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Oppsyn og rettspleie

In document Lofotfisket 1950 (sider 83-88)

Levantou-se um doutor da lei e, para pô-lo à prova, perguntou: ‘Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?’ Disse-lhe Jesus: ‘Que está escrito na lei? Como é que lês?’ Respondeu ele: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19,18). Falou-lhe Jesus: ‘Respondeste bem; faze isto e viverás’. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’ Jesus então contou: ‘Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: ‘Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei’. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?’ Respondeu o doutor: ‘Aquele que usou de misericórdia para com ele’. Então, Jesus lhe disse: ‘Vai, e faze tu o mesmo’. (Lucas 10, 25-37).

A religião, pela perspectiva que quero enfatizar neste momento, pode ser entendida pela própria parábola. A meta da religião é a santidade. Diferentemente da Psicologia, que se preocupa com a diferenciação do sujeito de seus self-objetos e com o reconhecimento de seus complexos negativos por intermédio da elaboração simbólica, a religião busca a transcendência do poder discriminativo próprio do princípio da razão. A religião dá um passo em direção à Totalidade.

A busca da santidade é muito mais do que uma ordem inocente de fazer o bem não importando a quem. Quando a Consciência alcança um dado nível de discriminação, como um navio que atraca no porto, após ter enfrentado tormentas, ela torna-se naturalmente religiosa e transcende a moral pregada pelo doutor da lei farisaica e acolhe a própria sombra. Podemos entender que, no caminho espiritual, é necessário que acolhamos, antes de pensarmos no próximo, o nosso eu que foi ferido pela nossa sombra.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5) e a teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Pelo tom do diálogo de Jesus com o religioso, o Mestre da Alteridade parece entender que a lei não foi compreendida em seu sentido mais profundo pelo doutor da lei. Deus é para ser abarcado pelo coração, e não pelo logos. Consequentemente, a parábola induz a um entendimento inicial: Deus e também o outro só podem ser abarcados pelo coração. Ainda mais: o outro é Deus. Ao acolher o outro, estou acolhendo Deus. O logos não tem asas suficientemente possantes para chegar a Ele. Buscá-lo pela lógica, seria dar com a pedra de tropeço, no sentido do erro de usar um instrumento impróprio para uma operação específica. Jesus relembra o sentido da primeira grande lei do judaísmo. O religioso sabe recitar a lei, mas não a vive na sua interioridade. Para alguém alcançar a própria interioridade, onde pulsa a divindade, é necessário ultrapassar as categorias impostas pelo princípio da razão, isto é, a identidade superficial do próximo (que o distinguiria de nós), já que, na transcendência desse princípio, alcança-se uma realidade a que não se chega pela razão, que é a unidade entre os seres. A razão nos é útil até certo ponto, mas devemos abandonar o navio e mergulhar no oceano espiritual, se quisermos comungar com a Unidade, na qual o próximo, a minha sombra (o outro que trago em mim) e Deus somos um.

Falou-lhe Jesus: “Respondeste bem; faze isto e viverás”. Aquele que é

guiado apenas pelo princípio da razão e que acredita na separação entre ele e o outro está morto espiritualmente. Socorrer apenas o seu semelhante – um levita acolher um levita – é ato típico da elaboração narcisista, que apenas se reconhece no espelhamento do seu semelhante. Tudo que é estrangeiro à sua imagem não lhe diz respeito, já que sua imagem é o seu bem supremo e não a Unidade Divina que a tudo abarca. Viver é viver na unidade. É transcender o logos. É deslocar a energia psíquica do trono da razão e descer, descalço, ao entendimento do coração. O apóstolo Paulo parece ter compreendido o que isso significa. Observe o que ele disse aos gálatas, em carta na qual tratava da questão polêmica do cumprimento da lei judaica, nos primeiros anos do cristianismo:

Na realidade, pela fé eu morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado à cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que

me amou e se entregou por mim. Não menosprezo a graça de Deus; mas, em verdade, se a justiça se obtém pela lei, Cristo morreu em vão. [...] Cristo remiu-nos da maldição da lei. (Gálatas 2, 19-21 e Gálatas 3, 13).

A Bíblia enfatiza os “duros de coração”. A ciência denomina-os “pessoas dissociadas do sentimento”. O fato é que, para viver, o coração precisa sobreviver e transcender o jugo da razão. Viver, portanto, para Jesus, é viver em Deus. Para Paulo, é também Cristo vivendo em nós.

“Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos,

retiraram-se, deixando-o meio morto”. Aquele que desce está, simbolicamente,

perdendo-se, pois Jerusalém é a Cidade Santa. A descida pode ser entendida, arquetipicamente, como a queda do Paraíso. Os ladrões, assim como nos mostram os sonhos, são partes autônomas da sombra que atacam o ego, desalojando-o e deixando-o meio morto, isto é, sem vida, sem a vida à qual Jesus se refere. No capítulo anterior, vimos que o narcisista precisa vivificar seu self amortecido e que, nessa tentativa, pode demonstrar distúrbios de personalidade ou mesmo de comportamento (perversões, adicções, marginalidade). Podemos entender os ladrões que atacaram o samaritano como os anseios narcisistas que nos levam para baixo nas suas conquistas mundanas de status e poder. No dizer de Lowen, “liquidar o reino do céu em troca do poder é uma transação diabólica. É a transação feita pelo narcisista”. (LOWEN, 1993, p. 207). As feridas narcísicas decorrentes dos ataques da sombra precisam ser reconhecidas e tratadas. O ego pagará por isso.

“Tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: ‘Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei’”. O ego terá de investir energia

psíquica no tratamento das feridas narcísicas que o levaram à descida de Jerusalém a Jericó. O bom samaritano não medirá esforços até ver o seu doente recuperado. Sua recuperação depende daquele que o irá recuperar, ou seja, dele mesmo. Pela perspectiva aqui adotada, o ferido e assaltado, encontrado desacordado, é um aspecto do ego que foi profundamente agredido pela própria sombra. O sujeito que cuidará de si mesmo deverá ter a postura do bom samaritano para consigo, isto é, liberar-se de qualquer conceito ou preconceito sobre si, distanciar-se de qualquer interpretação moral, cuidar de suas próprias feridas narcísicas. A leitura extrovertida da parábola, que seria “cuidar do próximo sem o reconhecimento das próprias

feridas narcísicas”, seria tão somente uma norma ética que poderia levar ao falso- self religioso. Por fora, uma conduta exemplar; por dentro, a repressão de todas as feridas que não foram vistas e suficientemente cuidadas. Lucas, o evangelista que era médico, nos lembra o ditado: “Médico, cura-te a ti mesmo” (Lucas 4, 23).

Se é fato que a nobreza da religião está no convite para despertarmos para a revelação de que a verdadeira vida é a consciência de que eu, o outro e Deus fazemos parte de uma mesma unidade, e que a separação é apenas uma ilusão, vetor de sofrimento e de alienação, também é verdade que, se entendermos a parábola do Samaritano apenas em sua polaridade ética, cairemos em uma Jericó do falso-self. Querer curar o outro sem ter consciência de suas próprias feridas narcísicas é muito mais uma atitude narcisista do que uma atitude oriunda da expressão de Deus em nós. Assim, a verdadeira religião, de acordo por essa parábola, expressa a importância de assumir a queda, as feridas e a sombra, além de cuidar de si. A verdadeira ressonância empática, portanto, surge no reconhecimento das próprias feridas e da capacidade de cuidar delas. A empatia e a Consciência de Alteridade só são possíveis dentro da Unidade.

Jesus é o Bom Samaritano. É, também, o outro estendido e abandonado ferido a céu aberto. Ao identificar-se com Jesus – tanto o Bom Samaritano quanto o crucificado – a pessoa poderá dar um sentido de redenção à sua própria história, caso alguma voz não o faça regredir a estágios anteriores ao da crucificação. Regredir é voltar à lógica do ego, e estamos sempre a um passo da regressão. O doutor da lei, dissociado do sentimento e da Totalidade, simboliza uma Consciência que ainda não foi crucificada. O desenvolvimento da Consciência necessita a integração e a superação de um modelo que deve ser sacrificado em nome de uma Consciência diferenciada.

Ao nos aprofundarmos no cristianismo, podemos observar que não se trata de um sistema de alienação, como muitos pensadores postulam, mas de superação do narcisismo defensivo. Ao mesmo tempo em que a mensagem cristã celebra a vida na Terra e, paradoxalmente, entende como morto aquele que não ressuscitou para a vida plena de significados, o cristianismo, em sua essência, fala do aqui-e-agora e não de uma vida no além. O aqui-e-agora do vivente é transcendente, ao mesmo tempo em que não se distancia da realidade nua e crua. As polaridades convivem, nele, em perfeita harmonia.

In document Lofotfisket 1950 (sider 83-88)