possível dar conta das diferenças subtis para a utilização de sinais distintos que pertencem a símbolos diferentes.
O conjunto de observações que constituem o desenvolvimento da proposição 3.3, e que tratam ainda do símbolo e do sinal, da expressão e da designação, acabam por conduzir (em 3.4) à consideração da determinação do espaço lógico por parte da proposição. Para que possamos apreciar melhor o conteúdo dessas observações, vejamos em primeiro lugar, 3.12 – aí, Wittgenstein declara que a “proposição é o sinal proposicional na sua relação projectiva com o mundo” [der Satz ist das Satzzeichen in seiner projektiven Beziehung zur Welt]. O esclarecimento subsequente desta ideia – do sinal proposicional, de que este é um facto, e (tendo em conta o que até aqui se apurou acerca da relação interna entre proposições e imagens), que isso significa que o sinal proposicional é uma imagem, ou seja, que se projecta no mundo – irá facilitar compreender o que significa a proposição com sentido garantir a existência do espaço lógico.
Convém desde logo notar que, o facto do sinal proposicional se referir à proposição na
sua relação projectiva com o mundo, pressupõe que o sinal proposicional é a proposição com
sentido, pois apenas as proposições que são sinnvoll estão nessa relação com o mundo e são uma imagem de um determinado estado de coisas. Vejamos: “[o] sinal proposicional consiste, nos seus elementos, as palavras, nele se relacionarem de um determinado modo e maneira.” (TLP 3.1 4. Trad. modificada.)78 Ou seja, o sinal proposicional apresenta uma dada conexão interna, uma certa articulação dos seus elementos, das palavras – o que desde logo define a sua possibilidade de concordar com a realidade, uma vez que a proposição articulada reflecte desse modo o so Sein, revelando-se capaz de representar a complexidade inerente à situação que descreve, na medida em que diz como as coisas são (se é verdadeira). A articulação interna das palavras no sinal proposicional determina o essencial da proposição, que consiste na sua capacidade de retratar uma propriedade interna dos factos que descreve, na medida em que veicula uma relação existente entre elementos na realidade, aos quais corresponde a combinação dos elementos da proposição. Graças a esta sua capacidade projectiva, pode dizer-se que o sinal proposicional está numa relação interna de representação pictórica com a realidade, e que por este motivo mostra como as coisas se passam – em última análise, “[o]
78 Das Satzzeichen besteht darin, dass sich seine Elemente, die Wörter, in ihm auf bestimmte Art und Weise zu
sinal proposicional é um facto.” [Das Satzzeichen ist eine Tatsache.] (Ibid.)
Wittgenstein parece estar aqui ocupado com uma distinção fina entre sinal e sinal proposicional, à qual se junta a precisão dos termos símbolo e expressão. A subtileza da sua investigação acerca destas diferenças, possibilita a análise do modo como a proposição expressa sentido, como chega até ao mundo, pois torna nítidas as características, ou as condições, que uma expressão [Ausdruck] com sentido [sinnvoll] deve reunir.
Em primeiro lugar, como se viu, o sinal proposicional é a proposição na sua relação projectiva – e interna – com o mundo e tem sentido porque retrata uma dada situação. No que diz respeito aos objectos, Wittgenstein considera que um nome é um sinal na medida em que se relaciona com um objecto – nos dois casos, é graças à relação (projectiva) que os sinais têm com o mundo, que estamos face a símbolos (e não face a meros sons ou a inscrições79). Vejamos em mais pormenor o que nos diz Wittgenstein em relação aos nomes:
O nome significa [bedeutet] o objecto. O objecto é o seu significado [Der Gegenstand ist seine Bedeutung.] (‘A’ é o mesmo sinal que ‘A’.) (TLP 3.203. Trad. modificada.]
“‘A’ é o mesmo sinal que ‘A’”, estabelece a insusceptibilidade de analisarmos adicionalmente os sinais simples que usamos na proposição e cuja aplicação consiste em nomear um objecto: o nome é um sinal simples, primitivo [Urzeichen]80, pelo que não é possível decompor um nome através de uma definição. O nome é como um ponto, e apenas toca a realidade no âmbito de uma proposição com sentido que diga como uma coisa é – não o que ela é. Podemos falar de objectos, descrever a sua configuração, mas a expressão (de sentido) cabe à proposição na sua relação projectiva com a realidade. A nomeação é uma relação (de significação) que existe apenas entre o sinal simples e o objecto (no contexto de uma proposição) – e os nomes correspondem à utilização dos sinais simples, portanto, à sua
79 Cf. TLP 3.1431: “A essência do sinal proposicional torna-se muito clara, se em vez de composto de sinais
escritos, o pensamos composto de objectos espaciais (como mesas, cadeiras, livros). / A posição espacial recíproca destas coisas exprime então o sentido da proposição.” E adicionalmente, TLP 4.011: “À primeira vista a proposição parece – como quando está impressa no papel – não ser uma imagem da realidade que trata. Mas também a notação musical não parece à primeira vista ser uma imagem da música, nem a nossa notação fonética (o alfabeto) uma imagem da nossa fala. / E contudo estas linguagens simbólicas provam ser, mesmo no sentido vulgar, imagens daquilo que representam.)” O que caracteriza estes sinais e os distingue de meros sons ou impressões escritas sem sentido, é que são linguagens simbólicas, e portanto a sua forma assinala aquilo que têm em comum com o que representam, tornando-se desse modo “em imagens daquilo que representam.”
80 Cf. TLP 3.26: “O nome não pode ser decomposto através de nenhuma definição; é um sinal primitivo
aplicação lógico-sintáctica. Entre a proposição e a situação que esta descreve não existe uma relação de nomeação – a proposição não tem significado, tem sentido81. Apenas os nomes têm significado e correspondem a objectos, eles são os seus representantes, os seus mandatários:
O nome é mandatário do objecto na proposição. [Der Name vertritt im Satz den Gegenstand.] (TLP 3.22)
Aos objectos só posso dar nomes. Os sinais são os seus mandatários [Zeichen vertreten sie]. Só posso falar deles, não posso exprimi-los [Ich kann nur von ihnen sprechen, sie aussprechen kann ich nicht]. Uma proposição só pode dizer como uma coisa é, não o que ela é. [Ein Satz kann nur sagen, wie ein Ding ist, nicht was es ist.] (TLP 3.221)
A proposição descreve uma situação e é apenas no âmbito desta descrição que, através da utilização dos sinais simples, é possível referirmo-nos a objectos – à sua configuração.82 Por este motivo é que as elucidações [Erläuterungen]83 só podem ser compreendidas se o significado dos sinais primitivos (dos nomes) já for conhecido.
O facto de que os nomes são mandatários dos objectos na proposição, determina, no