A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos
identificar – ao menos temporariamente.
(Stuart Hall, “A identidade cultural na pós-modernidade”, 2007)
Considerando as histórias das personagens de Peregrinos de Aztlán, deparamo-nos
com três grupos de personagens, sendo cada um deles representados de maneira distinta. Desse modo, temos as personagens norte-americanas, as imigrantes mexicanas, ou chicanas, e as chicanas que apagaram, totalmente de suas vidas, as raízes culturais mexicanas, assumindo a identidade norte-americana como própria. Partindo da questão identitária, iremos analisar, brevemente, a forma como algumas dessas personagens negam ou afirmam suas identidades culturais.
Comecemos por aquelas que reconhecem suas origens para construir uma nova identidade, já que, vivendo em um ambiente intercultural, elas não podem manter uma cultura pura, conforme explicamos no Capítulo 1 de nossa pesquisa. Loreto Maldonado, por exemplo, viveu nos EUA durante muito tempo, mas sua história é narrada na fronteira de Tijuana. Toda sua trajetória de vida é fortemente marcada pelo seu passado mexicano, principalmente por suas raízes ancestrais indígenas yaquis e sua participação na Revolução Mexicana. Sendo
assim, apesar de Loreto conviver com a cultura norte-americana, ele não consegue desvincular-se de sua cultura originária indígena, ainda que esta tenha sofrido mudanças devido aos processos de hibridação pelos quais passou: ele mostra seu orgulho yaqui ao lutar para viver com dignidade, mostrando que os homens de sua raça não se humilham a ponto de negar suas raízes nem se esquecem de suas origens indígenas, mesmo vivendo em um ambiente culturalmente híbrido. Mas, mesmo preservando as tradições de sua cultura, Loreto tem, muitas vezes, dúvidas a respeito de sua identidade, pois vive em um estado de “entreculturas”:
– Usté que ha leyido tanto funnys, carnalito, ¿qué semos nostros, ése? – Buenos [...] pues México-Mericanos (MÉNDEZ, 1974, p. 29).
Órale, carnal. Simon, ése, semos chicanos, camarada. ¿El chante? Acá cantoneamos pa‟este laredo, ve, usté sabe, guy, los gabas le apañaron esta land a la raza; al recle pos ahí andan estos batos quesque camellando en los files y en donde querétaros, chavalos, que está durasna la movida (MÉNDEZ, 1974, p. 49).
Depois de tantos anos longe de sua terra natal, Loreto teve sua identidade transformada, já não podendo, portanto, considerar-se nem um mexicano puro, nem norte- americano, mas, sim, um chicano. Nessa perspectiva, a personagem assume uma nova identidade. É importante ressaltar que o resgate da cultura ancestral indígena por parte dessa personagem é fundamental para a definição de sua nova identidade.
Outras personagens importantes no processo de afirmação da identidade são, sem dúvida, Carnal e El Buen Chuco, que, ao longo da narrativa, fazem diversos questionamentos acerca de suas identidades. Imersos em culturas distintas, este pergunta àquele se eles são “greaser”, “Mexican”, “pocho”, “chicano”, “bato” ou “México-americano”:
[...] ése, usté que ha leyido tantos “comics”, ¿qué somo slaves, nosotros la raza? Luego ése [...] es con si le filerean a uno los hígados. Allá, ése, pos es uno “greaser”, un “Mexican”; viene uno acá, ése, y quesque uno es es “pocho”; me impieza a cuadrar que me llame chicano, bato, me cai a toda madre, carnal, siquiera ya es uno algo, no cualesquier greaser o pocho, ¿qué no? Usté ha leyido tantos funnys, carnalito, ¿qué semos, ése?
– Bueno [...] pues México-americanos (idem, ibidem, p. 27).
O trecho acima demonstra que essas duas personagens são sujeitos que vivenciam processos interculturais, do que decorre suas identidades se transformarem a cada dia. O discurso entre El Buen Chuco e Carnal do trecho acima evidencia, de forma relevante, o ambiente cultural no qual está inserido o povo chicano, bem como o fato de esses sujeitos serem híbridos, constituindo, por conseguinte, um novo modelo de representação cultural,
diferente tanto da cultura mexicana, ainda que preservem fortes laços culturais indígenas, assim como da cultura norte-americana.
Ainda no que tange ao resgate cultural e à formação de novas identidades no romance
Peregrinos de Aztlán, destacamos Chayo Cuamea, personagem esta que mantém uma forte
relação com sua cultura ancestral indígena, o que é fundamental para que ela possa definir sua identidade cultural. Vivendo em terras norte-americanas, Cuamea, assim como as demais personagens chicanas, passa, aos poucos, por um processo de transformação cultural que é responsável pela modificação de sua identidade.
Cuamea sofre influência da cultura norte-americana, sem, contudo, assumi-la como própria. Durante toda a narrativa, essa personagem faz questão de resgatar a história de sua tribo yaqui, ressaltando a resistência de um povo forte que, acima de tudo, preserva suas raízes culturais, ainda que a influência da hibridação se faça sentir. Cuamea vive, cotidianamente, em um ambiente cultural híbrido, mantendo contato com sujeitos de diferentes culturas que, por seu turno, também passam por intercâmbios culturais, formando, dessa maneira, novas identidades culturais. Assim sendo, o processo de resgate de suas origens mexicanas faz parte do processo de criação de uma nova identidade, sendo que, nesse contexto, a busca pelas raízes históricas e culturais permite-lhe uma autodefinição cultural e identitária.
As personagens acima citadas vivem em suas trajetórias de vida, perspectivas do hibridismo cultural que são importantes na formação de suas identidades. Aliás, Miguel Méndez constrói inúmeras personagens que vivem essa situação, não se furtando de imprimir um juízo de valor sobre elas: apesar de honestas, determinadas e boas, todas sofrem injustiças e preconceito tanto na sociedade mexicana quanto na norte-americana, sendo, segundo a visão de Miguel Méndez, por elas desprezadas.
Considerando, agora, os imigrantes mexicanos que assumem a cultura norte-americana como sua própria cultura e, deixando de lado suas origens mexicanas, destacamos o juiz Smith e a dona Reginalda Dávalos de Cocuch. Ele se comporta como um típico norte- americano, tanto que nunca se considera um chicano, mas, sim, um cidadão norte-americano. Para o senhor Smith, os chicanos são meros trabalhadores: “[...] ¿Qué sería de nuestros chicanos si no tuviera el alivio de estas labores, que con la divina gracia de Dios nuestro Señor se ayudan a vivir?” (MÉNDEZ, 1974, p. 123).
A identificação do juiz com a cultura norte-americana é tão intensa, que, para descobrir que as verdadeiras origens dessa personagem são mexicanas, o leitor precisa ler e reler a obra, pois o narrador fala dessa questão de maneira implícita. Analisando essa questão,
notamos que o senhor Smith vive uma realidade muito diferente daquela experenciada pela maioria das personagens chicanas: ele conseguiu estudar e conquistar um posto de trabalho respeitado nos EUA, conseguindo alcançar um padrão socioeconômico que o diferencia totalmente das demais personagens que também são imigrantes mexicanos.
Em nenhum momento da narrativa, o senhor Smith fala como um sujeito de origem mexicana, comportando-se, pois, sempre como um norte-americano bem-sucedido que despreza os índios e seus descendentes imigrantes mexicanos por sua condição de pobreza. Isso demonstra que o juiz despreza sua identidade chicana, a ponto de não assumi-la, diferentemente de outras personagens, tais como Loreto, que a assumiram. É importante destacar que inclusive a aparência física do juiz Smith é diversa da de um típico chicano: ele, diferentemente dos outros chicanos, é um homem branco, que, sobretudo, conseguiu uma posição de destaque na sociedade norte-americana, do que, provavelmente, decorre seu amor pelos EUA e, por extensão, sua identificação com essa cultura, a ponto de sentir-se como se tivesse realmente nascido nesse país.
A identificação do senhor Smith com a cultura norte-americana e a consequente negação de suas raízes culturais é tamanha, que ele finge não conhecer a realidade conflituosa vivenciada pelos imigrantes mexicanos. Se ele talvez tivesse passado pelos mesmos conflitos que seus compatriotas, teria um olhar diferenciado sobre seu povo e sobre os problemas culturais e identitários por ele sofridos.
Com exceção das diferenças físicas já por nós sinalizadas, dona Reginalda de Cocuch também, assim como o senhor Smith, é uma imigrante mexicana que incorporou a cultura norte-americana. Apesar de ela comporta-se como uma dama norte-americana, seu próprio nome denuncia suas raízes culturais mexicanas, do que decorre sua hipocrisia, ainda mais acentuada pelo fato de, ao mesmo tempo, explorar e caçoar da miséria dos imigrantes da fronteira e, contraditoriamente, fazer caridade para com eles. Essa “caridade” é por ela levada a cabo com o intuito de ostentar perante a sociedade a imagem de boa cidadã.
Tanto as atitudes de dona Reginalda como as do senhor Smith nos fazem pensar que, se por um lado, o hibridismo cultural poderia ter um papel positivo na formação da identidade cultural dessas personagens, por outro, adquire um aspecto negativo, pois há chicanos que o usam como ferramenta para explorar seus conterrâneos e negar suas raízes culturais e identitárias. No caso do senhor Smith, tanto seu jardineiro como sua empregada, ambos
chicanos, são responsáveis por manter organizada não só a casa, como toda a rotina de vida
que comete atos ilegais contra os imigrantes mexicanos, tais como enganar jovens mexicanas para vendê-las a donos de prostíbulos norte-americanos na fronteira.
Até o momento destacamos a afirmação ou a negação da identidade cultural de algumas personagens imigrantes mexicanas ou de origem mexicana apresentadas por Méndez. Em contraposição a elas, passaremos, agora, a dar ênfase a algumas personagens norte- americanas que reafirmam sua identidade ao negar a identidade dos imigrantes mexicanos. Comecemos, pois, por Tony Baby, norte-americano que desfruta, segundo o que já comentados, de uma riqueza significativa conquistada por sua avó a custas da mão de obra ilegal mexicana.
Já sabemos que Tony Baby afirma que o trabalho é para ser executado somente pelos imigrantes mexicanos, afinal ele não precisa fazer um esforço sobre-humano como os imigrantes mexicanos para conquistar um espaço na sociedade norte-americana, visto que ele, justamente por ser um norte-americano, tem espaço garantido nessa sociedade. Nesse contexto, a personagem afirma sua identidade norte-americana desprezando a identidade dos imigrantes mexicanos, referindo-se a estes por meio de expressões depreciativas, como “boyes”, “burros” e “penderos”, e reforçando, por conseguinte, sua postura discriminatória em relação a tais imigrantes. De maneira implícita, essa personagem afirma que os imigrantes mexicanos não servem para outra coisa além de trabalhar para sustentar o luxo de cidadãos como ele.
Ainda que Tony Baby, de alguma forma, tenha que conviver com a cultura mexicana, visto que sua avó enriqueceu usufruindo da mão obra barata de muitos imigrantes mexicanos, ele nega qualquer tipo de hibridismo cultural que possa fazer parte de sua identidade. Assim sendo, Tony não é um sujeito culturalmente puro como tenta aparentar ser, pois ele vive em um ambiente que sofre intercâmbios culturais constantes.
Outras personagens relevantes no processo de afirmação da identidade norte- americana e a negação dos sujeitos mexicanos pertencem à família Foxye que, como já sabemos, por viver há alguns metros da fronteira, convive, constantemente, com imigrantes mexicanos, vendo-se, contudo, como sujeitos culturalmente puros, isentos da influência da cultura mexicana. É exatamente por viver em um ambiente híbrido, que a identidade dessa família sofre transformações constantes, embora não as reconheça. Dessa maneira, a família Foxye reafirma sua identidade cultural negando a identidade dos imigrantes mexicanos, já que, para ela, a história dos imigrantes é tão insignificante, que não merece ser respeitada. Segundo suas perspectivas, os imigrantes mexicanos não têm uma história da qual possam
sentir orgulho, visto que suas origens indígenas jamais poderão ser comparadas às origens européias das quais essa família descende.
Outro aspecto importante abordado por Méndez em seu romance é a oposição união vs. desunião, que ocorre entre as personagens imigrantes mexicanas pobres e as personagens norte-americanas ricas. Tal é o que se sucede a própria família Foxye e com a família de Ramagacha: com relação àquela, sabemos que Boby é o filho que vive toda a sua infância e boa parte de sua juventude em internatos, porque a preocupação de seus pais era acumular fortuna; em contrapartida, Ramagacha vai aos EUA em busca de recursos para salvar a vida de seus dois netos, únicos sobreviventes de toda sua genealogia familiar. Dessa maneira, enquanto a família Foxye não se importa com os laços familiares, Ramagacha luta para manter sua pequena família viva e unida. Aliás, a forma como o narrador se refere aos laços de Ramagacha com seus netos reforça a ideia de que, mesmo na pobreza, eles permanecem unidos.
Considerando tudo o que foi ponderado até o momento, podemos afirmar que a história das personagens de Méndez é marcada por relações de poder que acontecem não somente no interior do texto: essas relações também ocorrem tanto na sociedade mexicana, quanto na sociedade norte-americana, em que chicanos pobres são explorados por cidadãos norte-americanos, bem como por outros imigrantes também mexicanos. As histórias das personagens juiz Smith, Tony Baby, a família Dávalos de Cocuch e a família Foxye ilustram de maneira significativa essas relações.
Portanto, a obra de Miguel Méndez, apresenta uma visão maniqueísta das sociedades norte-americana e mexicana, estando suas personagens situadas entre o bem e mal, a pobreza e a riqueza, a honestidade e a desonestidade. Nesse sentido, as personagens imigrantes mexicanas, em sua maioria, são representadas como honestas e boas, exceto dona Reginalda e o Juiz Smith que são consideradas pelo autor implícito como desonestas e indignas de suas origens mexicanas. Por outro lado, as personagens norte-americanas são representadas, no romance, como exploradoras, preconceituosas e desonestas para com a cultura desses imigrantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Miguel Méndez convida-nos a fazer uma reflexão acerca da imigração mexicana por meio da literatura, revelando-nos, em sua obra Peregrinos de Aztlán, que as relações conflituosas, as quais fazem parte do cotidiano dos imigrantes mexicanos na fronteira e nos EUA não são problemas recentes. Trata-se, portanto, de reflexos de um longo processo histórico que é marcado por desigualdades sociais sofridas pelo México desde o período colonial e que se acentuou com a guerra com os EUA, tomando, atualmente, uma dimensão cada vez maior.
As relações históricas entre os dois países nos permitem observar que os primeiros imigrantes mexicanos nos EUA, a princípio, não deveriam ser considerados imigrantes, pois, antes mesmo da guerra estourar, eles habitavam um território que, até então, era mexicano. Com o fim da guerra por meio do Tratado de Guadalupe Hidalgo, o governo norte-americano assumiu o compromisso de garantir aos mexicanos os mesmos direitos assegurados aos norte- americanos. No entanto, pouco tempo depois de assinado tal tratado, os mexicanos passaram a ser tratados como estrangeiros em sua terra de origem, dando início, assim, aos conflitos imigratórios entre os dois países em questão. Com a perda de metade de seu território, o México passou a enfrentar diversos problemas sociais que se acentuaram com a Revolução Mexicana, o que contribuiu, de maneira significativa, para que a imigração mexicana para os EUA aumentasse cada vez mais.
Os conflitos socioculturais provocados pela guerra entre esses países, somados aos diversos problemas históricos mexicanos discutidos ao longo deste trabalho, explicam o porquê da imigração mexicana para os EUA ter tomado a dimensão conflituosa atual. Assim sendo, falar da imigração mexicana aos EUA não é uma tarefa fácil, pois exige que nos afastemos do senso comum que rodeia os vários fatos que circundam esse tema e, acima de tudo, exige que seja feita uma pesquisa séria para que possamos compreender a dimensão desse tema nas relações históricas que envolvem ambas as nações.
Méndez revela-nos, por meio de sua obra, que a maioria dos imigrantes mexicanos não cruza a fronteira só por não quererem mais viver em seu país, mas, sim, por uma questão de sobrevivência, sendo, pois, seus objetivos encontrar trabalho e mudar de vida, ainda que, na maioria das vezes, eles acabem vivendo à beira da miséria nos EUA e na fronteira. Seguramente, se tivessem condições de sobreviver com o mínimo de dignidade no México, esses imigrantes não arriscariam a própria vida na tentava de cruzar o deserto e a fronteira
para os EUA, e, muito menos, se submeteriam a viver sendo explorados e humilhados em um país que os despreza.
Estudar a obra de Miguel foi um exercício para se compreender a cultura mexicana por meio de seus diversos momentos da história, o que permitiu que nos aproximássemos dos conflitos vividos pelos imigrantes mexicanos nos EUA e na fronteira. Mas, para entender tais questões, foi necessário não apenas conhecermos o processo de imigração e os conflitos históricos nelas envolvidos; foi necessário, acima de tudo, que nos distanciássemos de nossa própria cultura a fim de que pudéssemos ter uma dimensão maior da cultura do outro, sem incorrer em comparações ou julgamentos. Nesse sentido, fizemos um longo percurso de estudo da história mexicana para que pudéssemos entender a trajetória histórica, cultural e identitária das personagens da obra, visto que, por meio delas, Méndez expõe os diversos conflitos que permeiam as relações conflituosas que fazem parte da história do México e que se refletem no cotidiano dos sujeitos imigrantes mexicanos nos EUA ou na fronteira.
A forma de composição do romance é, em si mesma, desafiadora, tal qual os enormes conflitos que envolvem e inter-relacionam as duas nações. A multiplicidade de vozes narrativas exige um desciframento do leitor, na mesma medida em que debruçar-se sobre questões relativas à colonização e à independência da América Hispânica é um caminho árduo de entendimento das relações culturais.
As personagens possuem trajetórias elucidativas e, muitas vezes, permeadas por um juízo de valor explícito de Méndez. No entanto, o todo, o entrecruzamento das personagens esboça uma perspectiva não redutora do problema: embora haja maniqueísmo, a complexidade de destinos retratados anuncia uma problemática que não possui resposta na realidade prática do século XXI.
Os problemas na fronteira entre México e EUA remetem-nos a cicatrizes de um passado que se reflete no presente, cicatrizes estas provocadas por diversos momentos históricos que, ao longo da história e ainda hoje, são responsáveis pelas relações conflituosas vividas pelas duas nações. A fronteira entre os países em questão não se constitui apenas de um espaço geográfico que abrange duas nações, mas, também, de duas histórias formadas por duas memórias, como demonstra a professora Ana Lúcia Trevisan Pelegrino (2004, p. 3-4) no seguinte trecho:
[...] A fronteira México-EUA, nos adverte Carlos Fuentes, não é uma fronteira, mas sim uma cicatriz. Esta definição, algo poético do narrador mexicano, torna-se interessante para dimensionar a “extensão temporal” desse tema. É preciso pensar os sentidos da fronteira como um limite entre dois países e também entre duas histórias, e ainda mais entre duas memórias. Parto desta imagem poética em seu limite
metafórico, mas assinalo que seus sentidos concretos, reais remetem a uma projeção intimista. Uma cicatriz é uma marca sempre visível do passado, de uma história, de um confronto, é uma linha que fica no corpo e que se faz visível. Tocá-la, olhá-la, é imprescindível no trajeto do sujeito, compõe um limite espacial onde presente e passado se encontram, mas também anuncia que o cotidiano deve impor-se às lembranças.
Entender de que forma essas cicatrizes se refletem no presente talvez seja um caminho para uma reflexão sobre o passado, uma vez que o outro merece ser respeitado nas suas