Baptista (2001, p. 110-111)contribui para a reflexão sobre a ação profissional no cotidiano, atentando para os riscos de desqualificação da prática profissional e de supervalorização de determinadas tarefas relacionadas ao saber teórico, “tendo em vista compreender e explicar a profissão, mas raramente instrumentalizá-la”. A autora atenta ainda para o risco de banalização da vida humana e de perda de
capacidade da paixão e indignação – elementos fundamentais para uma ação comprometida.
Assistente social – gestão 1
Você desvaloriza o micro. Eu ouvi na faculdade e isso foi desconstruído na própria faculdade. Então qual problema é mais grave: “é o daquela empresa que vai mandar 1.500 funcionários embora, ou é o dessa mãe que está carregando seu filho deficiente por 5 quilômetros para levá-lo até à AACD [Associação de Assistência à Criança Deficiente]?”; nenhum problema é maior do que o outro. As duas situações precisam de intervenção. Então, eu não vou desqualificar uma – o atendimento à família, o atendimento no micro – porque eu tenho uma situação macro. Até porque tudo isso é parte de um processo socioeducativo mesmo, é uma construção. (24 abr. 2014)
Assistente social – gestão 2
Eu acho que é importante, sim, todas essas questões, mas você só vai conseguir resolver isso, quando você resolver aqui embaixo também. E, para mim, nunca foi tão difícil, porque eu sempre trabalhei com movimentos sociais. Então, quando você consegue fazer esses dois lados, você não sofre tanto. E eu tenho colegas que trabalharam comigo no Creas que sofriam muito por isso, porque elas não conseguiam fazer a relação entre o que é ser militante de uma causa, que você considera que é uma questão muito mais ampla do que isto (o trabalho com famílias), no qual você tem que lutar por uma condição de vida.
Eu tenho clareza disso e eu faço isso, só que, no Creas, eu estou lá para atender as famílias. Isso não significa que eu não vá fazer esse trabalho político também, porque eu acho importante. (24 abr. 2014)
Profissional de educação permanente 1
Ao meu ver, a categoria profissional está um pouco abandonada nessa discussão, porque, no cotidiano, o enfrentamento é esse: cabe a você uma atribuição quando se está no lugar institucional (que é uma política pública) cuja função é encaminhar [seus usuários] para algum lugar e a profissão fica cobrando desse profissional. Eu fiquei com dó de uma mulher que eu encontrei em Pindamonhangaba na semana passada. Ela dizia assim “eu estou num dilema, eu sofro muito, porque eu não sei se eu estou trabalhando para a população ou se eu estou atrasando a revolução”. “Eu estou trabalhando para o Capital”; “eu estou atrasando a revolução”. Olha o dilema! Em nenhum momento, passou pela cabeça dela o que ela tem que fazer com o usuário. Por isso ela não discute o trabalho dentro de uma política de Estado.
Em face desses relatos – e da tendência de desvalorização do trabalho com famílias –, Faleiros (2008,p. 44) afirma que:
Não podemos desprezar a intervenção do Serviço Social no nível micro, nas suas relações imediatas, no apoia às famílias, no apoio às mulheres, aos chefes de famílias pobres, às adolescentes grávidas, aos jovens explorados sexualmente, no trabalho direto com esses segmentos, a curto e médios prazos, porque a mudança é complexa e deve ser articulada num processo micro-macro, pois o mais fundamental – como a totalidade em relação – não está separado do particular e das manifestações imediatas e das mediações estruturais.
Também, nessa perspectiva, a PNAS (BRASIL, 2004, p.16) aponta em seu texto que “a proteção social exige a capacidade de maior aproximação possível do
cotidiano da vida das pessoas, pois é nele que os riscos, vulnerabilidades se constituem”.
Baptista (2001), por sua vez, ratifica a importância de perceber o cotidiano como espaço privilegiado da intervenção profissional, o “mundo da vida”, o “todo dia”. O assistente social necessita saber circular pelo ambiente cotidiano com propriedade para refletir e fundamentar sua intervenção.
Para a autora, a cotidianeidade
[...] é apenas um ponto de partida para uma ação consequente, no qual o profissional por aproximações sucessivas vai desvelando sua objetividade, caminhando do particular para o universal, do campo das microatuações para o das relações sociais mais amplas, para retornar ao particular, às ações localizadas, em outro nível de reflexão. (BAPTISTA, 2001, p. 119).
Observa-se um anseio por procedimentos, pela definição de metodologias, instrumentais e procedimentos que expliquem ou apontem o “como fazer” no trabalho com famílias:
Assistente social – gestão 1
Você tenta tirar procedimentos, acho que precisa individualizar, sim. Pelo menos, por núcleo familiar, porque cada família funciona de um jeito. Tem famílias que, no intuito de proteger demais, se tornam vulneráveis. Tem famílias que não conhecem o que é proteção. [...] Por isso, por mais que a gente tente tirar procedimentos, não dá pra colocar num pacote. (24. abr.
2014)
Assistente social – gestão 2
Eu fico pensando nos blocos: tinha tantas famílias de crianças em Saica [Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes], tantas famílias de mulheres vitimas de violência, etc. (24 abr. 2014).
Assistente social do Creas-Paefi 3
Quando se fala na Saúde, há um curso de boas práticas no qual ele traz procedimentos. Não assim: “Você vai receber a pessoa assim ou assado”. Não, não é isso, mas você precisa de uma linha, de um norte, de procedimentos, isso a gente nunca teve.
Me lembro de que bem no comecinho teve num seminário que desdobrou num grupo de trabalho, por bastante tempo, sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes. Tinha esses procedimentos, mas isso acabou se perdendo no tempo. (27 mar. 2014)
Na busca por respostas ou referências para responder à pergunta “como trabalhar com famílias?”, Bronzo (2009) apresenta uma reflexão sobre o programa
Puente: Entre la Familia y sus Derechos, desenvolvido e utilizado no Chile, que
apresenta metodologia definida, estipulando procedimentos, periodicidade das visitas domiciliares e atendimentos. As atividades são desenvolvidas na perspectiva de fortalecimento de ativos, desenvolvimento de capacidade e empoderamento das famílias e manejo do risco.
Na perspectiva deste estudo, tais termos denotam que as famílias não possuiriam capacidades ou seriam inativas e acomodadas, precisando de estratégias práticas que as mobilizassem. Contudo, feitas as devidas ressalvas, o programa Puente possui características relevantes como: articulação da rede de serviços e estudo do território e da realidade das famílias (características também presentes na PNAS).
Em se tratando de trabalho com famílias em situação de risco e violação, como é o caso do Paefi, há que se refletir que implantar procedimentos e metodologias definidas de intervenção pode implicar padronização, não apenas o trabalho, mas também a realidade das famílias. Como se as situações não ocorressem de forma diversificada em cada pessoa ou grupo social.
[...] as ferramentas metodológicas devem ser edificadas com base nas especificidades dos sujeitos, em suas identidades, desejos, necessidades, demandas e realidade social, histórica e cultural, isto é, as metodologias devem responder à diversidade sociocultural do país, às particularidades de cada território. (ANDRADE; MATIAS, 2009, p. 216).
Não poucas vezes nota-se nas falas das entrevistadas o atendimento de “casos”, isto é, a individualização como procedimento de intervenção no trabalho com famílias no âmbito da proteção social especial. Interessa destacar duas frentes dessa polêmica. A primeira diz respeito à defesa de que a assistência social mudou, avançou na perspectiva de direitos e da coletividade:
Uma visão inovadora, dando continuidade ao inaugurado pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei Orgânica da Assistência Social de 1993, pautada na dimensão ética de incluir “os invisíveis”, os transformados
em casos individuais, enquanto de fato são parte de uma situação coletiva; as diferenças e os diferentes, as disparidades e as desigualdades.
Nesse sentido, afirmam as entrevistadas: Assistente social do Creas-Paefi 3
Assim, a impressão que dá em nossa caminhada é que pode chegar o momento dos Creas “implodirem”. Até porque não é à toa que ele é um centro de referência especializado. E, pelo menos na nossa cidade, a gente não tem lá dentro técnicos especializados nas demandas e tudo mais. E quando a gente fala de fazer grupo é uma responsabilidade muito grande, principalmente quando você está atuando com violação de direitos e violências. Então como você vai agrupar pessoas que sofreram situações de violências tão absurdas? Ou mesmo a situação de rua? Como você vai agrupá-los? E qual a intencionalidade desse agrupamento? Qual o objetivo final desse trabalho?
Na unidade onde eu trabalho, por iniciativa técnica, nós tivemos a experiência com um grupo de mulheres vítimas de violência. [porque a profissional tem especialização no tema e compõe uma rede de proteção à mulher vítima de violência] (27 mar. 2014)
Assistente social do Creas-Paefi 2
Você estava falando de ter especialistas. Quando a gente passa no concurso, vem no nosso holerite “especialista em assistência e desenvolvimento social”, mas não é isso que necessariamente somos. Somos formados em Serviço Social, não necessariamente somos especialistas. Mas nos é exigido, quando eu digo nos é exigido, o cotidiano nos exige isso, o trabalho nos exige que sejamos especializados em criança e adolescente, em situação de rua, em situação de violência, em idoso em situação de violência, em vulnerabilidade, em mulher vítima de violência e isso a gente tem que buscar por um esforço profissional nosso.
(27 mar. 2014)
A pesquisadora perguntou se os profissionais acabam se interessando ou lendo mais sobre um determinado tema:
Assistente social do Creas-Paefi 2
Sim, entrando num grupo de discussão sobre violência, fazendo parte de uma rede que se identifique: “Então, esse público pode deixar comigo que eu me identifico mais, que eu atendo. Ah, não! Eu me identifico mais com idosos... faço parte da rede do idoso em fóruns de discussão... então, quando vem caso de idoso pode deixar que eu atendo”. A gente acaba se dividindo. (27 mar. 2014)
Assistente social do Creas-Paefi 1
Você tem até um gosto, uma preferência em relação a um determinado tema, porém você tem que estar atento a tudo o tempo todo. (27 mar. 2014) Assistente social do Creas-Paefi 2
A gente tem falado até agora dessa falta de suporte, falta de fluxo... isso reflete no Paefi, no acompanhamento das famílias. Por que o que de fato você vai usar para acompanhar essas famílias? O que você vai fazer?
São tantas as violências, tantas as violações! Então, eu acompanho todas as famílias da mesma forma? Não!
E como o programa, que é o Paefi, me dá suporte para eu acompanhar cada família na sua especificidade? E isso fica uma lacuna para a gente, porque nós ficamos “patinando” e tem que pegar cada família e trabalhar a realidade de cada família. E, aí, o Paefi vai se constituir com essa cara: cada família de uma maneira.
A gente tem uma angústia na Sé que é o grupo. É hora de fazer o grupo do Paefi. Ai, meu Deus! Quem que vem para o grupo do Paefi? Todo mundo! Vem o idoso, a criança, o adolescente, a família, a pessoa em situação de rua. O que trabalhar nesse grupo? Com essa diversidade? Começar do básico mesmo? O que falar? O que fazer? (27 mar. 2014)
Assistente social do Creas-Paefi 3
Justamente o que você falou: “Eu estou fazendo isso, porque é uma diretriz da minha secretaria ou é a minha formação? Ou é o que o Creas tem que fazer? Ou é o meu senso comum?”
A gente fez uma discussão esses dias – lá nas reuniões – a respeito da escuta: estamos perdendo a escuta [...]. Porque ao mesmo tempo em que existe uma diversidade gigante, os casos têm algumas semelhanças, seja pela situação de rua, seja a situação de violência . [...] o histórico [que nos é trazido] é muito comum.
E, aí, por esse volume de atendimento, você vai perdendo a escuta e vai usando procedimentos de atendimento quase que padronizados, até para você dar conta de atender aquela demanda que está na sua frente ou trabalhar naquela pilha de papel que tem na sua mesa. (27 mar. 2014) Assistente social – gestão 2
“[...] porque o trabalho com famílias a gente faz. Se a gente tiver condições, a gente sabe fazer um trabalho com famílias, isso a gente sabe”. (24 abr. 2014)
Assistente social – gestão 1
É, eu acho que a gente sabe fazer. (24 abr. 2014) Assistente social do Creas-Paefi 3
Uma coisa muito interessante é que as unidades de Creas da cidade funcionam nos procedimentos são... “cada um se vira nos trinta, cada um faz aquilo que a equipe entende que seja mais coerente”. (27 mar. 2014) Assistente social do Creas-Paefi 1
E acaba criando um jeito único, não uniformizado. Eu acho isso um prejuízo, porque [o Creas] é a cara da assistência na alta e na média complexidade. Ele é a cara da assistência na cidade. Se você mora em Santo Amaro, você é atendido de uma forma, se você chega na Mooca, é atendido de outra. (27
Assistente social do Creas-Paefi 2
E para nós, profissionais, também: hoje eu trabalho no Creas-Sé, se um dia eu for trabalhar no Creas-Capela do Socorro, eu vou ter que reaprender tudo do zero. (27 mar. 2014)
A respeito da complexidade das situações no Paefi, seja pelas tentativas de “encontrar saídas” para as situações atendidas, seja pelo volume da demanda ou ainda pelas condições de trabalho, nota-se que os profissionais dos Creas-Paefi da capital estão desgastados.
Raichelis (2011,p. 434-435) aponta que a condição de trabalho do assistente social produz um duplo processo contraditório:
a) de um lado, o prazer diante da possibilidade de realizar um trabalho comprometido com os direitos dos sujeitos violados em seus direitos, na perspectiva de fortalecer seu protagonismo político na esfera pública; b) ao mesmo tempo, o sofrimento, a dor e o desalento diante da exposição continuada à impotência frente à ausência de meios e recursos que possam efetivamente remover as causas estruturais que provocam a pobreza e a desigualdade social.
A afirmação da autora é ratificada na fala da assistente social do Creas-Paefi 3 (27 mar. 2014):
Eu posso dizer que, no Creas, o assistente social está num momento de sofrimento. De verdade. De adoecimento. Ele está chegando – na questão física, mental – no limite. Até porque a gente percebe que não há uma defesa do trabalho também. Então, quando você recebe algum tipo de cobrança, de reiteração, de solicitação, não tem o respaldo, tem que atender e pronto.
É porque você não respondeu esse ofício. Não é porque você não tem estrutura. Eu passei por uma situação dessa, fui cobrada por uma juíza por não ter conseguido fazer uma visita e a juíza manda um expediente para a Secretaria dizendo da ineficiência da unidade. Ineficiência: olha o que representa essa palavra. E todo o trabalho que a gente faz? Então é sofrimento, adoecimento e desestímulo também. [...] hoje a gente está num momento de questionar essa coisa de “eu não sou especializado tanto assim”, porque isso vem do amadurecimento dessa equipe, desses profissionais que estão lá. Posso te dizer da unidade em que eu trabalho, muito se pensa sobre a questão da violência, nós queremos muito avançar, mas fica muito na responsabilidade do profissional, do compromisso dele.
De fato, as circunstâncias agudas a que ficam expostos na realidade dos Creas-Paefi de São Paulo o colocam no limiar do adoecimento profissional. Diante disso, além da transformação na estrutura das instituições, Raichelis (2011) aponta
que um caminho para avançar na luta coletiva do trabalho profissional35 seria forjar sujeitos coletivos capazes de enfrentar essas situações de exploração. Salienta, ainda, a necessidade de “luta pela qualificação profissional, por espaços coletivos de estudo e de reflexão sobre o trabalho desenvolvido [...]” como parte da melhoria das condições de trabalho dos assistentes sociais e da oferta de serviço à população usuária (RAICHELIS, 2011, p. 436).
No próximo capítulo aborda-se a perspectiva da educação permanente e da reflexão cotidiana como espaços de construção de conhecimento para o trabalho social com famílias nos Creas-Paefi.
CAPÍTULO 4
A PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO PERMANENTE COMO POSSIBILIDADE DE MEDIAÇÕES NO COTIDIANO DE TRABALHO
4.1 O Porquê de Aproximar as Reflexões da Educação Permanente ao