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Utbytte og tilvirkning

In document Lofotfisket 1950 (sider 33-57)

O caráter narcisista, pelo ponto de vista da Escola Bioenergética, tem sua correspondência no corpo. A defesa narcisista terá seu equivalente no organismo e poderá ser observada na estrutura corporal da pessoa, bem como no seu gestual, na maneira de andar e respirar, e na sua vida sexual, por exemplo, além de na incapacidade espiritual de sentir a vida no próprio corpo. William Reich107, em sua obra tão importante, Análise do Caráter (1998), registrou as couraças corporais de proteção do ego contra sentimentos ameaçadores; entre eles, o amor e sua integração na sexualidade – o coniunctio. A essência amorosa do indivíduo, pela perspectiva reichiana, está resguardada, defensivamente, por um sofisticado mecanismo de defesa corporal, que distancia o indivíduo da capacidade de amar plenamente e de desenvolver o amor adulto que Reich definiu como uma capacidade de entrega. Seguindo os passos de Freud, Reich foi precursor da visão Bioenergética.

Curiosamente, o autor, tão distante da Teologia cristã – médico, psicanalista, judeu e comunista – definiu Jesus Cristo como uma expressão nítida do homem capaz de amar, desinteressado de gratificações narcísicas, aberto à compaixão e sensível às injustiças do mundo. Reich, em outro livro de grande beleza, O

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Wilhelm Reich (1856 - 1957) nasceu na Ucrânia em uma família judia germanizada e morou na Áustria (ao fugir dos russos na Primeira Guerra Mundial), na Noruega (fugindo do nazismo, à época da Segunda Guerra Mundial) e, finalmente, nos Estados Unidos. Formou-se em medicina em Viena, onde conheceu Freud, que se tornou seu mestre. Nos Estados Unidos, foi perseguido por fraude (pela criação da máquina acumuladora do orgônio, substância vital da energia sexual), condenado a dois anos de prisão e morreu no cárcere. Foi, por muitos considerado um gênio. Mantinha foco na estrutura do caráter e influenciou muitos estudiosos, como Alexander Lowen, da escola Bioenergética e Fritz Perls, da escola Gestáltica. Entre suas diversas obras, estão O Caráter Impulsivo e Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual.

Assassinato de Cristo (1995), aprofunda-se na ideia de que Jesus é a antítese do

homem insensível, incapaz de ter à sua disposição a energia orgástica. Para o psicanalista, o indivíduo narcisista tem seu corpo bloqueado ao prazer, ao carinho e mesmo a uma sexualidade forte e criativa. Reich postulava que, quando Jesus falava de Deus, não estava falando de uma entidade antropomórfica localizada no céu, com quem mantinha um diálogo diferenciado, nem mesmo com uma ideia de Deus (ou representação). Reich sabia, pela sua incrível sensibilidade e acuidade científica, que pessoas livres das amarras defensivas têm um encontro profundo com a própria centralidade.

O estudioso dizia que, se a palavra “Deus” causasse espécie, poderíamos substituí-la por “energia”. Mais especificamente, por “energia cósmica”. Assim, Jesus sentia a energia cósmica, sentia o fluxo da vida. Sua religiosidade não se fazia apenas por textos sagrados. Ele sentia Deus no presente, e seu desejo era compartilhar com o próximo a mesma bem-aventurança que possuía. Para Reich, Jesus era, portanto, símbolo do “caráter genital”, isto é, o homem que ama e tem em si, integrados, espírito e matéria, céu e terra, enfim, as polaridades que definem a essência do homem em contato com o seu centro, onde habita a divindade.

O homem integrado ao seu corpo está mais em contato com a oxigenação de seu organismo e, ao respirar, inspira a seiva da vida, que possui nutrientes que abastecem não só o corpo, mas o espírito e a alma. A energia vital está represada nas estruturas narcisistas. O essencial distanciou-se. Apenas a imagem de si, refletida no outro, importa ao indivíduo narcisista. A natureza, os animais, a harmonização dos seres viventes com o princípio criador (que foi tão bem observada por Jesus e Francisco de Assis, entre outros) escapam da visão do caráter narcisista. O corpo do outro e o seu próprio devem ser subjugados pelo princípio do poder. Ironicamente, então, apesar do prazer de ser observado e admirado, o narcisista está impedido de amar e ser amado. Sua energia está aprisionada e ele não se percebe fazendo parte de um todo que o antecede e o contém.

Uma de minhas pacientes teve dois sonhos que mostraram claramente a sua defesa de dissociação da vida afetiva à custa do seu corpo e do seu self verdadeiro. Ela era o tipo pensamento-sensação108 e perfeccionista ao extremo, pois tinha muita necessidade de ser admirada e não podia suportar críticas. Não expressava

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Segundo a tipologia proposta por Jung, isto é, percebia o mundo pela função sensação (pelos sentidos) e julgava os fatos pela função pensamento.

sentimentos e sequer os reconhecia, como sua mãe. Tinha muita dificuldade de nomeá-los. Muitas vezes, observei, durante as sessões, que ela cometia o ato falho de substituir a palavra “sentimento” por “sofrimento”. Em um de seus sonhos, no início da análise, havia um passarinho que estava dividido em duas partes: cabeça e corpo. Em outro, que ela teve em uma ocasião de sangramento de uma ferida narcísica (devido a um relacionamento amoroso) e grande ansiedade, havia uma mulher enlouquecida que a perseguia, com o pescoço sangrando tanto que não se podia ver seu peito (morada do coração). Seu inconsciente apontava para a necessidade de integrar cabeça e corpo, razão e sentimento. Seu corpo, também, não se calava. Quando criança, tinha sérios problemas de garganta (reflexo, também, de sua incapacidade de expressar-se) e, quando adulta, teve câncer no pescoço. Ela também me relatava que, em sessões de reiki, ela tinha falta de ar e sentia profunda angústia, desespero e vontade de chorar, quando as mãos do terapeuta se aproximavam de seu peito, mais uma vez apontando para uma energia represada, ou sentimentos ocultos.

4.7.1 Filho-espelho do pai narcisista

O narcisismo dos pais é projetado na criança: “Sou especial e, portanto, meu filho é especial”. (LOWEN, 1993, p. 22).

Filhos de pais que se sentem especiais, diferenciados, um produto fora de catálogo, imprimem em seus filhos a mesma dinâmica narcísica. Os filhos buscarão o mesmo nível de idealização para si mesmos. Buscarão, para si, a admiração alheia. Estarão mais na busca da fama do que de vínculos que se caracterizem pelo sentimento, pelo prosaico, pelo tempo à disposição do afeto e por uma escuta mais refinada do outro. A identificação primária com o ideal narcisista de um pai ou de uma mãe, ou mesmo um ideal que possamos chamar de central em uma família específica, dificilmente será removida ou, em linguagem mais precisa, transformada. Isso porque as deformações narcisistas promovem um falso-self que será rígido, pois terá sua base defensiva no próprio corpo, o que dissocia o princípio da razão da vida corporal, no sentido amplo: sexo, sentimento, emoção, compaixão.

Para ilustrar a dissociação do sujeito em relação à natureza e demonstrar a identificação projetiva de um filho em relação ao seu pai, citarei um caso que me impressionou pela sua radicalidade. Trata-se de um homem narcisista que foi meu paciente e que gostava do chamado high society desde a adolescência. Seus pais cultuavam a autoimagem; sentiam-se especiais e sentiam que seu filho era também especial. Pai e filho participavam de caçadas na África, que distorciam os valores do meu paciente. Matar um elefante, para ele, aos 14 anos, não parecia estranho. Ser fotografado ao lado do pai, com a vítima morta aos seus pés, era um trunfo, ainda que o elefante tivesse sido assassinado sem nenhuma chance de defesa. Qual o motivo da matança? A vaidade. O troféu exposto na fotografia conferia a pai e filho ares de heróis. Um ato de heroísmo pré-fabricado que mostrava a distância de meu paciente de um dos valores mais preciosos da vida, que é justamente a sua preservação. Denotava, também, sua possessão pelo complexo paterno negativo. Outros símbolos eram por eles cultuados: aviões particulares e notas em colunas sociais, para eles, eram sinônimos de felicidade e realização do ego ideal. Seu pai, narcisista, era um profissional de renome e de visibilidade. Sua mãe, também um tipo narcisista, idealizava seu marido e o tinha como um super-homem. Ele era o centro da mandala dela e de toda a família, inclusive a expandida. Meu paciente, ao interiorizar sua mãe (seu self-objeto), passou também a idealizar o ideal de sua mãe, ou seja, o marido hipervalorizado dela. Ele não teve uma identificação exatamente afetiva com seu pai. Era homossexual e não conseguiu uma aliança legítima com o mundo masculino. O seu ideal de ego era grandioso demais para que pudesse desenvolver valores humanos e metas reais para uma vida em que coubessem humildade, afetividade e tudo aquilo que caracteriza valores edificantes. Sua postura corporal era rígida: seu queixo apontava para cima, seu peito era ereto e estufado, passando sempre a imagem de herói, ao mesmo tempo em que funcionava como uma muralha. Ele não conseguia abraçar, nem se deprimia.

Quase todas as referências que meu paciente fazia a si mesmo, no intuito de ser idealizado pelo outro, continham alusão ao seu pai, que por ele era idealizado. Disse-me, por exemplo, com leve tom de arrogância e ingenuidade: “Quando o corretor avaliava a fazenda que era do meu pai, disse que só pelo fato de ela ter pertencido a ele, já valia mais”. A sua fala demonstrava o seu desejo de exibicionismo, evidenciado pela projeção de seu self grandioso na propriedade. Seu ego vivia em inflação permanente, como se ele tivesse nascido com algum traço que

o colocasse em condição superior aos demais. Em outros momentos, comentava: “Dificilmente passa um dia em que não encontre alguém que não tenha sido cliente do meu pai”. Seu pai, para ele, possuía o numinum que sacraliza os objetos, inclusive ele, o filho. Na visão de Kohut, seu pai era um self-objeto em que o seu self se ancorava e que lhe conferia a autoestima e a sensação de self grandioso que ele mantinha. Seu valor próprio estava misturado ao valor de seu pai. Seu self estava, de alguma maneira, fundido ao self-objeto-pai. Durante uma longa análise, ele foi lentamente se diferenciando do self-objeto-pai e ganhando autonomia e senso de identidade própria, bem como leveza de movimentos. Sua presença também passou a ser mais leve para os outros.

É possível imaginar, assim, o malefício de uma dinâmica familiar em que o pai, por exemplo, seja um tipo narcisista, dissociado de sua vulnerabilidade. Falo de uma vulnerabilidade criativa, típica de quem é capaz de ser afetado pela vida, tanto para a dor quanto para a alegria; tanto para o êxtase quanto para o sofrimento. É típica das crianças ou daqueles que interagem não apenas com a razão, mas também com o coração ou, se preferirmos, com o sentimento. Pelo viés de uma psicologia corporal, podemos imaginar que o indivíduo vulnerável possui em seu self a capacidade de sentir. Tem um corpo solto, que respira facilmente, sem couraças significativas e sem rigidez perceptiva a olho nu. O pai e a mãe narcisistas, blindados, que agem apenas por representações autorreferentes, podem projetar (dependendo da dinâmica familiar) a sua vulnerabilidade sobre seus filhos e atacá- los. Os filhos, por sua vez, facilmente podem identificar-se com a parte inconsciente do pai ou da mãe (a sombra) que foi projetada neles, isto é, passarão a se desqualificar, na vida intrapsíquica, em um desdobramento por meio do qual o que estava fora passa a ser o de dentro. Podem, também, identificar-se com o ideal grandioso de pais narcisistas. Podem, ainda, interiorizar ambas as polaridades do self, já que o self é bipolar, e oscilar entre a polaridade grandiosa e a de fragilidade e inferioridade.

In document Lofotfisket 1950 (sider 33-57)