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Todas as vivências e interações do sujeito estão depositadas na sua memória, bem como aspectos históricos e culturais, narrativas do outro, aspectos

85 que passaram a fazer parte de sua memória. Freire ilustra essa ideia quando afirma que:

Carregamos conosco a memória de muitas tramas, o corpo molhado de nossas histórias, de nossa cultura; a memória, às vezes difusa, às vezes nítida, clara, de ruas da infância, da adolescência; a lembrança de algo distante, que de repente se destaca límpido diante de nós, um gesto tímido, a mão que se apertou, o sorriso que se perdeu num tempo de incompreensões, uma frase, uma pura frase possivelmente já olvidada por quem a disse.

A memória pode ser construída de acontecimentos vividos pelos sujeitos como também podem fazer parte dela, uma memória herdada, a qual, segundo Pollack (1992), ocorre por meio de um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado devido à socialização política ou histórica. Por exemplo, um sujeito pode não ter vivido na Idade Média para que fatos referentes a esse período façam parte de sua memória, as referências históricas e o sentimento de verdade expressos nesses fatos são suficientes para que os sujeitos tenham conceitos formados acerca desse período.

A memória é, portanto, um fenômeno construído, o qual pode ocorrer de maneira consciente ou inconsciente, de forma individual ou social. Assim, a construção da memória estabelece uma estreita relação com o sentimento de identidade, já que essa última está em constante transformação, sendo largamente influenciada pelas situações que perpassam o sujeito. Segundo Pollack (1992), a imagem que uma pessoa adquire, ao longo da vida, com relação a ela própria é a imagem, que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, mas também pode ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros. O autor acrescenta, ainda (p.5), que “ninguém pode construir uma autoimagem isenta de mudanças, de negociações, de transformações em função dos outros”. Seria difícil imaginar um sujeito fora de sua relação com o outro, o outro é fundamental na constituição do sujeito, e essa relação é que constitui a sociedade e suas regras.

Para Halbwacks (2006), não existe memória puramente individual, já que o indivíduo interage e sofre a ação da sociedade, nas diversas agências e instituições sociais, assim, estudar a parte implica em conhecer o todo. Destarte, pesquisas acerca das histórias de vida dos professores (NÓVOA, 1997) permitem descortinar aspectos sociais, culturais e ideológicos que interferem na atuação do professor.

86 Com vista aos pressupostos defendidos nesta pesquisa, com referência à necessidade de refletir, criticamente, sobre os acontecimentos do mundo globalizado de hoje, e conhecer o porquê de as circunstâncias serem de determinada maneira e não de outra, para que os sujeitos atuem na sociedade de forma ativa e não como meros telespectadores, o método autobiográfico ajusta-se perfeitamente aos propósitos desta pesquisa.

O presente trabalho de pesquisa visa apontar lacunas existentes na formação do professor de LI, as quais interferem na sua prática pedagógica, bem como intervêm na constituição de sua identidade profissional, levando ao conhecimento da realidade em se encontram esses professores em diferentes instituições de ensino, tais como escolas particulares, públicas e escolas de idiomas, identificando os problemas e formas de superação destes, assim como possibilitando conhecer a imagem que esses professores têm de si mesmos enquanto profissionais.

Para atingir tais objetivos, é necessário levar em conta o caminho percorrido por esses sujeitos, uma vez que a identidade está em constante transformação, em função das suas vivências e da maneira como cada um percebe e também da maneira como cada indivíduo vê o outro e é visto por ele, bem como as opções que cada um tem de fazer como professor cruza sua maneira se ser com sua maneira de ensinar e desvenda, na sua maneira de ensinar, a sua maneira de ser (Nóvoa, 1992). Assim, ainda conforme o autor citado (p. 17), “é impossível separar o eu profissional do eu pessoal”.

Outro argumento em favor do método de pesquisa aqui privilegiado é apontado por Goodson (1992, p. 75), ao afirmar que

os estudos referentes às vidas dos professores podem ajudar-nos a ver o indivíduo em relação com a história do seu tempo, permitindo-nos encarar a intersecção da história de vida com a história da sociedade, esclarecendo, assim, as escolhas, contingências e opções que se deparam ao indivíduo.

Para a condução desta pesquisa, primeiramente, houve uma busca por informações acerca de aspectos que envolviam o ensino da LI no Brasil, tais como o histórico, os fatores relacionados à formação dos docentes nessa área, bem como a consulta a documentos legais e grades curriculares. Foi também pesquisado o conceito de identidade e algumas das várias crenças acerca da figura do professor de LI, sua atuação profissional e possibilidades de trabalho nos diferentes tipos de

87 instituições a servirem de palco para esta pesquisa. Esse embasamento teórico foi necessário para o desenvolvimento dos capítulos iniciais e servirá de base para a análise dos dados a serem obtidos pela pesquisa autobiográfica realizada.

Num segundo momento, a pesquisa aborda a análise de autobiografias, as quais foram solicitadas a professores de língua inglesa de diferentes instituições de ensino: escola pública, particular, escolas de idiomas e cursos de educação de jovens e adultos. Devido às características deste estudo se adequarem à pesquisa qualitativa, para constituir o corpus da pesquisa, foi solicitado a quatro professores de LI, um de cada instituição mencionada acima, que escrevesse uma dissertação com o seguinte tema: “Como me tornei professor de LI e como vejo minha atuação no contexto atual de ensino”.

Sobre a pesquisa qualitativa, Vasconcelos (2004 p. 12) esclarece que

A pesquisa, quando de natureza qualitativa, não requer o levantamento de hipóteses, no entanto, ao pesquisador, sempre se apresentam alternativas de trabalho, que posteriormente se configuram como adequadas, ou não, à compreensão do objeto estudado.

Ainda sobre a pesquisa qualitativa, Santos Filho e Gamboa (2007) apud Couto (2009, p. 73) afirmam que esta

[...] está mais preocupada com a compreensão ou interpretação do fenômeno social, [...] seu propósito fundamental é a compreensão, explanação e especificação do fenômeno. O pesquisador precisa tentar compreender o significado que os outros dão as suas próprias situações

Por meio desta pesquisa, procurou-se compreender mais a fundo o universo que cerca o ensino da língua inglesa, tendo como centro o professor, inserido em um dado contexto sócio, histórico e cultural, a partir do qual tem oportunidade de expressar sua história de vida. Espera-se que surjam, a partir desta pesquisa, reflexões acerca desse universo que venham a contribuir para a formação de professores mais críticos e comprometidos com o ensino de LI, atuando de forma a conhecer e participar do mundo globalizado e não de modo alienante e reprodutor dos ideais das classes/nações dominantes. Como desfecho, vale citar a declaração de Freire (2007, p. 51):

A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a

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ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura. [...] E, na medida em que cria, recria e decide vão se conformando as épocas históricas. É também criando, recriando e decidindo que o homem deve participar destas épocas.

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4. PENSANDO A IDENTIDADE DO PROFESSOR DE INGLÊS POR MEIO DE