Procurei deixar claro que o narcisismo faz parte do arcabouço psíquico do ser humano. Todos somos narcisistas em maior ou menor grau. Sentimos o mundo narcisicamente. A própria criatividade está vinculada ao narcisismo, tanto que o artista, com frequência, é visto como um narcisista. Porém, inconscientes de nossa precariedade cognitiva, tendemos a achar que nosso ponto de vista é o centro do universo, enquanto ele é apenas a vista de um ponto. Esse ponto percebe os objetos e a si por representações que foram construídas narcisicamente. Por isso mesmo, nosso narcisismo nos coloca em constante frustração, desenhando, no decorrer da vida, o desmanchar do véu de Maya.
A alma humana contém, em si, as fantasias que levam o homem à ação. Levam-no à própria vida, como bem destaca Jung:
Um ser que tem alma é um ser vivo. Alma é o que vive no homem, aquilo que vive por si só gera vida; por isso, Deus insuflou em Adão um sopro vivo a fim de que ele tivesse vida. Com sua astúcia e seu jogo de ilusões, a alma seduz para a vida a inércia da matéria que não quer viver. Ela (a alma) convence-nos de coisas inacreditáveis para que a vida seja vivida. A alma é cheia de ciladas e armadilhas para que o homem tombe, caia por terra, nela se emaranhe e fique preso, para que a vida seja vivida, assim como Eva, no paraíso, não sossegou até convencer Adão da excelência da maçã proibida. Se não fosse a mobilidade e a iridescência da alma, o homem estagnaria em sua maior paixão, a inércia. Um certo tipo de razoabilidade é seu advogado, e um certo tipo de moralidade acrescenta sua bênção. Porém, ter alma é a ousadia da vida, pois a alma é um daimon doador de vida, que conduz seu jogo élfico sobre e sob a existência humana, motivo pelo qual, no interior do dogma, ele é ameaçado e favorecido com castigos e bênçãos unilaterais que, de longe, ultrapassam os merecimentos humanamente possíveis. Céu e inferno são destinos da alma e não do cidadão, que em sua nudez e estupidez não saberia o que fazer consigo numa Jerusalém celeste. (JUNG, 2002b, p. 36).
A alma se confunde com o daimon: não é moral. Quer vida e indiferenciação, enquanto o espírito quer diferenciar, em vez de unir. Mas é na alma que está o gosto pela luta e pela conquista, a curiosidade, a sensualidade e o narcisismo. A alma
pinta o mundo com suas cores, enquanto o espírito quer o preto no branco. Eles não vivem separados, mas, com o tempo, o espírito cresce, pois, se a alma é uma expressão do corpo, ela também envelhece e, aos poucos, vai perdendo os desejos, as esperanças e as ilusões. O espírito, ao contrário, vai, cada vez mais, se reconhecendo e tornando-se o que era desde o princípio: o “eu sou”.
O princípio de realidade faz desbotar várias concepções ilusórias acerca do mundo. Nossas representações passam por violentas metamorfoses no decorrer da vida. A condição humana está envolvida num complexo jogo que pode lembrar a Alegoria da Caverna de Platão109 (PLATÃO, 1987). Com o tempo, passamos a entender que nossas representações são meras sombras em uma caverna que é nosso próprio aparelho psíquico. De outra maneira, também pode ser dito que existe uma trajetória teleológica em que, gradativamente, vamos percebendo a impermanência de todas as coisas, como nos ensina o budismo. Observamos, em nossa curta permanência no espaço-tempo, que nosso envelhecimento obedece a uma marcha definida, na qual vamos nos encurvando em um mundo que não para de se renovar, alheio à nossa marcha solitária. A natureza – ou a Vontade – é indiferente ao nosso sofrimento narcísico. Vamos perdendo a beleza, a força física, o poder de sedução, o fôlego, o vigor e também o desejo de construir algo de grandioso, além das esperanças de permanecermos no tempo. Enquanto isso, observamos outros que vão nascendo, construindo coisas grandiosas, e tornando-se belos, numa corrente de gerações que nos esquecerão com alguma facilidade.
As fixações narcísicas dificultam o amadurecimento da personalidade e as necessárias transformações narcísicas. O self grandioso, respaldado por uma cultura que o privilegia, envolve a Consciência eclipsada nos véus da deusa da ilusão.
Quando passamos a nos identificar mais com o espírito e com o desenvolvimento da Consciência, e a luz que provoca a sombra na caverna nos
109
Na Alegoria da Caverna, Platão imagina que alguns homens vivam em uma caverna que tem uma abertura para a luz. Esses homens estão presos e olham somente para a direção oposta à luz, onde são formadas sombras pela ação de um fogo que se encontra atrás deles. Para eles, as sombras são objetos reais. Em A República, Platão coloca: “E se tal prisioneiro, arrancado à força do lugar onde se encontra for conduzido para fora, para plena luz do sol, por acaso não ficaria ele irritado e os seus olhos feridos? Deslumbrado pela luz, porventura não precisaria acostumar-se para ver o espetáculo da região superior? O que a princípio mais facilmente verá serão as sombras, depois as imagens dos homens e dos demais objetos refletidos nas águas, e finalmente será capaz de veres próprios objetos. Então olhará para o céu. Suportará mais facilmente, à noite, a visão da lua e das estrelas. Só mais tarde será capaz de contemplara luz do sol. Quando isso acontecer, reconhecerá que o sol governa todas as coisas visíveis e também aquelas sombras no fundo da caverna”. (PLATÃO, 1987, p. 225).
convida a nos despedirmos de nós mesmos, isto é, de nossas representações onipotentes, paulatinamente e naturalmente vamos conhecendo a realidade simbólica e podemos ter uma atitude mais ativa em relação à vida. Em outras palavras, quando estamos munidos de capacidade simbólica, já mais diferenciados dos self-objetos, lidamos com o outro como um centro independente de nós mesmos, ou seja, temos mais possibilidade de desapego em situações que, antes, pela indiferenciação, poderiam fazer sangrar feridas narcísicas. Se, antes da conscientização da ferida narcísica, reagíamos passivamente (pois uma reação não é uma ação), isto é, sem o domínio do ego, agora, diferenciados, livres do falso ideal de ser o centro do mundo, somos recompensados com liberdade e autonomia e reagimos aos fatos na dimensão apropriada à situação.
Conhecer a condição humana é abrir a grande ferida narcísica. É ser expulso do paraíso da alienação para subir à cruz da reconciliação. Quanto maior a Consciência, maior a responsabilidade. Conhecer a tensão dos opostos é conhecer a própria cruz-símbolo da condição humana.
O verdadeiro propósito da vida humana é humanizar a divindade, ou a Vontade bestial descrita por Schopenhauer, e diferenciar-se dela. Temos uma visão coletiva de divindade que é unilateralmente bondosa e, por sinal, está sempre nos decepcionando. Perdemos o compromisso que tanto pedimos a Deus que tenha conosco, porque nós quebramos o compromisso com Ele. O homem voltou o espelho para si próprio e se identificou com as forças do Self, passando a achar que eram somente dele, deixando, assim, de espelhar Deus e servir de espelho para Ele. O Self investe uma boa parte de sua força no Arquétipo do Herói, que propiciará a formação do eu na construção da identidade do sujeito. O herói necessita de autoafirmação e de autoestima em toda a sua jornada. É, portanto, necessário e saudável que uma parte do espelho esteja voltada a si mesmo e que, de algum modo, o herói se sinta um deus.
Para alcançar a liberdade, que é um atributo divino, o sujeito deverá sacrificar a sua onipotência infantil, que o leva a desejar ser o centro do mundo – ou o mundo de alguém – como já foi um dia. Para livrar-se da angústia da prisão afetiva, que o mantém estagnado em um estado regressivo, deverá passar pela cruz. Em outras palavras, deverá sacrificar seus desejos onipotentes, pois eles são incompatíveis com o princípio da realidade e, por isso, o levam, invariavelmente, ao sofrimento.
uma maneira que Deus usa para chamar o homem para Si ou para o Si- mesmo – para sua identidade, que lhe será revelada não mais por um espelho, mas pela sua Consciência de criatura. O ego infantil onipotente percebe-se dependente, mas não mais do aval que reforça a ilusão egocêntrica, e sim do Criador que o mantém em sua condição de precariedade, quando não de desespero. Apenas quando o indivíduo aceita sua miserabilidade e reconhece que o valor supremo não reside mais na ilusão de si, mas Naquele que sempre existiu e continuará a existir, independentemente dele, é que seu objeto de adoração será transformado, narcisicamente transformado. Passará a reverenciar a vida e a Deus, que podem ser entendidos como sinônimos. Troca-se, assim, a vaidade infantil e sua vulnerabilidade, pela gratidão de participar do mundo que é a obra e corpo divinos.
5 Uma Psicologia da Cruz
Sentaram-se e montaram guarda. Por cima de sua cabeça, penduraram um escrito trazendo o motivo de sua crucificação: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. Ao mesmo tempo, foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda. Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: “Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, que desça agora da cruz e nós creremos nele! Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: ‘Eu sou o Filho de Deus!’” E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam. Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: “Eli, Eli, lammá sabactáni?” – o que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: “Ele chama por Elias”. Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse. Os outros diziam: “Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo”. Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. (Mateus 27, 36-50).
A individuação de Jesus não pode ser equiparada à de seus discípulos. O processo de individuação daquele que se entrega ao caminho espiritual está mais próximo do dos apóstolos de Jesus do que do d’Ele próprio. A senda espiritual de cada um de nós, no entanto, tem características similares às do processo pelo qual Jesus passou. A história do Messias diverge da história da grande maioria das pessoas pelo fato de o Mistério ter-se apossado d’Ele desde o início de sua vida. Sua história teve tamanha significância que se misturou à história do mundo e, mais do que isso, à história de Deus, ou, ainda, da transformação de Deus na história.
O Espírito, por intermédio de Jesus, adquiriu um rosto e um corpo que sofreu a barbárie das grandes forças coletivas que o castigaram, sem piedade, em nome do Príncipe do Mundo110. Jesus, durante sua jornada messiânica, denunciou, em cada milagre e em cada exortação, o sofrimento humano oriundo do egoísmo, do sectarismo, do abuso de poder, do racismo, do descaso, das projeções da sombra
110
O Príncipe do Mundo é o ego centrado em si na busca pelo poder temporal, é o “morto” do Evangelho de Jesus. É a falta de percepção de sua pequenez, da dependência de Deus.Jesus fez referência ao Príncipe do Mundo, segundo o Evangelho de João, quando preparava os seus discípulos para o que estava por vir, isto é, para quando as trevas que João anuncia desde as primeiras linhas de seu livro (salientando o caráter teleológico da jornada de Cristo), viessem para o combate que se trava no sacrifício do Messias. Jesus disse: “Essa voz não veio por mim, mas sim por vossa causa. Agora é o juízo deste mundo;agora será lançado fora o príncipe deste mundo”. (João 12, 30-31). E também “E disse-vos agora estas coisas, antes que aconteçam, para que creiais quando acontecerem. Já não falarei muito convosco, porque vemo príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em mim. O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou”. (João 14, 29-31).
no outro, da ganância, enfim, da ignorância espiritual que é fruto do narcisismo defensivo. Seus milagres iluminavam situações em que os indivíduos beneficiados com a graça se encontravam cercados por uma miséria que era reflexo de um mundo inconsciente, desumano, dissociado do feminino e, por isso mesmo, violento. Jesus também foi vítima desse mundo. De médico celeste passou a criminoso sentenciado. Sua morte tem um ponto em comum com os seus milagres e exortações: ela denuncia também a barbárie. Sua morte, para alguns, é o início do apocalipse, pois o rosto da maldade também passou a ter formas mais definidas. Tornou-se, assim, consciente e, portanto, mais fácil de ser combatido. A partir daí, a sombra de poder da religião corrupta e institucionalizada, que procura ser a única representante do Mistério na Terra, passou a ser mais conscientizada. O mesmo aconteceu com as instâncias políticas que, no Império Romano, tinham poder de vida e de morte.
Estando aqui claro que não pretendo nivelar o caminho de Jesus com o nosso – pois concordo com Sanford, quando ele diz que, “na cruz, foi pendurada a pessoa mais consciente que o mundo um dia conheceu” (SANFORD, 1993, p. 330) – tecerei alguns comentários psicológicos que podem ter algum significado no que diz respeito ao nosso lento processo de transformação narcísica e, consequentemente, de desenvolvimento de Consciência. Afinal, como bem captou Jung,
O ato de crucificação continua sendo um mysterium para quem conhece os arcanos de Deus, isto é, constitui um símbolo que exprime um acontecimento psíquico análogo na pessoa do contemplante. Em linguagem platônica, é um acontecimento que se passa “num lugar celeste” [...] e que tem muitos sinônimos, isto é, muitos aspectos e significações. É um acontecimento que exprime a natureza incognoscível do Senhor, isto é, da personalidade superior e do homem perfeito, e constitui uma quaternidade, ou seja, uma totalidade dividida em quatro partes, símbolo clássico do si- mesmo. (JUNG, 1979, p. 82).
A Psicologia Analítica entende, portanto, a crucificação, mesmo envolta em mistérios intransponíveis, como arquetípica e símbolo da Totalidade ontológica do ser humano.