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8. Kommentarer

É obviamente redutora qualquer análise do nosso objecto de estudo que não alongue o olhar, desde logo, para o suporte que veicula a opinião e para o sistema que o acolhe. Primordial, será começar por admitir o jornal como um actor político, notando que um actor político é todo o actor colectivo ou individual susceptível de afectar o processo de tomada de decisões no sistema político; que o âmbito da sua actuação não é o da conquista do poder mas o da influência, exercida sobre o Governo, partidos políticos, grupos de interesse, entre outros (Borrat 1989:10). (Evidentemente que o inverso

também é de assinalar: a influência dos detentores do poder político ou dos grupos ou empresas que o editam).

Ora, entre outros mecanismos e espaços informativos, o editorial e algumas colunas de opinião reflectem e representam extraordinariamente bem esse poder, esse poder de influência. Como bem assinala Morán Torres (1988:140), ainda que o editorial seja pouco lido e por isso não chegue a um público maioritário, a sua influência, paradoxalmente, é muito poderosa.

A análise do jornal como actor é, evidentemente, inseparável da análise do sistema político no seu todo; analisar o jornal como actor político implica analisar o sistema dos media e o sistema político, mas também os contextos económico, social, e cultural desses sistemas.

“Serão os media noticiosos actores políticos eficazes?” – é a questão que pertinentemente Patterson (2000 [1997]) levanta e que lhe dá o mote para descrever as limitações do jornalismo enquanto actor político. Expor os problemas sociais de modo a que os cidadãos possam percebê-los e agir também sobre eles é uma tarefa de tal modo ambiciosa que os media não a conseguem cumprir. Nem têm que o fazer, o jornalismo não deve substituir-se às instituições políticas, como alertou Lippmann (1922).

Ora, como também nota Patterson, o prisma e o tempo das notícias, na busca de produzir boas “estórias”, com a preocupação da novidade, do invulgar, do sensacional, distorce os assuntos públicos e transmite uma imagem refractária do processo de governação (as notícias são principalmente acerca da luta pelo poder e só secundariamente sobre o exercício do poder) É a controvérsia e o conflito que muitas vezes se constituem como os verdadeiros temas da política, pelo que, o jornalismo centra-se na acusação e na contra-acusação, prestando muito menor atenção às posições políticas ou às condições sociais que subjazem a determinado problema político; mesmo quando esses temas são notícia, aparecem subordinados ao drama do conflito gerado pelos lados opostos. (Patterson, (2000:81-87 [1997]) Daí poder dizer-se que frequentemente o jornalista “despolitiza” as questões, tratando-as mais como rituais políticos do que como objectos dignos de debate ( Levy, 1982, citado por Patterson, 2000:87)

Também Héctor Borrat (1989) utiliza na sua análise o conflito como categoria chave: perceber o jornal como actor do sistema político é, então, considerá-lo como um actor social em relação de conflito com outros actores e especializado na produção e na comunicação massiva de relatos e comentários sobre os conflitos existentes. O jornal, enquanto produtor de acontecimentos políticos actuais, precisa ocupar-se de um fluxo contínuo de conflitos noticiáveis.83 O jornal ao ser actor do sistema político é, inevitavelmente, actor de conflitos. Tal não significa uma incapacidade para ser também actor de consensos, porém o consenso é uma categoria subordinada ao conflito. Na escala de valores segundo a qual o jornal opera a selecção das notícias, é a conflitualidade que impera, sobretudo se as notícias se reportarem à actualidade política (esta é, pois, o lugar primordial do conflito, no qual os seus actores se confrontam em função de um bem escasso, o poder) 84.

Complementar a esta abordagem, a análise de Jean-Pierre Meunier (1995), reportando- se ao que chamaríamos "encenação do conflito", centra-se em questões sobre os tipos de representações mentais e operações cognitivas que suscitam as narrativizações dos acontecimentos praticadas pelos media. As noções de metáfora e de metonímia ocupam aí um lugar central. Elas não são apenas jogos de palavras e a noção retórica de figura de estilo não lhes esgota o significado, são antes dotadas de uma importante dimensão cognitiva. Esta perspectiva é inspirada em Lakoff e Johnson, para quem são os processos de raciocínio humano que são em grande parte metafóricos, o mesmo é dizer que o sistema conceptual humano se encontra estruturado e definido metaforicamente. Assim, as metáforas tornam-se possíveis na linguagem porque cada indivíduo tem metáforas no seu sistema conceptual. “A essência de uma metáfora é permitir compreender alguma coisa (e fazer disso a experiência) em termos de outra coisa (...)

84Vários são os autores que ligam intimamente comunicação e conflito, contribuindo para a centralidade

do conflito no jornal enquanto actor político, mas entendendo-o de um modo que nos parece redutor Arno (1984), por exemplo, num discurso algo radicalizado, vê o jornal como narrador e como participante de conflitos, como tertius gaudens no conflito; para ele, conflito é notícia e toda a notícia é basicamente notícia do conflito de A contra B. A participação no conflito aparece-nos como definidora da própria existência do jornal. Já para Martin (1981), ele alterna entre as relações de amor ou de ódio com o Governo, numa ménage à trois cujo outro vértice é a audiência. Dader (1983) caracteriza-o como “pseudocomunicador político”. Chaffee (1975) chegou a considerá-lo como membro do sistema político e como sistema para-político. Altheide (1985) denominou o seu poder como forma cultural dominante, que privilegia os aspectos que impliquem conflito e guerra como os mais noticiáveis.

compreendemos a experiência de modo metafórico quando utilizamos uma gestalt pertencente a um domínio da experiência para estruturar a nossa experiência num outro domínio” (LaKoff e Jonhson, citado por Meunier, 1995: 227). Como exemplo, é apresentada a nossa cultura onde a experiência da discussão é, em grande parte, concebida a partir da experiência da guerra (daí a frequência na linguagem de expressões que remetem para o “ataque” e para a “defesa”...) A discussão e a argumentação são vividas segundo o modo da competição: “ A discussão é parcialmente estruturada, compreendida, praticada e comentada em termos de guerra” (Idem).

No tratamento jornalístico que os media fazem da política, a par da metáfora de guerra, que é de facto a mais recorrente, não é raro encontrarmos outras, como a do jogo, a da família, ou a criminal, que se ligam entre si., como bem frisa o autor. A sua utilização é variável em função de diferentes factores, como seja o grau de sensacionalismo. Este sistema, nada inocente, visa fins relacionais – a atracção do leitor, a procura de cumplicidades – e confere à política o atractivo do espectáculo. Meunier afirma que a metáfora da guerra reduziu o saber político ao conhecimento da batalha que se desenrola na arena política, reduzindo em igual proporção o conhecimento dos problemas em discussão e a capacidade de acção do público, confinando-o a um papel de espectador.

Poder-se-á contrapor que este sistema metafórico baseado na guerra reflecte a cena política e os jogos nela travados. Porém, o autor questiona se não será a representação metafórica que funciona como condicionadora do comportamento dos políticos. Mas antes prefere concluir que entre media e realidade a relação é principalmente concebida segundo o modelo da circularidade ou da determinação recíproca: “os media e o mundo interpenetram-se” (Meunier, 1995: 233) Os sistemas semióticos dos media co-produzem as realidades que reproduzem, simultaneamente são estruturas de acolhimento e de configuração da realidade.

Como frisa o autor, podemos encontrá-las em todas as linguagens dos media, atravessando todos os discursos mediáticos. Que métaforas são utilizadas pelos colunistas no período e jornais estudados? Correspondem os textos dos colunistas às expectativas – de alguma conflitualidade, de opiniões que gerem polémica – que as empresas jornalísticas e as direcções dos jornais neles parecem depositar?

Note-se que para o director do Público, por exemplo, " (...) aquilo que distingue um bom colunista de um mau colunista é ele ter opiniões, essas opiniões serem polémicas e o colunista conseguir argumentar bem” (cit por Fidalgo, 1999). Por sua vez, para o ex- director do Expresso, José António Saraiva “será a opinião polémica, de ruptura, contracorrente, de estilo próprio será a grande âncora dos jornais no futuro” ( in Grande Reportagem, 19/11/2005)85 Estrela Serrano (DN, 11/5/2003) nota que em muitos jornais, para além de outros critérios utilizados na selecção dos colaboradores, (o equilíbrio político-partidário, a qualidade e o prestígio ), “(...) A capacidade de polemizar é, também, um critério de escolha, como é visível em alguns colunistas (e editorialistas) do DN, com uma escrita agressiva e radical que (apenas nisso) faz lembrar os polemistas dos jornais franceses do século XIX, em cujas peças as ideias e opiniões eram tão importantes como a retórica, o estilo e a linguagem usados para criticar os opositores. A polémica é a arte da controvérsia, um género que vem da antiga Grécia, mas nos jornais portugueses o que existe são quase sempre pseudo-polémicas.”

É em alturas de campanhas eleitorais que se torna mais visível a preferência dos media pela polémica, pelas querelas partidárias, pelos aspectos folclóricos, pela encenação do jogo, alimentado pelos resultados permanentemente divulgados pelas sondagens. Se entendermos estas questões, como "o acessório", tal como o faz Estrela Serrano, podemos afirmar, com ela, que nas eleições analisadas (as presidenciais e as autárquicas de 2001) “ (...) as notícias privilegiaram, sobretudo, o acessório, deixando para plano

85 Paulo Cunha e Silva, no DN de14/1/2002, dia em que assinou a sua primeira coluna (que intitulou

"Coluna O") – tendo tido para o efeito uma “chamada” na primeira página, com fotografia- fez uma “declaração de intenções” em que definia assim a coluna: "Uma coluna, para funcionar, deve morder a realidade, não à maneira do reality show, (...) mas com sentido de oportunidade (...) Fazer uma coluna é agarrar os cornos de um qualquer animal. Todos os animais têm cornos. Todas as coisas têm pontas por onde se lhes pegue. Uma coluna pode ser uma tourada. È quase sempre uma tourada. Porque há confronto e há arena. Há homens e há bestas. Embora muitas vezes os papéis estejam trocados. E serve a coluna para isso: para fazer da anatomia da tourada, a metáfora da vida"

secundário o essencial." (DN, 14/1/2002)86. São também estas conclusões que a autora confirma na sua tese de doutoramento, já anteriormente referida, onde é analisada a cobertura das eleições presidenciais portuguesas, entre 1976 e 2001, no Diário de Notícias, RTP, SIC e TVI. Neste período, dá-se a mudança “do registo factual para o registo analítico/interpretativo, com introdução da ironia e do anedótico. Nas imagens da televisão e nas fotografias tornam-se óbvias a displicência e o cinismo no estilo de reportar (...) Os novos formatos, a fragmentação dos textos, esta multiplicidade de registos (o comentário, o anedótico, as citações, que alguns casos se chamam "excitações"...), modificaram completamente o estilo de cobertura das campanhas (...) Hoje, as notícias “são escolhidas entre aquelas mais susceptíveis de mostrar como a política é um lugar de guerra permanente, de ataque, de jogo.”87

Na verdade, e como já a mesma autora também havia notado, (DN, 18/12/2001), estes resultados confirmaram as tendências verificadas noutras campanhas e noutros países, as quais apontam para uma cobertura em que as eleições são apresentadas (pelos candidatos, partidos e pelos jornalistas) como um jogo (no qual se “disputam lugares em vez de se discutirem projectos, onde os vencedores se medem, em primeiro lugar, pela performance mediática dos concorrentes e, só depois, pelas ideias e projectos que possuem para os cargos a que se candidatam")88.

Blumler, que como diz Brants muito bem representa a “corrente”, e que tem insistido (em muitos trabalhos com a colaboração de Gurevich) num discurso muito crítico sobre

86 Analisando a cobertura jornalística das autárquicas desse ano, pelo DN – um total de 191 textos

publicados entre 4 e 14 de Dezembro – a autora conclui que 84,8% dos temas abordados incidiam sobre estratégia eleitoral, acções de campanha e resultados de sondagens, sendo apenas 16,7% os dedicados a “temas de substância”: propostas dos candidatos para resolver problemas locais, auscultação das populações sobre as suas aspirações e expectativas relativamente a essas propostas. Sublinha também que os títulos e os leads dessas peças apresentavam, em geral, um enquadramento de tipo negativista (muito poucas possuíam títulos que realçassem algo de positivo) em que se enfatizavam as acusações e as polémicas entre candidatos e líderes partidários, concedendo-se ao "jogo" e à "competição" entre partidos e candidatos um destaque muito superior ao concedido às suas ideias. (DN, 18/12/2001,Autárquicas temas e protagonistas”). Cf também o artigo da mesma autora (“A campanha eleitoral de 2001 na televisão revisitada: análise comparada do serviço público e dos canais privados”, in Media & Jornalismo, MinervaCoimbranº4, 2005) no qual, ainda que analisando as peças televisivas e a campanha presidencial de 2001, conclui, similarmente, que a campanha é apresentada como uma disputa dos candidatos por um bom lugar, os enquadramentos das peças orientam-se para o jogo e para a estratégia, os ataques aos adversários constituem o essencial do discurso; e o tom é predominantemente negativo nos três canais.

as relações causais, origens e efeitos do infotainment – a “crise da comunicação pública”, “crise da comunicação cívica” e “crise da cidadania” – tem defendido a chamada “hipótese infotainment da política”, argumentando que as decisões políticas são em muito influenciadas pela forma como serão representadas nos media e percepcionadas pelo público; que a política é apresentada como um jogo, menosprezando-se a substância da política; que a personalização da política é enorme, por ser mais fácil de projectar do que temas e políticas sérios; que os media promovem o aumento da circulação de mensagens negativas sobre a política e os seus actores. O que resulta no aumento do cinismo e no decréscimo da informação política fornecida aos cidadãos.

Com efeito, vários investigadores nos EUA e na Europa, trabalhando a “hipótese da convergência”, estabelecem uma ligação entre a raiz comercial da televisão americana e as mudanças no sistema mediático europeu, com implicações ao nível da informação política e da participação e, de um modo mais amplo, na qualidade do sistema democrático (Brants, [1998], 2005: 41). É verdade que alguns autores, partindo dos dados da investigação sobre a cobertura politica da informação televisiva em países do norte da Europa, questionam os argumentos que justificam a “preocupação com o infotainment” e a justeza da “diabolização” da televisão: não “será a televisão em larga medida apenas um conveniente bode expiatório para problemas mais profundos da politica americana e do jornalismo político americano?” (Siegelman e Bullock, 2000:110).

As perspectivas que enformam a cobertura mediática das campanhas presidenciais são historicamente sistematizadas por Siegelman e Bullock (2000:110-116) em três interpretações: “vast wasterland”, “videostyle” e “the more things change...” Assim, enquanto a primeira evidencia as diferença entre a imprensa e a televisão na cobertura das campanhas presidenciais, culpando esta última por exacerbar a cobertura do sensacionalismo e da “corrida de cavalos”; a segunda realça o seu impacto transformador, acusando-a de ter modificado as campanhas e, assim, ter arrastado a imprensa; e a última das perspectivas defende que os contrastes históricos sobre os 88Estrela Serrano (DN, 18/3/2002) também observa que a representação das campanhas eleitorais não é

feita, apenas, através das notícias: também os comentadores e analistas marcam e influênciam o "tom" de cada campanha."

quais incidem as críticas actuais à cobertura mediática tendem a ser enormemente exagerados, uma vez que ocorreram mudanças relativamente incidentais.

É nossa convicção que há suficiente investigação empírica que demonstra a tendência dos media para espectacularizar a política. Como há também evidências empíricas de que os políticos se submetem a esta lógica, mais acentuadamente em momentos de campanha eleitoral, tudo fazendo para adaptar o seu discurso a esses formatos, reduzindo-o a slogans mediáticos, suscitando incidentes com os requisitos certos, feitos à medida, para abrir os jornais televisivos ou fazer as manchetes das primeiras páginas dos jornais. Os políticos têm uma extraordinária capacidade de produzir eventos, ou pseudo-eventos como lhes chama Boorstin – cujas principais características assentam na sua não espontaneidade; no facto de surgirem por serem planeados, para terem cobertura dos media, do seu sucesso se medir pela amplitude dessa cobertura; de terem uma relação com a realidade subjacente à situação ambígua; e de funcionarem como uma auto promoção (1992:11-12 [1961]) – de fazerem deles importantes instrumentos de acção política e de construção de carreiras políticas (1992:22 [1961]).

Com a ajuda de acessorias especializadas, ou na sua subordinação, luta-se pelo controlo da esfera da visibilidade pública, o qual, de acordo com Wilson Gomes (2004), assenta em dois pressupostos: na esfera da visibilidade pública só circulam materiais e códigos organizados segundo códigos e gramáticas característicos das instituições que a controlam; as rotinas produtivas e organizativas desse tipo só assimilam materiais e conteúdos organizados de acordo com a lógica que empregam. Assim, a circulação na esfera de visibilidade pública e da comunicação, a convivência com os personagens e a participação nos seus eventos, a oferta de discursos sobre os temas que atraiam a atenção da imprensa, bem como a consonância de comportamentos com as dramaturgias ou espectáculos mediáticos, são, para Gomes, formas muito eficientes de se conseguir exposição mediática.

Os espaços políticos tradicionais, como os partidos, os parlamentos, ou os comícios, desterritorializaram-se; na nova geografia política, os media são uma rota incontornável. Como diz Mário Mesquita, “ (...) A política é obrigada, por força da própria natureza da sua legitimação, a fazer dos media um lugar de passagem. (...) Esse trânsito obrigatório da política pelos meios de comunicação – em especial, pela televisão – não possui

apenas um significado meramente instrumental. Equivale a uma reformulação da linguagem, de modo a adaptá-la às estratégias da comunicação mediática, todas elas subordinadas a lógicas económicas, sociais e retóricas muito diversas das formas tradicionais de discurso político (Público, 3/10/2004) 89 .

Mas a politica mediática é mais complexa, como refere Wilson Gomes (2004), o sentido das suas práticas é dado pelo “complicado sistema de relações” em que se vinculam os domínios dos interesses privados, da política e da comunicação de massa.

A politica mediática só poderá ser verdadeiramente entendida à luz não só das transformações ocorridas nos campos mediático e político como também das alterações societais dos últimos anos (seja as mudanças tecnológicas, económicas, sociais, culturais, educacionais, laborais...) cujos reflexos se observam nos consumos, nos estilos de vida, nas expectativas, no modo de procurar e processar a informação, na forma de (poder/querer) exercer a cidadania.

Pode contudo afirmar-se que comportamentos mediáticos e comportamentos políticos configuram um círculo vicioso, gerador do que alguns começaram a apelar de "espiral de cinismo". Como temos visto, muitos investigadores sustentam que essa abordagem da política pelos media, que privilegia os aspectos negativos, exerce uma influência desmobilizadora da participação política, contribuindo para o cepticismo, a descrença, a desconfiança e o descrédito dos políticos, da política e das instituições90. Havendo mesmo vozes que apontam o risco da democracia representativa sucumbir às mãos do

89 Convém, no entanto, sublinhar, como o faz M. Mesquita (Público, 3/10/2004) que não é de hoje que as

liturgias políticas democráticas envolvem a dimensão do entretenimento e do espectáculo, pois tal já acontecia quando a politica se processava de forma presencial e territorializada, quando os media audiovisuais eram inexistentes. È isto que é testemunhado pela análise que Michael Schudson (Michael Schudson, The Good Citizen - A History of American Civic Life, Cambridge, Harvard University Press, 1999, pp.133-143, citado por M.Mesquita3/10/2004) efectuou do debate travado, em 1858, no Estado de Illinois, entre os candidatos ao Senado, Stephen Douglas e (o futuro Presidente) Abraham Lincoln. Nestes debates históricos já ocorreram manifestações de política-entretenimento.

A propósito das “novas formas” de fazer política, realce-se o caso de Marcelo Rebelo de Sousa que na campanha sobre o referendo sobre a interrupção voluntária de gravidez (2007) foi percursor no recurso aos vídeos para fazer passar a sua mensagem. O que aliás, teve repercussão nos media tradicionais.

90 Pacheco Pereira, de algum modo, sintetiza esta perspectiva que aqui repetimos: “(...)A mediatização

dos políticos e da política, com o inevitável resultado da mediocratização da vida pública, a utilização da "transparência" como maneira moderna de atacar a democracia representativa, o controlo da agenda e do