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Utfordringer og begrensninger

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Pilar 3: Kultivering av proxykilder

6.5 Utfordringer og begrensninger

Desde a antiguidade, o cuidado com os doentes era exercido, principalmente, pelas mulheres. Geralmente, o doente era tratado em casa pela mãe, esposa ou irmã. (PEREIRA NETO, 2001). Curiosamente, as mulheres foram as primeiras a praticar a medicina, não por serem naturalmente mais dedicadas ou por serem as responsáveis pelos partos, mas pelo contato direto com a agricultura. Tal proximidade possibilitou-lhes conhecer as plantas, ervas e sementes (DURANT apud WALDOW, 1998).

Se avaliarmos a história da civilização, o “cuidar” sempre esteve presente, de uma forma ou de outra, e sua ligação com a medicina é inquestionável. Entretanto, sua ênfase atual está no procedimento e na tarefa, com o objetivo maior da cura (WALDOW, 1998).

A descrição do quadro de Pablo Picasso denominado “Ciência e Caridade” (1897), feito por Pereira Neto (2001, p.20) mostra-nos o retrato do médico da época: um profissional que detinha o controle absoluto do paciente, um generalista. Entretanto, a posição do mesmo é de poder e vulnerabilidade. O poder, marcado pela dependência do paciente do conhecimento do médico e, a vulnerabilidade, pelo fato de que o poder gera a expectativa em todos (paciente e familiares) de que o médico resolva o problema do paciente, ou seja, o cure.

Que ele consiga tirar o paciente da situação em que se encontra. Que ele devolva cor à sua pele, brilho a seus olhos. Que ele lhe alivie a dor. Que ele o devolva à vida. A cena indica que tudo isso depende apenas dele. De mais ninguém. Se falhar, poderá ser, de alguma forma, acusado e, até, penalizado.

É interessante lembrar que, nesse mesmo período, a medicina concorria com inúmeras práticas de cura: espíritas, médiuns, bruxas, curandeiros, herbanários, etc. Segundo Pereira Neto (2001), o médico atendia em hospitais filantrópicos quando queria. Não havia a

preocupação com a remuneração. O atendimento por si só lhe proporcionava experiência profissional, prestígio junto à clientela mais rica e possuía, acima de tudo, autonomia técnica e econômica. Instituições filantrópicas propiciavam ao médico a possibilidade de atender o número que desejasse de pacientes, pelo tempo que ele determinasse. A sua presença ali era justificada por questões morais e não, econômicas. A conduta médica era marcada por uma confiança recíproca. Todas as observações, descobertas e informações confiadas ao médico, seriam guardadas como um grande segredo.

No final do século XIX, o conhecimento médico especializado era uma idéia nova. Entretanto, no Brasil, o mercado de trabalho médico começa a sentir profundas transformações, a partir do século XX. “O movimento de especialização do conhecimento e de tecnificação das atividades do mundo do trabalho, evidentes em outras áreas produtivas e de serviços, começaram progressivamente a invadir a prática médica” (PEREIRA NETO, 2001, p.22).

O ano de 1922 foi marcante para a história da profissão médica no Brasil. Alguns fatos marcaram essa época, tais como: Semana de Arte Moderna, criação do Partido Comunista do Brasil, movimento tenentista e exposição comemorativa do centenário da independência.

O perfil médico do século anterior, marcado por trabalhos filantrópicos e pela relação médico-paciente individualizada, além da ausência de um intermediário que estipulasse a duração e o valor da consulta, foi substituído por profissionais que se viram forçados a acompanhar as mudanças do século XX.

[...] o desenvolvimento científico e tecnológico da medicina promoveu pelo menos duas ordens de modificações neste perfil. [...] O conhecimento médico começou a especializar-se, compartimentando-se segundo a área do corpo ou o tratamento de doenças específicas. [...] O desenvolvimento tecnológico permitiu que fosse sendo introduzido todo um arsenal técnico, que se tornava o diagnóstico e o tratamento mais precisos, aumentava também o custo da produção do serviço (PEREIRA NETO, 2001, p.29).

Nos anos 50 há uma movimentação nesse sentido. A subjetividade e a relação médico- paciente individualizada começam a ser questionadas e ameaçadas pela tecnologia e racionalização do trabalho. É a chamada “medicina tecnológica” (DONNANGELO apud PEREIRA NETO, 2001).

Se pararmos para pensar em como deveria ser um relacionamento entre médico e paciente, nos assustamos ao lembrar que é o médico de fato quem detém o poder ou senão, o

conhecimento necessário para alcançar a cura de uma doença. Ao iniciar uma consulta ou um tratamento, o médico tem acesso às informações mais profundas sobre o paciente, além de entrar em contato íntimo com o corpo do mesmo. Ele é cúmplice de momentos cruciais de sua existência, interpretando problemas através da linguagem abstrata do conhecimento científico. “A medicina parte de um saber generalizante para atingir uma objetividade individualizada” (PEREIRA NETO, 2001, p.39).

Se aprofundarmos esta avaliação, o cerne da relação médico-paciente é sua inviolabilidade. O paciente precisa, indubitavelmente, ter a certeza de que poderá confiar no médico, revelar as circunstâncias íntimas em que adquiriu determinadas doenças e estar seguro de que tanto suas palavras quanto o resultado dos exames permanecerão em segredo entre as duas partes.

Entretanto, pode-se dizer que o sucesso da medicina está ligado ao poder e dependência do cliente em relação ao conhecimento e à competência do médico (PEREIRA NETO, 2001). “A medicina é uma arte, que cura algumas vezes, alivia muitas vezes, consola sempre” (COSTA apud PEREIRA NETO, 2001, p.43).

Sabe-se que nenhuma outra profissão adquiriu poder semelhante ao da medicina. Os médicos definem o que é saúde e doença, o que é sanidade ou insanidade mental, o que é curável e o que não é.

Em sua história, a medicina construiu sólido conhecimento científico e reivindicou para si o monopólio da cura. Dotada de princípios ético-morais, a atividade médica estabelece singular relação com o consumidor (paciente) de seus serviços, que requer confiança, sigilo e credibilidade (MACHADO, 1997, p.15).

Tal poder e saber médicos são partilhados com outros profissionais: psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, engenheiros biomédicos e técnicos. Pereira Neto (2001) cita que no ano de 1922, o Congresso Nacional dos Práticos foi o primeiro fórum organizado para se debater a profissão médica e três perfis de prática médica foram definidos: o generalista, especialista e higienista.

a) Generalista

O médico exerce suas atividades individualmente, sem contar com o auxílio de qualquer profissional da saúde. O profissional teria a liberdade de estabelecer valor, tempo de

duração da consulta e condições de tratamento, ou seja, ele detinha a liberdade plena em relação ao doente. Pereira Neto (2001, p.46) completa:

O cliente, portador de um mal cujas origens desconhece, tornava-se paciente e indefeso, principalmente se o médico exercesse sua atividade com simpatia. A confiança e a obediência poderiam ser logo captadas, sobretudo porque o médico teria condições de persuadir seu paciente de que era detentor da solução para apaziguar aquele mal, para aliviar aquela dor.

b) Especialista

Este segundo perfil médico é caracterizado por três idéias centrais: a divisão do trabalho em especialidades, a precisão no diagnóstico e no tratamento e a autodenominação de científica. “O trabalho passou a ser compartimentado e o médico não seria mais conhecedor de todas as doenças, mas apenas de uma, de forma profunda” (PEREIRA NETO, 2001, p.48).

c) Higienista

O autor cita duas principais características deste perfil: o caráter científico da atividade e o sentido coletivo de sua prática, onde há uma orientação para as coletividades. Os médicos que defenderam este perfil atuavam em alguma instância de poder público, vinculada à gestão dos serviços de profilaxia, educação ou ação higiênica.

Em pleno século XXI, algumas questões continuam sem respostas. Há um dilema eterno que preocupa o meio médico: o que é mais importante para a medicina? A precisão de diagnóstico, exames de última geração, uso intensivo da tecnologia, tratamentos modernos ou a utilização de anamneses baseadas no contato íntimo e direto entre médico e paciente?

Sobre o dilema entre o predomínio da tecnologia e o primado da humanização na relação médico/paciente, um renomado cardiologista respondeu: “Minha relação com o doente é quase técnica. [...] Quem procura um especialista, quer resultados, não alguém que fique lhe agradando” (JORNAL DO BRASIL apud PEREIRA NETO, 2001, p.138).

O médico de família é uma referência que não foi esquecida:

Lembra daquele médico que cuidava da vovó, acompanhava o parto da neta e até aparecia em casa durante a madrugada para acalmar a febre do filho? Pois

é, o velho médico de família, especialista em tratar desde uma dor de cabeça até uma crise de asma, pode voltar a ter destaque no precário sistema de saúde brasileiro. (ISTO É apud PEREIRA NETO, 2001, p.138).

Entendemos, então, que dois perfis de médico estão em disputa no mercado de saúde desde 1922: um se preocupa com a precisão e o outro valoriza o relacionamento humano com o paciente. Entretanto a medicina científica atual é caracterizada por procedimentos padronizados e o uso de alta tecnologia. É perceptível um distanciamento da tradicional relação pessoal com o paciente. “[...] a tecnologia de ponta substituiu o ‘raciocínio clínico’ e o talento individual. O ‘carisma’ da profissão está sendo substituído por uma objetividade quase burocrática” (MACHADO apud PEREIRA NETO, 2001, p.139).

Até mesmo na obra de Hipócrates, o relacionamento entre médico e paciente já era de certa forma sugerido: aos médicos um comportamento autoritário, não detalhar aos doentes os seus males, desviar a sua atenção do paciente do procedimento (BERLINGUER, 1991).

Nos dias atuais, por diversas razões, o encontro médico/paciente, com inúmeras exceções, é um momento de troca recíproca de informações, emoções ou conselhos. São várias as queixas e relatos de pacientes que passam por esperas longas e cansativas, silêncio inquietante, arrogância, negligência, cinismo e casos de abuso de poder. Um quadro como este faz com que a informação ao paciente seja inexata; que aquele momento único de contato com o paciente não seja aproveitado para informar, associar e compartilhar informações. Sem dúvida alguma, uma melhor comunicação com as pessoas e um ouvir atento das experiências dos pacientes poderiam contribuir de maneira mais eficaz para os resultados da saúde de uma forma geral.

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