Na mesma linha, uma das questões que interessa colocar é a de saber quais são os mecanismos através dos quais os colunistas adquirem a legitimidade para expor as suas opiniões nas páginas dos jornais. Vários autores, directa ou indirectamente, a têm colocado.
Assim, Mário Mesquita (Público, 25/1/2004) a este propósito interroga-se: "como se justifica, por exemplo, que alguém seja chamado a exercer a função ou a deter o privilégio de "colunista" nas páginas de um jornal? Similarmente, Isabel Ferin Cunha (2004), levanta a mesma questão: “Porta-vozes de opiniões publicamente expressas, representantes de grupos com opiniões sobre as questões públicas, indivíduos e cidadãos informados e formadores, de onde procede a sua legitimação? Do valor simbólico inerente ao seu produtor, da autoridade e predominância das fontes, do círculo de referência e/ou de pertença social a que se encontram vinculados?"
Subscrevemos Pedro Solera (2000), que não crê que seja possível, conhecer as múltiplas causas pelas quais pode ser contratado um colunista (políticas, tribais, estéticas,
144 Também a propósito do post de Pacheco Pereiro, escreve-se no Blog Bloguitica (17.6.05):“José
Pacheco Pereira alerta para a proliferação da citação de opiniões de académicos como se os seus comentários fossem isentos ou incontestáveis. Em parte Pacheco Pereira tem razão e o tema mereceria por si só uma abordagem mais detalhada.Sem ser por acaso, claro, José Pacheco Pereira cita um exemplo daquilo que contesta, envolvendo Lisboa e Manuel Maria Carrilho. Porém, teria sido útil a menção de que faz parte da comissão de honra da candidatura de Carmona Rodrigues e que, neste caso, o seu ataque à opinião dos peritos é politicamente motivado.”
económicas, sociais, etc.) ou alcançar uma classificação de acordo com possíveis critérios formais, e isso porque se observa que os critérios diferem, até ao ponto de não existirem.
Mas, e seguindo Mário Mesquita, é de admitir que a legitimidade do colunista se construa " (...) algures na intersecção dos direitos de liberdade de expressão e de liberdade de criação de empresas jornalísticas”, que suponha “ (...) consensos mínimos entre diversas fontes de decisão interna (direcção, redacção, às vezes o juízo dominante entre os jornalistas...)”. Que se trate uma legitimidade frágil, baseada em factores subjectivos e mutáveis. São opções que, como refere Michel Mathien, se processam na "caixa preta" das empresas jornalísticas.
Não temos total concordância com Pacheco Pereira (Abrupto, 28/2/2005), que, encarando a opinião numa perspectiva economicista (como se de um qualquer bem se tratasse), diz que o que legitima a opinião é o seu “valor”. Diz ser essa “indústria”, onde ele próprio se inclui, ferozmente competitiva (na qual há fluxos entre os diferentes sectores de produção, de que são exemplo o da política tradicional para o comentário ou o da escrita bloguística para a escrita dos jornais, e vice-versa). Trata-se, para ele, de uma economia assente num mercado aberto onde os bens são escassos, e onde tudo se mede pela qualidade da opinião – reforçada pelas competências a montante e a jusante, mas não é por elas legitimada – opinião mede-se contra opinião. No mercado aberto da “indústria do comentário, a qualidade da opinião mede-se por dois parâmetros: a audiência e a influência (não necessariamente coincidentes).
É verdade que não satisfazendo um ou outro destes parâmetros a continuidade do colunista em expor as suas opiniões pode estar comprometida. Mas a questão que verdadeiramente interessa é a do “direito” a entrar nesse “mercado”, para posteriormente poder ter a sua opinião “cotada”. Pode-se alegar que o aparecimento dos blogs democratizaram esse acesso, uma vez que deter um blog pode ser um modo de aceder às colunas dos Jornais (temos actualmente vários exemplos), porém, a questão mantém-se, mas agora transposta para o “mercado dos blogs”: quais os critérios utilizados para atribuir qualidade e/ou visibilidade à opinião de alguém? Não influi o facto de o nome já estar firmado, mesmo antes da detenção do blog, e de já possuir um capital social reconhecido?
Convém recordar José Gil, para quem no “debate fulanizado” no espaço público, o que influi e pesa na discussão como uma “mais-valia” de sentido e de verdade no seu discurso é a personalidade social dos interlocutores – essa “espécie de argumento de autoridade invisível”, para cuja força contribui o seu prestigio: “a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático – que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no
palco do mundo” (2004:33) 145.
É também nossa a convicção que o que autoriza e legitima os colunistas para expor as suas impressões ou argumentos advém, em grande parte, do poder simbólico – chamemos-lhe assim na esteira de Bourdieu – que à partida, já detém. É um capital (científico, político, mediático) que se reconverte ou reforça. Mais do que “competências comunicacionais”, será este capital simbólico que é mobilizado: “ (...) o poder que constitui o dado ao enunciá-lo, o poder de agir sobre o mundo pelo facto de agir sobre a representação do mundo, não reside em “sistemas simbólicos”, na forma de uma força “ilocucionária”. Cumpre-se, sim, na e pela relação definida que cria a crença na legitimidade das palavras e das pessoas que as pronunciam, e só opera na medida em que aquelas que o suportam reconhecem aqueles que o exercem” ([1982], 1998:107). A este “poder simbólico”, voltaremos, recorrentemente, ao longo do texto desta dissertação.
Dos argumentos de Bourdieu e dos elementos empíricos, observáveis entre nós, pode deduzir-se que esse capital simbólico reconhecido e institucionalizado que possuem, e em consequência do aumento de visibilidade mediática, da consagração, se reforce não
145Note-se que já Gustave Le Bon (“As Opiniões e as Crenças”) “teorizava” sobre o papel do prestígio na
formação da opinião: “(...) facilmente nos habituamos a admitir, com prontidão, um conceito defendido por um personagem aureolado de prestígio.(...)Sobre os assuntos técnicos da nossa profissão, somos capazes de formular conceitos muito seguros; mas, no tocante ao resto, não procuramos sequer raciocinar, preferindo admitir, com os olhos fechados, as opiniões que nos são impostas por um personagem ou um grupo dotado de prestígio. (...) De facto, quer se seja estadista, artista, escritor ou sábio, o destino depende, sobretudo, da quantidade de prestígio que se possui e, por conseguinte, do grau de sugestão inconsciente que se pode criar. (...) Mesmo entre sábios eminentes, o prestígio é, muitas vezes, um dos factores mais certos de uma convicção. Para os espíritos ordinários, ele o é sempre. Criador de opiniões e dominador das vontades, o prestígio é uma potência moral superior às potências materiais. As sociedades nele se fundam muito mais do que na força. (...) A necessidade de adoração das multidões torna-as logo escravas dos indivíduos que nelas exercem prestígio”.
apenas junto de algumas camadas da população leitora de jornais mas dentro do próprio campo,146 afectando a distribuição do capital simbólico e, em consequência, a hierarquia dos lugares políticos ou (no campo académico) a publicação de artigos, livros ou financiamentos públicos. Porém, nalguns casos, e em particular nos académicos que acedem à televisão, é de admitir que esse capital simbólico se "fragilize" junto dos seus grupos de pertença. Os seus "pares" tendem a menosprezar a sobrexposição mediática que obedece a lógicas que não a científica: a rapidez que se exige é incompatível com o pensamento, pelo que pensam por “ideias feitas”, e é como fast-thinkers que Bourdieu (1997:25), de modo depreciativo, os referencia.
Existem, contudo outros factores e outras perspectivas a considerar no processo de atribuição de legitimidade e credibilidade. Como diremos à frente, a propósito das características das colunas de opinião, alguns autores preconizam a existência de uma relação de intimidade e confiança que se estabelece entre o colunista e os seus leitores (López Pan, 1995:125) e que origina o reconhecimento social.
De acordo López Pan147, os colunistas ao escolherem os temas, as ideias, os estilos, ao hierarquizarem valores, vão revelando uma personalidade, um modo de ser e estar face aos acontecimentos, certas preferências morais – e por vezes políticas –, determinadas intenções e gostos. São todos estes elementos que criam o que na retórica clássica se chamava o ethos do orador. A coincidência com esse ethos, esse quadro de referência individual, dá lugar a uma confiança originária que dota o colunista de credibilidade e autoridade, no sentido de reconhecimento social, e que se converte em audiência. Não se trata tanto da adequação do colunista aos leitores, mas antes do inverso: são os leitores que encontram no jornal alguém com quem estão em sintonia e em quem
146 Tal vai ao arrepio da definição fundadora de “campo”, na medida que este conceito básico da obra de
Bourdieu, designa uma configuração de relações objectivas entre posições de agentes ou instituições. Configuração que constitui o campo e é, simultaneamente, constituída por ele. Sendo um conceito de caracter descritivo ou heurístico, o “campo” tem também um valor normativo: faz com que as modalidades de consagração dependam das relações estabelecidas no próprio campo e não da imposição exterior. Foi o próprio autor que sublinhou (1997) o “desanjarro” que os media, em particular a TV, vieram introduzir, colonizando os outros campos intelectuais.
confiam, aos quais se tornam fieis, numa atmosfera de intimidade.148 Na perspectiva deste autores, é essa coincidência habitual entre o colunista e o leitor que faz com que este procure "orientação", queira uma explicação que nasça do confronto do que acontece no mundo com os princípios valorativos de alguém com quem coincide totalmente ou em parte (López Pan, 1995)
Diríamos que subjacente a esta perspectiva, quase parece estar a atribuição de uma função maiêutica às colunas (no sentido em que contribuem para fazer nascer a verdade do outro, através do estimulo que representa a perspectiva que realçam, os novos pontos de vista que o leitor, por si só, não havia consciencializado), ignorando-se as características, as marcas sociais (o prestígio, o reconhecimento social, académico, profissional...) de quem emite a opinião e o lugar donde o faz. Por outro lado, também não deixa de nos remeter para a teoria da comparação social de Festinger, na medida em que se reporta a um processo de validação social das nossas opiniões, o que em si mesmo (e não exclusivamente no âmbito inter-grupal) pode abrir portas para territórios teóricos pertinentes.
Em termos genéricos, a relação entre os colunistas e os seus leitores não deixará de ser também estipulada pelos dois “contratos enunciativos” de que nos fala (Charaudeau 1983: 101): um “contrato de autenticidade”, segundo o qual os eventos relatados devem ser “fiéis” à realidade” (no caso das opiniões, “objectivas”) e um “contrato de seriedade”, uma espécie de “contrato moral” que liga o “sujeito informador” a uma obrigação de transmissão das informações.
Mas este é um entendimento que nos parece incompleto, de resto, ainda vinculado ao “contrato mediático” expresso por Greimas (1983 [1979]), enquanto um tipo de contrato fiduciário estabelecido pelos media informativos com os seus leitores, afim de fazer
148 A coluna de António Barreto, do Público de 7 de maio de 2006, ilustra-nos a “intimidade” que pode
acontecer entre o colunista e os seus leitores. Se estes últimos não estivessem há anos habituados a que o colunista anunciasse o florir do primeiro jacarandá em Lisboa resultaria descontextualizada a nota, a negrito, que finaliza a coluna desse dia: “O azul é quase imperceptível. Mas já está lá. Só olhos avisados, ou apaixonados, o conseguem descortinar. Mais uma vez, no cruzamento das ruas do Salitre e Rodrigo da Fonseca, floriu o fiel jacarandá solitário, o primeiro em Lisboa. A anunciar o sublime anual desta cidade desleixada. A mostrar a alegria possível deste país triste. Foi podado, fica diante de um prédio velho e devoluto, de janelas tapadas com tijolo, à espera de demolição, correndo os riscos conhecidos para as árvores da nossa paz. Enquanto o deixarem viver, fica ali um sinal de esperança de que talvez a decência chegue um dia ao espaço público português. Ele insiste em querer viver. Pelo que anuncia, merece. Uma beleza!”
aceitar, a priori, a verdade dos seus relatos, deixando, porém, a posteriori, a possibilidade de verificação, através do qual os media estabelecem com os seus leitores. Parece-nos, então, que a relação entre os colunistas e os seus leitores, será melhor entendida no quadro de um outro contrato, o “contrato de leitura” conceptualizado por Veron (1983) – que vai além de “contrato enunciativo” – relativo, também, à relação entre o suporte mediático e a sua leitura, mas alargado ao tipo de relação que determinado media estabelece com o público e destinado a compreender os vínculo que estabelecem entre si estas duas “entidades do imaginário da comunicação”.
Assim, o êxito de determinado media medir-se-á pela sua capacidade de propor um contrato que se articule correctamente (eficazmente) às expectativas, motivações, interesses e conteúdos do imaginário de quem a ele decide aceder; de fazer com que esse contrato evolua de modo a acompanhar a evolução socio-cultural dos leitores, preservando o nexo entre eles; e também pela sua capacidade de modificar o contrato de leitura se a situação o exigir, fazendo-o de um modo coerente (1985:5)149. A par das mudanças socio-culturais e da situação de concorrência, é a dinâmica dos leitores que dinamiza o contrato de leitura (e é desta constante negociação com os leitores, da aceitação das estratégias de apropriação que dependem as propriedades do discurso do jornal).
Ora, os mecanismos e os níveis de funcionamento do discurso do media (particularmente a imprensa) que concorrem para a construção do contrato, preconizados por Veron, pressupõem uma panóplia de modalidades e factores, de múltiplas estruturas enunciativas (para além dos tradicionalmente usados na então bem sucedida teoria da enunciação): todos los aspectos de la construcción de un soporte de prensa, en la medida en que ellos construyen el nexo con el lector: coberturas, relaciones texto/imagen, modo de clasificación del material redactado, dispositivos de "apelación" (títulos, subtítulo, copetes, etc.), modalidades de construcción de las imágenes, tipos de recorridos propuestos al lector (por ejemplo: cobertura-índice de temas-artículo, etc.) y las variaciones que se produzcan, modalidades de compaginación
149 Esta indicação bibliográfica reporta-se ao documento Eliseo Veron, El análisis del “Contrato de
Lectura, un nuevo método para los estudios de posicionamiento de los soportes de los media, (acedido em http://www.geocities.com/horror_misfits/Veron_Eliseo_Analisis_del_contrato_de_lectura.rtf) Versão de Veron, Eliseo., “L’analyse du ‘contrat de lecture’: pour une nouvelle méthode pour les études de positionnement des supports presse”, in Les médias, expériences, recherches actuelles, applications, Paris, IREP, 1983
y todas las otras dimensiones que puedan contribuir a definir de modo específico los modos en que el soporte constituye el nexo con su lector (1985:9). Da sua combinação, resultam contratos mais ou menos complexos e coerentes. Como o autor refere, estes aspectos não esgotam a panoplia de operações que contribuem , nos jornais, para a formulação do “contrato de leitura”.
Para explicar as preferências dos leitores, não são suficientes as variáveis socio- demográficas ou os “estilos de vida” (ainda que existindo fortes correlações entre as configurações destas variáveis e a conduta de aquisição de um título), nem o estudo separado do suporte e dos seus leitores, mas sim a sua relação (1985:2). No entanto, interessa sublinhar, que Veron, ainda que preconizando várias “gramáticas de reconhecimento”, não deixa de realçar a importância das variáveis sociais nas “condições de reconhecimento”, como sejam as diferenças no capital cultural, as “avaliações” do sujeito sobre certos géneros e títulos da imprensa (1988:23) – o que, aliás, é uma importante incursão de cariz sociológico e de aproximação à “sociologia do gosto” de Bourdieu: a leitura de certos géneros e títulos comportam um valor-signo que inscreve o acto de compra dentro de uma estratégia mais ampla de distinção social por parte do sujeito (enquanto outros, socialmente desqualificados são lidos “às escondidas”) (1988:23)
Destes pressupostos, que partilhamos, resultam-nos algumas ideias simples: o prestígio, a confiança que é atribuída aos colunistas (e à relação que se mantém com estes, deriva e é tributária da confiança que se tem no jornal (em função de critérios vários: o crédito na veracidade da informação, mas também as suas “visões do mundo”, o seu “gosto”, o seu status...); isto é, a “relação” com os colunistas advém também do contrato já estabelecido com o jornal (o “melhor contrato” até então, porque resulta de um favoritismo pelo jornal, no mercado concorrencial). Por outro lado, e porque este contrato é constantemente negociado, quer a apreciação que os leitores, passo a passo, fazem dos colunistas quer as opções destes (temas, modos de abordagens..) intrincadas com as opções dos jornal (escolha dos colunistas, paginação, destaques..) podem contribuir para a manutenção ou quebra do contrato ( o que, evidentemente, também em termos de estratégia comercial, não convém aos jornais...)
Complementarmente – insistimos em sublinhar – cremos que para entender a especificidade dessa relação de confiança entre o leitor e o colunista e o processo de atribuição de credibilidade e autoridade, será preciso não deixar de entender o colunista, também, como portador de um capital simbólico e o “valor” da sua opinião enquanto proferida no interior de um campo. Porque entendemos as opiniões que emitem também como um exercício de poder, parece-nos incontornável fazer uma breve revisitação, como todas resultado de uma selecção, pelo modo como a relação entre o discurso e o poder foi sendo teoricamente perspectivada.